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Lady Snowblood

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 2, 2012 by canibuk

“Shurayukihime” (“Lady Snowblood”, 1973, 97 min.) de Toshiya Fujita. Com: Meiko Kaji, Toshio Kurosawa e Miyoko Akaza.

Quem viu “Kill Bill” (na minha humilde opinião um dos melhores trabalhos de Quentin Tarantino, sobretudo a segunda parte da saga) deve ter lido em algum lugar que o filme é uma concha de retalhos de referências pop, umas obscuras, outras nem tanto. Dentre as obscuras está o filme que inspirou não só a criação da personagem O-Ren Ishii interpretada por Lucy Liu, mas também a própria trajetória de vingança da Noiva, interpretada por Uma Thurman. O filme é “Lady Snowblood” (“Shurayukihime”). A produção japonesa da Toho Company de 1973, de baixo orçamento e dirigida por Toshiya Fujita, é protagonizada pela atriz e cantora nipônica Meiko Kaji, nascida Masako Ota em 1947 na capital japonesa, Tóquio. “Lady Snowblood” é um filme sobre vingança, e isso ninguém faz melhor do que os asiáticos (e europeus, vamos considerá-los). A ação se passa no fim do período feudal japonês, quando o país começa a receber influências do ocidente e passa por transformações políticas. O país fica dividido entre os que aceitam as mudanças e os que querem se preservar sem influências de fora. Sayo Kashima, mãe de Yuki, junto com o marido e o filho são confundidos com integrantes da ala inovadora por uma gangue de assassinos simpatizantes dos conservadores. Logo após ver marido e filho serem assassinados a sangue frio, Sayo é capturada e violentada e inicia a partir daí um plano de vingança para eliminar os quatro elementos integrantes da quadrilha. Após conseguir executar seu primeiro alvo, Sayo é levada para um presídio onde oferece favores sexuais a diversos homens com o objetivo de gerar um filho que complete sua vingança. Nasce Yuki, Sayo morre após o parto e pede às companheiras de cela que cuidem para que a criança cresça e seja treinada para executar os três remanescentes da quadrilha. Com apenas oito anos de idade, Yuki inicia um árduo treinamento para se tornar uma exímia espadachim. Aos vinte, já uma perigosa guerreira, inicia sua caçada aos assassinos de sua família

O filme tem influências dos papas do Western como John Ford, Sam Peckinpah e Sergio Leone, além, é claro, do maior expoente do cinema conterrâneo, Akira Kurosawa. Apesar do baixo orçamento, a produção conta com um bom trabalho de direção de arte, figurino e atuações convincentes. As seqüências de ação estilizadas serviram de inspiração para vários cineastas asiáticos de ação e artes marciais como para cineastas ocidentais, além do supracitado Tarantino. Em se tratando de uma história de vingança, não haveria como mostrar execuções sendo econômico em sangue. E a quantidade de sangue que se vê jorrar na película seria suficiente para encher vários baldes.  Uma curiosidade é que em uma determinada cena, Meiko chegou a ficar coberta de sangue falso que jorrou em excesso. A bela trilha sonora também merece atenção. Trata-se toda ela de música tradicional asiática , muito bem executada e com nuances épicas.

Lady Snowblood é uma adaptação de um mangá homônimo escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Kazuo Kamimura, e foi publicado no Japão em 1972. Apenas em 2000 foi traduzido para o inglês e lançado nos Estados Unidos e no Canadá pela editora Dark Horse. Além de Tarantino, o diretor coreano Park Chan Wook também se  inspirou na saga de Yuki em seu “Lady Vingança”, o filme que fecha a sua trilogia da vingança iniciada por “Mr. Vingança” e prosseguiu com “Oldboy”. O filme rendeu uma continuação em 1974, “Lady Snowblood 2: Love Song of Vengeance”, além de servir de inspiração para a produção “The Princess Blade”, lançada em 2001, que se tratava de uma versão futurista da saga de Yuki.

por Cesar Monteiro.

O Cachorro Descobridor de Fêmeas e seu Menino Maltrapilho

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 10, 2012 by canibuk

“A Boy and his Dog” (“O Menino e seu Cachorro”, 1975, 91 min.) de L.Q. Jones. Com: Don Johnson, Susanne Benton, Jason Robards e Tim McIntire.

Em 2024 o planeta Terra se auto-aniquilou através de uma guerra nuclear e os poucos sobreviventes que aindam vivem na superfície lutam por água potável, comida, armas, munição, conbustível e o artigo mais raro de todos: Mulheres! (a maioria dos sobreviventes são do sexo masculino). Vic (Don Johnson) é a personagem principal deste mundo devastado, um menino de 18 anos que percorre os escombros nucleares saqueando comida em companhia de um rabugento cachorro chamado “Blood” (com voz de Tim McIntire), que é um ótimo farejador de fêmeas. O cachorro acaba sendo a figura paterna, mesmo que às avessas, que Vic respeita e admira. Após algumas aventuras na superfície devastada a dupla encontra Quilla (Susanne Benton), moradora dos subterrâneos que foi enviada ao solo para atrair um macho saudável para fins de reprodução. A cidade subterrânea, conhecida como “Downunder”, possuí luz artificial, baías hidropônicas para produção de alimentos, hierarquia estruturada por uma série de leis bizarras e até mesmo florestas. Uma vez na cidade Vic fica entusiasmado porque foi o escolhido para fazer sexo com várias mulheres, mas lógico, como alegria de maltrapilho em mundo pós-apocalíptico dura pouco, o que parecia ser o paraíso logo se revela um lugar tenebroso à forasteiros.

“A Boy and his Dog” tem um dos melhores finais de filme que já tive o prazer de presenciar, reforçando os motivos pelos quais a produção recebeu inúmeras acusações de ser machista. Não posso comentar aqui para não estragar a surpresa, mas posso adiantar que a conclusão reforça aquela idéia de que uma boa amizade vale mais do que um grande amor. Baseado numa série de contos do escritor Harlan Ellison (escritor de ficção científica que trabalhou em programas de TV como “The Outer Limits”, “Star Trek” e “The Alfred Hitchcock Hour”) escritos em 1969, o roteiro foi desenvolvido pelo ator L.Q. Jones, também responsável pela direção do filme que se inspira na direção pesada de Sam Peckinpah, com quem já havia trabalhado em filmaços como “The Wild Bunch/Meu Ódio Será sua Herança” (1969), “The Ballad of Cable Hogue/A Morte Não Manda Recado” (1970) e “Pat Garrett and Billy the Kid” (1973). O livro de Ellison ganhou o prêmio Nebula Award quando lançado.

O cenário pós-apocalíptico necessário para o filme foi encontrado no deserto de Mojave, numa região conhecida como Coyote Dry Lake, com produção da própria empresa de L.Q. Jones. De certo modo “A Boy and his Dog” foi o grande percussor das inúmeras produções futuristas, de “Mad Max” (1979) de George Miller e “Escape from New York/Fuga de Nova York” (1981) de John Carpenter até as italianadas como “1990: I Guerrieri del Bronx/Os Guerreiros do Bronx” (1982) de Enzo G. Castellari, que tomaram conta dos anos de 1980 com seus vilões punks sádicos que deixaram saudades. Na época Jones tentou produzir uma seqüência do filme mas a produção acabou não decolando, em seu lugar o escritor Ellison continuou a história do filme numa graphic novel chamada “Vic and Blood” ilustrada por Richard Corben.

Antes de dirigir “A Boy and his Dog”, Jones havia experimentado a função com o western dramático “The Devil’s Bedroom” (1964), assinado com seu nome de batismo, Justus McQueen. Jones começou a vida adulta como trabalhador ferroviário até estreiar como ator em “Battle Cry” (1955), drama de guerra dirigido por Raoul Walsh. Após inúmeros trabalhos na televisão assinados com seu nome real, por sugestão dos produtores de um filme, adotou o nome de L.Q. Jones que era mais pomposo. Por muitos anos alternou trabalhos sem importância na TV e cinema classe “A” (dá as caras em filmes estrelados por astros como Henry Fonda, Anthony Quinn, Elvis Presley e outros) até ser chamado por Sam Peckinpah que melhor soube aproveitá-lo na tela. Geralmente associado à filmes de guerra e westerns, Jones também estrelou alguns filmes de horror, como “The Witchmaker” (1969) de William O. Brown, tranqueira onde um psiquiatra investiga uma série de assassinatos de jovens garotas onde pediu para não ser creditado e “The Brotherhood of Satan” (1971) de Bernard McEveety, horror sobre uma família que encontra adoradores de satan no deserto, com roteiro do próprio Jones em parceria com Sean MacGregor. Também vale a pena destacar suas ótimas participações nos clássicos “Hang’em’High/A Marca da Forca” (1969) de Ted Post, onde contracena com Clint Eastwood e o impagável “Lone Wolf McQuade/McQuade – O Lobo Solitário” (1983) de Steve Carver, ação (com comédia involuntária) de Chuck Norris.

No elenco de “A Boy and his Dog” destaque para o sempre ótimo Jason Robards (1922-2000), ator em cerca de 130 filmes sempre interpretando tipos durões. Nos anos de 1950 e 1960 fez muitos trabalhos para a televisão até que em 1968 o diretor italiano Sergio Leone o convidou para viver a personagem Cheyenne no clássico “C’Era una Volta il West/Era Uma Vez no Oeste”, que trazia em seu elenco atores geniais como Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson e Woody Strode. Depois começou a dar as caras em vários filmaços que se tornaram grandes clássicos do cinema, como “The Ballad of Cable Hogue/A Morte Não Manda Recado” (1970), western genial de Sam Peckinpah que a maioria dos cinéfilos não soube apreciar (está entre meus preferidos); “Tora! Tora! Tora!” (1970) de Richard Fleischer e Kinji Fukasaku, único filmaço sobre o ataque japonês à Pearl Harbor que presta; “Johnny Got His Gun/Johnny Vai à Guerra” (1971) de Dalton Trumbo, o filme de guerra obrigatório para todo aspirante a uma carreira militar; “Murders in the Rue Morgue” (1971) de Gordon Hessler inspirado em Edgar Allan Poe; “All the President’s Men/Todos os Homens do Presidente” (1976) de Alan J. Pakula, sobre o escândalo de Watergate; até “Magnolia” (1999) de Paul Thomas Anderson, um de seus últimos filmes.

“A Boy and his Dog” está em domínio público. Não foi sucesso na época de seu lançamento mas nos dias de hoje atingiu status de cult movie. Aqui no Brasil foi lançado em DVD pela distribuidora Platina Filmes em cópia horrível, sua qualidade consegue ser ainda pior do que a cópia em VHS lançada por aqui pela Nacional Vídeo. Lamentável ver grandes clássicos do cinema de sci-fi sendo tratados tão mal por aqui.

por Petter Baiestorf.

Veja “A Boy And His Dog” aqui:

Duas Vidas para Antonio Espinosa

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 23, 2011 by canibuk

“Duas Vidas Para Antonio Espinosa” (2010, 16 min.) de Caio D’Andrea e Rodrigo Fonseca. Com: Índio Lopes, Guilherme Lopes, Luiz Fernando Resende, Gessy Fonseca e Angelo Coimbra.

Em 1976 Alberto Espinosa recebe um misterioso bilhete que o faz relembrar uma desavença do passado, quando em 1949, ele, seu irmão Antonio e outros dois amigos, atacaram índios sem terra só pela farra de importunar índios indefesos. A ação se torna desastrosa por conta do Pajé (índio Lopes, magnífico) que parece ter o corpo fechado. Com este ponto de partida, Caio e Rodrigo (os diretores) construíram um western tenso que remete ao clima das antigas HQs da revista de horror “Spektro”, uma publicação brasileira que explorava muito bem o folclore fantástico nacional; misturando ao que de melhor o Spaghetti Western legou aos cinéfilos de todo o mundo: Sergio Leone (principalmente seus inventivos “The Good, The Bad and The Ugly/Três Homens em Conflito” e “Once Upon a Time in the West/Era uma Vez no Oeste”), Sergio Corbucci (“Il Mercenario/Os Violentos Vão Para o Inferno”), Sergio Sollima (“La Resa dei Conti/The Big Gundown”) e Enzo Castellari (“Keoma”). A belíssima seqüência final do curta “Duas Vidas para Antonio Espinosa” remete diretamente ao duelo final de “The Good, The Bad and The Ugly”, com planos inspirados no clássico italiano.

O elenco deste curta é um verdadeiro achado, com destaque ao Índio Lopes (figura dos tempos da Boca do Lixo, amigo de Candeias, de José Mojica Marins; foi assistente de Valentino Guzzo – a antológica Vovó Mafalda no programa do Bozo – chegando a atuar numa novela, “As Minas de Prata”, e participação no clássico “Finis Hominis” de Mojica) que está no filme quase que de maneira acidental, como conta Caio D’Andrea, “O Carlos Sabugo, que fez os efeitos e também o primeiro índio que morre, falou que tinha o contato de um cara que morava no prédio dele que poderia fazer um dos índios. Quando o cara chega é o Índio Lopes”. Rodrigo Fonseca completa, “Já tínhamos em mente colocar alguma referência aos ‘feijoada westerns’ realizados na Boca do Lixo, e foi tranqüilo, o Índio Lopes é um cara muito bacana, além de ser ‘o cara’ para o papel do Pajé ele é uma pessoa legal de conversar, com muita história boa para contar”. Gessy Fonseca (nenhum parentesco com o diretor Rodrigo) é atriz e dubladora, era ela quem fazia a voz da mulher-gato no antigo seriado do Batman. Guilherme Lopes (que interpreta Alberto Espinosa) e Luiz Fernando Resende (que interpreta o Maurão) já haviam trabalhado com Rodrigo no curta “Mundo Cão” e estão completamente a vontade em seus papéis. O resto do elenco, de Angelo Coimbra (que interpreta um Antonio Espinosa adulto de poucas palavras) à Wilson de Andrade (um dos índios), até a garotada mais nova (Caio Merseguel, Lucas Dantas, Tony Budnikas e Samuel Barreto), menos experientes, está bem convincente em seus papéis. Sem esquecer de comentar a ótima fotografia do filme feita por Nicole Samperi e a trilha sonora composta por Renato Galozzi.

“Duas Vidas para Antonio Espinosa” é um filmaço, tecnicamente bem realizado e planejado e que, em minha opinião, deveria virar um longa-metragem (se no caso o Brasil tivesse produtores com visão comercial, algo que infelizmente não temos). Este curta revisita de maneira espetacular o gênero western, dando-lhe pequenos toques do gênero fantástico que não quero revelar aqui para não estragar o prazer que é assisti-lo. Mas Caio, sobre as possibilidades de torná-lo um longa, diz: “Também acho que daria um longa, dá prá desenvolver muita coisa. Mas agora, planos prá isso não tem não, se alguém de fora quiser investir, estamos de braços abertos”. E Rodrigo completa, “Acho que, tanto eu quanto o Caio, ainda vamos fazer muitos filmes nessa onda!”.

Duas Vidas Para Antonio Espinosa.

Segue uma pequena entrevista informativa que realizei com os diretores Caio D’Andrea e Rodrigo Fonseca sobre a produção e concepção de “Duas Vidas para Antonio Espinosa”, exclusivo para o Canibuk.

Petter Baiestorf: Falem sobre seus trabalhos:

Caio D’Andrea: “Duas Vidas…” foi o segundo curta que dirigi. O primeiro foi “O Solitário Ataque de Vorgon” que foi uma experiência bem legal, que inclusive o Rodrigo produziu. Os dois foram feitos no curso de cinema da FAAP em São Paulo. Fora isso, eu trabalhei por 3 anos como assistente de direção em publicidade.

Rodrigo Fonseca: Eu sou sócio de uma produtora chamada Poeira Filmes junto com o André Moreira que foi produtor dos meus três curtas-metragens e do Eduardo Haskel que fotografou todos com exceção do “Duas Vidas…”. O meu primeiro filme chama “Rua Javari” sobre o Juventus, time de origem italiana do bairro da Mooca aqui em São Paulo e sobre seu estádio que dá nome ao filme. Não é um tipo de filme que eu pretendo fazer muito e tem muita coisa que hoje eu faria diferente, mas é um filme do eu gosto e me orgulho muito, e acredito que para um primeiro filme foi muito bom, eu aprendi muito com ele e é isso que vale. O segundo filme, “Mundo Cão”, já está mais dentro do estilo que eu quero desenvolver: tem tiro, sexo, briga de bar, garrafada, duelo, morte etc. Foi o filme mais difícil e mais apertado de fazer, o dinheiro veio 100% do meu bolso e eu tinha menos do que precisava para fazer o filme. Então foi uma correria louca, mas eu gostei muito do resultado. Infelizmente o filme foi recusado em quase todos os festivais, eu gostaria que mais pessoas tivessem assistido a ele. Eu acho curioso que vários amigos meus me falam que é meu melhor filme, melhor até que o “Duas Vidas…” e apesar de eu discordar dessa opinião, acho que isso mostra a falta de sintonia de vários festivais com o público comum (que não faz e nem estuda cinema), não sei se interessa a eles isso também né? Além de dirigir eu produzi alguns curtas dentre os quais eu destaco “O Solitário Ataque de Vorgon” do Caio.

Baiestorf: Como surgiu a idéia para o “Duas Vidas para Antonio Espinosa”?

D’Andrea: Te falar que eu não sei. Com uns 16 anos eu comecei a ver muito western, especialmente os Spaghettis e nunca mais parei. O argumento me veio nessa época. Só lá no quinto semestre da faculdade, o Rodrigo, com quem eu já trocava muita idéia de Spaghettis, virou e falou: “Porra Caio, vamos fazer um projeto de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) juntos?”. Eu joguei a idéia mas precisaria adaptar e trabalhar muito em cima. Então trabalhamos junto no roteiro por uns meses e apresentamos para ser escolhido como um dos projetos a serem filmados de TCC da nossa sala. Para nossa surpresa, ele passou.

Fonseca: No sexto semestre eu apresentei um projeto de um semi- faroeste que não foi selecionado, mas conversando com os professores descobri que ele até que tinha sido bem votado. Conversei sobre isso com o Caio e decidimos que para o TCC apresentaríamos juntos um projeto de um faroeste, pois tínhamos concluído que era muito difícil mas não impossível um faroeste ser escolhido pela banca de professores , ele apresentou o argumento e juntos desenvolvemos mais a história e fizemos o roteiro.

Baiestorf: Os índios retratados no filme remetem aos índios americanos, isso foi proposital? Porque?

D’Andrea: A idéia era ser uma tribo indígena com influências de índios americanos, norte e sul. Pegamos muita influência das tribos norte-americanas e também do povo indígena da Bolívia, mas acho legal a idéia que provavelmente são pessoas de uma tribo que podem ter perdido terras. Mas tudo isso foi porque não queríamos localizar o filme. Como o Rodrigo fala, o filme se passa na fronteira entre o Brasil e o México.

Fonseca: Sim, eles remetem aos índios americanos, mas não somente a eles. Isso foi uma coisa muito discutida ao longo da produção. No começo eu e o Caio pesquisamos sobre diversas etnias indígenas do Brasil. Mas quando decidimos que o filme não seria passado necessariamente no Brasil e nem em algum lugar específico resolvemos misturar algumas coisas que tínhamos achado interessante nessa pesquisa com algumas coisas de outras culturas indígenas. Na verdade chegou em um ponto que a gente desencanou de soar realista e nos demos liberdade total para fazer o filme do jeito que a gente queria, sem se preocupar com detalhes de “quando” ou “aonde”.

Baiestorf: Como vocês conseguiram viabilizar as filmagens?

D’Andrea: A FAAP apóia alunos a filmarem o TCC em 35mm, no sentido de liberar a câmera e duas latas de negativo (que dá uns 6 minutos de filme), isso sem contar os refletores, tripés, garras do cacete a quatro, e também uma grana para cobrir a pós-Produção. O resto foi por nossa conta. Já que era um western, em 35mm, tinha que ser Scope! Lente anamórfica é absurdamente cara, então setamos a câmera pro Super 35mm, arranjamos uma referência do formato 2:35 e rolou o visual scope na pós. Uma solução bem mais barata (mas ainda um tanto cara) e gostei muito do resultado.

Fonseca: Além disso, tivemos um belo desconto em pós-produção graças a nossa colega Sarah Girotto, que estava dirigindo o outro filme da nossa turma, e conseguiu fazer um belo acordo com a Teleimage. Quando enviamos o filme para a Lei Rouanet ele não foi aprovado sobre alegação de que “não apresentava nenhuma inovação narrativa ou estética” e que não era um projeto que apresentava contribuições para a cultura brasileira. Sorte nossa que o Paulo Brito, um grande amigo da minha família, que é produtor de cinema e que iria ser um dos patrocinadores através da lei, resolveu ajudar mesmo assim e nos deu uma contribuição. Ainda assim eu, o Caio e a Nicole, que fotografou o filme, acabamos arcando com boa parte das despesas, o resto do grupo também ajudou um pouco, não era um filme barato.

Baiestorf: As filmagens correram como planejado? No filme percebe-se que houve muito planejamento na construção do filme. Teve alguma história de produção divertida?

D’Andrea: Eu e o Rodrigo tínhamos um storyboard bem completo, decupamos o filme várias vezes, visando a economia de planos. Rolou uma discussão plano a plano com a diretora de fotografia, Nicole Samperi, e nosso produtor André Moreira. Rolaram alguns planos de última hora que um ou outro queriam fazer e fizemos, mas foram poucos. Estávamos sempre na pilha de acabar o negativo então tudo tinha que seguir o planejado. As diárias em geral eram tranqüilas, só uma foi mais foda. Tínhamos duas cenas noturnas, em duas locações diferentes, sendo que no mesmo dia nós deslocamos de Atibaia para Iperó, que dá umas 3 à 4 horas de viagem. Tínhamos o ator da cena apenas por aquela noite, todo mundo cansado, tivemos que redecupar uma cena por uma questão de um efeito que não rolou e a porra do dia amanhecendo. Foi tenso mas rolou. Filmamos a grande maioria do filme na cidade de Iperó, no interior de SP. Lá tem a Floresta Nacional de Ipanema, que é um dos primeiros lugares que foi feito ferro no Brasil. A locação do duelo final é entre os antigos fornos em que se fundia ferro, o lugar é do caralho. Por ser um filme de estudante, eles não cobraram nada pela filmagem e ainda disponibilizaram a casa de apoio deles para ficarmos, foi animal. Além do fator histórico, o lugar tem todo um ar macabro. Era história de fantasma de escravo, homem de três metros, um cara lá viu o irmão matar a cunhada a machadada, um dos guias chegou a tirar foto de um OVNI, que inclusive saiu num jornalzinho local. Acho que metade era história pra assustar um bando de moleque da cidade grande, mas te falar que afetou muita gente da equipe.

Fonseca: O filme foi selecionado para ser filmado em setembro de 2009 e foi filmado em abril de 2010, então não faltou tempo para planejar. Uma das partes que eu mais gosto em fazer filmes é decupar, criar os planos e a seqüência em que você pretende encaixá-los (ainda mais no caso do “Duas Vidas…”, pois nós mesmos iríamos montar o filme), então foram dias e dias de decupagem, ás vezes eu chegava com uma idéia e o Caio complementava ela com outra ou víamos um filme, gostávamos de um plano, e resolvíamos fazer algo parecido, tínhamos planos com nome de diretores, o último plano por exemplo chamava “Corbuccião”, pois achávamos ele bem parecido com alguns planos do Corbucci, o lance do terço em primeiro plano e o Antonio indo embora no fundo. Então, chegamos no set com cada plano estudado e sabendo bem o que queríamos pois a gente estava a seis meses pensando em como executá-los.

Baiestorf: Como está sendo a divulgação do curta? Será exibido em algum canal de Televisão?

D’Andrea: O curta passou em alguns festivais bem bacanas aqui no Brasil, como Fantaspoa, o Festival de Triunfo, inclusive está agora nesse Cinefantasy. Mas lá fora passou em bastante lugar, especialmente nos Estados Unidos, onde a gente ganhou em Atlanta o “Best Foreign Short” e em Geneva o “Student Visionary Award”, que foi bem bacana. Mas acho que o lugar mais bacana foi na Suazilândia, pais que fica logo ao norte da África do Sul. Os caras mandaram um email falando exatamente o que eles curtiam do filme, da questão dos índios terem que achar outras terras, que é uma realidade muito forte pra eles e de forças espirituais influenciarem a vida de pessoas. Achei um tesão. Ainda não tivemos nenhum contato com alguém de emissora de televisão.

Fonseca: Não temos do que reclamar, mas infelizmente ainda rola um preconceito aqui no Brasil com filmes de aventura/ação (acho que isso não é segredo para ninguém). Eu acho que o filme poderia ter sido exibido em mais festivais aqui no Brasil, nem falo de prêmios porque acho que o importante mesmo em festivais de cinema é você poder exibir seu filme, mas que muita gente torceu o nariz por ser um faroeste torceu.

Baiestorf: Há preocupação de vocês com a distribuição? Vocês acreditam no cinema independente brasileiro?

D’Andrea: O único cinema brasileiro que eu acredito no momento é o independente. O cinema nacional, salvas algumas exceções, eu classifico em duas vertentes, a globo filmes e o que chamo de cinema groselha. Falam de indústria sendo que de um lado temos filmes completamente idiotas e do outro filmes que não dialogam com o público que indiretamente pagou por ele. Vejo o pessoal independente pensar em público de uma forma que esses cineastas não fazem. Tanto em querer mostrar o filme para o maior número de pessoas possível como levar em conta a expectativa do público, satisfazendo ou enganando, entretendo ou chocando. Tanto que só vejo esse pessoal explorando gêneros. Não conheço nenhuma indústria cinematográfica no mundo que não se apóie no cinema de gênero.

Fonseca: A preocupação existe não só com a distribuição, mas com o cinema brasileiro em geral. Os filmes se repetem muito e cada vez mais se coloca qualidade artística e potencial comercial como características mutuamente excludentes. Nosso cinema depende de incentivo público e normalmente quem tem acesso a esse incentivo são os que estão menos preocupados em levar seus filmes até as pessoas, ou as pessoas até seus filmes. Quanto ao cinema independente eu acredito sim e muito. Acho que nem teria como não acreditar, pois com todas as barreiras e dificuldades ele está aí muito mais criativo, no bom sentido, que o velho cinemão. Sem falar que existe uma preocupação muito maior em levar o filme até o público. Não adianta você fazer um filme incrível, seja ele um filme “inteligentíssimo” ou filme despretensioso, se ninguém assistir, nem interessa o quão importante ou relevante é sua mensagem se ela não for ouvida.

Baiestorf: Projetos?

D’Andrea: Eu estou terminando um roteiro de um curta, é um filme de vingança (mais um) envolvendo os ataques a homossexuais na Av. Paulista aqui em São Paulo.

Fonseca: Estou escrevendo um argumento sobre um “faroeste” nos garimpos do Pará chama-se “Inferno Verde”. É uma idéia para filmar bem mais para frente, já que teria de ser uma mega-produção com longas cenas de ação, aviões, muitos personagens, etc. Também estou com dois projetos de curta-metragem, não vou falar muito sobre eles, pois os dois são baseados em contos e eu ainda estou conversando com os autores. Um deles inclusive seria para fechar um ciclo que eu comecei com o “Mundo Cão” e depois com o “Duas Vidas para Antonio Espinosa”. Eu brinco que o “Mundo Cão” foi minha homenagem ao Tarantino e “Duas Vidas…” ao Sergio Leone e esse próximo será ao Sam Peckinpah. Mais para frente no “Inferno Verde” eu volto a homenagear os três e mais um monte que faltou (risos).

Contatos com Caio D’Andrea: caiofigo@gmail.com

Contatos com Rodrigo Fonseca: rodrigo1106@hotmail.com