Arquivo para senhor dos anéis

Carniça & Lama: Uma Entrevista com Rodrigo Ramos

Posted in Entrevista, Quadrinhos, revistas independentes brasileiras with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 1, 2018 by canibuk

Rodrigo Ramos é designer, especializado em Marketing Farmacêutico. Em 2016 lançou, seu primeiro livro, Medo de Palhaço, pela Generale, junto de outros membros do Boca do Inferno, o maior portal da América Latina sobre o gênero fantástico, onde atuou como responsável pela sessão de quadrinhos entre 2010 e 2017.

Em 2017 estreou na ficção com o conto Penitência para a antologia Narrativas do Medo, pela editora Autografias, e participou da antologia digital Assombrada BR com o conto Coulromania. No mesmo ano, roteirizou Carniça, sua primeira HQ, produzida ao lado do artista Marcel Bartholo. Em 2018 publicou o conto Clarice no segundo volume da antologia Narrativas do Medo, publicado pela Copa Books.

Atualmente atua como crítico e articulista para os sites 101 Horror Movies e Terra Zero, e prepara sua segunda HQ, Lama, ao lado de Marcel Bartholo.

Fonte: Guia dos Quadrinhos.
Segue uma entrevista que realizei com Rodrigo sobre seus lançamentos, projetos e rumos futuros do mercado independente brasileiro.

Petter Baiestorf: Como foi a recepção ao Carniça? Onde comprá-lo?

Rodrigo Ramos: Por ser meu primeiro trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos, fiquei realmente satisfeito com a recepção. Todas as críticas que recebemos foram, em sua grande maioria, bastante positivas. Alguns pontos de melhoria foram apontados aqui e ali e concordamos com todos eles. Quando você trabalha tanto tempo como crítico de quadrinhos e parte para produzir o seu, você tem que estar preparado para os comentários que vão fazer sobre sua obra. Felizmente os comentários foram ótimos! Principalmente aqueles que entendem a obra de uma maneira totalmente diferente daquela que você imaginou. É muito legal ver o seu trabalho ganhando vida própria através da interpretação dos leitores. Quem quiser adquirir a sua cópia autografada pelo correio, pode entrar em contato através da nossa página no Facebook (@CarnicaHQ), ou fisicamente nas lojas Monstra, Ugra, CoffinFangStore e Quinta Capa.

Baiestorf: Lama é seu segundo trabalho com quadrinhos, novamente em parceria com Marcel. Como está sendo essa parceria?

Rodrigo Ramos: O Marcel é um monstro. O cara desenha como poucos e numa velocidade absurda. Quem o acompanha pelo Facebook sabe. Toda hora ele está fazendo um projeto novo, sem parar! Além disso rolou uma sintonia muito boa. Nossas mentes pensam de maneira criativa muito parecida e isso é ótimo quando você está trabalhando num projeto em dupla. Quase todas as ideias que temos são aceitas, um pelo outro, de imediato. São poucas as coisas que conversamos para ajeitar e chegar a um consenso. Eu não poderia ter parceiro melhor.

Baiestorf: Como está a distribuição destes trabalhos? Como acompanhar?

Rodrigo Ramos: Basicamente estamos fazendo o circuito independente de feiras e eventos de quadrinhos. Temos alguns exemplares em uma ou outra loja parceira, mas basicamente estamos fazendo a maior parte da venda e distribuição do nosso trabalho. Com esta recente crise no mercado editorial, tive algumas experiências que não se deram da melhor maneira, então abraçamos de vez o mercado independente. E estamos satisfeitos. Das 500 edições impressas de Carniça, já vendemos quase tudo, talvez se esgotando na ComicCon no final do ano. Mas pra quem quer acompanhar o nosso trabalho, é só nos seguir nas redes sociais. Sempre postamos novidades quanto aos nossos projetos e vamos dizendo onde estaremos nos próximos eventos para a galera aparecer, trocar uma ideia e conhecer nossos quadrinhos.

Capa de Lama

Baiestorf: O rompimento da barragem em Mariana foi a inspiração para Lama? Fale sobre o que te levou a escrever Lama, que é um assunto extremamente relevante.

Rodrigo Ramos: A ideia inicial de lama surgiu como um conto sobre um agricultor que encontra um monstro na sua horta. Sempre fui fã de croatiras como o Gill-man ou Monstro do Pântano, inclusive você me deu várias recomendações no Facebook sobre filmes do gênero, e queria escrever uma história com uma criatura destas, mas totalmente nacional. Durante minhas pesquisas, encontrei as lendas sobre o ipupiara, e era exatamente o que eu procurava. Bolando o background do conto, o desastre de Mariana era o cenário perfeito, já que estes monstros na ficção geralmente aparecem devido a algum desequilíbrio ambiental. Mas aí a história já estava grande demais pra continuar como um conto e apresentei a ideia pro Marcel. O cenário aqui não é exatamente Mariana, apesar das referências serem claras, mas também trouxe um pouco do cenário polarizado da nossa política pra história. Tem muita coisa da insatisfação com o que está acontecendo pelo país há algum tempo, mas ao invés de eleger um maluco, prefiro transformar essa insatisfação em arte. Mas não é um material panfletário. As ideias ficam no subtexto, nas entrelinhas, assim como os zumbis de Romero, apesar de eu não merecer a comparação. Carniça é uma releitura de Edgar Allan Poe passada no Brasil com uma forte pegada de Body-Horror e folclore, Lama é um conto lovecraftiano sobre forças da natureza ancestrais que habitam os rios brasileiros. São histórias de horror passadas no Brasil e isso reflete nosso contexto histórico como toda história já produzida pela humanidade.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Você tem escrito alguns contos também, como nas antologias Narrativas do Medo Vol. 1 e 2. E também escreve sobre cinema. Literatura, quadrinhos e cinema, o que te atraí nessas artes?

Rodrigo Ramos: Eu cresci no interior de São Paulo cercado de causos que meus avós e meus tios contavam. Sempre que o verão chegava, ficávamos na varanda da casa da minha avó até tarde contando e ouvindo histórias do passado. E nessas histórias não faltavam fantasmas, lobisomens, demônios, saci, mula-sem-cabeça e toda a sorte de criaturas infernais folclóricas. Foi ali que comecei a tomar gosto por histórias de terror. Então descobri o cinema de horror e encontrei uma espécie de extensão daqueles contos que minha família contava, passei pra literatura e só depois de algum tempo, quando descobri o Monstro do Pântano do Alan Moore, pros quadrinhos. E como todo mundo que gosta muito de alguma coisa, queremos falar sobre isso o tempo todo, foi assim que acabei escrevendo artigos e críticas sobre obras do gênero, até surgir a oportunidade de produzir minha própria ficção. O horror possui muito do espírito contestador e do faça você mesmo do punk rock, e isso sempre me fascinou. Acho que o horror é muito passional, quem gosta de histórias de terror é um viciado. Talvez pela adrenalina, talvez pelo gostinho que o gênero nos dá de um mundo fantástico, sobrenatural, muito diferente desse mundo chato e perigoso em que vivemos.

Baiestorf: No site 101 Horror Movies você tem publicado alguns textos mais politizados, como um sobre a censura no gênero horror. Como tem sido a repercussão? Dá medo os rumos que nosso país tem tomado, muito em virtude de sua falta de memória coletiva, ignorância de sua história recente?

Rodrigo Ramos: O 101 Horror Movies é uma das minhas maiores alegrias dentro do gênero do horror. Desde que entrei pra equipe do site no começo do ano, sempre conversamos bastante sobre as coisas que acontecem ao nosso redor. Sobre como o mundo tá se tornando cada vez mais esquisito e como essa sensação tem gerado filmes incríveis. Nossa posição política é muito alinhada e isso sempre transparece em nossas críticas. Mas de uns tempos pra cá, quase sempre aparece alguém pra falar “nada a ver misturar política com isso ou aquilo” e isso está bem longe da verdade. O horror é talvez ao lado da ficção científica, o gênero mais político de todos. Por isso ele é tão perseguido e menosprezado. O horror tá aí desde sempre questionando o status quo, a igreja, a violência e o sistema. Romero, Carpenter, Craven… Todos eles sempre falaram muito de política em suas obras e ver uma galera nova que não entende ou não enxerga essa proximidade, reduzindo o valor do gênero a jumpscares e efeitos especiais gráficos é algo que não poderia deixar passar em branco. Daí surgiu uma trilogia de textos sobre horror e política, que, felizmente teve uma ótima repercussão. Sempre tem o maluco do meme e da hashtag que não sabe debater que vem, posta uma bobagem e some, mas no geral nossos leitores gostaram bastante e até agradecem por nos posicionarmos e nos juntarmos à luta. Algumas pessoas do meio que respeito muito também curtiram e compartilharam os textos e essas coisas deram um gás pra suportar o peso dessa eleição por saber que estamos do lado certo. O futuro do país é incerto e bastante perigoso se lermos todos os sinais e seu contexto, pelo menos nós que não somos adeptos do revisionismo histórico, do negacionismo ou das correntes de Whatsapp, mas o horror vai estar sempre aí para criticar e apontar o dedo na cara da sociedade. E a internet e os meios de auto publicação só vieram para reforçar este aspecto punk rock do horror. Se for censurado na sua editora, publique online, jogue seu curta no Youtube, mas faça sua voz ser ouvida. Não deixem suas ideias morrerem na gaveta por medo de um governo totalitário e religioso. Precisaremos do horror como nunca, daqui pra frente.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Como é escrever num país que não lê?

Rodrigo Ramos: Pior do que escrever num país que não lê, é escrever no país do jeitinho. Escrever é algo que todo mundo sabe onde vai dar. Acho difícil alguém, hoje em dia, que comece nesse meio para ficar rico ou se tornar uma celebridade. As chances beiram ao zero. Mas mesmo quando você encontra alguém que aposta no seu trabalho e faz com que suas obras cheguem ao mercado, sempre vai ter alguém que vai querer ler de graça, vai pedir link pra download, vai piratear seu trabalho… Sem falar nas livrarias que estão postergando pagamentos às editoras que postergam os pagamentos dos escritores… No fundo eu acho que as pessoas estão lendo bastante hoje em dia, ainda que menos do que gostaríamos, mas tem muita coisa sendo publicada por aqui que eu nunca imaginei que veria em uma livraria. O problema é que o horror é um nicho, e o horror independente mais nicho ainda. A dificuldade é chegar nas massas e cativar um público maior.

Página de divulgação de Lama

Baiestorf: Gostaria de saber se você tem se mantido positivo em relação ao futuro do Brasil?

Rodrigo Ramos: Eu sou um pessimista por natureza. Pelo menos não acredito nessa realização apoteótica que todo mundo espera que surja na figura de um “messias” para salvar o Brasil de “tudo isso que tá aí”. Infelizmente o sistema vigente não permite que você resolva o problema de todo mundo, não sem ferir os interesses de uns de ou outros. Ou você atende a maioria, ou a minoria. Não há consenso. E se não há consenso, não há solução. Eu sempre vou estar do lado da maioria, mas enquanto a minoria estiver no comando, vai ser difícil ter alguma vitória sem antes derrubar o sistema. Como vamos fazer isso? Não faço ideia. Mas faço histórias onde tento revelar essas figuras abjetas para o maior número de pessoas possível.

Baiestorf: A arte como forma de resistência?

Rodrigo Ramos: A arte é a última trincheira na resistência contra o sistema. As pessoas não respeitam mais o professor, a religião segue interesses escusos… Então resta à arte o papel de abrir os olhos da população. Por isso a onda conservadora insiste em atacar e diminuir o que eles não consideram arte. Se você produz algo que as pessoas apreciam e colocar alguma mensagem nisso, essas pessoas vão receber essa mensagem. Se elas te respeitam como artista, talvez respeitem o que você diz, já que nem os livros de história e ciência respeitam mais.

Carniça

Baiestorf: Livros, quadrinhos e filmes que você indica para os jovens que gostariam de saber mais sobre nossa história?

Rodrigo Ramos: Por mais absurdo que isso seja, hoje em dia eu acho que a ficção pode surtir um efeito muito mais impactante na galera do que os livros de história, já que tem quem não acredite mais neles. Então de cara vou indicar um dos meus livros preferidos de todos os tempos, 1984 de George Orwell, bem como A Revolução dos Bichos, do mesmo autor; Farenheit 451 do Ray Bradbury; Nos quadrinhos Maus do Art Spiegleman; Ditadura No Ar, de Raphael Fernandes e Rafael Vasconcelos; V de Vingança, de Alan Moore e David Loyd; Teocrasília do Denis Mello; Deus Ama, O Homem Mata de Chris Claremont e Brent Anderson, Surfista Prateado – Parábola, de Stan Lee e Moebius; na TV e cinema, Além da Imaginação, a série clássica, Star Wars, Matrix, O Senhor dos Anéis… Todas essas obras de ficção possuem raízes fortíssimas na nossa história recente e servem de alerta para não repetirmos os mesmos erros.

Carniça

Baiestorf: Obrigado Rodrigo, suas considerações finais:

Rodrigo Ramos: Muito obrigado pelo espaço, espero mesmo que não tenha ficado parecendo um comício, mas eu realmente acredito que toda oportunidade que temos para falar algo sobre aquilo em que acreditamos, temos que aproveitar. Se você não pode falar em público as coisas em que acredita, ou tem algo muito errado com o entorno, ou com o que você acredita. Sigam a gente nas redes sociais onde estamos postando todo o processo de produção de Lama, que aliás fica pronta em breve e será lançado oficialmente na CCXP 2018. Passem lá na mesa G37 no Artist’sAlley para gente bater um papo! Vai ser um prazer.

A Mulher Mais Linda da Cidade

Posted in Conto, Literatura with tags , , , , , , , , on agosto 26, 2011 by canibuk

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

A mulher mais linda da cidade e o velho safado.