Arquivo para sleaze

Facadas Molhadas, Machadadas de Prazer: Delírios Eróticos na Floresta do Sexo Mole!

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 15, 2012 by canibuk

“Wet Wilderness” (1976, 54 min.) de Lee Cooper. Com: Daymon Gerard, Alicia Hammer, Raymond North e Faye Little. Direção de Fotografia de Alan Jolson; Som de T.A. Hom; “Música” de Melvin Devil; Edição e Produção de Robert Thomas.

Este pornô slasher é uma bomba completa, tenho a obrigação de avisar que este lixo é apenas para trashmaníacos profissionais. Dito isso, aí vai a sinópse da porcaria: Mãe, com casal de filhos e a namorada da filha, chegam numa floresta para um pic nic em família. Tão logo chegam ali, a filha e a namorada vão prá local reservado fazer fotinhos taradas e se comem (burocraticamente) em uma cena lésbica que não empolga. Até que surge um assassino mascarado (que tem escrito em sua máscara a palavra “love”, sabe-se lá porque) que diz para as lésbicas que elas precisam de um homem e obriga elas a chuparem seu pau. O mascarado estupra as duas meninas para satisfazer seus instintos bestiais até gozar na boca da namorada da filha de boa família, que se aproveita da distração do mascarado e foge. Aí o psicopata tarado pega seu facão e mata a menina em cena com gore tímido e, após o assassinato mal filmado, sai rindo e caminhando vagarosamente (vários anos antes de Jason caminhar vagarosamente pelas florestas de Crystal Lake).

Quando a menina foge, ela vai até sua mãe e irmão contando que sua namorada foi assassinada, só que o mascarado, mesmo com seu passo lento, faz todo mundo reféns de seu sadismo e os humilha obrigando a mãe a ficar peladinha (no chão da floresta, como num passe de mágica, surge um lençol para eles transarem em cima sem se sujar no chão) e a chupar seu pau enquanto os filhos são obrigados a transar entre si praticando um incesto forçado (filmes da década de 1970, mesmo que ruins, sempre tentava dar uma chocadinha) e uma orgia na floresta tem início. O mascarado, sádico que só ele, mete gostoso no cu da mãe enquanto a menina fica chupando o pau mole do irmão. Então o psicopata tira o pau do cu da mãe estuprada, pega seu facão, e obriga a mãe a chupar o pau de seu filho enquanto a menina foge novamente em outro descuido do psicopata mascarado. Mãe e filho continuam fodendo (burocraticamente sem empolgação) enquanto a filha/irmã encontra um negro amarrado em uma árvore, outra vítima do psicopata sexual).

O Mascarado leva a mãe de refém até onde a filha está libertando o negro e obriga-a a chupar o pau do negro e ela cai de boca no pau mole desta nova personagem. A mãe faz umas caretas impagáveis enquanto é obrigada a ver a filha chupando o negro até que ele goze gostoso bem pertinho do rosto de sua filha. Então a mãe da família arrombada é obrigada a se juntar com sua filha para uma segunda rodada de sexo com o negro que goza agora na boca da mãe. Aí, surgido sabe-se lá d’onde, o mascarado tem uma machadinha (no lugar do facão) em suas mãos e mata o negro, sangue respinga contra mãe e filha enquanto o machado fica afundado no peito do negro (em uma cena de gore bem feitinha, levando-se em conta a vagabundagem geral deste filme). E prá fechar de uma vez por todas essa história ruim, o mascarado leva as duas mulheres até uma cabana e obriga-as a chupar seu pau mole novamente, elas se ajoelham e mamam nele. É aí que a filha pega o facão e mata o psicopata com um único golpe e o filme termina no mesmo instante com um frame escrito “the end” numa placa de madeira com sangue/tinta vermelha sendo jogada nele.

Nos anos 70 a pornografia era mais rica em sua abordagem narrativa, ousava-se mais com os produtores tentando surpreender o público, mesmo em produções tão vagabundas quanto este lixo “Wet Wilderness”. Este filme é completamente amador, como muitos dos filmes realizados no período. Mas estes amadores legaram aos cinéfilos tarados por sexo e violência algumas verdadeiras maravilhas como “Forced Entry” (1973) de Shaum Costello (usando o pseudônimo Helmut Richler), sobre um veterano do Vietnã que estupra e mata mulheres; o clássico da sangueira pornô explícita “Hardgore” (1976) de Michael Hugo (não creditado no filme), onde uma ninfomaníaca se diverte com sangue, porra, tripas, membros humanos decepados e necrofília num hospício; “Unwilling Lovers” (1977) de Zebedy Colt, rape movie envolvendo cenas de assassinato e gore mal filmado; entre outras produções alucinadas de gente boa como Joe D’Amato, Doris Wishman, Jesus Franco (e tantos outros), onde ousar parecia ser a palavra de ordem.

“Wet Wilderness” foi feito com uma equipe reduzida (além do diretor Lee Cooper e a meia dúzia de atores ruins que trepam mal, trabalharam o produtor Robert Thomas – que também foi o editor – Melvin Devil (que deve ser pseudônimo do diretor ou do produtor, já que está creditado como compositor da trilha sonora mas a trilha sonora foi roubada de “Psycho/Psicose” (1960) de Alfred Hitchcock), Alan Jolson como diretor de fotografia e T.A. Hom no som), que um ano antes já haviam trabalhado junto no pornô “Winnebango”. Tudo em “Wet Wilderness” não funciona: As atuações são sem inspiração, a fotografia é mal feita, o som é abafado, a edição é tosca, a produção inexistente e a direção nula. A se julgar pelos pintos moles, tudo foi filmado no mesmo dia! Mas “Wet Wilderness” é um slasher pornô que diverte e tem o atrativo de ter sido lançado dois anos antes de “Halloween” (1978) de John Carpenter, verdadeiro responsável pela febre de slashers que assolou o cinema americano nos anos de 1980. O filme acabou sendo premiado pela The Movies Made Me Do It justamente por suas deficiências. A justificativa pelo prêmio veio com a frase “Não é uma obra-prima, não é um filme perfeito, mas é um filme extremamente divertido que deve agradar, e muito, aos fãs de trash-movies!”. Justificativa certeira!!!

Não sei se Lee Cooper é o nome real do diretor, mas pelos levantamentos que fiz aqui ele teria dirigido apenas três títulos pornôs: “A Fantasy Fulfilled” (1975), não creditado, e os já citados “Winnebango” (1975) e “Wet Wilderness” (1976), além de ter produzido “And Then Came Eve” (1976), dirigido por R.J. Doyle (que teria ainda, no mesmo ano, dirigido outro pornô, “Cream Rinse”). A se julgar pelo amadorismo dos filmes dá prá entender porque Lee Cooper não emplacou na indústria cinematográfica. O produtor Robert Thomas produziu também dois outros pornôs, “Ensenada Pickup” (1971) e “Run, Jackson, Run” (1972), ambos com direção de Mark Hunter, e teria feito o som de “The Life and Times of Xaviera Hollander” (1974) de Larry G. Spangler, diretor do western de horror “A Knife For the Ladies” (1974), e, mesmo sendo um dos piores editores que já vi, foi o responsável pela edição de “Devil’s Ecstasy” (1977), um pornô de horror dirigido por Brandon G. Carter. Todas essas pessoas que citei neste parágrafo desistiram de fazer cinema ainda na década de 1970. Uma pena, gosto muito de inúteis persistentes, são eles quem fazem os filmes mais divertidos!

por Petter Baiestorf.

Schlock: O Terror do Bananal

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 17, 2012 by canibuk

“Schlock” (1973, 80 min.) de John Landis. Com: John Landis, Saul Kahan e Joseph Piantadosi.

No cinema muitos dos grandes diretores começaram pequenos em produções de baixo orçamento, mas que transbordavam vontade de (se) divertir. John Landis, diretor responsável por inúmeros filmes com um humor prá lá de incorreto da década de 1980, começou sua carreira de diretor com um pequeno trash-movie intitulado “Schlock”, que contava a história de um homem macaco (John Landis) que se apaixona por uma adolescente cega (uma década antes de Toxie da Troma se apaixonar por outra cega) e aterroriza um subúrbio do sul da Califórnia. Landis, um apaixonado por sketches de humor maluco, estruturou seu roteiro em um punhado de situações absurdas que dialogavam com clássicos do cinema como “King Kong” (1933) de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, deixando tudo mais frenético-histérico como a cartilha do cinema dos anos de 1970 pedia. “Schlock”, o macaco apaixonado, toca piano, dá entrevistas para a TV e luta contra o exército americano enquanto a menina cega acha que ele é um cachorro gigante. Impossível não gostar de uma trama imbecil destas.

“Schlock” é o primeiro longa-metragem de Landis onde, apesar da produção capenga, já percebemos seu típico jeito de contar histórias cômicas cheias de situações absurdas. O orçamento do filme foi de 60 mil dólares, o que levou Landis a discutir com Rick Baker, em um de seus trabalhos iniciais, sobre os custos (500 dólares) do traje do macaco (que no filme é interpretado pelo próprio John Landis revelando todo seu amor pelos símios já que naquele mesmo ano também atuou em “Battle for the Planet of the Apes/Batalha do Planeta dos Macacos” de J. Lee Thompson). O baixo orçamento do filme, aliado ao seu senso de humor alucinadamente cretino, fez de “Schlock” uma maravilhosa paródia-homenagem aos filmes da década de 1950.

John Landis (1950) desde garoto sempre foi apaixonado pelo cinema. Em 1969 se destacou trabalhando como assistente de direção de Brian G. Hutton no filme “Kelly’s Heroes”, comédia de guerra filmada na Iuguslávia e estrelada por Clint Eastwood e Telly Savalas. Depois disso se associou ao produtor picareta Jack H. Harris e conseguiu tornar realidade “Schlock”, que filmou com apenas 21 anos de idade. Como seu primeiro filme foi um fracasso de público, Landis ficou alguns anos sem conseguir dirigir nada, até que, inspirado pelo grupo de humor Monty Python, em 1977 conseguiu levantar a produção de “Kentucky Fried Movie” (com roteiro do trio David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, o ZAZ que nos anos de 1980 criou inúmeros clássicos da comédia como “Top Secret!”, “Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu” e “Corra que a Polícia Vem aí!”). Foi o suficiente para ser contratado pela Universal Studio para dirigir “Animal House/O Clube dos Cafajestes” (1978) com base em material da National Lampoon e o colocar em contato com gente talentosa como John Belushi e Harold Ramis. “Animal House” foi um sucesso mundial e abriu as portas para Landis filmar “The Blues Brothers/Os Irmãos Cara de Pau” (1980), novamente estrelado por Belushi, ao lado do roteirista Dan Aykroyd, e com participações especiais de músicos como James Brown, Aretha Franklin, Ray Charles e John Lee Hooker, numa produção que marcou época e preparou terreno para o grande clássico de John Landis: “An American Werewolf in London/Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), onde seu amigo Rick Baker finalmente pode mostrar do que era capaz com um orçamento decente em mãos. O filme, que dosava magistralmente humor e horror, foi sucesso mundial. Mas as vezes sucesso demais faz mal e a partir daí Landis começou uma parceria com Eddie Murphy em comédia inofensivas como “Trading Places/Trocando as Bolas” (1983), “Coming to America/Um Príncipe em Nova York” (1988) e “Beverly Hills Cop 3/Um Tira da Pesada 3” (1994). Seus outros grandes momentos são filmes como “Three Amigos!/Três Amigos!” (1986), western cômico estrelado pelo impagável trio de humoristas formado por Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short (e o diretor de cinema Alfonso Arau no papel do vilão Em Guapo) e “Amazon Women on the Moon/As Amazonas na Lua” (1987), filme em episódios que Landis co-dirigiu em parceria com Joe Dante, Carl Gottlieb, Peter Horton e Robert K. Weiss, que trazia em seu elenco gente talentosa como Russ Meyer, Paul Bartel, Monique Gabrielle, Forrest J. Ackerman, Sybil Danning, B.B. King, Henry Silva, Rip Taylor, Dick Miller, Lyle Talbot e até Bela Lugosi com ajuda de cenas de arquivo. Outro grande momento da carreira de John Landis foi quando ele dirigiu o curta-vídeo clip “Thriller” do lendário Michael Jackson, talvez o clip mais famoso de todos os tempos.

“Schlock” é um dos primeiros trabalhos do maquiador Rick Baker (que havia estreado no cinema em 1972 com o filme “Bone” de Larry Cohen e repetido a parceria no ano seguinte em “Black Caesar”). Nascido em 1950, ainda adolescente começou criando maquiagens caseiras na cozinha da casa de seus pais. Trabalhou no clássico “Squirm” (1976) de Jeff Lieberman, “King Kong” (1976) de John Guillermin e “Star Wars/Guerra nas Estrelas” (1977) de George Lucas, sempre nas equipes de segunda unidade. Em 1977 foi responsável pelos incríveis efeitos de derretimento em “The Incredible Melting Man/O Incrível Homem Que Derreteu” de William Sachs e chamou atenção para seu talento. Por seu trabalho em “Um Lobisomem Americano em Londres” recebeu o primeiro Oscar de muitos e não parou mais de surpreender com maquiagens cada vez mais realistas. Alguns outros grandes momentos de Rick Baker: “The Funhouse” (1981) de Tobe Hooper, “Videodrome” (1983) de David Cronenberg, “Greystoke” (1984) de Hugh Hudson, “Ed Wood” (1994) e “Planet of the Apes” (2001), este dois últimos de Tim Burton.

Em “Schlock” encontramos também a participação especial de duas figurinhas da indústria cinematográfica americana: Jack H. Harris, produtor do filme, no papel do homem lendo uma revista de horror e Forrest J. Ackerman, lendário colecionador de livros e memorabilia do cinema de horror e sci-fi americano, no papel do homem no cinema. O produtor executivo de “Schlock” é George Folsey Jr. que continuou trabalhando com Landis nos anos de 1980. Infelizmente este filme permanece inédito em DVD no Brasil.

por Petter Baiestorf.

Veja o trailer de “Schlock” aqui:

Assassinas Voadoras Promovem Carnificina no Festival do Peixe Frito

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 31, 2012 by canibuk

“Piranha 2 – The Spawning” (“Piranhas 2 – Assassinas Voadoras”, 1981, 84 min.) de James Cameron. Produção de Ovidio G. Assonitis. Com: Tricia O’Neil, Lance Henriksen e Steve Marachuk.

No calor da noite jamaicana  um casal de turistas mergulha no local onde há os destroços de um navio afundado para ter um pouquinho de sexo nas profundezas do mar azul. Peitinhos a mostra, sunga rasgada e os corpos do casal de amantes assanhados são devorados por piranhas famintas!… Hum, espere aí, piranhas em água salgada?… Sim, este é o brilhante ponto de partida do genial (e muito tosco) roteiro do produtor Ovidio Assonitis (com alguns pitacos do diretor James Cameron em seu único trabalho que admiro). Aqui somos apresentados ao Clube Elysium, uma espécie de hotel cheio dos mais variados tipos humanos que somente o cinema italiano tem a capacidade de criar. Entre uma e outra cena idiota, somos apresentados à Anne Kimbrough (Tricia O’Neil), instrutora de mergulho que trabalha ali com seu filho tapado, caçadoras de homens ricos, velhas ninfomaníacas, pescadores que usam dinamite, ricaços egocentricos, o xerife boa pinta, dentistas otários e, lógico, como não poderia faltar, o dono de hotel ganancioso que, a todo custo, quer fazer um festival do peixe frito na praia.

Em uma de suas aulas de mergulho Anne leva seus alunos até os destroços do navio onde as piranhas vivem. Um dos alunos entra no navio e é comido pelas piranhas. Assim o xerife, que se revela marido de Anne, começa as investigações. Anne, auxiliado por um aluno que quer comer ela, invade o necrotério para analizar o corpo podre do aluno morto. Enquanto estão fotografando o cadáver uma enfermeira descobre a farra e os expulsa. Ao arrumar o corpo do morto a enfermeira tem a surpresa que todos estão esperando, ou seja, uma piranha voadora sai de dentro do corpo e voa até sua jugular estraçalhando-a (as piranhas são de borracha, quando atacam os próprios atores precisam segurá-las e simular que estão vivas e violentas, rendendo momentos impagáveis de humor involuntário). Já em sua casa, Anne e seu aluno estão vendo as fotos do cadáver quando, como seria normal num caso assim, pinta um clima de tesão e eles se beijam e vão prá cama para uma foda revigorante. Deste ponto em diante o filme fica cada vez mais divertido, com as piranhas voadoras saindo da água como um cardume/bando sedento por carne humana. Logo Anne está implorando para o dono do Clube Elysium cancelar todas as atividades na água, mas ele não aceita isso (Assonitis e Cameron perdem aqui uma ótima oportunidade de esculhambar este clichê, já que como as piranhas voam e respiram fora da água, se todas todas as atividades da água fossem canceladas, ainda teríamos os deliciosos ataques).

Quando o aluno de Anne se revela um bioquímico, ficamos sabendo que ele sabia que no navio afundado havia ovos de piranhas modificadas geneticamente para serem utilizadas como armas pelos militares americanos. Como o festival do peixe frito não foi cancelado, todos os hóspedes que esperavam comer um peixinho frito de graça viram a refeição principal das piranhas que promovem uma carnificina gore repleta de feridas pustulentas, sangue grosso e membros amputados. A última esperança de todos é Anne mergulhar até o navio, ninho das piranhas, e explodir tudo com bananas de dinamite, promovendo assim um dos finais mais toscos que o cinema trash já filmou.

Com uma equipe-técnica completamente italiana (onde ninguém falava inglês), James Cameron deve ter se sentido um peixe fora d’água nesta produção do picareta Assonitis. “Piranha 2” era para ter sido dirigido por Miller Drake (assistente de direção no clássico “Alligator” de Lewis Teague, filmado um ano antes) que havia trabalhado com Roger Corman e Joe Dante no primeiro “Piranha” (1978) que traria de volta as personagens de Kevin McCarthy (que reapareceria todo cheio de cicatrizes porque foi vítima das piranhas no primeiro filme) e de Barbara Steele. James Cameron havia sido contratado para fazer os efeitos especiais do filme e, quando Drake foi despedido da produção, Cameron pode realizar seu sonho de dirigir um filme, mas, para azar do americano, Assonitis resolveu acompanhar as filmagens de perto e discutia quase sobre tudo com Cameron (nada pior para um produtor do que ter um diretor que não faz o que lhe é ordenado) e assim proibiu Cameron de ver as filmagens do dia e, depois, não o deixou acompanhar a edição do filme. Aliás, James Cameron se refere ao “The Terminator/O Exterminador do Futuro” (1984) como seu primeiro filme (há um curta-metragem de Cameron de 1978, intitulado “Xenogenesis” que merece ser redescoberto).

Ovidio G. Assonitis (1943) nasceu no Egito e é produtor de cinema independente. Nos anos de 1960 se tornou distribuidor de filmes no sudoeste da Ásia (em apenas 10 anos como distribuidor colocou no mercado mais de 900 filmes). Entre 1970 e 2000 produziu cerca de 50 filmes, muitos deles coproduções com produtoras como American International Pictures, Nippon Herald Films Inc. e Toho-Towa, geralmente com lucros absurdos como “Chi Sei?/Beyond the Door/Espírito Maligno” (1974), filme de baixo orçamento dirigido por ele mesmo, que teve arrecadação mundial de mais de 40 milhões de dólares. Com o pseudônimo de Oliver Hellman, além de “Chi Sei?”, dirigiu ainda “Tentacoli” (1977), trasheira estrelada por John Huston, sobre polvos assassinos; “There Was a Little Girl/Madhouse” (1981), sobre uma professora de surdos atormentada por sua irmã gêmea e a comédia “Desperate Moves” (1981). Como produtor trabalhou com os mais variados tipos de diretores italianos possíveis, realizando belíssimos filmes de baixo orçamento como “Nel Labirinto del Sesso” (1969) de Alfonso Brescia; “Il Paese del Sesso Selvaggio/The Man from the Deep River” (1972) de Umberto lenzi, um dos primeiros filmes do ciclo de filmes de canibais italianos; “Dedicato a una Stella” (1976) de Luigi Cozzi, um drama romantico; “Stridulum/Herdeiros da Morte” (1979) de Giulio Paradisi, sci-fi de horror sobre o bem e o mal em luta secular; “Iron Warrior/O Guerreiro de Aço” (1987) também de Alfonso Brescia; “Curse 2 – The Bite” (1989) de Frederico Prosperi, sobre um mané que é mordido por uma cobra radioativa e o resto pode ser imaginado; “Lambada” (1991) de Fábio Barreto, trasheira musical que tentava lucrar com a moda da lambada; “American Ninja 5” (1993) de Bobby Gene Leonard, com Pat Morita no elenco; entre vários outros exemplos de como ser um exploitation man do cinema.

Giannetto De Rossi (1942), responsável pelos ótimos momentos gores de “Piranha 2”, começou como maquiador em filmes como “Le Ore Dell”Amore” (1963) de Luciano Salce, comédia romântica estrelada por Ugo Tognazzi e Barbara Steele, “C’era una Volta il West/Era uma vez no Oeste” (1969) de Sergio Leone e “Quando le Donne Avevano la Coda/Quando as Mulheres Tinham Rabo” (1971) de Pasquale Festa Companile, comédia incorreta com Senta Berger. Em 1972 trabalhou na comédia “All’Onorevole Piacciono le Donne…/O Deputado Erótico”, dirigido por Lucio Fulci, trampo que colocou os dois em contato. Logo em seguida De Rossi trabalhou com Jorge Grau no clássico “Non si Deve Profanare il Sono dei Morti/Let Sleeping Corpse Lie/Zumbi 3”, onde criou efeitos de maquiagens gores convincentes. Mas foi com Lucio Fulci que extrapolou todos os limites do bom gosto ao elaborar os efeitos ultra gores de filmes como “Zumbi 2” (1979); “… E Tu Vivrai nel Terrore! L’Aldilà/Terror nas Trevas” (1981) e “Quella Villa Accanto al Cimitero/The House by the Cemetery/A Casa dos Mortos-Vivos” (1981). Sempre metido nas produções mais divertidas, De Rossi trabalhou em inúmeros filmes que marcaram época, como “L’Umanoide/O Humanóide” (1979), sci-fi cara de pau de Aldo lado; “Conan The Destroyer/Conan, O Destruidor” (1984) de Richard Fleischer, fantasia com Schwarzenegger; “Rambo III” (1988) de Peter McDonald, ação com Stallone; “Killer Crocodille” (1989), horror sobre um crocodilo gigante de Fabrizio de Angelis; entre vários outros. Giannetto De Rossi também foi responsável pela criação dos efeitos realistas do “snuff movie” que é projetado em “Emanuelle in America” (1977) de Joe D’Amato, estrelado por Laura Gemser. Giannetto ainda dirigiu três longas: “Cyborg, il Guerriero D’Acciaio” (1989), sci-fi de ação; “Killer Crocodille II” (1990), continuação sangrenta das aventuras do crocodilo gigante; e o filme em vídeo “Tummy” (1995), sobre um garoto que foge do orfanato com duas criaturas mágicas.

“Piranha 2 – Assassinas Voadoras” foi lançado em DVD no Brasil pela Columbia Tri Star Home Video e é ótimo para ver que todos os gigantes da indústria cinematográfica mundial começam pequenos.

por Petter Baiestorf.

Torremolinos 73

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 22, 2012 by canibuk

“Torremolinos 73” (“Da Cama Para a Fama”, 2003, 91 min.) de Pablo Berger. Com: Javier Cámara, Candela Peña e Juan Diego.

Este filme é uma bela surpresa para qualquer cinéfilo. Tinha visto ele na época de seu lançamento em DVD aqui no Brasil, com o equivocado título nacional de “Da Cama para a Fama” (coisas da distribuidora Imagem Filmes, que nunca teve grande criatividade para títulos, nem capinhas, e nunca soube muito bem como vender seus produtos para o público certo), e alguns dias atrás revi este pequeno grande filme e continuei achando empolgante e digno de indicação.

“Torremolinos 73” conta a história de Alfredo López (Javier Cámara), vendedor de enciclopédias de porta em porta, que está com problemas em casa: Não entra dinheiro e sua esposa Carmen (Candela Peña) está querendo um filho. Ao ser chamado por seu patrão para uma reunião, Alfredo teme pelo pior. Mas não, eis que surge a oportunidade dele ingressar no maravilhoso mundo do cinema com produções eróticas em Super 8 para serem encartadas numa enciclopédia audiovisual sobre a reprodução humana. Com sua esposa sendo sua atriz-musa inspiradora, nosso aspirante a cineasta começa a fazer vários curtas pornográficos e finalmente o dinheiro começa a entrar em sua vida. Estuda técnicas e iluminações possíveis para o Super 8 e de filme em filme vai evoluindo e caindo nas graças de seu patrão mercenário. Ao mesmo tempo que Alfredo se encanta com as possibilidades do cinema, Carmen fica mais frustrada por não conseguir engravidar (numa linda comparação entre cinema-filhos). É significativo a cena em que Alfredo vai se masturbar no banheiro de um hospital para colher seu esperma para exames – onde a contagem de seu esperma é zero – e ali, se masturbando solitário com uma foto da esposa, ele concebe a idéia para o roteiro de seu primeiro longa, intitulado “Torremolinos 73”.

Alfredo López é fanático pela obra de Ingmar Bergman, mas filma como se fosse Jesus Franco. Essa relação entre Bergman-Franco fica ainda mais óbvia quando a produção de “Torremolinos 73” tem início. Filmado no inverno na cidade de Torremolinos (município turístico banhado pelas água do Mediterrâneo), portanto quase uma cidade fantasma. Alfredo e sua pequena e dedicada equipe-técnica (composta de dinamarqueses que não falam espanhol) vão criando uma homenagem à “Det Sjunde Inseglet/O Sétimo Selo”, com cara de “Macumba Sexual”, que fala sobre sexo, desejo e morte, com momentos do mais puro horror acidentalmente surrealista de Franco. Arte e lixo andam de mãos dadas! Não posso revelar o final, mas basta dizer que numa seqüência chave Alfredo consegue finalizar seu filme e Carmen consegue realizar seu sonho de engravidar. Aliás, Alfredo e Carmen são Jesus e Lina!!!

Ernst Ingmar Bergman (1918-2007) nasceu na Suécia e começou a trabalhar no cinema em 1941 como roteirista. Em 1957 surpreendeu o mundo ao lançar, com apenas 10 meses de intervalo, dois clássicos do cinema mundial, “Det Sjunde Inseglet/O Sétimo Selo” e “Smultronstället/Morangos Silvestres”, filmes eternamente copiados por cineastas acadêmicos sem imaginação ou inventividade. Com uma sucessão incrível de filmes excepcionais, muitos deles explorando a fé e a existência de Deus (o pai de Bergman era um luterano fanático, simpatizante do nazismo, que foi ministro do rei da Suécia), em 1966 escreveu e dirigiu “Persona”, filme que ele considerava sua obra-prima. Em 1976 foi preso por sonegação de impostos e jurou que nunca mais faria um filme na Suécia, promessa quebrada em 1982 quando voltou ao seu país de origem para dirigir “Fanny Och Alexandre”. Bergman é adorado tanto por acadêmicos chatos quanto por trashmaníacos descolados.

Jesús Franco Manera (1930) é o principal cineasta ativo na Espanha (gente como Almodóvar, Iglesia ou Segura, me desculpem, vem depois), um gênio dos filmes de baixo-orçamento nunca reconhecido em seu próprio país. Fez filmes de tudo quanto é gênero e ganhou destaque internacional com seus filmes de horror entrelados por suas deliciosas mulheres, primeiro Soledad Miranda, depois a deusa Lina Romay. Dirigiu mais de 200 longa-metragens (neste ano de 2012, por exemplo, já lançou “La Cripta de las Condenadas” parte 1 e 2 e agora trabalha na pós-produção de “Al Pereira Vs. The Alligator Ladies” e 2012 ainda tem mais quatro meses). Você até pode odiar o cinema de Jesus Franco, mas nunca poderá fugir de suas produções. Aqui no Brasil inúmeros clássicos do mestre espanhol estão sendo laçandos em DVD pela distribuidora Vinny com o abusivo preço de R$ 40.00, em média, cada! Jesus Franco nunca foi preso por sonegação de impostos e seu pai não foi ministro do ditador generalíssimo Francisco Franco.

Pablo Berger (1963) nasceu em Bilbao, Espanha, e se tornou jornalista e, logo depois, publicitário. Em 1988 lançou o genial curta-metragem “Mamá” (que trazia como diretor artístico o cineasta Álex de la Iglesia), uma comédia de humor negro alucinada sobre um moleque fanático por cultura pop vivendo num porão com sua família histérica após os marcianos terem destruido a central Nuclear de Erandio. “Torremolinos 73” foi seu primeiro longa-metragem, onde o jovem diretor exercitou sua paixão pelo cinema com muito bom humor e uma trilha sonora carregada de fantásticos sucessos dançantes da música popular espanhola. Em setembro de 2012 deverá estreiar (na Espanha) seu novo longa, “Blancanieves”, sua versão dramática (seja lá o que isso signifique) do chatinho conto de fadas “Branca de Neves”. Pode ser uma merda, mas se tratando de um filme de Pablo Berger é bom dar uma espiadinha na produção.

Por Petter Baiestorf.

Banquete de Sangue no Mundo dos Nudie Movies

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 17, 2012 by canibuk

“Blood Feast” (“Banquete de Sangue”, 1963, 67 mim.) de H.G. Lewis. Com: William Kerwin, Mal Arnold e Connie Mason.

No início dos anos de 1960 o mercado de nudie movies estava lotado de produtores picaretas que davam ao público produções ultra-baratas com aquilo que o público queria ver: Nudez! Eram filmes com orçamento extremamente baixo que eram escoados em salas de cinema destinadas aos adultos (as chamadas Grindhouse Theatres que, ao contrário do que a imprensa brasileira quer fazer acreditar, eram locais exibidores e não um gênero de filme), muitas destas produções distribuida por Harry Novak. David F. Friedman e H.G. Lewis faziam nudies e, querendo um diferencial às suas produções, resolveram fazer filmes de horror onde o sangue jorrasse colorido, as mutilações fossem explícitas e a diversão macabra em tom de farsa, assim relegaram ao mundo o clássico “Blood Feast” (seguido do espetacular “Two Thousand Maniacs!” e “Color Me Blood Red”).

Para seu primeiro horror gore a dupla Friedman-Lewis rabiscou um argumento e chamou a roteirista Allison Louise Downe para fazer a ligação entre uma e outra cena. A história é mais ou menos essa aqui: Em Miami Fuad Ramses (Mal Arnold) tem um restaurante que fornece comida em festas. Pancada da cabeça, Ramses está preparando um ritual para trazer de volta a deusa Ishtar, a mãe das trevas, com uma solução contendo partes de cadáveres de mulheres mortas. Mero pretexto para mostrar a mais divertida série de assassinatos grotescos que o cinema teve até aquele ano. É uma orgia de sangue com inúmeras mutilações de vermelho denso e as investigações de um grupo de policiais palermas encabeçados pelo detetive Pete (William Kerwin usando o nome Thomas Wood), que passa a namorar Suzette (Connie Mason), objeto de desejo do ensandecido Ramses que terá uma morte esmagadoramente hilária.

Com efeitos gore elaborados pelo próprio diretor do filme, coisas simples como vísceras de animais, sangue de um vermelho vibrante falso, pedaços de manequins, “Blood Feast” surpreendeu o público ao estreiar em drive-ins de New York com o produtor Friedman distribuindo sacos de vômito ao público pagante. Na Flórida, com o filme prestes a estreiar, a dupla picareta tirou, intencionalmente, uma medida cautelar contra seu próprio filme a fim de gerar publicidade e o tiro foi certeiro: O público lotou as salas onde era exibido. “Blood Feast” rendeu muito dinheiro, mas é uma produção quase amadora onde nada foi levado a sério, tanto que paralelo ao lançamento do filme, Lewis lançou também o livro “Blood Feast” que é ainda mais humoristico e insano.

Herschell Gordon Lewis nasceu em 1929 em Pittsburgh, se mudando para Chicago quando adolescente e só fez filmes divertidos. Seu primeiro emprego foi numa agência de publicidade (o que explica suas bem boladas campanhas promocionais para os filmes) e, em seguida, dirigiu comerciais para a televisão. Seu primeiro filme, o drama “The Prime Time” (1959), foi também o primeiro longa produzido em Chicago desde 1910. Em seguida conheceu David F. Friedman e juntos realizaram “Living Venus” (1961), sobre um fotografo que tem uma revista de mulher pelada, tudo inspirado em Hugh Hefner, dono da “Playboy”. O filme rendeu uma boa grana e a dupla se dedicou a produção de inúmeros outros nudies, coisas como “The Adventures of Lucky Pierre” (1961), uma imitação sem talento do clássico “The Immoral Mr. Teas” (1959) do genial Russ Meyer; “Daughter of the Sun” (1962), sobre uma mulher que descobre ser nudista; “Nature’s Playmates” (1962), onde um detetive particular investiga um caso de desaparecimento num campo de nudismo e o divertido “Boin-n-g” (1963), onde, em exercício de metalinguagem, um produtor e um diretor de cinema inexperientes realizam testes com mulheres para a produção de um nudie movie. Nesta época a produção de filmes explorando nudez era tanta que a dupla resolveu apostar no então desconhecido território dos filmes gore exageradamente violentos com “Blood Feast”. Entre “Blood Feats” (1963) e “Two Thousand Maniacs!” (1964), a dupla ainda realizou mais três filmes: “Goldilocks and the Three Bares” (1963), um musical sobre cantores folclóricos num campo de nudismo; “Bell, Bare and Beautiful” (1963), sobre um jovem milionário que persegue uma stripper num campo de nudismo; e “Scum of the Earth” (1963), dramalhão sobre um fotografo e uma inocente jovem.

Com “Two Thousand Maniacs!” a dupla foi além no seu gosto pelo exagero, colocando um grupo de jovens numa cidade onde absolutamente todos os moradores são assassinos. “2000 Maniacs!” foi o segundo filme da chamada, posteriormente, “The Blood Trilogy” que fechou com “Color me Blood Red” (1965). Filmado em apenas 15 dias na cidade de St. Cloud, Flórida, com toda a cidade participando do filme (percebemos incontáveis figurantes do filme sorrindo de alegria por estarem trabalhando num filme) e algumas mortes, como a do barril com pregos colina abaixo, sendo boladas pelo filho de Lewis, então com 11 anos, a produção foi um enorme sucesso nos drive-ins americanos. Entre “2000 Maniacs!” e “Color me Blood Red”, outros três filmes foram feitos: “Moonshine Mountain” (1964), sobre um cantor country; o desconhecido “Sin, Suffer and Repent” (1965), que não consegui assistir; e o clássico “Monster a Go-Go” (1965), que conta a história de uma capsula espacial que volta para a Terra e o astronauta desaparece ao mesmo tempo que um monstro misterioso começa a atacar (na verdade era um filme incompleto que foi comprado e remontado por Lewis, lançando-o como seu). Depois do sucesso de “Color me Blood Red”, Lewis e Friedman se separaram e o diretor continuou se exercitando com sangueiras espetaculares como “A Taste of Blood” (1967), épico de quase duas horas de duração com um vampiro caçando os descendentes dos assassinos de Drácula; “The Gruesome Twosome” (1967), com um assassino tirando o escampo de suas vítimas; “Something Weird” (1967), que foi a inspiração para o nome da distribuidora Something Weird Video; “The Wizard of Gore” (1970), clássico do gore sobre o mágico que hipnotiza e mutila suas vítimas num palco diante uma platéia sedenta por violência e “The Gore Gore Girls” (1972), onde um jornalista investiga as mortes de strippers.

Entre uma e outra filmagem de seus filmes gores, Lewis fazia todo tipo de produções onde pudesse ganhar alguns trocados, assim realizou “She-Devils on Wheels” (1968), violento biker movie que rende ótimas gargalhadas involuntárias por conta de seu elenco canastrão; “Just for the Hell of It” (1968), drama envolvendo gangues de delinquentes junenis; “How to Make a Doll” (1968), onde um professor nerd cria maravilhosas fêmeas rôbos; e “The Year of the Yahoo” (1972), drama cômico sobre um cantor country que ajuda na campanha política de um senador. H.G. Lewis sempre financiou ele próprio seus filmes com dinheiro de sua bem sucedida agência de publicidade que mantinha em Chicago. Lewis também escreveu mais de 20 livros, entre eles “The Businessman’s Guide to Advertising and Sales Promotion”, onde ensinava como ganhar dinheiro. Em 2002 Lewis voltou a dirigir filmes justamente com a continuação de “Blood Feast” que se chamou “Blood Feast 2: All U Can Eat”, uma divertida comédia sangrenta sobre uma nova tentativa de realizar outro banquete para Ishtar.

David F. Friedman (1923-2011) quando adolescente se tornou projecionista de um cinema em Buffalo. Durante o tempo em que serviu no exército conheceu Kroger Babb (um dos pioneiros na arte de produzir exploitation movies, a maioria dos filmes dele são aqueles hilários filmes de educação sexual destinados ao público adulto) e acabou se interessando pela produção de filmes. Nos anos de 1950 fundou uma produtora de filmes exploitation lançando “Cannibal Island” (1956), sobre a vida e costumes dos povos primitivos (na verdade Friedman comprou o documentário “Gow the Killer” (1931) e o remontou para parecer um novo filme). No início dos anos 60 conheceu Herschell Gordon Lewis e mantiveram uma parceria de sucesso realizando, principalmente, nudie movies e gores de humor negro. Quando a parceria entre os dois chegou ao fim, Friedman se voltou ao mercado de sexploitations com filmes como “The Defilers” (1965) de Lee Frost, drama sobre uma mulher mantida como escrava sexual; “The Notorious Daughter of Fanny Hill” (1966) de Peter Perry Jr., sobre um puteiro; “She Freaks” (1967) de Byron Mabe, refilmagem disfarçada do clássico “Freaks” (1932) de Tod Browning, só que com tudo mal feito; “The Acid Eaters” (1968) de Byron Mabe, filme jovem sobre tomadores de LSD; “Space Thing” (1968) de Byron Mabe, sci-fi altamente erótica sobre gostosas alienígenas taradas onde algumas cenas explícitas já apareciam; “The Ribald Tales of Robin Hood” (1969) de Richard Kanter e Erwin C. Dietrich, que colocava o herói Robin Hood em contato com deliciosas mulheres; “Love Camp 7” (1969) de Lee Frost, onde duas agentes aprontava altas confusões eróticas numa prisão nazista; “The Adult Version of Jekyll and Hyde” (1972) de Lee Raymond, onde a história do “Médico e o Monstro” ficava mais apimentada; “The Erotic Adventures of Zorro” (1972) de Robert Freeman, onde Zorro tirava tudo menos sua máscara e cavalgava lindas mocinhas; “Ilsa – She Wolf of the SS” (1975) de Don Edmonds, nazixploitation violento que ele assinou com o pseudônimo de Herman Traeger; entre vários outros filmes que faziam a alegria dos marmanjos dos anos 60 e 70. Friedman foi um dos precursores da pornográfica explícita que tomou de assalto os cinemas américanos após o sucesso comercial de “Deep Throat/Garganta Profunda” (1972) de Gerard Damiano, chegando a ser presidente da Adult Film Association of America. Em 1990 ele publicou sua auto-biografia “A Youth in Babylon: Confessions of a Trash-Film King”, onde afirmava: “Eu realizei alguns filmes terríveis, mas não invento nenhuma desculpa para qualquer coisa que fiz. Ninguém nunca pediu seu dinheiro de volta!”. Em 2002, para fechar sua lenda com chave de sangue, foi o produtor de “Blood Feast 2: All U Can Eat” e, em 2005, do remake “2001 Maniacs” de Tim Sullivan (e também da continuação do remake, “2001 Maniacs: Field of Screams” (2010), também de Sullivan).

A roteirista de “Blood Feast”, Allison Louise Downe é mais conhecida como atriz de nudie movies, geralmente usando os pseudônimos Bunny Downe ou Vickie Miles. Apareceu em alguns filmes da lendária Doris Wishman, como “Diary of a Nudist” (1961) e “Blaze Starr Goes Nudist” (1962). Apareceu também nos filmes do período nudista de Lewis, como “Nature’s Playmates” (1962) e “Boin-n-g” (1963) e no drama “Suburban Roulette” (1968). Com o diretor Barry Mahon, outro lendário picareta do mundo dos nudie movies, deu as tetas e bunda em filmes como “Pagan Island” (1961), “Bunny Yeager’s Nude Camera” (1963) e apareceu, não-creditada, como a primeira vítima no clássico bagaceiro de Mahon, o ultra-trash cult “The Beast That Killed Women” (1965), sobre um gorila que ataca mulheres nuas num campo nudista. O casal de mocinhos de “Blood Feast”, William Kerwin e Connie Mason, eram casados na vidade real. Kerwin é conhecido por sua longa parceria com o diretor Lewis, ambos eram amigos e trabalharam juntos em “Living Venus” (1961) não parando mais. Outros filmes de destaque onde ele tem papéis são trasheiras como “Sex and the College Girl” (1964) de Joseph Adler; “House of Terror” (1973) de Sergei Goncharoff; “Barracuda” (1978) de Harry Kerwin e Wayne Crawford e “Porky’s 2” (1983) de Bob Clark, onde usou o pseudônimo de Rooney Kerwin. Apareceu em mais de 150 filmes, a grande maioria produções para a televisão. Sua esposa, Connie Mason, também fez inúmeros papéis em filmes e séries de TV. Recebendo crédito na tela só em “Blood Feast” e “2000 Maniacs”, ela foi figurante em filmes de Hollywood como “Diamonds are Forever/007 – Os Diamantes são Eternos” (1971) e “The Godfather 2/O Poderoso Chefão 2” (1974) de Francis Ford Coppola, renomado diretor de Hollywood descoberto por Roger Corman. Connie foi coelhinha da revista Playboy em junho de 1963. Para saber mais sobre Connie, leia “Connie Mason: Da Nudez ao Gore!

Em 1986 foi lançado “Blood Diner” de Jackie Kong, uma divertida refilmagem de “Blood Feast” que possuia um estilo de humor avacalhado que lembrava as produções da Troma. John Waters, fã confesso da obra de H.G.Lewis, lhe rendeu várias homenagens em seus filmes, como o título “Multiple Maniacs” (1970) que é inspirado em “2000 Maniacs!” e referências aos filmes de Lewis em produções como “Serial Mom/Mamãe é de Morte” (1994) e “Cecil B. Demented” (2000), homenagens que Lewis retribuiu em 2002 quando ofereceu à Waters o papel do reverendo que aparece em “Blood Feast 2”. A título de curiosidade: H.G. Lewis já esteve em Porto Alegre/RS dando uma série de palestras para empresários sobre como ser bem sucedido no mundo dos negócios, ninguém destes empresários tinha a menor idéia que estavam diante de uma lenda do cinema exploitation mundial.

por Petter Baiestorf.

Assista “Blood Feast” aqui:

A Putinha Retalhada e o Vagabundo com uma Espingarda

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on julho 18, 2012 by canibuk

“Hobo With a Shotgun” (“O Vingador”, 2011, 85 min.) de Jason Eisener. Com: Rutger Hauer, Molly Dunsworth e Brian Downey.

Tudo que “Machete” e “Death Proof” gostariam de ter sido e não conseguiram “Hobo With a Shotgun” consegue ser, uma verdadeira homenagem alucinada, debochada e violenta ao delicioso mundo dos psychotronic movies dos anos 70 com um pé na demência da Troma. O pecado de filmes como os citados “Machete” e “Death Proof” foi tentar homenagear o cinema vagabundo usando inúmeros astros fálidos de Hollywood (sem contar os roteiros de ambos os filmes que são ruins demais) para atrair este público sem bagagem cinematográfica de salas de shopping, aguentar xaropes como Robert De Niro ou dondocas como Jessica Alba no lugar de algum desconhecido talentoso e insano é dose. Rodrigues e Tarantino até podem parecer violentos quando comparados ao cinemão de Hollywood, mas quando pisam no terreno do selvagem cinema sleaze classe Z (ou psychotronic ou grindhouse, como queiram), não conseguem acrescentar nada à este subgênero tão querido e cultuado.

Sem enrolações ou maiores pretensões, um vagabundo (Rutger Hauer em momento inspiradíssimo) chega numa cidade dominada por um chefão (Brian Downey) e seus filhos sádicos e já presencia a execução pública do irmão do chefão em uma inventiva cena envolvendo o correto uso das tampas de bueiros e uma puta tomando banho num chafariz de sangue. A população toda da cidade parece não prestar (lembra a população do clássico “Straight to Hell/À Caminho do Inferno” (1987) de Alex Cox), a força policial inteira é corrupta e a população se esconde em sua individualidade egoísta. O vagabundo sonha em comprar um cortador de grama para começar seu próprio pequeno negócio, mas o sonho é interrompido no momento em que ele salva uma puta que seria estuprada por um dos filhos psicopatas do chefão. Daí em diante o ritmo do filme, que já era alucinado, fica mais demente ainda com o vagabundo comprando uma espingarda (a maneira como ele consegue o dinheiro é um momento lindo do cinema vagabundo mundial) e fazendo justiça com as próprias mãos, virando uma espécie de Charles Bronson de “Death Wish” às avessas, mais selvagem e acertadamente menos reflexivo. Os dois filhos do chefão, em um ato de selvageria extrema, se armam de um lança-chamas e dois rádios modelo anos 80 e fritam um ônibus escolar cheio de criancinhas. Com sua cabeça à prêmio o vagabundo precisa encontrar um jeito de se mandar da violenta cidade ou enfrentar todos num banho de sangue envolvendo dois guerreiros vestindo armaduras, a puta e seu cortador de grama, castrações, pescoços serrados, um hospital cheio de recém nascidos, divertidas carnificinas e um desfecho comovente.

“Hobo With a Shotgun” era, inicialmente, um trailer falso dirigido por Jason Eisener para o concurso internacional para promover o lançamento mundial do double feature “Grindhouse” (que tinha “Death Proof” de Tarantino e “Planet Terror” de Rodrigues). Tendo vencido o concurso, o trailer falso de “Hobo” começou a ser exibido junto de “Grindhouse” e foi a deixa para ser transformado num longa. O diretor Jason Eisener ainda é jovem demais para qualquer previsão de carreira, o mais certo é que acabe cooptado pelo cinemão americano e acabe fazendo filminhos mornôs para algum estúdio (torço para que isso não aconteça porque Jason Eisener foi um dos únicos jovens diretores que realmente me deixou empolgado com as possibilidades de um cinema mais virulento e ainda assim cheio de bom humor doente). Antes de “Hobo” ele já havia dirigido o horror “The Teeth Beneath” (2005) em parceria com Zach Tovey e os curtas “The Pink Velvet Halloween Burlesque Show!” (2006) e o genial “Treevenge” (2008) sobre árvores de natal se vingando dos humanos que merece virar um longa tão alucinado e incorreto quanto “Hobo With a Shotgun”. Seu último trabalho foi dirigindo um segmento no longa ainda não lançado “The ABCs of Death” que reune uns 25 diretores considerados a “nata” da nova geração do horror mundial e fico na esperança que seja insano e inventivo, que fuja do lugar comum que o atual cinema de horror se tornou.

O diretor de fotografia de “Hobo” é Karim Hussain que estreiou na direção de longas com o pretencioso “Subconscious Cruelty” (2000), um filme que tenta chocar o público com suas pretensas cenas fortes mas que só aborrece (apesar que gosto muito da cena envolvendo Jesus Cristo). Em seguida realizou “Ascension” (2002), uma fantasia dramática de horror; “La Belle Bête” (2006), um drama sobre os conflitos entre beleza e feiura (neste mesmo ano ele produziu o suspense “The Abandoned” de Nacho Cerdà) e “The Theatre Bizarre” (2011), longa em episódios de diretores como Tom Savini, Richard Stanley, Douglas Buck, Karim e outros. Karim Hussain é um canadense nascido em 1974 e ainda deve produzir muito filme interessante, é bom não perdê-lo de vista.

“Hobo With a Shotgun” foi lançado em DVD aqui no Brasil pela distribuidora Califórnia com o manjado título de “O Vingador”. Eu prefiro chama-lo de “A Putinha Retalhada e o Vagabundo com uma Espingarda” que acredito ser mais fiel ao espírito demente do filme e ao seu status de cult movie instantâneo. Um dos grandes clássicos do cinema atual.

por Petter Baiestorf.

Calafrios

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on maio 25, 2012 by canibuk

“Shivers” (ou “Orgy of the Blood Parasites” ou “They Came From Within” ou “The Parasite Murders”, “Calafrios” no Brasil, 1975, 87 min.) de David Cronenberg. Com: Paul Hampton, Joe Silver, Barbara Steele, Lynn Lowry e Susan Petrie.

Um cientista conduz experiências onde almeja criar um parasita que possa ser usado em transplantes de orgãos que não funcionam mais, onde o paciente com um rim doente, por exemplo, receberia o parasita que faria o trabalho do rim em troca de um pouco de sangue como alimento. Mas algo sai errado e o que o cientista acaba criando é um parasita que assume o controle do paciente e faz sua libido sexual, sem culpas ou moralismos, crescer assustadoramente; uma combinação entre afrodisíaco e doença venérea que foge do controle quando a namorada adolescente do cientista espalha o parasita para outras pessoas do moderno condomínio onde vivem vários tipos humanos que logo se tornam tarados sexuais em busca de formas de saciar seu apetite sexual.

“Shivers”, o primeiro longa-metragem profissional de David Cronenberg (que antes havia dirigido apenas os curtas “Transfer” (1966), “From the Drain” (1967), os experimentais “Stereo” (1969) e “Crimes of the Future” (1970) e inúmeros curtas para a TV canadense), é a cara do cinema dos anos 70, um cinema que não fazia concessões para agradar o espectador, investia em roteiros originais/adultos (onde sexo e assuntos sérios eram discutidos), apostava em atores desconhecidos/amadores e os finais destes filmes geralmente eram bem pessimistas acerca dos rumos que a humanidade estaria tomando. Claro que tamanha ousadia não passaria desapercebida, depois de lançado “Shivers” foi a maior bilheteria do cinema canadense e foi discutido em seu parlamento que havia colocado em dúvida seu valor social e artístico para a sociedade, já que boa parte do dinheiro da produção havia vindo do Canadian Film Corporation, que era mantido pelo contribuinte através dos impostos.

Filmado em apenas 15 dias, “Shivers” foi um desafio para o jovem Cronenberg que lutou para ser o diretor do filme durante 3 anos (seu roteiro chegou até a ser oferecido ao lendário Roger Corman, mas uma cláusula no contrato que dava ao roteirista o direito de dirigi-lo, manteve Corman fora do projeto). O aval para a realização do filme veio depois que Barbara Steele (que Cronenberg havia conhecido no lançamento de “Caged Heat” (1974) de Jonathan Demme) concordou em tomar parte da empreitada. Os testes de elenco de “Shivers” foram abertos, ou seja, qualquer pessoa que não fosse ator poderia conseguir um papel. Susan Petrie, uma atriz de comédias de baixo orçamento, lutou pelo papel da personagem Janine Tudor, onde teria que chorar em várias cenas, como não conseguia chorar, Cronenberg conta, que antes de cada take a atriz pedia para que ele a esbofeteasse violentamente, criando um verdadeiro clima de sadomasoquismo entre ele e a atriz, para o espanto da equipe-técnica chocada pelo método nada ortodoxo de direção.

David Cronenberg nasceu em Toronto, Canadá, em 1943. Ainda criança começou a escrever histórias e seu interesse por ciências o levou a entrar no programa “Honours Science” da Universidade de Toronto. Inspirado pelo cinema underground de New York, conseguiu realizar seus primeiros curtas. Durante toda década de 1970 seus filmes foram produzidos com ajuda do dinheiro do contribuinte canadense (pelo menos não foi parar no bolso dos políticos de lá). Entre outros, realizou o maravilhoso “Rabid/Enraivecida – Na Fúria do Sexo” (1977), estrelado pela atriz pornô Marilyn Chambers (do clássico imperdível “Behind the Green Door/Atrás da Porta Verde”, de 1972) e que contava a história de uma garota que, após uma cirurgia, sofre uma mutação e começa a se alimentar de sangue; “Fast Company” (1979), um drama sobre o universo automobilistico lançado no Brasil pela distribuidora Zircon Films com o título “A Escuderia do Poder” e “The Brood/Os Filhos do Medo” (1979, em VHS no Brasil pela Top Tape), onde um psiquiatra aplica um método experimental de exteriorização de traumas e uma de suas pacientes gera uma “ninhada” de crianças que agirão comandadas por sua sede de vingança, um drama sangrento que Cronenberg escreveu após sua separação.

Os anos de 1980 começam com o sucesso internacional de “Scanners/Sua Mente pode Destruir” (1981, Van Blad Vídeo), um filme revolucionário onde somos apresentados aos Scanners, pessoas com poderes mentais, que são usados pela indústria farmaceútica (e que tem a famosa cena de uma cabeça explodindo sem cortes antes da computação gráfica estragar o cinema), filmaço que abriu as portas dos grandes estúdios americanos para o peculiar estilo de filmar horror adulto/inteligente de Cronenberg; Para a Universal Studios faz “Videodrome” (1983, Universal Home Vídeo), que mostrava como controlar os espectadores através da TV, com ótimos efeitos de maquiagens de Rick Baker; “The Dead Zone/A Hora da Zona Morta” (1983, Europa Multimedia) é a adaptação de um livro de Stephen King (que estava em moda nos anos de 1980) onde um paciente acorda do coma com a capacidade de ver o futuro das pessoas que toca; “The Fly/A Mosca” (1986, Fox Home Vídeo) é uma releitura moderna extremamente gore do clássico “The Fly/A Mosca da Cabeça Branca” (1958, Fox Home Vídeo) que havia sido estrelado pelo cult e genial Vincent Price. “The Fly” teve um grande orçamento (foi produzido pelo comediante Mel Brooks) mas não foi sucesso de público nos cinemas, diz a lenda que os espectadores ficavam ruins do estômago ao tentar assistí-lo. Cronenberg fechou a década de 1980 com “Dead Ringers/Gêmeos – Mórbida Semelhança” (1988, em VHS pela F.J. Lucas Vídeo), um drama sexual sobre ginecologistas gêmeos e sua relação com uma paciente feiosa. Acho muito discreto este filme, o assunto poderia ter rendido bem mais.

A década de 1990 parecia promissora quando Cronenberg lançou “Naked Lunch/Mistérios e Paixões” (1991, Spectra Nova), drama lisérgico inspirado no livro homônimo de William S. Burroughs sobre um escritor viciado em drogas que não sabe mais distinguir realidade e delírio. Em seguida o cineasta realiza o pomposo (perdão) “M. Butterfly” (1993), que na época de seu lançamento achei divertido, mas preciso revê-lo para ter uma nova opinião sobre o filme, e o genial “Crash/Estranhos Prazeres” (1996, em VHS pela Columbia Pictures), onde Cronenberg ajeita o chatíssimo livro de J.G. Ballard e nos apresenta seu último grande filme, uma história sexy sobre pessoas que após sofrerem acidentes de carro começam a procurar por sexo bizarro envolvendo carros. Nos últimos anos não realizou nenhum novo clássico, “ExistenZ” (1999) é fraquinho; “Spider” (2002, Movie Star) mornô e os filmes policiais que realizou (“A History of Violence/Marcas da Violência, 2005; “Eastern Promises/Senhores do Crime”, 2007 e “A Dangerous Method/Um Método Perigoso”, 2011) são burocráticos. Dá pena ver um cineasta tão bom desperdiçando seu talento por conta da mediocridade da indústria cinematográfica e seu público idiotizado atual.

Na produção de “Shivers” Cronenberg recebeu uma grande ajuda de Ivan Reitman que em 1972 já havia dirigido o ótimo “Cannibal Girls”. Se alternando nas funções de direção e produção, Reitman fez “Meatballs” (1979) e conseguiu chamar atenção dos grandes estúdios e na seqüência conseguiu emplacar o blockbuster “Ghost Busters/Os Caça-Fantasmas” (1984, Columbia Pictures), campeão das bilheterias dos anos 80. Depois dirigiu megas-porcarias estreladas por Arnold Schwarzenegger como “Twins/Irmãos Gêmeos” (1988), “Kindergarten Cop/Um Tira no Jardim de Infância” (1990) e “Junior” (1994). Verdadeira decadência para o cara responsável pela produção de filmaços como “Death Weekend/Fim de Semana Mortal” (1976) de William Fruet, “Rabid” (1977) de Cronenberg, “Ilsa – The Tigress of Siberia” (1977) de Jean LaFleur, “Animal House/O Clube dos Cafajestes” (1978) de John Landis e “Heavy Metal/Universo em Fantasia” (1981) de Gerard Potterton.

Um dos grandes destaques de “Shivers” são as maquiagens gore, simples mas de grande eficácia. Joe Blasco trabalhava com maquiagens para a TV quando realizou as trucagens gores para “Garden of the Dead” (1974) de John Hayes, distribuido nos USA pela Troma e do clássico “Ilsa: She Wolf of the SS” (1975) de Don Edmonds. Isso lhe valeu o convite para trabalhar em “Shivers” e “Rabid”. Quem aprecia bons trash-movies sem orçamento não devem perder o trabalho de maquiagem de Blasco nos filmes “Track of the Moon” (1976) de Richard Ashe, onde Blasco também “interpreta” a criatura, “Ilsa – The Harem Keeper of the Oil Sheiks” (1976) de Don Edmonds, “The Clonus Horror” (1979) de Robert S. Fiveson e “Whispers” (1990) de Douglas Jackson.

“Shivers” é um filme corajoso, fala sobre o corpo humano e nossos desejos sexuais que são sempre reprimidos pela moralidade social e religiosa de nossa sociedade. Aqui os infectados pelo parasita viram uma espécie de zumbis tarados e dão vazão aos seus instintos. Cronenberg aproveita para discutir assuntos tabus como pedofilia, incesto, homosexualismo, bestilismo, machismo e até o desejo sexual dos velhos. E tudo isso discutido embalado com uma roupagem de cinema gore sexploitation de alta qualidade e diversão. Cronenberg faz falta!

Aqui no Brasil o filme se chama “Calafrios” e já foi lançado em VHS pela F.J. Lucas Vídeo e em DVD pelos picaretas sem classe da Continental. Este filme ainda aguarda, como tantos outros clássicos do cinema gore, um lançamento decente (de preferência em Blu-Ray) em nosso país, cheio de material extra e o filme com qualidade de imagem impecável. Distribuidoras, façam seu trabalho bem feito, por favor!


Barbara Steele – Tão grande que não cabe em rótulos!

Barbara Steele enfeitiça. Lembro-me bem da primeira vez em que a vi num filme, justamente o “Shivers” e, apesar do papel pequeno e sem tanto destaque como em seus mais conhecidos filmes, ela simplesmente me enfeitiçou pela forte presença, pela beleza estranha, a estrutura óssea facial grande e forte (como desenho mulheres acabo sempre observando isso em todas, e o rosto da Steele parece ter sido esculpido com proporções todas erradas, mas que mesmo assim acabou dando todo certo no final), o sorriso largo e os olhos profundos e malignos. Pensei: “Como ela é gigante! Que rosto monstruoso e perfeito! Essa mulher é uma obra de arte!”. A partir daí eu precisa saber mais e ver mais sobre ela. Virei Fã.
Hoje, com setenta e cinco anos, a mais poderosa atriz dos filmes de horror que de tão grande não cabe em rótulos,  se assusta com o assédio dos fãs que até hoje a abordam empolgados por causa dos seus filmes antigos com uma emoção tamanha como se os filmes tivessem sido feitos ontem.
Conhecida como musa do cinema de horror gótico, Steele ganhou destaque na década de sessenta e alcançou seu status por conta da sequência de filmes de horror,  italianos principalmente,  onde atuou.
Steele nasceu na Inglaterra em 19 de dezembro e  não tinha intenção de ser atriz, queria mesmo era ser pintora, “queria ser Picasso” dizia, e estudou para isso, foi para Paris, mas precisava de grana e foi por esse motivo que em 1957  ela entrou numa companhia de teatro onde ganhava cinco libras por semana.
Sua estréia como atriz foi na comédia britânica “Bachelor of Hearts“, em 1958, e não tinha muito mais que um pequeno diálogo. Foi em 1960 que, após ver sua foto numa revista, Mario Bava a recrutou para o  que seria seu papel de maior destaque em “La maschera del demonio/Black Sunday/A Máscara de Satã” (que saiu aqui no Brasil em DVD pela London Films) onde faz um papel duplo, passeando brilhantemente entre a bruxa malvada e a princesa inocente. Este filme também marca a estréia oficial de Mario Bava como diretor. A partir daí, Barbara ganha grande notoriedade e em 1961 é levada para a américa onde estrela “The Pit and the Pendulum/A Mansão do Terror” (lançado aqui no brasil em DVD pela CultClassic) de Roger Corman, contracenando com o sempre genial Vincent Price. Ali, mais uma vez, ela nos encanta ao desempenhar muito bem seu papel de mocinha inocente e mulher cruel e assustadora ao mesmo tempo.
Durante a época em que ficou na américa, Steele relata que tentaram transformá-la em mais uma boneca de plástico fabricada por Hollywood “Eles tinham uma idéia preconcebida de que as mulheres eram todas lábios brilhantes. Eles diziam: ‘É melhor fixar suas orelhas para trás. É melhor deixá-la loira. Você não tem qualquer decote’. Depois vieram as recomendações: ‘não seja vista com fulano, porque… Não ande por aí de salto alto’ – eles achavam que eu era muito alta e todos se sentiam terrivelmente baixos lá. Era uma piada. Todos esses clichês fantásticos que você lê em “Day of the Locust” (livro de 1939, do autor americano Nathanael West sobre a decadência e alienação de Holywood nos anos 30). Só que era muito mais clichê do que você poderia imaginar.“, desabafou certa vez numa entrevista. Barbara se manda para a Itália e em 1962 ganha o papel para o filme “Fellini Otto & Mezzo” (de mesmo título aqui no Brasil e que foi lançado em DVD pela Versátil Home Video). Em seguida, ainda em 1962, faz o “L’orribile segreto del Dr. Hichcock“, o horror italiano dirigido por Riccardo Freda. Depois disso, outros papéis para filmes de terror surgem em seu caminho e consolidam cada vez mais seu título de rainha do horror. Entre estes títulos encontramos “Lo Spettro“, de 1963, dirigido por Riccardo Freda; “Danza Macabra” de 1964, dirigido por Sergio Corbucci e Antonio Margheriti; “I lunghi capelli della morte”, 1964, também dirigido por Antonio Margheriti, entre outros. Em 1966 faz um pequeno papel na comédia clássica “L’armata Brancaleone/O Incrível Exército Brancaleone” de Mario Monicelli (lançado no Brasil em DVD pela Spectra Nova) e em 1968 faz o clássico do horror britânico “Curse Of The Crimson Altar” de Vernon Sewell, filme que reúne também os outros dois grandes nomes do horror Boris Karloff e Christopher Lee. Apesar de todos os títulos e de seguidores fiéis do gênero do horror que mantém até hoje, Barbara Steele parecia não gostar tanto do culto ao título que recebeu, talvez pela limitação que isso causava a sua carreira. Declarou certa vez estar aposentada do gênero e que jamais voltaria a sair de um caixão de novo. A promessa não é seguida. Visando novos rumos para a carreira, volta à américa onde conhece o roteirista James Poe com quem se casa e tem um filho. Os dois ficam casados por muito tempo. Em 1969, Poe escreve um papel para Barbara na adaptação para a tela do romance “The Shoot Horses, Don’t They?”, mas quando Sydney Pollack, o diretor do filme, escolheu outra atriz para o papel, Barbara decidiu fazer uma pausa e ficou sem atuar por uns cinco anos. Volta ao cinema só em 1974 com o exploitation “Caged Heat” de Jonathan Demme.  Em 1975  aparece lindísisma no clássico cult “Shivers“, papel com pouco destaque, porém notável, e em 1977 no “I Never Promised You a Rosen Garden” de Anthony Page. Já com a carreira capengando ela aparece em mais alguns títulos, uns tornaram-se memóraveis, outros nem tanto.  Em 1978 ela e Poe divorciam-se e ela não volta a se casar novamente. Em 1980  tenta ainda o horror “The Silent Scream” de Danny Harris, se aposenta das telonas em seguida e se dedica, com sucesso, ao trabalho de produtora de mini-séries para TV. Chegou, inclusive,  a ganhar um Emmy pela produção na série “War and Remembrance“. Barbara Steele retornou às telonas agora em 2012 estrelando o horror “The Butterfly Room” de Jonathan Zarantonello. Não sei se esse filme será lançado aqui no Brasil, não achei informações que indicasse algo sobre isso, então ficarei devendo essa informação.

Mesmo setentona Steele continua linda e com aquele olhar impressionante que nos convida sem que a gente saiba se é pro bem ou pro mal, ela nem sempre foi bem aproveitada, mas é tão gigante em talento e força que impressiona mesmo quando seu papel é minúsculo.  Vida longa à  grande e fascinante musa!

Steele – “The Butterfly Room”

The Buterfly Room

Algumas imagens de uma exposição com suas pinturas que aconteceu em Roma no dia 9 de novembro de 1962

Trailers de alguns filmes com a musa:

Resenha de petter baiestorf
Box sobre barbara Steele de Leyla Buk

The Astro-Zombies

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on maio 15, 2012 by canibuk

“The Astro-Zombies” (ou “Space Zombies” ou “The Space Vampires”, 1968, 91 min.) de Ted V. Mikels. Com: Tura Satana, John Carradine, Wendell Corey, Tom Pace, Joan Patrick e mais um bando de desconhecidos.

A trama de “The Astro-Zombies” é quase inexistente: Um cientista, depois que é despedido da agência espacial americana, decide criar monstros com partes dos corpos de vítimas inocentes. Lógico que as criaturas vão fugir e aprontar altas confusões (desculpem, não consegui resistir). Depois dos créditos iniciais que são mostrados sob as imagens de robôs de brinquedo andando de um lado pro outro, não podemos esperar mais nada do que uma trama confusa. Mas como o diretor atende pelo nome de Ted V. Mikels (aqui com uma ajuda na produção e roteiro do ator Wayne Rogers da série de TV “M*A*S*H*”) sabemos que se trata de uma delíciosa bobagem sem orçamento, completamente mongol onde nada funciona, com interpretações pavorosas, edição tosca, trabalho técnico amador (a iluminação do filme é extremamente mal feita), maquiagens horríveis e uma falta de lógica impagável que transforma o filme em objeto de culto por sua ruindade absoluta.

Ted V. Mikels, nascido em 1929 com o nome real de Theodore Mikacevich, é um diretor da categoria de Ed Wood, H.G. Lewis, Doris Wishman e Ray Dennis Steckler, que sempre filmou sem dinheiro algum e teve lucro com seus filmes, o que possibilitou a compra de um castelo em Glendale, California, onde vive até hoje com um harém de mulheres. Começou sua carreira artística trabalhando no teatro e logo depois partiu para a lucrativa produção de filmes vagabundos para o mercado de drive-ins americanos. Também era um esperto produtor que, imitando William Castle, sempre tinha gimmicks promocionais, como ambulâncias e gostosas enfermeiras a disposição do público que poderia passar mal na exibição de seus filmes (só se fosse passar mal de raiva pela adorável chinelagem!).

Seu primeiro longa foi “Strike Me Deadly” (1963) onde um guarda florestal e sua esposa testemunham um assassinato e são mantidos prisioneiros em uma cabana isolada. “The Black Klansman” (1966), uma saga sobre a intolerância racial onde um negro se disfarça de branco e entra para um grupo de caipiras da Ku Klux Klan para se vingar da morte de sua filha num atentado que este grupo realizou na igreja que a menina freqüentava, foi uma tentativa de cinema mais sério de Mikels. Depois de “The Astro-Zombies”, Mikels realizou o clássico “The Corpse Grinders” (1971, que atualmente está em pré-produção a terceira parte da série), uma pequena peça de demência sobre uma fábrica de comida para gatos que, para enfrentar a crise, decide começar a fazer sua ração com cadáveres do cemitério local. Em seguida Ted realizou uma série de filmes onde os títulos prometiam muito mais do que era visto nas telas, como “Blood Orgy of the She-Devils” (1972), sobre o mundo obscuro da feitiçaria; “The Doll Squad” (1973), trasheira de ação mal filmada com um elenco de beldades que incluiam Tura Satana, Francine York e Lisa Todd e “Ten Violent Women” (1982), sua visão sobre o tarado mundo das prisões femininas num W.I.P. ruim/divertido.

Na qualidade de produtor Ted V. Mikels realizou vários bons filmes, com destaque aos geniais “The Worm Eaters” (1977) do hilário maníaco Herb Robins, um lendário clássico do mau-gosto cinematográfico onde várias pessoas comem minhocas em sorvetes, tortas e cachorros quentes com um grandes sorrisos nos seus rostos e o inspirado “Children Shouldn’t Play With Dead Things” (1973) da dupla Alam Ormsby e Bob Clark (que depois ficou rico e famoso com a série adolescente “Porky’s”), onde o orçamento era tão curto que os figurantes que interpretavam os zumbis do filme fizeram uma greve ao descobrirem que a comida que lhes era servida era, na verdade, arranjada na lixeira de um restaurante das redondezas. Em 2002 Mikels filmou a continuação de “The Astro-Zombies” intitulada “Mark of the Astro-Zombies”, estrelada por uma envelhecida (e gordona) Tura Satana, mas ainda dona de um senso de humor ótimo. Existem ainda as continuações “Astro Zombies: M3 – Cloned” (2010) e “Astro Zombies: M4 – Invaders from Cyberspace” que infelizmente ainda não tive a oportunidade de assistir.

Com um elenco de famosos, vemos como Mikels não levava jeito para a direção de atores. John Carradine fez inúmeros filmes de horror para a Universal Studios, como “House of Frankenstein” (1944) e “House of Dracula” (1945), ambos de Erle C. Kenton. Fez 11 filmes com John Ford, entre eles “Stagecoach” (1939), “The Grapes of Wrath” (1940) e “The Man Who Shot Liberty Valance” (1962). Já em fim de carreira contracenou com Vincent Price, Christopher Lee e Peter Cushing no “House of the Long Shadows/A Mansão da Meia-Noite” (1983) de Pete Walker. Seus últimos filmes foram produções de baixo orçamento (mas alta diversão) como “Buried Alive” (1990) do diretor de filmes hardcore Gérard Kikoïne agora investindo em horror e filmes do picareta cara de pau Fred Olen Ray, como “Bikini Drive-In” (1995), montado com stock footage do veterano ator (Carradine havia falecido em 1988). “The Astro-Zombies” foi o último filme do ator Wendell Corey que, entre outros, aparece no clássico “Rear Window/Janela Indiscreta” (1954) de Alfred Hitchcock. E Tura Satana dispensa apresentações aos leitores do Canibuk (mas leia mais sobre ela clicando aqui).

Quem quiser saber mais sobre a vida e carreira de Ted V. Mikels, procure o documentário “The Wild World of Ted V. Mikels” (2009) de Kevin Sean Michaels, com narração do gênio John Waters.

por Petter Baiestorf.

Roteiro de Arrombada – Vou Mijar na Porra do Seu Túmulo!!!

Posted in Cinema, Nossa Arte, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 23, 2012 by canibuk

um roteiro de Petter Baiestorf.

Em 2006 fiz dois longas, “A Curtição do Avacalho” (em breve publico o roteiro ilustrado com fotos aqui) e “O Monstro Legume do Espaço 2”; o primeiro uma experiência metalingüistica anárquica sobre as possibilidades de se fazer/pensar cinema independente no Brasil sem a necessidade de ser comercial. O segundo, a continuação de meu maior cult movie, “O Monstro Legume do Espaço” (produção de 1995), desta vez com ritmo mais moroso, tentando um estranho crossover entre os clichês dos filmes B’s com o drama rural de Ozualdo Candeias, quase ninguém gostou desta mistura, mas achei uma experiência bem válida e interessante.

Depois de dois filmes prá pouco público resolvi voltar a produzir (escrever e dirigir) um sexploitation cafajeste e concebi este roteiro chamado “Arrombada – Vou Mijar na Porra do Seu Túmulo!!!” e, em 2007, reuni velhos parceiros (Coffin Souza, CB Rot, Gurcius Gewdner, PC, Claudio Baiestorf, Elio Copini), novos parceiros (Ljana Carrion e Vinnie Bressan) e filmamos em apenas quatro dias um pequeno média-metragem cheio de estupros, na melhor tradição dos filmes de vingança dos anos 70. “Arrombada” foi lançado em alguns cinemas aqui do Sul do Brasil em programa double feature com o longa-metragem “Mamilos em Chamas” (2007) de Gurcius Gewdner e fez razoável sucesso. Segue o roteiro original de “Arrombada” para os fãs do filme, há algumas cenas que não consegui filmar nos quatro dias de produção e improvisei mudanças. Canibuk também já publicou o roteiro ilustrado de “Vadias do Sexo Sangrento” (2008).

Seq. 01- Em frente à casa do Baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Câmara estática filmando algumas flores, Vômito contra a lente da filmadora.

Corte para Traficante vomitando (segurando uma garrafa de vinho na mão) em frente as flores do jardim da casa de campo do Juiz de direito.

Juiz (com um bigodinho imitando o bigode de Hitler) e seus comandados (um velho sentado numa cadeira com cobertor tapando as pernas, Padre com batina e cruz cristã, Médico engravatado) estão na frente da casa, perto do carro do traficante, esperando por ele.

Traficante limpa a boca com manga de sua jaqueta e vai até os classe-média.

TRAFICANTE: A menina está no porta-malas!!!

Médico e Padre retiram a menina desmaiada do porta-malas do carro e entram na casa com ela.

Close no rosto do velho sentado na cadeira sem esboçar reação alguma.

Ao lado do carro ficam o traficante e o Juiz…

Traficante bebe generosos goles de seu vinho… Câmera se aproxima do rosto do Juiz.

Seq. 02 – sala da casa de Baiestorf-cidade/Noite. (FLASHBACK).

Música:

Cenas:

Sentados em uma mesa estão o traficante e o Juiz de direito.

JUIZ: Você vai pegar 35 anos de pena por tráfico de drogas, vou fazer você apodrecer na cadeia…

TRAFICANTE: Não me diga!!!… Quanta grana compra minha liberdade???

JUIZ: Não precisa bancar o durão… Sou juiz de direito, fui eleito senador pela segunda vez, sou rico e branco… Dinheiro é algo que eu tenho aos montes… Mas penso em outra coisa prá livrar tua cara, se você estiver interessado em fazer um servicinho prá mim livro tua cara fácil fácil…

TRAFICANTE: Posso arranjar qualquer coisa!!!

JUIZ: E vai, vou dar uma festinha com alguns amigos no meu sítio e vou precisar de uma garota inocente… quero que você seqüestre uma garota e me entregue neste endereço (e entrega um cartão).

TRAFICANTE: Isso é fácil… E quando eu entregar a menina qualquer coisa entre mim e a justiça brasileira será destruído???

JUIZ: Claro, te entrego os processos quando você entregar a menina!!!

E os dois apertam as mãos selando o compromisso. Bebem seu uísque com um brilho nos olhos.

Seq. 03- Em frente à casa do Baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Câmera se afasta do traficante que limpava seus lábios novamente.

TRAFICANTE: O que vocês vão fazer com essa garota?

JUIZ: Você ainda não aprendeu que, levando-se em conta sua profissão, é melhor ficar calado??? (e sorri)

TRAFICANTE: E os meus processos, quero eles!!!

JUIZ: Segunda – feira pela manhã, no meu escritório!

TRAFICANTE: você ia me entregar aqui, hoje…

JUIZ: Eu sou um juiz de direito, senador eleito pela segunda vez, um homem letrado de palavra, um verdadeiro exemplo à sociedade brasileira… Você, um traficantezinho de merda, um vagabundo que não vele o que come, você está duvidando de minha palavra??

Traficante olha para o Juiz pensativo, bebe o resto da garrafa de vinho, entra no seu carro e sai fora.

Câmera em plano fechado no Juiz que sorri diabolicamente.

Seq. 04 – Créditos

Música: GG Allin.

Créditos iniciais com ELENCO, EQUIPE-TÉCNICA.

Seq. 05 – Sala da casa de baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Câmera realiza travelling passando pela mesa do nobre Juiz de direito eleito duas vezes senador (que estava vazia) indo até na sacada da sala do Juiz, que estava de costas prá filmadora conversando com alguém pelo seu celular.

JUIZ: Hum… Calma aí… Essas coisas acontecem (se vira de frente para a filmadora nessa hora revelando que estava usando um tapa-olho)… Não há nada com o que se preocupar, alguns hematomas, alguns olhos furados acabam sendo o preço por uma vida plena de emoções… (gargalha)… Deixa eu te falar uma coisa…

Corte seco aqui. (ou corte do áudio com a cena seguindo normal sem som, ver como fica melhor na edição final).

Seq. 06 – Estrada que vai ao cemitério da ilha/Dia.

Música:

Cenas:

Louquinho de fraldas, com uma bandeira rasgada salpicada de vermelho, correndo pela estrada, câmera estava acompanhando-o até enquadrar na casa do Juiz. Um zoom aproxima a casa vagarosamente… SOPREPOSIÇÃO DE IMAGENS.

Cenas sobrepostas da casa mais próxima com a câmera em travelling em direção a porta à dentro da casa….NOVA SOBREPOSIÇÃO DE IMAGENS.

Cenas sobrepostas agora com câmera subjetiva subindo as escadas até encontrar a menina amarrada na cama. CLOSE no rosto dela amordaçado. Ela acorda assustada.

Seq. 07 – Sótão da casa de baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Câmera fixa de cima para baixo filmando as escadas que dão pro sótão. Juiz sobre pelas escadas.

Padre e o médico já estavam lá com suas roupas de trabalho (um vestido de padre e o outro vestido de cirurgião médico). Cada um deles sentado em um sofá, meros espectadores da dor alheia. Voyers do sofrimento.

Juiz tira suas roupas (alternar ele se despindo com closes de pânico na menina e closes de prazer nos rostos de seus aliados) e se dirige até a cama da menina.

Senta-se ao lado dela.

Passa seus dedos pelo rosto dela (que estava amarrada, amordaçada e vestia um vestidinho bem curto), pelos seios, pelo sexo dela.

JUIZ: Se você for boazinha conosco nos seremos bonzinhos com você também!!!

E então o juiz estupra a garota mordendo-lhe com certa fúria pescoço, seios, orelhas, etc…

Amordaçada ela tenta gritar, se debate, quer fugir daquele tormento.

O Médico e o Padre se masturbam com a cena do estupro (o Padre fica lambendo uma bíblia que esfrega, as vezes, com volúpia em seu próprio rabo).

Terminar a cena com o Juiz saindo de cima da garota e se ajoelhando ao lado do rosto dela. Close no rosto de prazer dele (havia gozado). Close no rosto desesperado dela recebendo a ejaculação no rosto (Souza, pensar em algum produto comestível que pareça porra).

Seq. 08 – Sótão da casa de baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Juiz deita ao lado dela. Lambe a porra que escorria no rosto dela.

JUIZ: Vou te soltar e você vai dar prazer para todos nós!!!

Solta a mordaça, a garota grita.

GAROTA: Me soltem, me soltem…

Apanha do Juiz e fica calada quase chorando.

JUIZ: Não adianta gritar vagabunda, estamos isolados aqui nessa casa!!!

Desamarra-a e faz com que se ajoelhe no chão do quarto…

JUIZ: Você vai se engatinhar até ele e vai pedir prá chupar o pau dele!!! (diz apontando pro Padre).

O padre se babava excitado.

Ela leva um tapa na orelha.

JUIZ: Vamos vagabunda, vai até ele e pede prá chupar o pau dele!!!

A garota vai engatinhando até perto do Padre que estava sentado no sofá. Ela olha prá ele. Close nos outros dois fdp.

GAROTA: Posso chupa teu pau!!!

O padre, em um movimento cristão, abençoa a garota e ergue sua batina. Ela olha e coloca sua cabeça sob a batina.

Closes diversos de todas as personagens.

Em dado momento o padre grita de dor, a garota havia-o mordido.

O Juiz e o Médico arrancam a menina de dentro da batina do padre e surram ela com uma cinta que havia no quarto.

Câmera vai se afastando (saindo do sótão) enquanto a guria grita de dor e o som das cintadas se espalha pela casa.

Seq. 09 – Pátio da casa do baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Câmera acompanha o velho da casa levando uma bandeja com bebidas aos três tarados que estavam sentados ao ar livre em uma pequena mesinha. O velho serve as bebidas e sai de cena.

MÉDICO: Essa aí é a potranquinha mais selvagem que já pegamos… Vou chapar ela e aí vai ser mais fácil se divertir…

PADRE: Isso mesmo, essa vagabunda nem Jesus dobra…

Gargalham. Louquinho de fraldas passa correndo ao fundo com sua bandeira.

JUIZ: Mas sabem de uma coisa, eu gosto mais quando elas tornam as coisas mais difíceis prá nós, fica mais excitante, é uma desgarga a mais de adrenalina… Chape ela com algo que a deixe consciente, vamos virar essa menina do avesso e quero que ela sinta tudo…

Fechar a cena com o Juiz levando seu drink aos lábio e bebendo-o, corte quando ele começar a afastar o copo dos lábios.

Seq. 10 – Salão de festas do prédio apollo/Dia (anoitecendo)

Música

Cenas:

Close num copo de cerveja sendo colocado sobre a mesa.

Traficante numa mesa de bar (close fechado nele, ambientar o bar com sons de bar só no áudio) bebendo, angustiado…

O Traficante estava angustiado.

Algo o incomodava.

Câmera dá zoom (vagarosamente) no rosto dele.

Seq. 11 – Casa do souza/Dia (FLASHBACK)

Música:

Cenas:

Restos de drogas sobre uma mesa, câmera realiza um travelling da cozinha da casa até na sala, onde estavam o traficante e a garota.

Ela terminava de cheirar uma carreira.

GAROTA: Porra, tu é um cara legal, me deixa ficar cheirando sem cobrar nada… Tu é legal prá caralho!!!

(Close no traficante para inserção durante o diálogo dela)

Traficante larga sua cerveja e se atira sobre a garota jogando-a ao chão entre dois sofás, com violência fica socando a garota (seu rosto escondido atrás do sofá para disfarçar os golpes falsos)…

Depois que ela estava inconsciente o traficante fica sentado, olha-a, amarra suas mãos e bebe mais de sua cerveja.

Seq. 12 – Salão de festas do prédio apollo/Dia (anoitecendo)

Música:

Cenas:

Traficante na mesa de bar soca a mesa com o punho.

TRAFICANTE: Isso não ta certo… Vou buscar a guria e foda-se aquele Juiz filho da Puta!!!… Aquele viado nem me entregou as porras dos papéis do meu processo!!!

Levanta-se, bebe o resto da cerveja do copo e sai pela porta do bar.

Seq. 13 – Sótão da casa de baiestorf/Noite.

Música:

Cenas:

Close numa seringa expelindo o ar que havia ficado junto do líquido em seu interior.

O Médico injeta na garota o líquido da seringa.

A garota sente o efeito imediatamente, ficando mais leve e solta.

Juiz e o Padre estavam olhando.

Médico desamarra a garota que se levanta.

O Padre liga um som no aparelho de som.

O Juiz e o Padre já vão abraçando a garota, beijam-na, o Médico senta-se no sofá e fica olhando, ele curtia ficar olhando, era um voyer de marca maior.

O Juiz faz a garota se curvar contra a cama e ergue seu vestido, baixa a calcinha dela e a enraba. O Padre, somente de cuecas, se deita a frente dela e a obriga chupa-lo (todas as cenas simuladas, encontrar na hora os ângulos certos para deixar a cena erótica).

Alternar a cena da orgia com o Médico se masturbando (nessa hora revelar que o médico se masturbava olhando para a bunda de seus companheiros e não da menina, era um homosexual enrustido).

Simular uma dupla penetração, mordidas nos seios da garota, afagos nas nádegas dela, etc…

A garota chapada estava completamente a mercê dos caprichos dos amigos tarados.

Seq. 14 – Sótão da casa de baiestorf/Noite

Música:

Cenas:

Close nas roupas do padre no chão, sua mão pega a batina.

Plano geral do quarto, Padre colocando a batina, Juiz e a garota deitados na cama.

Câmera fixa sobre a cama mostrando a garota e o juiz de cima para baixo, ela somente de calcinhas, ele de cuecas.

O Médico e o Padre descem do sótão.

Juiz e garota deitados na cama.

JUIZ: Ta gostando, né vadia!!!

GAROTA (sorrindo maliciosamente): Claro que estou!!!

Ela se levanta após falar isso. Coloca seu vestido, seu salto alto e olha pro Juiz.

GAROTA: Deite no chão, vou fazer algo que você vai gostar!!!

JUIZ: Eu sabia que tu era uma vagabunda!!!

E após dizer isso ele se deita no chão.

Ela sobe sobre ele e começa a excita-lo usando seus pés calçados do sapato salto alto. O Juiz não se contendo de tesão enfia as mãos sob o vestido dela e puxa a calcinha para baixo, até na altura dos joelhos.

Ela acariciava o saco dele com os pés.

Ele beijava as pernas dela.

Ela sorri e num único golpe crava o salto alto de seu sapato no olho esquerdo (fazer o tapa-olho para o lado esquerdo do rosto) do Juiz, gritos de dor, sapato de salto alto cravado no olho do Juiz, sangue denso, mãos no rosto, expressões de dor dele, expressões de satisfação dela.

Ainda sobre o corpo do Juiz a garota se agacha um pouco. Close em seu rosto que faz força. Defecava sobre o rosto do juiz (fezes falsas com bastante líquido imitando o marrom fecal)…

O Juiz vomita com a merda em seu rosto e o salto alto ainda cravado no rosto.

A Garota recoloca suas calcinhas no lugar e corre até a janela e sobe nela.

Seq. 15 – parte externa da casa de baiestorf/Noite

Música: ORNETTE COLEMAN – “Free Jazz” (37’ toca direto este som até seqüência sinalizada onde para o som ou é trocado por outro som).

Cenas:

Garota caindo para o lado de fora da janela. Sai correndo em direção a segurança da escuridão noturna.

Seq. 16 – Sótão do baiestorf/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free Jazz”.

Cenas:

Juiz levanta-se com cara cheia de merda e sapato cravado no olho, arranca-o fora. Seus amigos chegam correndo.

JUIZ: A vagabunda fugiu… Peguem-na!!!

Os dois saem correndo. O Juiz joga o sapato de salto alto no chão.

Seq. 17 – Estrada qualquer de interior/NOITE.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

Carro do traficante para no acostamento de uma estradinha de chão nas proximidades da casa do Juiz.

O traficante pega seu revólver no porta-luvas e depois de conferir que estava carregado coloca na sua cintura.

Sai do carro e para na frente do carro que tinha as luzes ligadas.

Close em seu rosto.

TRAFICANTE: Até posso ficar preso pro resto da minha vida, mas vou salvar essa garota!!!

Sai caminhando em direção à escuridão.

Seq. 18 – Mato/Noite

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

Padre e o Médico no mato.

PADRE: Vai por ali, aquele caminho é iluminado por Deus todo poderoso, eu irei por aqui, que é igualmente iluminado.

E os dois se separam.

Seq. 19 – Mato/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

O Traficante fica olhando a casa do juiz de longe.

Luzes da casa, tudo deserto e calmo pelo lado de fora.

Garota com um pedaço de pau chega por trás do Traficante e o acerta na cabeça.

O Traficante cai no chão com sangue denso respingando se sua cabeça.

A Garota tira as calças do Traficante e mete o pau no rabo dele.

Gritos de dor do Traficante.

A Garota sai dali rapidinho deixando o Traficante caído no chão com sangue vertendo do rabo, se debatendo com o pau no cú.

Seq. 20 – Mato/Noite

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

O Médico chega até no galpão que existia próximo a casa do Juiz e olha para os instrumentos rurais que havia ali.

Câmera rente ao chão mostrando o Médico ao fundo (em segundo plano) e em primeiro plano um toco com um machado cravado. O Médico caminha até o machado e o arranca do toco.

O Médico passa seus dedos no fio do machado, segura-o firme nas mãos fazendo grau com a arma improvissada.

Sai caminhando.

Seq. 21 – Mato/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

Traficante ainda agonizando com o pau no rabo, deitado ao chão, sangue respingando.

Padre para perto dele, câmera rente ao chão para valorizar o sangue espirrando do rabo do Traficante, se ajoelha próximo ao corpo.

Faz o sinal da cruz para então, na seqüência, revistar os bolsos do traficante e roubar seu dinheiro, suas drogas e a arma.

O Padre empunha a arma e sai dali deixando o Traficante se debatendo com seu rabo espirrador de sangue.

Seq. 22 – Mato/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

Médico com o machado em punho para perto da Câmera.

Corte para a Garota que entra correndo e o empurra contra uma árvore.

A cabeça do Médico bate contra a árvore espirrando sangue.

A Garota chuta-o com força.

O Médico acerta-a no estomago com o machado.

A Garota cambaleia para trás com suas vísceras saindo pelo estomago, segurando-as com as mãos.

Médico coloca as mãos na cabeça, sentia dor.

Garota derruba-o, médico cai de costas pro chão.

Garota pega uma pedra e o acerta na cabeça.

Sangue e miolos explodem.

Médico (com a cabeça real enterrada no chão com uma pedra sobre ela) fica agonizando. Muito sangue respingando para todos os lados, principalmente contra o corpo da garota que estava ofegante e com dor pós essa luta quase fatal.

A Garota sai dali cambaleante.

Seq. 23 – Mato/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

Padre encontra o Médico ainda agonizando…

Câmera se aproxima do rosto do Padre que tem um devaneio.

Seq. 23-B (DEVANEIO SURREAL DO PADRE)

Música: SINGIN’IN THE RAIN

Cada vez jorra mais sangue do corpo do Médico, Médico dança na chuva de sangue que batia contra umas folhas prá ajudar a ficar mais denso.

Imitação tosca da cena do “Cantando na Chuva”.

RESTO da Seq. 23

Padre balança a cabeça saindo do transe, faz o sinal da cruz e revista os bolsos do Médico tirando dinheiro e outras coisas de valor.

Deixa-o caído no chão agonizando, com sangue espirrando dos ferimentos.

Câmera rente ao chão mostra sangue espirrando e o Padre se afastando.

Seq. 24 – Mato/Noite.

Música: ORNETTE COLEMAN – “free jazz”.

Cenas:

A Garota cambaleante, o traficante tentado se levantar com o pau no rabo, o Médico agonizante com cabeça arrebentada embaixo da pedra, velho terminando os reparos nos ferimentos do Juiz (que está de costas), Garota Cambaleante caminhando rumo a escuridão, traficante morrendo, Médico morrendo, Garota sumindo na escuridão, Câmera se aproximando do Juiz que se vira revelando um tapa olho improvissado pelo velho.

Seq. 25 – Loteamento/Dia

Música: MANDRIL – “Children of the Sun”

Cenas:

Abri cena com o Sol, câmera abaixa revelando a Garota cambaleando por um terreno deserto sem ninguém por perto.

Ela para e olha sem esperanças pro horizonte.

O Juiz vinha de uma lado.

Garota cansada, mãos no estomago arrebentado.

Padre vinha do outro lado.

Garota se agacha sem esperanças, sem forças, para fugir.

Pegam-na e a levantam, um de cada lado.

Filmar de longe (para mostrar que não havia ninguém por perto, deserto, idéia de deserto) o Juiz e o Padre levando-a em direção ao Mato que havia em frente.

Vão se afastando em direção ao mato.

Seq. 26 – ponte no mato/Dia.

Música:

Cenas:

Câmera na altura dos olhos da Garota, travelling se afastando revela que ela estava amarrada (na forma de uma pessoa crucificada) numa ponte sobre um pequeno riacho.

Juiz estava de joelhos abraçado às pernas da Garota.

JUIZ: Tu não devia ter fugido, porque tu fugiu querida?… Se você não tinha fugido tudo teria acabado bem, tu até teria ganhado um dinheiro, ia virar minha amante, iria viver como uma princesa… Eu sou o melhor Juiz de direito do Brasil, senador duas vezes eleito pelo voto direto do povo… Tu não devia ter fugido, porque querida? … Porque???

Enquanto O Juiz vai falando seu monólogo fica beijando as coxas dela, baixando a calcinha, beijando o sexo dela, acariciando-a.

Closes no padre olhando, na Garota em desespero com lágrimas escorrendo de seu rosto.

Câmera se afastando aos poucos da cena, deixando-os ali, como se abandonando a garota a sua própria sorte.

Seq. 27 – Pátio da casa de baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Louquinho de fraldas correndo com sua bandeira.

Velho sentado com cobertor cobrindo suas pernas. Sem expressão alguma.

Seq. 28 – Sótão da casa de baiestorf/Dia

Música:

Cenas:

Câmera subjetiva sobre as escadas em direção ao sótão. Revela a garota amarrada no chão (mãos contra os pés do sofá e pernas contra as pernas da cama), em estado de choque, sem esperança alguma de conseguir revidar.

Juiz com uma faca nas mãos faz uma operação no estomago dela para retirar seus órgãos internos (*coração de porco, rins, etc… comestíveis que são vendidos em mercados).

Conforme o Juiz retira os órgãos do interior da garota vai depositando-os numa pequena bacia que havia ao lado do corpo dela.

Depois de pronto essa operação de remoção dos órgãos comestíveis, o Juiz entrega a pequena bacia ao Padre que sai dali.

O Juiz fica pelado e estupra a Garota pela última vez usando o buraco que havia no estomago dela, se sujando com o sangue dela, com as vísceras.

Rasga o vestido dela para melhor acariciar os seios ficando cada vez mais posseso pelo tesão doentio que sentia pelas carnes mortas da Garota.

Goza animalescamente urrando.

Cai sobre ela por instantes desfalecido de prazer.

Close no rosto da garota morta com os olhos abertos, sem expressão alguma.

O Juiz se levanta e coloca suas roupas. Sai dali.

Câmera fica parada sobre o corpo da garota por algum tempo (tempinho para a reflexão do público que estará assistindo a cena no futuro).

Seq. 29 – Cozinha da casa de baiestorf/Dia.

Música:

Cenas:

Close na bacia ensangüentada, porém agora vazia.

Close numa panela onde os órgãos da Garota estava cozinhando.

Juiz retira a panela do fogo e serve o alimento para ele e o Padre.

Serve vinho para os dois.

Senta-se à mesa,

Come uma boa garfada sorvendo o gosto de tão peculiar alimento.

JUIZ: Estava pensando agora, quando eu me aposentar vou ir morar em Miami… (gole de vinho)… Minha mulher só faz compras em Miami então vai facilitar viver em alguma cobertura por lá mesmo…

PADRE: Tua mulher deve ser uma gastadeira terrível!!!

JUIZ: Eu incentivo ela a consumir sempre, enquanto consome não me enche o saco!!!

Os dois gargalham gostoso, bebem vinho, comem mais.

Seq. 30 – Sótão/Dia.

Música:

Cenas:

Padre está terminando de enrolar a garota numa lona preta.

Padre e Juiz erguem-na e a levam embora.

Saindo pela porta, vê-se ao fundo o Louquinho de fraldas passar correndo com sua bandeira.

Seq. 31 – Cascalho ao lado do Rio/Dia.

Música:

Cenas:

Em cena um buraco na areia entre meio ao mato, cai o corpo dela enrolado na lona preta dentro do buraco.

O Juiz e o Padre cobrem o corpo dela com terra.

Depois de enterrada o Juiz mija em cima do túmulo da garota.

O Padre faz sinal da cruz.

PADRE: Deus, receba essa boa garota no seu reino!!!

Os dois gargalham.

O Juiz pega uma garrafa de vinho e bebe do gargalo.

O Padre joga cisco sobre o Túmulo disfarçando-o para todo o sempre.

Fica ao lado do Juiz que lhe alcança a garrafa de vinho, o Padre bebe do gargalo, os dois gargalham.

Seq. 32 – Sala da casa de baiestorf no apollo/Dia.

Música:

Cenas:

REPETIR SEQÜÊNCIA 5 DESTA VEZ COMPLETA.

Câmera realiza travelling passando pela mesa do nobre Juiz de direito eleito duas vezes senador (que estava vazia) indo até na sacada da sala do Juiz, que estava de costas prá filmadora conversando com alguém pelo seu celular.

JUIZ: Hum… Calma aí… Essas coisas acontecem (se vira de frente para a filmadora nessa hora revelando que estava usando um tapa-olho)… Não há nada com o que se preocupar, alguns hematomas, alguns olhos furados acabam sendo o preço por uma vida plena de emoções… (gargalha)… Deixa eu te falar uma coisa… Estou com tudo pronto para uma nova festinha, desta vez encomendei um garoto de 13 anos… (gargalha)… Eu sabia que você ia gostar… Final da semana que vem, ok?

Corte seco.

Seq. 33 – Créditos finais.

Música:

Créditos: Todas as informações técnicas.

Fingered

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on março 16, 2012 by canibuk

“Fingered” (1986, 25 min.) de Richard Kern. Com Lydia Lunch.

Estranho fruto da estranha Big Apple – Cidade Apocalipse, uma das raízes do Cinema de Transgressão. Movimento underground com culhões. Richard Kern comprou uma câmera de S-8 usada por U$ 5 (cinco dólares) e seu amigo Nick Zedd – que nem isso tinha – roubou uma para ele. Toda ralé que se dignava a fazer parte da turma virou artista. Lydia Lunch, Lung Leg, Cassandra Stark, Cruella De Ville, Martin Nation, Richard Hell, Rick Strange, Annie Sprinkle (sim, a senhora xixi na cara e pau na bunda do pornô), todo mundo cheio de maconha e ácido na cabeça. Filmavam violência, colocação de piercing (na buceta), estupros, assassinatos, sexo, drogas e a little bit of rock’n’roll. Talvez mais. Cuspidas punks em celulóide. Taras & revoltas artísticas. Russ Meyer com ácido…

“Fingered”, de 1986, que John Waters chamou de “the ultimate date movie for psychos” ou “o melhor filme pornô artístico caipira punk do mundo!”, é dirigido por Kern com roteiro dele e de Lydia Lunch. A bad girl faz sexo por telefone, depois se abre toda para Martin Nation fazer fist fucking e spanking antes de enrabá-la. Na rua ela é assediada por um babaca que é degolado e o casal on the road foge, briga, trepa, provoca, estupra, rapta, trepa, briga, até… Deathtrip Film.

No festival de Berlin de 1990 Kern mandou um monte de feministas se fuder e discutiu até conseguir exibir o filme. As feministas se vingaram invadindo outro cinema que ia passar o filme, quebrando tudo e jogando tinta a óleo nos projetores. Tinta azul/blue, para chamar o filme de pornográfico. Grande merda. Só ajudou na fama de maldito da obra que é uma maravilha da revolta. E dá gosto ver a Lydiazinha tomando gostoso no rabo e atirando a esmo. Consiga o filme e mostre para a sua família tarde da noite, eles vão dormir muito mais felizes!

escrito por Coffin Souza, originalmente publicado no fanzine “Sanguelia” (2000).