Arquivo para poesia etílica

Eu

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , on setembro 26, 2012 by canibuk

mulheres não sabem como amar,

ela me disse.

você sabe como amar

mas mulheres só querem

parasitar.

sei disso porque sou

mulher.

.

hahaha, eu ri.

.

por isso não se preocupe por ter terminado

com Susan

porque ela apenas irá parasitar

outro homem.

.

falamos um pouco mais

então eu me despedi

desliguei o telefone

fui ao banheiro

e mandei uma boa merda de cerveja

basicamente pensando, bem,

continuo vivo

e tenho a capacidade de expelir

sobras do meu corpo.

e poemas.

e enquanto isso acontecer

serei capaz de lidar com

traição

solidão

unhas encravadas

gonorreia

e o boletim econômico do

caderno de finanças.

com isso

me levantei

me limpei

dei a descarga

e então pensei:

é verdade:

eu sei como

amar.

.

ergui minhas calças e caminhei

para a outra peça.

poema de Charles Bukowski.

10 X Vinho

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , on setembro 2, 2012 by canibuk

Vinho bom… Sacia,

Vinho vagabundo… Azia,

Vinho de missa… Alergia,

Vinho tinto… Sangria,

Vinho de laranja… Alegria,

Vinho colonial… Energia,

Vinho do Porto… Batia,

Vinho suave… Prá titia,

Vinho sempre… Vicia,

Vinho nunca… Eu morria!

poesia de Coffin Souza.

O Casamento

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 5, 2012 by canibuk

O noivo com um jeitão de quem quer

tirou de sua amada a anágua,

jogou a dentadura em um copo d’água

e a peruca num canto qualquer.

.

No afã de lhe fazer logo mulher,

o olho falso ficou no tapete.

Falou assim: – Te amo pra cacete

mais esqueci a perna com o chofer.

.

Tirou devagarzinho sua beca

e o nariz postiço com fervor.

Lhe disse: Vem pra cá minha boneca!

.

Num gesto de ternura e de amor,

acariciou sua lisa careca

e lhe meteu um grosso vibrador.

soneto de Rildo Aragão de França.

Quem Sabe

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on julho 27, 2012 by canibuk

Perdi minha branquela magrela.

Para sempre eu perdi.

.

E isso me tem custado

2 maços de marlboro,

150 mg de sertralina

e 4 de clonazepam

por dia.

Fora a bebida e os filmes pornôs,

e tudo o mais.

.

Perdi pra sempre minha magrela branquela

ou talvez…

(já é a bebida quem diz).

.

Quem sabe daqui dez anos nos reencontremos?

Nos perdoemos? Que eu mandei chamá-la

(padecendo do meu câncer ou efisema pulmonar)

e ela virá (se não tiver casada e com filhos,

se tiver: disfarça, e virá…)

.

Receberei-a sorrindo:

“a sua foi a bundinha mais linda que já tive,

e o seu foi o melhor tratamento que recebi…”

.

Um silêncio… A paz enfim…

.

Mas ela explode:

“Você foi um tremendo filho da puta!”, em lágrimas

enquanto chacoalha o cadáver nas pequenas,

delicadas mãos.

E será um belo final.

.

O mais provável (e menos bonito), por enquanto,

é que nunca mais nos encontremos,

eu vá morar noutra cidade

e pare de fumar.

poesia de Elias F. Pacheco.

Leia também “Cereja do Bolo“, de Elias F. Pacheco.

* Se você escreve poesias, textos, pinturas, ilustrações, quadrinhos ou quer divulgar seu filme, sua banda (e isso tudo tiver alguma coisa haver com a linha editorial do Canibuk), mande prá gente no e-mail baiestorf@yahoo.com.br que podemos publicar/divulgar.

Cerveja

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , on junho 3, 2012 by canibuk

não sei quantas garrafas de cerveja

consumi esperando que as coisas

melhorassem.

não sei quanto vinho e uísque

e cerveja

principalmente cerveja

consumi depois

de rompimentos com mulheres –

esperando o telefone tocar

esperando o som dos passos,

e o telefone nunca toca

antes que seja tarde demais

e os passos nunca chegam

antes que seja tarde demais.

quando meu estômago já está saindo

pela boca

elas chegam frescas como flores de primavera:

“mas que diabos você está fazendo?

vai levar três dias antes que você possa me comer!”

.

a mulher é durável

vive sete anos e meio a mais

que o homem, bebe muito pouca cerveja

porque sabe como ela é ruim para a

aparência.

.

enquanto enlouquecemos

elas saem

dançam e riem

com caubóis cheios de tesão.

.

bem, há a cerveja

sacos e mais sacos de garrafas vazias de cerveja

e quando você pega uma

as garrafas caem através do fundo úmido

do saco de papel

rolando

tilintando

cuspindo cinza molhada

e cerveja choca,

ou então os sacos caem às 4 horas

da manhã

produzindo o único som em sua vida.

.

cerveja

rios e mares de cerveja

cerveja cerveja cerveja

o rádio toca canções de amor

enquanto o telefone permanece mudo

e as paredes seguem

paradas e estáticas

e a cerveja é tudo o que há.

poesia de Charles Bukowski.

A Voz

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , on maio 24, 2012 by canibuk

Meu berço ao pé da biblioteca se entendia,

Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio

Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia.

Eu tinha a mesma altura de um in-fólio.

Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim

Dizia: “A Terra é um bolo apetitoso à goela;

Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)

Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela.”

A outra: “Vem! vem viajar nos sonhos que semeias,

Além da realidade e do que além é infindo!”

E essa cantava como o vento nas areias,

Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,

Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.

Eu te respondi: “Sim, doce voz!” É de então

Que data o que afinal se diz ser minha chaga,

Minha fatalidade. E por trás do telão

Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,

Distintamente eu vejo os mundos singulares,

E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,

Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.

E assim como um profeta é que, desde esse dia,

Amo o deserto e a solidão do mar ao largo;

Que sorrio no luto e choro na alegria,

E apraz-me como suave o vinho mais amargo;

Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,

E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.

Mas a Voz me consola e diz: “Guarda teus sonhos:

Os sábios não têm tão belos quanto os loucos!”

poesia de Charles Baudelaire (“As Flores do Mal – Marginália”).

Leia mais: “As Metamorfoses do Vampiro“.

Na Lama, Sujo Solitário, Me Lembrava

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , on maio 14, 2012 by canibuk

Pela terceira vez naquela noite eu deixava meu cabelo cair sobre os olhos. Estava com meu olhar vazio fixo na chuva que despencava torrencialmente. Os pensamentos galopavam distantes da realidade. Sentia os respingos da chuva fria e deixava o vento furioso bater contra o rosto. Uma sensação de perda havia me pego de surpresa. Queria chorar mas não sabia mais como faze-lo, havia me esquecido. Ou simplesmente tinha vergonha de misturar o salgado das lágrimas ao doce da chuva. Eu estava sentindo algo muito maior do que a vida, algo que deixava-me com  o cérebro acordado, pulsando inquieto, misturando lembranças vividas com paixão à lembranças que fazia questão de esquecer, que me doíam na alma, que custavam caras ao meu espírito rebelde de transgressor imaturo e me traziam de volta a realidade tão odiada. Sentia os respingos da chuva fria contra o rosto e pensava que se algum amigo estivesse ali junto de mim, certamente estaria eu esbanjando uma falsa alegria. Sabia até que estaria fingindo alegria se o motivo de minha tristeza estivesse ali.

Me lembrava de como

aprendi a ser forte,

de como aprendi

a não demonstrar os sentimentos

para não parecer um fraco.

Me lembrava das vezes que caminhei na chuva para disfarçar as lágrimas, das vezes que preferi ficar escondido na solidão para não me machucar com a rejeição. Me lembrava de como treinei meu sarcasmo para esconder o sentimentalismo barato que se gruda, tal como um carrapato, no coração dos apaixonados. E escutava o vento urrar com fúria. E sentia a chuva lavar minhas lágrimas.

E já estava

novamente

a preparar frases de efeito,

sarcásticas,

frias como a chuva,

irônicas,

para não deixar

ninguém

perceber o quanto eu sofria.

de Petter Baiestorf (2001, “Amor, Sexo & Outras Bebidas Delirantes”). Ilustração de Leyla Buk (2012, “Atrophy”).