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Bilhetes Infernais para o Horror Express

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 6, 2012 by canibuk

“Horror Express” (1972, 90 min.) de Eugenio Martín. Com: Christopher Lee, Peter Cushing, Telly Savalas, Alberto de Mendonza, Silvia Tortosa, Helga Liné e Julio Peña.

Este pequeno clássico do horror, livremente inspirado no conto “Who Goes There?” de John W. Campbell (que também serviu de inspiração aos filmes “The Thing from Another World/O Monstro do Ártico” (1951) ce Christian Nyby e “The Thing/O Enigma de Outro Mundo” de John Carpenter), também conhecido pelo título “Pánico en el Transiberiano”, chama atenção por seu elenco internacional que incluí Christopher Lee, Peter Cushing e Telly Savalas.

No ano de 1906 o professor Alexander Saxton (Lee) encontra na Manchúria os restos congelados de uma criatura meio-macaco, meio-homem, que ele acredita ser o elo perdido na evolução humana. Para levar sua descoberta para a Europa o professor precisa tomar o expresso transiberiano da China à Russia, onde encontra seu rival Dr. Wells (Cushing). Ainda na plataforma da estação a criatura suga a mente de um ladrão e um monge (Alberto de Mendonza), conselheiro espiritual da condessa Irina Petrovski (a bela Silvia Tortosa), como todo bom charlatão fanático religioso, dá a culpa para o Tinhoso. Mesmo com o incidente a viagem começa e, uma vez dentro do trem, a criatura escapa e mata algumas pesssoas. Em autópsia realizada pelos cientistas descobrem, abrindo os crânios das vítimas, que as lembranças de seus cérebros foram drenadas (porque os cérebros estavam lisos, ora bolas). Logo em seguida a criatura é morta a tiros e, analizando o líquido encontrando no globo ocular do cadáver, a dupla de cientistas descobre imagens da terra vista do espaço, imagens pré-históricas de nosso planeta e chegam a conclussão de que a criatura é um alien e que pode ter infectado outros passageiros. O governo Russo manda o capitão Kazan (Telly Savalas, em papel impagável), um violento cossaco, entrar no trem para resolver tudo, nem que seja necessário um pouco de violência gratuita. Depois que ficamos sabendo que a criatura alienígena sobreviveu por milhões de anos no planeta Terra no corpo de protozoários, peixes e outros animais, o alien se transfere para o corpo do monge e ressucita todas suas vítimas na forma de zumbis carniceiros que nunca podem faltar num autêntico filme de baixo orçamento.

Com roteiro da dupla Arnaud D’Usseau e Julian Zimet (que juntos também escreveram o clássico “Psychomania” (1973) de Don Sharp), nos deparamos com deliciosos absurdos pseudo-científicos e um punhado de cenas maravilhosas, como quando o monge clama ao alien para que lhe sugue a mente e o alien se nega dizendo que “não há nada que se aproveite na sua mente!”, desprezando o fanático religioso. Aliás, no filme todo há sempre um clima de ciência/razão contra religião/misticismo. As maquiagens vagabundas de Fernando Florido (que também trabalhou em filmaços como “El Retorno de Walpurgis/Curse of the Devil” (1973) de Carlos Aured, “Quién Puede Matar a un Niño/Island of the Damned” (1976) de Narciso Ibáñez Serrador, “Inquisición” (1976) de Paul Naschy e “Serpiente de Mar” (1984) de Amando de Ossorio) tem ótimas sacadas, como o olho vermelho-brilhante da criatura e a própria criatura, meio-fóssil de macaco. Os olhos brancos que os cadáveres-humanos cujos cérebros foram sugados tem, dão um visual extremamente macabro, assim como as cenas gore onde seus crânios abertos revelam os cérebros lisos.

“Horror Express” foi produzido pelo produtor americano Bernard Gordon com orçamento de 300 mil dólares. Gordon re-utilizou o trem que havia sido construido para o filme “Pancho Villa” (1972), também dirigido por Eugenio Martín, conseguindo um cenário bem barato para sua produção de horror. A grande sacada do produtor americano foi conseguir para o elenco artistas já consagrados no mercado internacional, como Savalas, Lee e Cushing. Este último ainda abalado pela morte da esposa, pediu para ser afastado da produção, mas para nossa sorte seu amigo pessoal Christopher Lee o apoiou nos momentos difíceis e Cushing permaneceu no cast. Bernard Gordon (1918-2007) trabalhou durante anos na obscuridade impedido de ganhar créditos pela lista negra anti-comunistas de Hollywood. Com ajuda do produtor Charles Schneer escreveu o roteiro de “Earth Vs. The Flying Saucers” (1956), dirigido por Fred F. Sears. Trabalhou durante anos sob o pseudônimo Raymond T. Marcus. Ao se mudar para a Europa fez amizade com o roteirista/empresário Philip Yordan e conseguiu trabalho em Madrid na Samuel Bronston Company. Com Yordan escreveu o roteiro do clássico “The Day of the Triffids/O Terror Veio do Espaço” (1962) de Steve Sekely, uma história envolvendo plantas carnívoras espaciais que andavam. Outro clássico escrito por ele foi “Krakatoa: East of Java/Krakatoa – O Inferno de Java” (1969), aventura dirigida por Bernard L. Kowalski. Como produtor realizou “El Hombre de Río Malo/A Quadrilha da Fronteira” (1971), divertido western estrelado por Lee Van Cleef e Gina Lollobrigida, além dos já citados “Pancho Villa” e “Horror Express”, todos os três com direção de Eugenio Martín.

O diretor espanhol Eugenio Martín (1925) estudou direito na Universidade de Granada. Graças aos seus curta-metragens, como “Viaje Romántico a Granada” (1955), “Adiós, Rosita (Vieja Farsa Andaluza)” (1956), “Romance de una Batalla” (1956), entre outros, se tornou assistente de diretores como Guy Hamilton, Michael Anderson, Nathan Juran e Nicholas Ray. Sua primeira direção de um longa foi com a comédia “Despedida de Soltero” (1961), seguido de seu primeiro filme de horror, “Ipnosi” (1962), estrelado por Jean Sorel que alguns anos depois trabalhou nos clássicos “Belle de Jour/A Bela da Tarde” (1967) de Luiz Buñuel e “Paranoia” (1970) de Umberto Lenzi. No final dos anos de 1960 dirigiu alguns westerns, como “El Precio de um Hombre” (1967), estrelado por Tomas Millian; e “Réquiem para el Gringo” (1968), co-dirigido por José Luis Merino. Depois de alguns musicais (“Las Leandras” e “La Vida Sigue Igual”, ambos de 1969, e o último estrelado por Julio Iglesias), realizou o horror “La Última Senhora Anderson” (1971), estrelado por Carroll Baker. Neste momento conheceu o produtor Bernard Gordon e fizeram juntos três filmes. Em seguida fez “Una Vela Para el Diablo/It Happened at Nightmare Inn” (1973), suspense de horror sobre duas irmãs loucas e seu hotel sinistro. Depois de passar o resto dos anos 70 realizando comédias obscuras, entrou nos anos 80 com as produções de horror “Aquella Casa em las Afueras” (1980) e “Sobrenatural” (1983). Por essa época sua carreira no cinema ficou meio estagnada e Martín migrou para a televisão.

Christopher Lee (1922) é inglês e se tornou mundialmente famoso quando interpretou monstros clássicos para a produtora Hammer. Primeiro foi o monstro de Frankenstein em “The Curse of Frankenstein/A Maldição de Frankenstein” (1957) e depois foi o Conde Drácula em “Dracula/Horror of Dracula” (1958), ambos com direção de Terence Fisher. Ainda em 1958 apareceu ao lado de Boris Karloff na fantástica produção “Corridors of Blood”, de Robert Day, sobre um médico tentando descobrir um anestésico para operações mais complicadas. Voltou ao papel de sugador de sangue louco por decotes femininos nos filmes “Dracula – Prince of Darkness” (1966) de Terence Fisher; “Dracula Has Risen from the Grave” (1968) de Freddie Francis; “Taste the Blood of Dracula” (1969) de Peter Sasdy; “Scars of Dracula” (1970) de Roy Ward Baker, entre outros, que ajudaram a torná-lo a principal cara do Conde Drácula no cinema. Em 1966 Lee interpretou o místico russo Rasputin em “Rasputin, The Mad Monk” de Don Sharp, contando na época que quando era criança encontrou com Felix Yussupov, assassino de Rasputin. Nos anos 70 estrelou alguns ótimos filmes, como “I, Monster” (1971) de Stephen Weeks, uma adaptação de “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde” do escritor Robert Louis Stevenson, “The Wicker Man/O Homem de Palha” (1973) de Robin Hardy, clássico cult do cinema de horror; e “To The Devil a Daughter/Uma Filha Para o Diabo” (1976) de Peter Sykes e com a curiosidade de trazer uma Natassja Kinski ainda ninfetinha e pelada nos bons tempos em que o cinema era um antro politicamente incorreto. Depois dos anos 70 Lee apareceu em inúmeros filmes bobocas de Hollywood. Este fantástico ator já fez tanta coisa que é necessário um artigo somente sobre ele. Para ler sobre Peter Cushing, clique em “Island of Terror“.

Telly Savalas (1922-1994) aparece pouco tempo em cena no “Horror Express”, mas o suficiente para roubar o filme para si com sua personagem ensandecida do brutal capitão cossaco. Nascido com o nome de Aristotelis Savalas em Garden City, NY, começou trabalhando na televisão. Foi descoberto pelo ator Burt Lancaster que o ajudou a decolar na carreira de ator. Em 1965 raspou a cabeça para o filme “The Greatest Story Ever Told/A Maior História de Todos os Tempos”, onde interpretou Pontius Pilate, e gostou tanto do novo visual que o adotou por toda vida. Na televisão se imortalizou no papel de Kojak na série de mesmo nome, que foi ao ar em outubro de 1973. Com Mario Bava fez “Lisa e Il Diavolo” (1974). Outros filmaços com Savalas incluem produções como “Una Ragione Per Vivere e Una Per Morire/Uma Razão para Viver… Uma Razão para Morrer” (1972) de Tonino Valerii. co-estrelado por Bud Spencer; uma participação hilária em “Capricorn One/Capricórnio Um” (1977) de Peter Hyams; “Beyond the Poseidon Adventure/Dramático Reencontro no Poseidon” (1979) de Irwin Allen, entre vários outros. Mas Savalas é um ator tão cult que qualquer filme dele é uma verdadeira diversão. Veja todos!

Na época de seu lançamento, “Horror Express” foi um fracasso comercial na espanha, país que abrigou sua produção. Foi lançado em DVD pela distribuidora London Filmes, mas sem nenhum material extra.

por Petter Baiestorf.

Veja “Horror Express” aqui:

Island of Terror

Posted in Cinema, Entrevista with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 4, 2012 by canibuk

“Island of Terror” (1966, 89 min.) de Terence Fisher. Com: Peter Cushing, Edward Judd e Carole Gray.

Numa ilha isolada desaparece um fazendeiro, sua esposa chama a polícia e as buscas revelam que ele foi morto numa caverna e está sem um único osso em seu corpo. Diante de tal mistério, o médico da ilha vai atrás de um especialista em doenças ósseas para lhe ajudar a elucidar o problema. Os médicos sabem que nesta mesma ilha um grupo de oncologia está pesquisando a cura do câncer e vão até o castelo onde o grupo faz experimentos para ter a opinião dos cientistas. No castelo descobrem todos os pesquisadores mortos, sem um único osso em seus corpos, e uma nova forma de vida é encontrada ali (um monstrengo que parece uma estranha cruza entre arraia e tartaruga). Logo nossos heróis chegam a conclusão de que os pesquisadores criaram as criaturas por acidente apartir do átomo silício e que estas desajeitadas criaturas se alimentam de ossos. As criaturas são apelidadas de “Silicatos” (por causa do silício, nada mais lógico!) e os médicos preparam a resistência armada contra a nova e faminta espécie, envolvendo todos os moradores da ilha numa batalha pela sobrevivência.

Com um clima bem sério característico do cinema de horror britânico, “Island of Terror” é uma deliciosa bobagem envolvente onde Peter Cushing parece se divertir o tempo todo em seu papel. Lançado em 1966 pela Planet Film Productions (e no ano seguinte distribuido nos USA pela Universal Studios em programa duplo com “The Projected Man” (1967) de Ian Curteis), é uma produção de baixo orçamento e grande aproveitamento, nunca ficando chato ou parado em sua sucessão de acontecimentos macabros e efeitos especiais simples, mas bem elaborados e executados. Inspirado em “The Night the Silicates Came”, de Gerry Fernback, a ameaça do desconhecido é eliminada bem nos moldes dos anos 1960: “Se não compreendo, mato e destruo!”.

O diretor, Terence Fisher, se tornou um grande artesão do cinema de horror britânico graças às suas produções para a Hammer. Nascido em 1904 (e morto em 1980), estreiou como diretor em 1948 com o drama “A Song for Tomorrow”. Com o sci-fi romantico “Four Sided Triangle” (1953), estrelado por Barbara Payton (recém saída do cult “Bride of the Gorilla”), se tornou conhecido como um ótimo diretor de filmes de baixo orçamento. No mesmo ano fez ainda a sci-fi “Spaceways” e o thriller “Blood Orange”. Se alternando entre produções de todos os gêneros para o cinema e TV, Fisher foi escalado para dirigir “The Curse of Frankenstein/A Maldição de Frankenstein” (1957, warner home video), horror à cores bancado pela Hammer com Peter Cushing, Christopher Lee e Hazel Court no elenco. Daí em diante se tornou especialista em construir filmes sombrios e realizou filmaços como “Dracula/Horror of Dracula” (1958, warner home video), também com Cushing e Lee no elenco; “The Revenge of Frankenstein” (1958); “The Hound of the Baskervilles/O Cão dos Baskervilles” (1959), horror e mistério com Cushing no papel de Sherlock Holmes; “The Mummy” (1959), versão da Hammer para a história de maldições de múmias; “The Brides of Dracula/As Noivas de Drácula” (1960), sempre com Cushing no papel de Van Helsing; “The Two Faces of Dr. Jekyll/O Monstro de Duas Caras” (1960), sua contribuição para o romance “O Médico e o Monstro”; “The Curse of the Werewolf” (1961), sobre lobisomens na Espanha; “The Phantom of the Opera” (1962), com Herbert Lom no papel do atormentado professor de música; “The Gorgon” (1964), grande clássico da Hammer, também estrelado pela dupla Cushing-Lee; “The Earth Dies Screaming” (1964), pequeno clássico de sci-fi sobre o planeta Terra sendo invadido por aliens; “Dracula: Prince of Darkness” (1964) com Christopher Lee repetindo o papel de Drácula e mais três filmes lindos com Frankenstein: “Frankenstein Created Woman/Frankenstein Criou a Mulher” (1967, London Films); “Frankenstein Must Be Destroyed/Frankenstein Tem Que Ser Destruído” (1969, Warner Home Video) e “Frankenstein and the Monster From Hell” (1974), todos estrelados por Peter Cushing. Os filmes de Terence Fischer são imperdíveis.

Peter Cushing é a cara definitiva do Barão Frankenstein, de Van Helsing, de Sherlock Holmes, do Dr. Who. Nascido em 1913 (morto em 1994), logo começou a trabalhar no teatro e em 1939 se mandou para Hollywood onde trabalhou em “The Man in the Iron Mask” de James Whale. De volta à Inglaterra sobreviveu trabalhando como figurante em filmes até fazer TV ao vivo, onde ficou conhecido e foi chamado para viver o Barão Victor Frankenstein em “The Curse of Frankenstein” (1957), iniciando uma longa parceria com o diretor Terence Fisher e o ator Christopher Lee, de quem logo virou um de seus melhores amigos. Devia ser uma diversão ver essa dupla bebendo cervejas em algum pub londrino. Em 1971 tentou o suicídio na noite em que sua esposa morreu, para sorte de todos os fãs de filmes de horror ele sobreviveu. Poucos anos depois apareceu no “Star Wars” (1977) de George Lucas, onde interpretou sua personagem usando sempre chinelos, pois as botas que sua personagem era para usar apertavam seus pés. Com uma filmografia que ultrapassa mais de 130 filmes, Cushing se tornou uma grande lenda do cinema de horror mundial.

“Island of Terror” é um grande momento do cinema de horror britânico, com aquele clima nostálgico das velhas produções onde atores com rosto de pessoas comuns (e adultos, sem a presença dos insuportáveis adolescentes dos filmes de horror de hoje) tinham que combater uma força desconhecida. Continua inédito em DVD no Brasil.

por Petter Baiestorf.

Veja “Island of Terror” aqui:

Segue abaixo alguns momentos da entrevista que o fanzine “Quatermass” publicou com Peter Cushing, quem quiser ler a entrevista na íntegra deve procurar o “Quatermass” número 2 (de outubro de 1995), extraordinário fanzine espanhol.

Quatermass: Como você compôs o Barão Frankenstein quando o representou pela primeira vez em “The Curse of Frankenstein”?

Peter Cushing: Todos os papéis se abordam da mesma maneira, buscando-se todos os dados criados pelo autor em sua criação e, quando necessário, trazendo novos elementos para a personagem, enriquecendo-a! Para o Barão Frankenstein me inspirei muito na vida real do anatomista Dr. Robert Knox. Não concordo que Frankenstein seja um homem malvado, mas como muitos gênios da vida real é mal compreendido.

Quatermass: Os filmes da Hammer foram bastante criticados por suas altas doses de sangue e violência. O que pensas sobre isso?

Cushing: A maioria dos filmes refletem a época em que foram feitos. Para mim filmes como “The Goodfather/O Poderoso Chefão” são filmes de horror, por mais charmosos que sejam. Um homem numa mesa de massagem que recebe um tiro e lhe saltam os olhos é muito mais violento do que Drácula sendo empalado por uma estaca de madeira.

Quatermass: No livro de Bram Stoker, Van Helsing é um velho professor alemão. Você teve, em algum momento, intenção de interpretá-lo nesta linha?

Cushing: Tivemos uma reunião sobre este assunto porque me preocupava muito. Eu disse: “Olhem, aqui está a descrição: um pequeno velho que fala de maneira absurda. Porque estão me dando este papel?”. Mas naquela época eu era bastante popular neste estilo de filmes e me responderam: “Cremos, do ponto de vista comercial, que deve interpretá-lo como tu és, ficará grotesco te maquiar como um velho!”. Foi isso que aconteceu e concordei com a decisão. Eles poderiam ter contratado algum ator mais velho, mas não o fizeram.

Quatermass: Interpretando um Van Helsing mais jovem você pode deixar a personagem com mais energia e vigor.

Cushing: A cena final de “Drácula” tem bons efeitos e muita ação, teria sido lamentável não fazê-lo assim, porque sempre penso que um filme precisa de emoção e impacto. Me lembro dos filmes de Errol Flynn, onde sempre acontece algo excitante, e creio que isso tem grande importância para o público.

Quatermass: Como foi aparecer em programas de Tv na década de 1950?

Cushing: Naquele tempo era tudo ao vivo. Ensaiávamos durante três semanas, que era mais ou menos o mesmo tempo que no teatro. Foi Horrível! Fiz aquilo durante dez anos. Essa é a razão por meus nervos estarem destroçados hoje. Mas, com certeza, foi a época que o público britânico ficou conhecendo meu nome.

Quatermass: E o declínio da Hammer?

Cushing: Quando James Carreras se retirou da Hammer, seu filho Michael ficou encarregado da produtora e ele acreditava que o tempo dos filmes de horror já haviam passado. Tentou fazer coisas diferentes, mas não se saiu bem. Hammer tinha uma reputação e seu público não queria ver outros tipos de filmes.

Dois Velhos Inimigos Mortais, Vampiros Dourados do Kung Fu Porreta e o Fim da Hammer

Posted in Cinema, Museu Coffin Souza with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 14, 2011 by canibuk

Fundada nos anos 30 por Enrique Carreras e William Hinds, a produtora inglesa Hammer Films transformou-se a partir do final dos anos 50 na maior provedora de filmes de horror e suspense do mundo. Renovando os monstros clássicos (Drácula, Frankenstein, a múmia, etc) imortalizados pela Universal Pictures nas décadas de 30/40, os espertos empresários e seus contratados, acrescentaram cores, sangue e sensualidade no gênero, sem descuidar do clima gótico necessário. Foram revelados grandes diretores como Terence Fisher, Freddie Francis (posteriormente um premiado diretor de fotografia), Roy Ward Baker e uma dupla icônica de astros de terror de grande classe: Peter Cushing e Christopher Lee.

No começo dos anos 70, a produtora já havia experimentado quase todas as variações e novidades para manter o interesse do público em suas criações, e acrescentar mais violência e mais garotas peladas já não fazia diferença nas bilheterias. Procurando desesperadamente se adequar aos gostos e interesses de novos tempos, jovens executivos do estúdio tentaram então trazer um dos seus personagens de maior sucesso, o rei dos vampiros, Conde Drácula, para os dias atuais. “Dracula A.D. 1972” (“Drácula no Mundo da Minissaia”, 1972) de Alan Gibson, com roteiro de Don Hougton, trazia o vampiro de volta, em plena efervescência hippie londrina, ressuscitado por um descendente chamado Johnny Alucard e encontrando um neto de seu eterno inimigo Van Helsing (Peter Cushing). Divertido e estilizado, mesmo assim não fez sucesso e ainda foi uma afronta aos fãs mais radicais de Drácula (e ao próprio ator Christopher Lee) com suas gírias, rock psicodélico (da banda Stoneground) e roupas coloridas. A publicidade também é uma pérola: “O Conde Drácula é o Maior Sarro da Paróquia!”; “Essas quatro menininhas incrementadas fundem ainda mais a cuca do pobre conde.”

Sua continuação “The Satanic Rites of Dracula” (“Os Ritos Satânicos de Drácula”, 1973, lançado em DVD no Brasil pela London Films) da mesma dupla Gibson-Houghton, misturava horror, ação, espionagem e um plano de Drácula para destruir o mundo com uma bactéria mortal. O conde se esconde por trás da identidade de um poderoso industrial, é protegido por uma gang de motociclistas, e a Scotland Yard chama o especialista em cultos satânicos Lorrimer Van Helsing (Cushig) para dar uma mãozinha. Uma “salada de frutas” que foi divulgado primeiro com o incrível título de “Dracula is Dead and Well and Living in London” e demorou cinco nos para ser lançado na América do Norte (aonde é conhecido como “Dracula and his Vampire brides”). Algumas frases sugeridas para a publicidade nos cinemas: “Drácula está de volta com uma guarda de mulheres-vampiro!”, “O príncipe das trevas numa hedionda trama de horror!” e “Rituais de magia negra como nunca o cinema mostrou!”. O mal gera o mal no Sabá dos mortos-vivos!

Encontraram, então, no emergente gênero de filmes de artes marciais (sucesso mundial graças ao ídolo Bruce Lee) a “fórmula perfeita”: terror com Kung-Fu! (ou como diz a publicidade nacional da época “O Primeiro Filme de Caratê e Vampiro!”). A associação natural foi feita com os estúdios dos lendários Shaw Brothers, maiores produtores do gênero pancadaria de Hong Kong. “The Legend of the 7 Golden Vampires” (“ A Lenda dos Sete Vampiros”, 1974) de Roy Ward Baker, com roteiro do agora também co-produtor Don Houghton, colocava o Professor Van Helsing original (novamente e pela última vez vivido por Peter Cushing) combatendo seu nêmesis Drácula em solo oriental nos primeiros anos do século XX. Um dos problemas é que Christopher Lee, depois de ter vivido o vampiro sete vezes para a Hammer (e também em filmes espanhóis e italianos), estava muito descontente com a forma que sua criação clássica estava sendo utilizada e não queria mais vestir a capa preta e os caninos pontiagudos novamente. Foi então escalado o ator John Forbes-Robertson, ligeiramente parecido com Lee e com larga experiência teatral para assumir o posto. Na história, o monge chinês Kah (Chan Chen) faz uma longa viagem até uma parte remota da Europa para pedir ajuda ao poderoso Conde Drácula para restabelecer a força mística de seu templo maligno. Tempos depois, o velho professor Van Helsing é convidado por uma universidade chinesa para uma conferência sobre sua especialidade: o vampirismo. Um monge do bem (um dos veteranos astros do estúdio, David Chiang) convence o professor e seu filho Leyland a viajar para o interior do país, onde uma vila estaria sendo ameaçada por horrendas e putrefatas criaturas que ressurgem das tumbas. Estes mortos-vivos são escravos dos lendários Sete Vampiros Dourados, que andam a cavalo, e usam máscaras e espadas de ouro. Logo começam os embates entre os desmortos e o grupo de sete irmãos guerreiros escalados para proteger os Helsing e a linda Vanessa (Julie Ege) que os acompanha na aventura. Os heróis lutam Kung-Fu, é claro, e destroem as criaturas arrancando o coração de seus corpos apodrecidos. O que Van Helsing descobre é que seu velho inimigo Drácula está por trás de tudo, e incorporado no corpo do monge maligno, está associado com os vampiros chineses. Certamente uma das razões do conde passar grande parte do tempo sendo vivido por um ator chinês é que o Drácula de Forbes-Robertson, com sua maquiagem esverdeada e maneiras afetadas, é uma das piores encarnações do personagem na década. Os vampiros chineses e seus ajudantes zumbis são assustadores e as cenas de lutas (coreografadas por Liu Chia-Liang) bastante efetivas. Mas a direção de Roy Ward Baker perde a mão ao não conseguir misturar o estilo gótico da Hammer com a agitada ação coreografada típica dos irmãos Shaw. Além do roteiro preguiçoso de Houghton, soma-se o fato que grande parte do elenco e equipe técnica não entendia inglês (a maioria das cenas apenas com o elenco oriental foram dirigidas por Chia-Liang, que depois se revelaria um ótimo diretor de filmes de Kung-Fu legítimos), e o filme foi rodado sem som e dublado e re-dublado posteriormente. A Hammer chegou a lançar um disco de vinil com a narração da história por Peter Cushing com a trilha sonora de James Bernard, lançado como “The first Kung Fu horror sound track álbum”. Tudo em vão, pois apesar de ser um sucesso no oriente, a mistura original não foi bem recebida pela distribuidora Warner Brothers que só lançou o filme nos Estados Unidos seis anos depois, com vinte minutos a menos e com o título de “The Seven Brothers Meet Dracula”.

O produtor Michael Carreras pretendia rodar também no oriente um thriller policial moderno e uma nova aventura do Van Helsing de Cushing que se chamaria “Kali: Devil Bride of Dracula” (projeto bastante divulgado na época), mas o fracasso da produção cancelou a associação. David Chiang voltou a trabalhar com sua própria produtora de artes marciais; os Shaw Brothers continuaram com suas aventuras e, em busca de um sucessor de Bruce Lee, acertaram com seu primeiro terror genuinamente oriental , o gore e clássico “Black Magic” (“Magia Negra Oriental”, 1974) de Ho Meng-Hua . A Hammer tentaria uma nova abordagem e mirando no sucesso internacional de “O Exorcista” (1974) cometeriam “To the Devil a Daughter” (“Uma Filha para o Diabo”, 1976, lançado em DVD no Brasil pela Cult Classic) de Peter Sykes com Chistopher Lee e a linda e jovem Nastassja Kinski. Sendo que a única cena que é lembrada deste filme até hoje é um rápido strip tease da ninfeta vestida de freira, não é de estranhar que seria o último filme para o cinema da famosa “Casa do Horror” inglesa.

Escrito por Coffin Souza.

Material de divulgação que as distribuidoras enviavam para os cinemas:

Dracula AD 1972 (página 2).

Dracula AD 1972 (página 3).

Dracula AD 1972 (página 4).

Black Magic (página 2).

The Satanic Rites of Dracula (página 2).

The Satanic Rites of Dracula (página 3).

The Satanic Rites of Dracula (página 4).