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Canibuk Apresenta: A Arte de Talita Abreu

Posted in Arte e Cultura, Entrevista, Ilustração, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on fevereiro 19, 2018 by canibuk

Talita Abreu é uma artista que acompanho a algum tempo e me impressiona sua dedicação às artes gráficas, sempre em constante evolução em seus trabalhos que são bem ecléticos – algo que admiro muito nos artistas gráficos – e que vão de trabalhos infantis até ilustrações fetichistas de BDSM, como essa abaixo que ela fez exclusivamente para o Canibuk.

BDSM

Nascida em 1984 no Rio de Janeiro/RJ, ainda jovem fixou residência em Resende/RJ, cidade próxima de São Paulo, a capital paulista onde passou a frequentar inúmeros cursos de arte.

Talita realiza trabalhos de freelancer aceitando encomendas de quadros, grafite, ilustrações para livros e contos, ilustração editorial, capas, incluindo até encomendas pessoais de apreciadores e colecionadores de arte.

Paralelamente cursa a faculdade de licenciatura em Artes Visuais a fim de complementar seu trabalho como professora de artes, desenhos e pinturas para adultos, crianças e pessoas com necessidades educativas especiais.

Abaixo uma pequena entrevista que realizei com Talita Abreu para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou da arte de Talita ao final da entrevista deixo os contatos para que possa encomendar as artes originais desta brilhante artista.

Talita Abreu

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Talita Abreu: Eu simplesmente sinto que nasci artista, e não que me tornei uma. Ballet, fotografia, violino, escrita, teatro, desenho, tudo isso sempre fez parte do meu dia-a-dia, então eu não sei onde eu começo ou a arte termina. Transformar isso em uma profissão é que é a batalhe dos séculos. Com os anos fui me aprimorando e isso é uma constante, acredito que deva ser. Me dedico a cursos e à horas intermináveis de estudo, até que comecei a conseguir realizar projetos e me expressar melhor através da mídia que eu queria. Eu sei que precisamos almejar coisas grandiosas, mas eu sou simplesmente muito feliz trilhando o caminho.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os “porquês” seria muito interessante.

Talita: Eu amo o que vai além da cópia perfeita, gosto de sentir a textura dos lápis e das tintas, das estilizações com proporções harmoniosas, distorcidas ou não, do movimento, da fluidez da composição de um desenho ou pintura, de composições cromáticas perfeitas, mas acima de tudo da criatividade. Uma boa ideia que foi bem executada pode te levar a uma reflexão infindável, pode te fazer se apaixonar instantaneamente.
Dos artistas que mais me inspiram a suma maioria são mulheres fantásticas: Chiara Bautista, Loish, Michael Huassar, Chris Hong, Lora Zombie, Bianca Nazari e Ursula Dourada.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área?

Talita: Não consigo olhar pra mim mesma e me encaixar em uma área só. Eu amo tudo e tenho curiosidade por tudo! A ilustração é minha área de atuação e mesmo dentro dela eu adoro transitar entre materiais diferentes e conhecer e estudar tudo o que eu puder. Essa é a beleza de uma mente que não para, mesmo que a gente precise se forçar ao extremo para segurar o foco no topo da lista.

Sad Devil 1

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Talita: De aquarelas de todos os temas, ilustrações e histórias infantis, ilustrações de horror, BDSM, retratos femininos de modelo vivo, séries de pinturas de personagens Star Wars, aulas e workshops de desenho e aquarela, eu possuo um acervo que pode agradar a públicos do 8 ao 80 e estou sempre aberta a propostas e projetos. Basta entrar em contato e com certeza algo bacana nasce.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Talita: É muito complicado e não acredito que isso seja segredo pra ninguém. A coisa vem com muita luta, pouco apoio, pouquíssimo reconhecimento. É legal que trabalhemos por amor, mas pagar as contas não é uma condição que a gente possa abrir mão. A maioria das “oportunidades” são na verdade pessoas oportunistas querendo trabalho de graça, mas também existem algumas poucas pessoas incríveis que sabem dar oportunidades reais a artistas.
Precisamos de uma conscientização maior sobre o que é viver de arte para que as pessoas entendam que não é um caminho fácil… Ouvir coisas do tipo “você só desenha ou trabalha também?” mostra o quanto o brasileiro ainda está meio que “lá atrás” quando se trata de arte, ver a galera pagando 500 reais no ingresso do artista internacional tal mas não consegue despender 50 conto no livro do amigo que mora na tua cidade, diz muito sobre como a nossa mentalidade alcança um ponto limitado às vezes. Precisamos muito de reconhecimento, sim, mas mais oportunidades de ser o que somos.

Trio de Doces

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Talita: Estou terminando um livro que espero que seja lançado até o final de 2018 e ilustrando para um autor de horror maravilhoso e pretendemos lançar em Setembro também desse ano. Não posso falar muito desses, mas logo logo uma coisa ou outra começa a apontar por aí.

Faço atualizações constantes nas minhas redes sociais que são minha página no facebook e instagram: @talitaabreu.art

Pra comprar material meu, fazer encomendas ou falar sobre projetos, as pessoas podem entrar em contato comigo por essas redes sociais ou irem direto no site:
http://www.capitaodoce.com.br

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Talita: Tenho um projeto em andamento com mulheres voluntárias que posam para mim e contam suas histórias de abuso e uma série de ilustrações sobre BDSM também em andamento. Qualquer mulher que queira participar do projeto Ser Mulher, pode entrar em contato via e-mail:
talitaabreu.art@gmail.com

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Talita: A arte independente depende de vários fatores e pra ser um apoiador, claro que você pode comprar os produtos, mas a divulgação não custa nada e também é fundamental. Se você gosta de um artista, divulgue a arte dele, fale dele pros seus amigos, comente e compartilhe suas postagens, vá a seus eventos, mostre ele por aí, porque assim você não só faz a arte circular e se tornar algo vivo, como ajuda a gerar renda para esses artistas para que eles continuem fazendo arte! Assim você literalmente faz a arte existir.

Sad Devil 2

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Talita: Queria primeiro agradecer ao Petter por todo o carinho e consideração com os artistas. É difícil ver alguém que não gira em torno dos próprios projetos e está sempre procurando uma forma nova de entrar em contato com os outros e fazer a arte deles crescer. É de pessoas assim que podemos fazer um país onde a arte prospere e se expanda. A oportunidade de estar aqui no seu blog e inaugurar esse hall de entrevistas me põe um baita sorriso no rosto… Obrigada Petter! Se você é um aspirante a artista, eu só posso te dizer… Lute pela sua arte, mas antes de mais nada, estude, estude sempre, estude MUITO!!! A gente nunca vai ser o melhor no que fazemos, então a humildade é um órgão vital a partir do momento em que você se compromete com você mesmo e com a verdade. Fale com outros artistas, saia da sua zona de conforto. E obrigada a você que leu minha entrevista e se deu uma oportunidade de ver as coisas desse ponto de vista. Queria deixar o canal aberto para a comunicação comigo por qualquer meio que te for mais confortável. E não se esqueça… Apoie os artistas!

Contatos:

Facebook: http://www.facebook.com/talitaabreu.artwork
Instagram: @talitaabreu.art

site: www.capitaodoce.com.br

e-mail: talitaabreu.art@gmail.com

Artes de Talita Abreu:

Marie Antoinette

 

Nosferatu

 

Sketchbook page 2017-2018 – 5G-E

 

Suculentas

Nazimova: A Salomé do Cinema Mudo

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , on outubro 14, 2011 by canibuk

Essa pequena introdução sobre os primórdios do cinema não se pretende definitiva, é somente um pequeno panorama de como as coisas funcionavam naquela época e não eram nenhum pouco diferentes do que são hoje em dia.

O cinema surgiu graças à invenção do cinematógrafo dos irmãos Lumière no finalzinho do século XIX. Em 28 de dezembro de 1895, em Paris (França), eles realizaram a primeira exibição pública com ingressos da história do cinema, exibindo uma série de 10 filmes com duração de, no máximo, um minuto cada (naquela época os rolos de filmes tinha somente 15 metros). O cinema como diversão das massas começou a se esboçar com as produções de George Méliès, um mágico ilusionista que realizou pequenos curtas já com o uso dos efeitos especiais e empolgantes histórias de aventura como o clássico “Le Voyage dans la Lune/Viagem à Lua” (1902); as produções do espanhol Segundo de Chomón que realizava aventuras cheias de trucagens visuais e coloridas (ele coloria seus filmes, quadro à quadro, com um pincel. Anos atrás baixei vários curtas dele pelo site UBU e achei suas produções bem superiores às produções de Méliès); e por último, mas não menos importante, as produções de Thomas Edison, que em 1910 produziu um pequeno clássico baseado no livro de Frankenstein de Mary Shelley (já postamos este filme de Thomas Edison aqui no Canibuk).

"La Casa Hechizada", 1906, de Segundo de Chomón.

Em seguida o diretor David W. Griffith, um dos pioneiros de Hollywood, e o russo Sergei M. Eisenstein, foram os grandes responsáveis pela construção dos longa-metragens, cujas fórmulas são usadas até nos dias de hoje. “The Birth of a Nation/O Nascimento de uma Nação” (1915) de Griffith e “Bronenosets Potyomkim/O Encouraçado Potemkim” (1925) de Eisenstein, servem até hoje como bases sólidas para a montagem dos filmes. Caminhando junto, na Alemanhã surgiu o estilo conhecido como Expressionismo que deu alguns clássicos do início da história do cinema, como “Das Cabinet des Dr. Caligari/O Gabinete do Dr. Caligari” (1919) de Robert Wiene, com seus cenários alucinantes, “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens/Nosferatu” (1922) de F.W. Murnau (uma versão não autorizada do livro “Drácula” de Bram Stoker) e “Metropolis” (1927) de Fritz Lang, uma verdadeira obra-prima da sci-fi cinematográfica e da sétima arte. E em Paris, vários surrealistas experimentaram desconstruir filmes, criando lindas peças poéticas de surrealismo em movimento, como “Le Retour à la Raison” (1923) de Man Ray, “Le Ballet Mécanique” (1924) de Fernand Léger, “Entr’Acte” (1924) de René Clair, “Anémic Cinéma” (1926) de Marcel Duchamp, “La Coquille el le Clergyman” (1927) de Germaine Dulac e o clássico “Un Chien Andalou/Um Cão Andaluz” (1929) de Luis Buñuel com colaboração de Salvador Dali. Prá sorte dos tarados, o cinema é uma arte voyeur por excelência, e nesta mesma época já surgiram os primeiros filmes pornográficos. Várias coletâneas com pornôs que teriam sido rodados nos anos de 1920 foram lançadas aqui no Brasil em VHS/DVD. Uma busca rápida pela internet é possível ver vários destes filmes eróticos do tempo de nossas tataravós.

Com essa pequena introdução sobre os tempos do cinema mudo, Canibuk apresenta agora a lendária atriz Alla Nazimova, que merece ser redescoberta por uma nova geração de cinéfilos.

Rotulada pela crítica como “bizarra”, Alla Nazimova teve uma vida pessoal nada convencional  e uma carreira cinematográfica que, embora tenha sido única, não recebeu o apreço merecido naquela época.

Nazimova nasceu na Rússia em 1879, era a mais nova de três filhos, cresceu em meio à violência familiar, com um pai extremamente bruto, tendo uma vida instável. Com a separação dos pais, foi morar ainda criança com uma família na Suiça onde sofria abusos sexuais dos dois irmãos adotivos. Em meio aos abusos e vida conturbada foi descobrindo seus talentos musicais e aos sete anos começou a ter aulas de violino. Voltou logo pra Rússia e continuou tendo aulas, chegando a executar um concerto de Natal. Aos 15 anos decidiu ser atriz. Foi ajudada por um velho rico que conheceu nas ruas onde se prostituia e conseguia a renda pra poder pagar seus estudos.  Fez grandes peças de teatro e em  Nova York suas performances na Broadway recebiam grandes destaques e ela logo se tornaria a queridinha por aquelas bandas. Ainda nessa época, se tornou amante da Emma Goldman, a grande líder feminista e anarquista. Em breve, Emma a abandonaria por não conseguir mais suportar suas incontáveis relações com outras mulheres.

O primeiro convite pro cinema surgiu em 1915, onde ganhou um papel no “War Brides“, filme que trazia um apelo pacifista naquele período onde emergia a Primeira Guerra Mundial. Com o sucesso do filme assina  contrato de 13.000 dólares semanais com a MGM e várias regalias, como poder escolher diretor, roteirisa e ator principal dos filmes. Em três anos, estrelou onze filmes, entre eles “Revelation” (1918), onde faz uma prostituta, “Toys of Fate” (1918)  onde faz dois papéis: uma mulher que tenta suicídio após ser abandonada pelo pai de sua filha, e como a filha crescida empenhada em vingar a mãe, e “La Lanterne rouge” (1919) onde faz papel de duas irmãs capturadas numa rebelião.  Seus papéis que a apresentavam como uma mulher exótica, independente e devastada por sentimentos angustiantes e problemas pessoais  lhe garantiram uma fama considerável.  No auge da carreira, Nazimova provocava e animava ao mesmo tempo em que apavorava Hollywood com as grandiosas festas regadas a orgias e drogas que dava em sua mansão chamada de “Jardim de Alá“, festas que contavam sempre com a presença de várias de suas amantes, mulheres como a roteirista June Mathis, a cenógrafa Natacha Rambova e a cineasta Dorothy Arzner.

Mesmo com a fama no cinema, continuou a fazer teatro e em 1920 começou a produzir seus filmes, que foram um fracasso de bilheteria.  No mesmo ano, seu filme experimental “Afrodite” que trazia cenas de lesbianismo, foi perseguido por grupos religiosos e proibido, tendo seus rolos queimados. Também produziu, escreveu e dirigiu “Salomé” (1923), onde todo o elenco é homosexual e, como em todos os seus filmes, traz um erotismo gritante e teve uma reputação escandalosa. Nazimova também financiou todo o filme, que foi um fracasso de bilheteria e a deixou totalmente quebrada. Começou a ser perseguida e a sofrer na pele por ser o que era, mulher livre e homosexual,  iniciou-se uma série de rejeições para filmes, foi acusada de comunismo e chegou a tentar suicídio. Tentando fugir da perseguição que sofria, vendeu sua mansão e com a repressão ao lesbianismo que só crescia nos EUA, decidiu passar um tempo em Paris, onde  namorou a sobrinha de Oscar Wilde.

Salomé (1923)

Em 1940, já de volta aos Estados Unidos,  começa a fazer cinema outra vez e participa de filmes como “Escape” (1940), “Sangue e Areia” (1941) e “Since You Went Away” (1944), seu último filme, feito um ano antes de sua morte. Alla Nazimova morreu vítima de uma trombose coronária, em 1945, aos 66 anos, publicou neste mesmo ano uma biografia onde faz grandes revelações.  Não é a toa que essa grande atriz é pouco falada e conhecida pela nova geração, quase não se acha mais seus filmes por aí. Tendo mais de 20 filmes, menos de seis sobreviveram ao tempo e as perseguições sofridas.  É lamentável!

Nazimova quebrou todas as regras de uma época onde os grupos religiosos estavam em alta, sofreu todo o tipo de preconceito e teve um papel importantíssimo na introdução da idéia de emancipação feminina naquele período nos EUA. Um grande exemplo de liberdade e de como a sociedade persegue desde sempre aqueles que não vivem de acordo com o que é pregado como certo e moral.  Revoltante.