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Arrepios Sangrentos do Cinema (1960-1980)

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 8, 2018 by canibuk

O cinema sempre foi terreno fértil para a exploração do corpo. Se nas décadas de 1950 e 1960 o cinema era mais sugestivo do que apelativo (mas com a sci-fi e seus monstros e aliens deformados já apontando os rumos que a nova audiência exigia), foi na ressaca da contracultura, nos anos de 1970, que o cinema foi tratando de ficar mais explícito e cínico, culminando numa explosão de corpos monstruosos/pegajosos nas telas do cinema da década de 1980, onde a crítica social-niilista-pessimista da década anterior cedeu lugar à auto paródia do terrir.

Podemos afirmar que a auto paródia que o cinema dos anos de 1980 viveu, principalmente o americano, tem suas raízes nos filmes da dupla H. G. Lewis e David F. Friedman, principalmente na trinca de goremovies “Banquete de Sangue” (Blood Feast, 1963), “2000 Maníacos” (2000 Maniacs, 1964) e “Color Me Blood Red” (1965), que aproveitaram para extrapolar, para deleite do jovem público de drive-ins, o bom gosto estético, aproveitando até mesmo idéias de mortes exageradas dadas por seus filhos pré-adolescentes. O corpo humano deixava de ser um templo sagrado e, agora, estava disponível para todo o tipo de mutilações que os técnicos de efeitos especiais conseguissem elaborar. E mais, agora o tabu do canibalismo também caia por terra e o corpo humano servia de alimento às sádicas personagens.

No final dos anos de 1950 e início dos anos de 1960, a cinematografia gore ainda foi discreta, com obras como “First Man Into Space (1959), de Robert Day, sobre um astronauta que começa a derreter e que foi a inspiração para a produção do clássico “O Incrível Homem Que Derreteu” (The Incredible Melting Man, 1977, de William Sachs. “Inferno” (Jigoku, 1960), de Nobuo Kakagawa, tomou como inspiração o inferno concebido por Dante e ousou mostrar, em cores, os horrores explícitos de um purgatório onde os pecadores sofriam todo tipo de violência na carne. “Six She’s and A He” (1963), de Richard S. Flink, contava a história de um astronauta feito de prisioneiro por uma tribo de lindas mulheres que costumavam realizar incríveis banquetes com os membros decepados de seus algozes. “Six She’s and A He” é uma espécie de irmão bastardo dos filmes da dupla Lewis-Friedman, já que seu roteirista é o ator William Kerwin, que atuou em “Blood Feast” e “2000 Maniacs” usando o pseudônimo de Thomas Wood. “Está Noite Encarnarei no teu Cadáver” (1967), de José Mojica Marins, à exemplo de “Jigoku”, também mostrava em cores os horrores do inferno com muitos membros decepados, sofrimentos diversos e inventivos demônios feito com parte dos corpos de seus alunos de curso de cinema.

No ano seguinte o horror ficou ainda mais explícito com duas obras seminais: Mojica realizou um banquete canibal em seu longa de episódios “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), no episódio “Ideologia”, e o Cult “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead, 1968), de George A. Romero, que trazia o canibalismo explícito para as telas com a virulenta modernização dos zumbis, desta vez se deliciando com tripas e toda variedade de carne humana, de crua à carbonizada, dando apontamentos do caminho que o cinema de horror viria a tomar nos anos seguintes.

Jigoku (1960)

Charles Manson e a Família haviam acordado a América de seu “American Way of Life” e os horrores do Vietnã eram televisionados nos jornais do café da manhã, toda uma geração insatisfeita queria voz. Na década de 1970 o cinema de horror ficou mais insano, pessimista e violento para com as instituições oficiais. Jovens cineastas perceberam, ensinados por H.G. Lewis e George A. Romero, que o cinema independente era o caminho natural para adentrar no mundo das produções cinematográficas, e o melhor, o horror niilista tinha público fiel ávido por “quanto pior melhor”.

Tom Savini em Dawn of the Dead (1978)

Inspirados por Charles Manson e “A Noite dos Mortos-Vivos”, no Canadá, a dupla Bob Clark e Alan Ormsby profanaram os defuntos com seu clássico “Children Shouldn’t Play With Dead Things” (1972), podreira sobre um grupo de degenerados comandados por uma espécie de guru fake a la Manson que desenterram alguns corpos num cemitério isolado e realizam um verdadeiro show de barbaridades e imaturidade. Aliás, Ormsby deve ser atraído por personalidades problemáticas, já que na seqüencia realizou o clássico “Confissões de um Necrófilo” (Deranged, 1974), co-dirigido por Jeff Gillen, inspirado na figura do psicopata Ed Gein e que, na minha opinião, é a melhor abordagem cinematográfica já feita sobre Gein, que inspirou, entre outros, também os clássicos “Psicose” (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock, e “O Massacre da Serra-Elétrica” (The Texas Chainsaw Massacre, 1974), a obra-prima de Tobe Hooper, realizado no mesmo ano de “Deranged” e que contava com efeitos do ex-fotografo de guerra Tom Savini, que se inspirava nos horrores reais que presenciou para criar as maquiagens mais podreiras possíveis. Os corpos dos mortos agora não eram mais sagrados, podiam alimentar psicopatas dementes ou, até, se tornarem grotescas obras de arte ou peça de happenings.

O público clamava por histórias mais adultas, além da violência explícita, o sexo também gerava curiosidade. Andy Warhol e Paul Morrissey foram para a Europa filmar, com ajuda do italiano Antonio Margherity, “Carne para Frankenstein” (Flesh for Frankenstein, 1974), uma releitura sexual-splatter de Frankenstein de Mary Shelley, com litros de sangue, referências à necrofília e abordagem erótica da história do cientista que brincava de Deus, dando especial atenção ao detalhes sórdidos e eróticos. No Canadá David Cronenberg previa as epidemias de doenças sexualmente transmissíveis ao realizar “Calafrios” (Shivers, 1975), com roteiro sério que discutia o sexo, sem deixar de incluir taras, fetiches e doenças como a pedofília em roteiro genial (o final do filme continua poderoso).

De volta à América, o cineasta underground Joel M. Reed lançou em 1976 o perturbador e doentio “Bloodsucking Freaks” (The Incredible Torture Show), com a personagem de Sardu, ajudado por um anão tarado, que raptava jovens mulheres que se tornavam deliciosas iguarias para seus banquetes explícitos onde até mesmo sanduíches de pênis era devorados. Ainda em 1976, os exageros do cinema gore se encontraram com a falta de limites do mundo da pornografia e o jovem Michael Hugo cometeu o, ainda hoje, obscuro “Hardgore”, uma carnificina envolvendo sexo explícito com todo o tipo de perversões na história de uma inocente mocinha internada numa instituição mental. “Hardgore” parecia preparar terreno para “Cannibal Holocaust” (1980), do italiano Ruggero Deodato, produção que extrapolou qualquer limite do bom gosto ao assassinar, em frente às câmeras, todo tipo de animais, incluindo a famosa cena da tartaruga, filmada com verdadeiros requintes de crueldade.

Mas um pequeno curta independente, filmado em super 8 por um grupo de amigos, anunciava que o cinema de horror voltaria a ficar mais artístico (sem assassinatos reais ou pornografia): “Within the Woods” (1978), de Sam Raimi, produzido com os amigos Robert Tapert e Bruce Campbell, era um ensaio para a produção do Cult “A Morte do Demônio” (Evil Dead, 1981), que influenciaria meio mundo nos anos de 1980 e 1990 com sua ensandecida história envolvendo jovens possessados por demônios numa cabana isolada. O cinema de horror começava a sair dos cinemas pulgueiros para tomar de assalto toda uma nova geração que descobriria os filmes malditos com o videocassete.

De certo modo “Evil Dead” preparava o público para a exploração do corpo que o cinema da década de 1980 realizou. Nunca na história da indústria cinematográfica tivemos outra época tão rica na exploração de anomalias, doenças, mutações e toda uma rica gama de deformações genéticas. Era a época da disco, da cocaína acessível e barata, do “viva rápido, morra jovem”, então… Pro inferno com a seriedade, o negócio agora era a auto paródia e o cinema de horror, principalmente o americano, soube não se levar em sério e por toda a década de 1980 cineastas como Lloyd Kaufman, Stuart Gordon, Dan O’Bannon, Fred Deker, Roger Corman, Fred Olen Ray, Jim Wynorski, entre outros, conseguiram passar através de seus filmes o clima de curtição que os anos de 1980 possuíam.

por Petter Baiestorf

Veja os trailers aqui:

Outros Posters:

The Incredible Melting Man

Calafrios

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“Shivers” (ou “Orgy of the Blood Parasites” ou “They Came From Within” ou “The Parasite Murders”, “Calafrios” no Brasil, 1975, 87 min.) de David Cronenberg. Com: Paul Hampton, Joe Silver, Barbara Steele, Lynn Lowry e Susan Petrie.

Um cientista conduz experiências onde almeja criar um parasita que possa ser usado em transplantes de orgãos que não funcionam mais, onde o paciente com um rim doente, por exemplo, receberia o parasita que faria o trabalho do rim em troca de um pouco de sangue como alimento. Mas algo sai errado e o que o cientista acaba criando é um parasita que assume o controle do paciente e faz sua libido sexual, sem culpas ou moralismos, crescer assustadoramente; uma combinação entre afrodisíaco e doença venérea que foge do controle quando a namorada adolescente do cientista espalha o parasita para outras pessoas do moderno condomínio onde vivem vários tipos humanos que logo se tornam tarados sexuais em busca de formas de saciar seu apetite sexual.

“Shivers”, o primeiro longa-metragem profissional de David Cronenberg (que antes havia dirigido apenas os curtas “Transfer” (1966), “From the Drain” (1967), os experimentais “Stereo” (1969) e “Crimes of the Future” (1970) e inúmeros curtas para a TV canadense), é a cara do cinema dos anos 70, um cinema que não fazia concessões para agradar o espectador, investia em roteiros originais/adultos (onde sexo e assuntos sérios eram discutidos), apostava em atores desconhecidos/amadores e os finais destes filmes geralmente eram bem pessimistas acerca dos rumos que a humanidade estaria tomando. Claro que tamanha ousadia não passaria desapercebida, depois de lançado “Shivers” foi a maior bilheteria do cinema canadense e foi discutido em seu parlamento que havia colocado em dúvida seu valor social e artístico para a sociedade, já que boa parte do dinheiro da produção havia vindo do Canadian Film Corporation, que era mantido pelo contribuinte através dos impostos.

Filmado em apenas 15 dias, “Shivers” foi um desafio para o jovem Cronenberg que lutou para ser o diretor do filme durante 3 anos (seu roteiro chegou até a ser oferecido ao lendário Roger Corman, mas uma cláusula no contrato que dava ao roteirista o direito de dirigi-lo, manteve Corman fora do projeto). O aval para a realização do filme veio depois que Barbara Steele (que Cronenberg havia conhecido no lançamento de “Caged Heat” (1974) de Jonathan Demme) concordou em tomar parte da empreitada. Os testes de elenco de “Shivers” foram abertos, ou seja, qualquer pessoa que não fosse ator poderia conseguir um papel. Susan Petrie, uma atriz de comédias de baixo orçamento, lutou pelo papel da personagem Janine Tudor, onde teria que chorar em várias cenas, como não conseguia chorar, Cronenberg conta, que antes de cada take a atriz pedia para que ele a esbofeteasse violentamente, criando um verdadeiro clima de sadomasoquismo entre ele e a atriz, para o espanto da equipe-técnica chocada pelo método nada ortodoxo de direção.

David Cronenberg nasceu em Toronto, Canadá, em 1943. Ainda criança começou a escrever histórias e seu interesse por ciências o levou a entrar no programa “Honours Science” da Universidade de Toronto. Inspirado pelo cinema underground de New York, conseguiu realizar seus primeiros curtas. Durante toda década de 1970 seus filmes foram produzidos com ajuda do dinheiro do contribuinte canadense (pelo menos não foi parar no bolso dos políticos de lá). Entre outros, realizou o maravilhoso “Rabid/Enraivecida – Na Fúria do Sexo” (1977), estrelado pela atriz pornô Marilyn Chambers (do clássico imperdível “Behind the Green Door/Atrás da Porta Verde”, de 1972) e que contava a história de uma garota que, após uma cirurgia, sofre uma mutação e começa a se alimentar de sangue; “Fast Company” (1979), um drama sobre o universo automobilistico lançado no Brasil pela distribuidora Zircon Films com o título “A Escuderia do Poder” e “The Brood/Os Filhos do Medo” (1979, em VHS no Brasil pela Top Tape), onde um psiquiatra aplica um método experimental de exteriorização de traumas e uma de suas pacientes gera uma “ninhada” de crianças que agirão comandadas por sua sede de vingança, um drama sangrento que Cronenberg escreveu após sua separação.

Os anos de 1980 começam com o sucesso internacional de “Scanners/Sua Mente pode Destruir” (1981, Van Blad Vídeo), um filme revolucionário onde somos apresentados aos Scanners, pessoas com poderes mentais, que são usados pela indústria farmaceútica (e que tem a famosa cena de uma cabeça explodindo sem cortes antes da computação gráfica estragar o cinema), filmaço que abriu as portas dos grandes estúdios americanos para o peculiar estilo de filmar horror adulto/inteligente de Cronenberg; Para a Universal Studios faz “Videodrome” (1983, Universal Home Vídeo), que mostrava como controlar os espectadores através da TV, com ótimos efeitos de maquiagens de Rick Baker; “The Dead Zone/A Hora da Zona Morta” (1983, Europa Multimedia) é a adaptação de um livro de Stephen King (que estava em moda nos anos de 1980) onde um paciente acorda do coma com a capacidade de ver o futuro das pessoas que toca; “The Fly/A Mosca” (1986, Fox Home Vídeo) é uma releitura moderna extremamente gore do clássico “The Fly/A Mosca da Cabeça Branca” (1958, Fox Home Vídeo) que havia sido estrelado pelo cult e genial Vincent Price. “The Fly” teve um grande orçamento (foi produzido pelo comediante Mel Brooks) mas não foi sucesso de público nos cinemas, diz a lenda que os espectadores ficavam ruins do estômago ao tentar assistí-lo. Cronenberg fechou a década de 1980 com “Dead Ringers/Gêmeos – Mórbida Semelhança” (1988, em VHS pela F.J. Lucas Vídeo), um drama sexual sobre ginecologistas gêmeos e sua relação com uma paciente feiosa. Acho muito discreto este filme, o assunto poderia ter rendido bem mais.

A década de 1990 parecia promissora quando Cronenberg lançou “Naked Lunch/Mistérios e Paixões” (1991, Spectra Nova), drama lisérgico inspirado no livro homônimo de William S. Burroughs sobre um escritor viciado em drogas que não sabe mais distinguir realidade e delírio. Em seguida o cineasta realiza o pomposo (perdão) “M. Butterfly” (1993), que na época de seu lançamento achei divertido, mas preciso revê-lo para ter uma nova opinião sobre o filme, e o genial “Crash/Estranhos Prazeres” (1996, em VHS pela Columbia Pictures), onde Cronenberg ajeita o chatíssimo livro de J.G. Ballard e nos apresenta seu último grande filme, uma história sexy sobre pessoas que após sofrerem acidentes de carro começam a procurar por sexo bizarro envolvendo carros. Nos últimos anos não realizou nenhum novo clássico, “ExistenZ” (1999) é fraquinho; “Spider” (2002, Movie Star) mornô e os filmes policiais que realizou (“A History of Violence/Marcas da Violência, 2005; “Eastern Promises/Senhores do Crime”, 2007 e “A Dangerous Method/Um Método Perigoso”, 2011) são burocráticos. Dá pena ver um cineasta tão bom desperdiçando seu talento por conta da mediocridade da indústria cinematográfica e seu público idiotizado atual.

Na produção de “Shivers” Cronenberg recebeu uma grande ajuda de Ivan Reitman que em 1972 já havia dirigido o ótimo “Cannibal Girls”. Se alternando nas funções de direção e produção, Reitman fez “Meatballs” (1979) e conseguiu chamar atenção dos grandes estúdios e na seqüência conseguiu emplacar o blockbuster “Ghost Busters/Os Caça-Fantasmas” (1984, Columbia Pictures), campeão das bilheterias dos anos 80. Depois dirigiu megas-porcarias estreladas por Arnold Schwarzenegger como “Twins/Irmãos Gêmeos” (1988), “Kindergarten Cop/Um Tira no Jardim de Infância” (1990) e “Junior” (1994). Verdadeira decadência para o cara responsável pela produção de filmaços como “Death Weekend/Fim de Semana Mortal” (1976) de William Fruet, “Rabid” (1977) de Cronenberg, “Ilsa – The Tigress of Siberia” (1977) de Jean LaFleur, “Animal House/O Clube dos Cafajestes” (1978) de John Landis e “Heavy Metal/Universo em Fantasia” (1981) de Gerard Potterton.

Um dos grandes destaques de “Shivers” são as maquiagens gore, simples mas de grande eficácia. Joe Blasco trabalhava com maquiagens para a TV quando realizou as trucagens gores para “Garden of the Dead” (1974) de John Hayes, distribuido nos USA pela Troma e do clássico “Ilsa: She Wolf of the SS” (1975) de Don Edmonds. Isso lhe valeu o convite para trabalhar em “Shivers” e “Rabid”. Quem aprecia bons trash-movies sem orçamento não devem perder o trabalho de maquiagem de Blasco nos filmes “Track of the Moon” (1976) de Richard Ashe, onde Blasco também “interpreta” a criatura, “Ilsa – The Harem Keeper of the Oil Sheiks” (1976) de Don Edmonds, “The Clonus Horror” (1979) de Robert S. Fiveson e “Whispers” (1990) de Douglas Jackson.

“Shivers” é um filme corajoso, fala sobre o corpo humano e nossos desejos sexuais que são sempre reprimidos pela moralidade social e religiosa de nossa sociedade. Aqui os infectados pelo parasita viram uma espécie de zumbis tarados e dão vazão aos seus instintos. Cronenberg aproveita para discutir assuntos tabus como pedofilia, incesto, homosexualismo, bestilismo, machismo e até o desejo sexual dos velhos. E tudo isso discutido embalado com uma roupagem de cinema gore sexploitation de alta qualidade e diversão. Cronenberg faz falta!

Aqui no Brasil o filme se chama “Calafrios” e já foi lançado em VHS pela F.J. Lucas Vídeo e em DVD pelos picaretas sem classe da Continental. Este filme ainda aguarda, como tantos outros clássicos do cinema gore, um lançamento decente (de preferência em Blu-Ray) em nosso país, cheio de material extra e o filme com qualidade de imagem impecável. Distribuidoras, façam seu trabalho bem feito, por favor!


Barbara Steele – Tão grande que não cabe em rótulos!

Barbara Steele enfeitiça. Lembro-me bem da primeira vez em que a vi num filme, justamente o “Shivers” e, apesar do papel pequeno e sem tanto destaque como em seus mais conhecidos filmes, ela simplesmente me enfeitiçou pela forte presença, pela beleza estranha, a estrutura óssea facial grande e forte (como desenho mulheres acabo sempre observando isso em todas, e o rosto da Steele parece ter sido esculpido com proporções todas erradas, mas que mesmo assim acabou dando todo certo no final), o sorriso largo e os olhos profundos e malignos. Pensei: “Como ela é gigante! Que rosto monstruoso e perfeito! Essa mulher é uma obra de arte!”. A partir daí eu precisa saber mais e ver mais sobre ela. Virei Fã.
Hoje, com setenta e cinco anos, a mais poderosa atriz dos filmes de horror que de tão grande não cabe em rótulos,  se assusta com o assédio dos fãs que até hoje a abordam empolgados por causa dos seus filmes antigos com uma emoção tamanha como se os filmes tivessem sido feitos ontem.
Conhecida como musa do cinema de horror gótico, Steele ganhou destaque na década de sessenta e alcançou seu status por conta da sequência de filmes de horror,  italianos principalmente,  onde atuou.
Steele nasceu na Inglaterra em 19 de dezembro e  não tinha intenção de ser atriz, queria mesmo era ser pintora, “queria ser Picasso” dizia, e estudou para isso, foi para Paris, mas precisava de grana e foi por esse motivo que em 1957  ela entrou numa companhia de teatro onde ganhava cinco libras por semana.
Sua estréia como atriz foi na comédia britânica “Bachelor of Hearts“, em 1958, e não tinha muito mais que um pequeno diálogo. Foi em 1960 que, após ver sua foto numa revista, Mario Bava a recrutou para o  que seria seu papel de maior destaque em “La maschera del demonio/Black Sunday/A Máscara de Satã” (que saiu aqui no Brasil em DVD pela London Films) onde faz um papel duplo, passeando brilhantemente entre a bruxa malvada e a princesa inocente. Este filme também marca a estréia oficial de Mario Bava como diretor. A partir daí, Barbara ganha grande notoriedade e em 1961 é levada para a américa onde estrela “The Pit and the Pendulum/A Mansão do Terror” (lançado aqui no brasil em DVD pela CultClassic) de Roger Corman, contracenando com o sempre genial Vincent Price. Ali, mais uma vez, ela nos encanta ao desempenhar muito bem seu papel de mocinha inocente e mulher cruel e assustadora ao mesmo tempo.
Durante a época em que ficou na américa, Steele relata que tentaram transformá-la em mais uma boneca de plástico fabricada por Hollywood “Eles tinham uma idéia preconcebida de que as mulheres eram todas lábios brilhantes. Eles diziam: ‘É melhor fixar suas orelhas para trás. É melhor deixá-la loira. Você não tem qualquer decote’. Depois vieram as recomendações: ‘não seja vista com fulano, porque… Não ande por aí de salto alto’ – eles achavam que eu era muito alta e todos se sentiam terrivelmente baixos lá. Era uma piada. Todos esses clichês fantásticos que você lê em “Day of the Locust” (livro de 1939, do autor americano Nathanael West sobre a decadência e alienação de Holywood nos anos 30). Só que era muito mais clichê do que você poderia imaginar.“, desabafou certa vez numa entrevista. Barbara se manda para a Itália e em 1962 ganha o papel para o filme “Fellini Otto & Mezzo” (de mesmo título aqui no Brasil e que foi lançado em DVD pela Versátil Home Video). Em seguida, ainda em 1962, faz o “L’orribile segreto del Dr. Hichcock“, o horror italiano dirigido por Riccardo Freda. Depois disso, outros papéis para filmes de terror surgem em seu caminho e consolidam cada vez mais seu título de rainha do horror. Entre estes títulos encontramos “Lo Spettro“, de 1963, dirigido por Riccardo Freda; “Danza Macabra” de 1964, dirigido por Sergio Corbucci e Antonio Margheriti; “I lunghi capelli della morte”, 1964, também dirigido por Antonio Margheriti, entre outros. Em 1966 faz um pequeno papel na comédia clássica “L’armata Brancaleone/O Incrível Exército Brancaleone” de Mario Monicelli (lançado no Brasil em DVD pela Spectra Nova) e em 1968 faz o clássico do horror britânico “Curse Of The Crimson Altar” de Vernon Sewell, filme que reúne também os outros dois grandes nomes do horror Boris Karloff e Christopher Lee. Apesar de todos os títulos e de seguidores fiéis do gênero do horror que mantém até hoje, Barbara Steele parecia não gostar tanto do culto ao título que recebeu, talvez pela limitação que isso causava a sua carreira. Declarou certa vez estar aposentada do gênero e que jamais voltaria a sair de um caixão de novo. A promessa não é seguida. Visando novos rumos para a carreira, volta à américa onde conhece o roteirista James Poe com quem se casa e tem um filho. Os dois ficam casados por muito tempo. Em 1969, Poe escreve um papel para Barbara na adaptação para a tela do romance “The Shoot Horses, Don’t They?”, mas quando Sydney Pollack, o diretor do filme, escolheu outra atriz para o papel, Barbara decidiu fazer uma pausa e ficou sem atuar por uns cinco anos. Volta ao cinema só em 1974 com o exploitation “Caged Heat” de Jonathan Demme.  Em 1975  aparece lindísisma no clássico cult “Shivers“, papel com pouco destaque, porém notável, e em 1977 no “I Never Promised You a Rosen Garden” de Anthony Page. Já com a carreira capengando ela aparece em mais alguns títulos, uns tornaram-se memóraveis, outros nem tanto.  Em 1978 ela e Poe divorciam-se e ela não volta a se casar novamente. Em 1980  tenta ainda o horror “The Silent Scream” de Danny Harris, se aposenta das telonas em seguida e se dedica, com sucesso, ao trabalho de produtora de mini-séries para TV. Chegou, inclusive,  a ganhar um Emmy pela produção na série “War and Remembrance“. Barbara Steele retornou às telonas agora em 2012 estrelando o horror “The Butterfly Room” de Jonathan Zarantonello. Não sei se esse filme será lançado aqui no Brasil, não achei informações que indicasse algo sobre isso, então ficarei devendo essa informação.

Mesmo setentona Steele continua linda e com aquele olhar impressionante que nos convida sem que a gente saiba se é pro bem ou pro mal, ela nem sempre foi bem aproveitada, mas é tão gigante em talento e força que impressiona mesmo quando seu papel é minúsculo.  Vida longa à  grande e fascinante musa!

Steele – “The Butterfly Room”

The Buterfly Room

Algumas imagens de uma exposição com suas pinturas que aconteceu em Roma no dia 9 de novembro de 1962

Trailers de alguns filmes com a musa:

Resenha de petter baiestorf
Box sobre barbara Steele de Leyla Buk