Arquivo para suicidado pela sociedade

Post-Scriptum

Posted in Arte e Cultura, Literatura with tags , , , on dezembro 23, 2010 by canibuk

Van Gogh não morreu por causa de uma definida condição delirante, mas por ter chegado a ser corporalmente o campo de batalha de um problema, em torno do qual se debate, desde as origens, o espírito inócuo desta humanidade, e do predomínio da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um e outro.

E onde está neste delírio o lugar do eu humano?

Van Gogh procurou o seu durante toda a sua vida, com energia e determinação excepcionais.

E não se suicidou em um ataque de loucura, pela angústia; ao contrário, acabava de encontra-lo, e de descobrir o que era e quem era ele mesmo, quando a consciência geral da sociedade, para castiga-lo, por ter rompido as amarras, o suicidou.

E isto aconteceu a Van Gogh, como aconteceu habitualmente, por motivo de uma bacanal, de uma missa, de uma absolvição, ou de qualquer outro ritual de consagração, de possessão, de sucubação ou de incubação.

Assim, introduziu-se no seu corpo esta sociedade absolvido, consagrada, santificada e possuída, apagou nele a consciência sobrenatural que acabava de adquirir, como uma inundação de corvos negros nas fibras de sua árvore interna, submergiu-o numa última onda, e, tomando seu lugar, o matou.

Pois está na lógica anatômica do homem moderno, não ter podidojamais nem pensar em viver, senão como possuído.

escrito por Antonin Artaud, parte do livro “Van Gogh – O Suicidado Pela Sociedade” (editora Achiamé).