Arquivo para surrealismo

The Cube

Posted in Cinema, Televisão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on março 18, 2012 by canibuk

“The Cube” (1969, 54 min.) de Jim Henson. Com: Richard Schaal.

É engraçado ver como alguns cineastas reciclam idéias e as filmam como se fossem suas sem o menor constrangimento. E o público, por falta de conhecimento das obras antigas, acha que está vendo algo original.

“The Cube” é um média-metragem produzido e dirigido por Jim Henson (antes de se dedicar exclusivamente ao “The Muppets”) que foi ao ar pela NBC TV num programa chamado “NBC Experiment in Television”, com roteiro do próprio Henson, em parceria com Herry Juhl, possivelmente baseado no conto “The Squirrel Cage” de Thomas M. Disch, publicado em 1967.

Aqui somos jogados, com um homem cujo nome nunca é revelado (interpretado por Richard Schaal), dentro de um quarto cúbico branco de onde não podemos sair. Somos os cúmplices na agônia do homem que vai ficando cada vez mais desesperado dentro desta caixa/quarto. No decorrer do média-metragem o “The Man” (como passa a ser chamado) é submetido à uma série de frustrantes encontros com uma variedade de tipos humanos em situações surrealistas. E assim Henson encontra meios de criticar a própria televisão emburrecedora de homens, quando um professor explica ao personagem agoniado que ele está em “um jogo de televisão”. Somos os espectadores aprisionados pelas vontades dos patrocinadores dos programas?… Mas claro que “The Cube” não termina assim, a insanidade proposta por Jim Henson vai criando uma sucessão alucinada de situações absurdas que lembram, e muito, o grupo de humor britãnico Monty Python. É uma rara peça de inteligência da televisão mundial. Este filme foi ao ar duas vezes apenas, a primeira em 23 de fevereiro de 1969, com reprise em 1970. Consegui uma cópia dele uns dois anos atrás através de download, mas infelizmente não lembro mais qual era o link.

Jim Henson (1936-1990) foi o criador dos “The Muppets”. Trabalhou em programas de TV como “Sesame Street” (“Vila Sésamo”) e dirigiu longas como “The Muppet Movie” (1979), primeiro de uma série de live-actions estrelados pelos Muppets e produções como “Labyrinth” (1986), com roteiro do Python Terry Jones e, no elenco, participação de David Bowie.

Em 1997 Vincenzo Natali pegou o visual do filme de Henson e re-criou “The Cube” com uma história que excluía o humor surrealista do original e incluía umas mortezinhas xaropes. Virou puro aborrecimento!!!

por Petter Baiestorf.

Um Balde de Felicidade

Posted in Literatura, Nossa Arte with tags , , , , , , , , on novembro 13, 2011 by canibuk

Um capro hirsuto de longas barbas brancas parou a minha frente encarando-me nos olhos. Deixava que o pus escorresse de sua boca e a cada gargalhada de deboche respingava suas impurezas sobre minha face suja de hoatchi. Mas acho que estava tudo bem, já que fui eu quem o convidou para vir até minha casa. Bêbado sempre faço coisas estúpidas como convidar um capro hirsuto teratóide teomaníaco de longas barbas brancas para beber a saidera em minha casa. Libélulas brilhantes abandonavam as longas barbas de meu companheiro de copo. Cenouras esverdeadas flutuantes, com leves bolores de mofo, entoavam cantigas da antigüidade. Equinodermos de tegumento coriáceo e corpos cilíndricos conversavam sobre a linfagioma que conquistou uma bela fada de cor azul. Os marinheiros do Caos Caótico – um navio chinês, é preciso que se diga – estavam no meu banheiro vomitando uns sobre os outros. Não saberia dizer se também estavam bêbados ou se seria algum tipo de enjôo de terra firme. Após pegar mais um balde de cerveja não encontro mais o capro hirsuto. Um dos marinheiros me diz que estou tendo alucinações alcoólicas, delírios de bêbado e afirmou rindo:

“Não existem capros falantes de longas barbas brancas !”.

Bebo cerveja do balde.

“Que diabos !!!”, pensei mais grogue do que o habitual, “Cada um imagina o que quer ou, pelo menos, o que consegue !!!”, e então vou prá cama dormir com um porco à paraguaia sionista já assado, e meu balde de cerveja , lógico !!!

escrito por Petter Baiestorf (1998).

ilustração de Reginaldo (1999).

Die Reise Ins Glück

Posted in Cinema with tags , , , , , , , on setembro 21, 2011 by canibuk

Die Reise Ins Glück (A Journey Into Bliss, 2004, 73 min.) de Wenzel Storch. Com: Jürgen Höhne, Jasmin Harnau, Holger Müller, Frank Bauer, Jörg Buttgereit e Jeanette Eisebitt.

Animais falantes, as cores berrantes do LSD, histeria, uma tribo de jazz degenerada, um navio caracol, a nobreza européia vegetando e Jörg Buttgereit fazem o caldo para o capítulo final de sua trilogia iniciada com “Der Glanz Dieser Tage” (1989) e “Sommer der Liebe” (1992). Aqui no Brasil filmes estranhos geralmente não caem no gosto do espectador comum (algo que não consigo entender, já que os filmes de super-heróis, verdadeiros contos de fadas para peludos, fazem tanto sucesso), mas como estou longe de ser um espectador comum, simplesmente adorei essa pequena pérola do diretor Wenzel Storch que eu não conhecia.

Para produzir “Die Reise ins Glück”, Storch e seus associados tentaram, por cerca de dois anos, vários financiamentos financeiros insuficientes, tendo então que organizar uma arrecadação de fundos entre amigos e simpatizantes do projeto para completar a quantia necessária para a realização do filme. Fácil entender, ao ver o filme, porque ninguém queria colocar dinheiro: Lá pelas tantas, dois ministros da propaganda (numa clara alusão aos nazistas), para chamar atenção de algumas crianças, urinam nelas! Genial!!!

Jörg Buttgereit, além de ser o consultor dos efeitos especiais de “Die Reise ins Glück”, aparece ainda no papel de um nobre (cuja cabeça explode ao comer uma codorna). Para quem não era caçador de filmes obscuros em VHS nos anos de 1990, saiba que Buttgereit foi o autor de alguns dos mais virulentos filmes undergrounds alemães dos anos de 1980 e 1990, que nós, caçadores de VHS’s, corríamos feitos loucos atrás. É do Buttgereit o quarteto de clássicos “Nekromantik” (1987) e sua continuação de 1991, “Der Todesking” (1990) e “Schramm” (1994), verdadeiras obras-primas do cinema independente. Após lançar “Schramm”, Buttgereit passou a trabalhar como técnico de efeitos especiais (os efeitos de “Kondom des Gravens”, 1996, do diretor Martin Walz, lançado nos USA pela Troma, são dele, só prá citar um exemplo) e diretor de documentários da televisão alemã, seu único longa desde então é “Captain Berlin Versus Hitler” (2009) que ainda não tive o prazer de assistir.

“Die Reise ins Glück” é uma amável mistura de “Desperate Living” (John Waters) com o cinema infantil de todas as épocas.

O filme foi disponibilizado inteiro no youtube:

Venom and Eternity

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , on agosto 21, 2011 by canibuk

Isidore Isou foi o fundador do Letrismo, um movimento literário (que englobava outras artes também) inspirado no Dadaísmo e Surrealismo. O escritor Guy Debord e o artista Gil J. Wolman trabalharam com Isou durante um tempo, até uma briga de êgos explodir e ser formada a dissidente Internacional Letrista, que se fundiu com o International Movement for a Imaginist Bauhaus e o London Psychogeographical Association para formar a Internacional Situacionista. Confuso? Menos confuso que os filmes deles, certamente!

Em 1951 Isidore Isou produziu o filme “Traité de Bave et D’Éternité” (“Venom and Eternity”, 1951, 120 minutos no IMBD, 78 minutos na cópia que tenho aqui em casa, 115 minutos na cópia do youtube), que é sua “revolta contra o cinema”, onde ele tenta discutir o que estava errado com o cinema, teorizando sobre os equívocos do cinema blockbuster. Stan Brakhage, que usou o filme em diversas aulas de cinema, diz: “É um trabalho formal, um dos mais belos trabalhos de Isou!”. Nas palavras de Jean Cocteau, “É ‘Venom and Eternity’ um trampolim ou é um vazio? Em 50 anos vamos saber a resposta. Afinal, lembre-se como Wagner foi recuperado!”.

Isou escreveu, dirigiu, atuou, fotografou e compôs a música de “Venom and Eternity”, que quando foi exibido pela primeira vez, no festival de Cannes, causou um motim e mangueiras de água foram colocadas para dentro da sala de cinema para expulsar os amotinados.

A estréia americana do filme foi no Frank Stauffacher’s Art in Cinema at the San Francisco Art Museum e novamente houve confusão porque um padre católico havia sido levado para alertar o público da decadência francesa.

“Venom and Eternity” foi feito apartir de pedaços de película encontradas no lixo dos laboratórios, combinadas com imagens originais filmadas por Isou em 16mm. Isou dizia na época: “Uma vez que o cinema está morto, vamos transformar o debate em uma obra-prima!”.

Links para assistir “Venom and Eternity” no youtube:

Salvador Dalí

Posted in Arte e Cultura, Bizarro, Entrevista with tags , on maio 14, 2011 by canibuk

Na última quarta-feira (11 de maio),  se estivesse vivo,  Salvador Dalí faria 107 anos e, em homenagem a este gênio e maluco, que tinha como um dos passa-tempos preferidos chocar e chocar mais e mais um pouco, Canibuk posta aqui uma entrevista, publicada originalmente em castelhano, concedida ao L’express no dia 06 de abril de 1971. A entrevista mostra o Dalí como ele sempre fez questão de ser em toda a vida: polêmico.

Divirtam-se com o homem que é o prórpio Surrealismo e que, com muito esforço, jamais passou despercebido…

Salvador Dalí, para muitas pessoas é um dos maiores pintores vivos, um escritor maravilhoso, uma inteligência notável. Mas, para  grande parte do público é considerado um mistificador, apaixonadamente em busca de publicidade.  Você mesmo, como se define?
Eu sou um dos poucos artistas contemporâneos que sempre se recusou a pertencer a um partido ou de qualquer agrupamento político. A história é minha paixão, porque é “mais” por excelência, enquanto a política é apenas a história da história efêmera.

Dentro da história da pintura, não é você, também, uma efêmera história?

Eu disse e repito, eu considero que como  pintor sou um artista medíocre.  Quando me comparo com os grandes pintores do passado, Vermeer, Velázquez, e Gérard Dou, a quem eu descobri no Petit Palais, a exposição do Age of Rembrandt, considero-me uma catástrofe artística.  Mas, pelo contrário, se eu me comparar com meus contemporâneos, então, obviamente, eu sou o melhor. Não é que seja bom, mas os outros são tão ruins que a comparação se revela impossível.

Em que artistas pensas? Em Picasso?                                                                                                                                                                                                           Em todos.  Eles têm duas coisas terríveis. Em primeiro lugar, a lógica herdada de Descartes, uma catástrofe. Em segundo lugar, o que chamam de bom gosto.  Com isso se tem construído o mito da pintura moderna, absolutamente ilegítimo.

Porque és inimigo de Descartes e de seu sistema cartesiano?
Porque Descartes baseia-se principalmente nos fenômenos tradicionais de inteligência, e inteligência está produzindo seu fracasso em todos os lugares.

Você pode esclarecer os sinais deste fracasso?
Teria de perguntar ao príncipe de Broglie, ou Heisenberg. Os escritos de Heisenberg mostram o total fracasso da inteligência.

Você mesmo, se considera inteligente?
Eu sou um monstro de inteligência.  Em uma sociedade como a nossa, é perigoso ter muitos Picasso e Dali. Felizmente, não é o caso.

Lamenta ser inteligente?
Eu sinto muito por minha pintura. Pintores muito menos brilhantes do que eu, por exemplo, Gerard Dou, poderiam ir muito mais longe, por causa da sua própria mediocridade.  Isso me impressionou ao ver, no Petit Palais, a pintura de “balão de Mulheres”.

Por isso modificará sua pintura?
Absolutamente.  Como eu já disse cem vezes, eu gostava de Vermeer. Para mim foi o maior de todos os pintores. Em Gerard Dou nunca quis parar, ao contrário de meu pai que sempre me disse: “Dou é o melhor”.  Mas meu pai morreu há algum tempo… E no outro dia no Petit Palais, pela primeira vez na minha vida, olhei realmente os quadros de Dou, que depois eu soube, foi um dos pintores favoritos de Luís XIV… E então me encantei.  Retiro tudo o que eu disse antes sobre Meissonier, sobre pintores pedestres. A arte máxima de pedestres estava lá, nesse quadro “Mulheres hidrópicas” pintado sem pretensão, mas com uma nobreza que transcende tudo isso, uma série de nuances que você não pode imaginar que um olho humano teria notado. A fotografia nunca será capaz de sutilezas semelhantes. É a alegria total.  Sem dúvida, este é o caminho a seguir.

Você é a favor da honestidade na pintura?
Pela honestidade em tudo.

Qual é a sua definição de pintura?
Fui o único, no período surrealista, que disse: “A pintura é a fotografia a cores do pincel. Nada é mais surreal do que a realidade. A existência da realidade é a coisa mais misteriosa, mais sublime e surreal que se dá. Pintei duas vezes na minha vida cestos de pão.  Eu pensei que eram fotos menos surreais do meu trabalho, já que havia apenas cestas de pão dentro. Mas eu acabei de descobrir, lendo Michel Foucault, o significado esotérico da cesta.  Ambas as naturezas-mortas que, aos meus olhos, no momento em que as pintava, não tinham nenhum significado, são talvez as coisas mais surreais que eu fiz.

Se pode ser surreal sem saber?
Especialmente sem saber.  Além disso, esta foi a opinião de Freud.  Um dia descobriu, antes de mim, que os surrealistas não lhe interessavam.  E como eu estava com medo, sabendo que foram baseadas em cima dele, ele disse: “Prefiro os quadros em que não há  traço aparente de surrealismo. Estes eu estudo. Ali encontro tesouros do pensamento subconsciente”.

Mas você pertence mais à categoria oposta.  Em suas pinturas mais famosas, “A Metamorfose de Narciso”, que está na Galeria Bolsa de Londres e em “O Enigma de Guilherme Tell”, em Estocolmo, o subconsciente está em toda parte, dominam temas psicanalíticos.
Ah, sim! No entanto, eu sou o produto do surrealismo consciente. Mas agora eu descobri Gérard Dou, isso vai mudar.

Como pintará?
Quero fazer  pinturas surrealistas sem saber, tais como cestos de pão.  E para começar, pintar o retrato de Gala, minha esposa, a quem mais amo, com o vestido de Deus levando a noite de Natal.  Um vestido de lamé formado de pequenos flocos de todas as cores.  A coisa mais difícil de pintar do mundo. Leve o tempo que levar. Será o quadro mais caro do mundo.

Você acha que as pessoas que compram Dalí fazem uma boa coleção?
Pergunte  ao Sr. Morse, que vai abrir um Museu Dalí, em Cleveland. Parece realmente nadar em felicidade.

Ainda tem grandes inimigos vivos?
Acho que nenhum. Mas eu gostaria que o mundo inteiro fosse meu inimigo. As pessoas inteligentes que estão contra mim são muito valiosas… O pior, terrível, são as pessoas estúpidas que me defendem.  Os subdalinianos.

Qual escritor estima mais?
Na minha opinião, o maior gênio é Raymond Roussel, ou seja, exatamente o oposto de Jules Verne. Considero Julio Verne  um dos idiotas mais fundamentais do nosso tempo. A humanidade embarcou nas suas meninices… Começando com a conquista do espaço, onde não há absolutamente nada para encontrar, já que o universo inteiro converge em direção à Terra, e a Terra é o único planeta que se manifesta esse fenômeno que se chama vida. Pra quê conquistar a Lua se, inclusive em nosso planeta, existem muitas áreas que não valem nada? A única seção significativa da Terra é, em última análise, a região entre Figueras e Toulouse.  Mas mesmo ali há realmente muito poucas coisas que valem a pena.

O prazer, a festa, qual o papel que desempenham na sua vida?
Um papel essencial. Eu acho que a vida deve ser uma festa contínua. Sou contra Descartes, porque ele era um homem que pensava. Eu nunca penso, jogo. O homem que mais odeio no mundo, eu vou dizer, é Auguste Rodin.  Porque ele é o autor de uma escultura abominável que representa um pensador, a cabeça apoiada em uma mão. Nesta posição, você nunca pode criar. Ou defecar. Você só pode criar as condições para jogar.  Os maiores cornudos de todos os tempos são pessoas como Rodin, Descartes e, sobretudo, o Karl Marx. Um cara que passou, deus sabe quantos anos, escrevendo O Capital.  Tudo o que ele disse é o inverso da realidade. Entre outras coisas, previa a luta de classes: já não há porque as classes desaparecem.  Pelo contrário, ele não tinha previsto a verdadeira luta de nosso tempo, ou seja, a luta das raças.  Na China, o Japão, Israel, o mundo árabe, etc: nada, nem uma palavra. Isso não é surpreendente. Karl Marx, como Descartes, era um indivíduo de infecções respiratórias. Os digestivos são um tipo muito mais interessante.

E você, está entre os digestivos?
Eu digiro cada vez com maior satisfação.  Eu descobri que a coisa mais importante na vida é o momento da excreção. Uma coisa que mexe comigo é a banalidade das latrinas. Seja Kruschev, Stalin, todo mundo está reduzido a usar as mesmas.

Quer mudar isso?
Projetando uma espécie de assento de honra.  Eu desenhei. Vou expor. São os golfinhos.  No sepulcro dos romanos, dois golfinhos entrelaçados pela cauda. Eu coloquei os golfinhos de costas, a cauda para baixo, duas cabeças no ar. De modo que se possa utilizar cada boca para um uso específico.  Isso me lembra uma história maravilhosa que  disse o poeta Federico García Lorca.  Seu amigo, o compositor Manuel de Falla, era muito profundo, muito maníaco. Um dia ele disse ao Lorca: “Eu vou a um show. Você pode preparar a mala?”. Ele acrescenta: “Tome essa tabela e coloque-a no meio” – “Por que?”. “Porque eu nunca misturo o que toca nas partes nobres da buzina com cuecas e meias, sempre separo em minha mala “…

Voltamos a festa. O que essa palavra significa para você?
Para mim, a festa é o fogo de artifício constante. É encontrar pessoas a quem se ver muito pouco, dizendo coisas que influenciam, para mudar sua mente, perturbá-la, torná-lo mais inteligente. Embelezar o feio e estragar o belo. É manipular as pessoas da minha época divertindo-as.

Como suporta a solidão?
Eu nunca estou sozinho.  Eu tenho o hábito de estar sempre com  Salvador Dalí. Acredite em mim, é uma festa permanente.

A pintura faz parte da festa?
E não! Em minha casa em Port Lligat, quando eu pinto, eu sigo o conselho do Rafael, que disse: “Quando você quer conseguir alguma coisa, tem que pensar sempre e acima de tudo em outra coisa”. Então, quando eu pinto, Gala sempre me lê livros, não escuto o que lê, porque eu ouço música, ao mesmo  tempo.  Mas, na verdade, tão pouco ouço a música. Porque eu penso em outras coisas. Ao terminar o dia  estou muito surpreendido com o que fiz, sem saber certamente como saiu… Cada pintura é o produto de uma festa perpétua da minha mente.

A técnica não lhe dá trabalho?
Eu não me preocupo com isso. Quem se preocupa com técnica erra em tudo.

Onde você conseguiu a sua técnica? Aprendeu na escola?
Frequentei a Escola de Belas Artes em Madrid, uma das melhores escolas do mundo.  Mas não aproveitei as lições que me davam, porque naquela época era o cubismo. No entanto, algo deve ficar. Um dia alguém me disse: “Tens uma técnica extraordinária, devia escrever um livro sobre a técnica”.  Então, eu escrevi esse livro. Brincando.  Inventei receitas completamente fantasiosas. Agora, quando quero pintar alguma coisa, me volto a esse livro escrito em tom de brincadeira.  O que significa que, no fundo, eu jamais brinco. Às vezes eu digo coisas para impressionar os jornalistas, para chocar. Muitas vezes, o que eu disse brincando revela-se mais verdadeiro do que julgam.

Você fala sobre as suas festas pessoais. Mas nunca pinta seus quadros para o prazer dos outros?
Não, não. A finalidade dos quadros, realmente, é puramente comercial. Uma citação de Gustave Moreau me impressionou: “Deixo de pintar minha parte, só quando eu ver que o ouro surge da ponta do meu pincel.”. Observo isso ao pé da letra. Inclusive pescadores de Cadaqués, dizem: “Aquele porco do Dali, com seu pincelzinho, faz ouro.”. Sou místico como todos os espanhóis.  Ser místico é fazer ouro.

Não foi esse amor pelo ouro que o tornou impopular com os surrealistas, especialmente com André Breton?
Eu digo com Luís XIV: “O surrealismo sou eu. Todos os outros se enganaram, porque eram românticos.”. Dito isso, eu fiquei realmente surpreso quando recebi a notícia da morte de André Breton, ao ler lá: “Ele buscou o ouro do tempo”.  Isso pareceu muito estranho, vindo de um homem que tanto havia me acusado de desejo e, para me designar, tinha inventado o apelido de “Avida Dollars”, um anagrama de Salvador Dali.  Então eu pensei: “Ele buscou o ouro da época, e eu o encontrei.”

O que o autoriza a dizer que o Surrealismo é você?
Eu sou o único surrealista realmente saído do romantismo. Os outros, com o seu romantismo, provocaram todas as catástrofes. A invasão de Hitler é o produto do Surrealismo, a revolução de maio de 1968 também. Eu sou o único clássico surrealista que vive perto do Mediterrâneo, em regiões claras, enquanto todos os outros estão amarrados pelo romantismo alemão.

Você não era hostil a Hitler?
É uma calúnia. Assim que Hitler chegou, eu  sai. Mas, em pleno surrealismo, eu disse para os surrealistas: “Se são surreais, se amam o romantismo, e sobretudo o romantismo alemão e irracional, então amem a Hitler, que é um louco, um total ser delirante.”. Naquela época, eu mesmo sonhava com Hitler, estava fascinado pela volta de Hitler. Da mesma forma, em outro momento, estive fascinado por Lênin. Hitler parecia ter uma volta muito previsível. Claro, isso foi uma reação puramente irracional e surreal. Eu havia previsto o fim de Hitler com dois anos de antecedência. Eu anunciei, em uma novela. Era realmente inevitável. Porque ele era um masoquista puro. Tinha empreendido toda essa ação wagneriana com a meta inconsciente de perder ou morrer.

E Stalin, o que você acha?
Todos os personagens têm muita autoridade, Mao, Lênin, me impressionaram muito. Stalin, acima de todos os outros, porque era o mais cruel, o mais autoritário que, na história contemporânea, foi verdadeiramente Vulcano forjando o escudo de Aquiles.  Escudo que, por outro lado, servirá para proteger a todos nós. Porque os russos estarão do nosso lado para nos defendermos contra os chineses.

Você tem medo de Mao?
Acho que é um poeta muito bom. Ilustrado por suas obras. Dito isto, tenho muito medo dos chineses.

Qual é a sua posição sobre o General Franco?
Estou convencido de que o General Franco é um grande político. Alguns meses atrás eu tive a honra de almoçar com ele e tive a convicção de que é também um santo. Ou seja, um místico, na tradição dos grandes místicos espanhóis.  Após o almoço, foi lá que percebi que era um santo, eu disse que iria tirar um cochilo, como faço todos os dias, um cochilo de meia hora. E ele foi visitar uma biblioteca de manuscritos antigos, o museu. Mudou seu figurino para começar a voar e, em seguida recebeu 15 ministros. Não há no mundo um jovem capaz de tal energia. Só  é capaz  um homem com a fé em sua missão, como ele é.  É um ser absolutamente extraordinário.

O que teria pensado se no final do processo de Burgos, o General Franco não tivesse concordado com a graça dos condenados?
Pessoalmente, sou contra a pena de morte. Eu acho que um homem não tem direito à vida, a existência de outro homem, assim foi o maior criminoso.  Por outro lado, eu estou muitas vezes com os criminosos mais experientes.  Minha preferência é maior pelos seres cruéis. O arquétipo sentimental, representado pelo cantor Yves Montand, é o que mais desprezo, por que ele é bom e choroso. Metafisicamente, portanto, eu sou contra a pena de morte. Mas se ainda existe a pena de morte em algum lugar, e se alguém acha que ela tem uma missão histórica, creio que acredite que ela deverá aplicar-se aos limites. Vinte  condenações à morte, certamente, é mais barato do que milhares de mortos na guerra civil.

Não acha que é monstruoso o que disse
Tudo que estou dizendo é realmente monstruoso. Mas a guerra civil é monstruosa.  Em um de meus quadros, que é uma premonição da guerra civil espanhola, intitulado “Construcción blanda con porotos hervidos”, figura também um monstro que se auto-devora.

O monstruoso faz parte da festa para você?
E não! Eu adoraria explodir seres vivos. Eu não vou, porque eu sou contra a pena de morte. Mas quando se trata de animais, eu tenho menos escrúpulos. Quanto mais sofrem, mais feliz eu fico.  O que eu mais queria era detonar bombas dentro de 8 cisnes e vê-los explodir.

Como você concilia este aspecto cruel do seu caráter com o amor que professa por sua esposa?
Gala, no entanto, é uma exceção em tudo. Mas eu sempre disse que se a Gala morresse, eu gostaria de comê-la.

A cortaria?
Não. Se fosse possível que, morta,  Gala diminuísse como uma azeitona,  então a engoliria. O canibalismo é uma das manifestações mais evidentes de ternura.

Em que Gala é tão excepcional assim?
Me fez ganhar todo dinheiro que tenho.

O que mais?
Foi a primeira com quem fiz amor. Não é que eu goste muito de fazer amor, mas tinha 29 anos e me achava impotente.  Gala revelou-me a mim mesmo.  Nunca fiz amor com mais ninguém.

No entanto, você organizou “festicholas”.
Nunca. Eu assisti “festicholas”, e eu achei antierótico por excelência.

Politicamente, você se diz monárquico. Porque?
Porque, do ponto de vista científico, é a única forma de governo que corresponde às recentíssimas descobertas das ciências biológicas. Da primeira para a última célula, tudo foi transformado de modo inevitável,  geneticamente. A monarquia é genética. Vem de Deus.

Você é mais que monárquico: é legítimo.
Exatamente. E minhas idéias sobre isso há pouco foi reafirmada pelo Légitimité, um livro extraordinário de Blanc de Saint-Bonnet, eu procurei por anos e finalmente encontrei esses dias.  O autor refere-se a Blanca de Castilla, mãe de San Luis, que disse: “. Eu prefiro ver o meu filho morto antes de saber que estava alguns minutos em pecado”.  Enquanto Letícia, mãe de Napoleão, repetia sem parar: “Aproveita, pois não vai durar.”.  É toda a diferença entre legítimos e ilegítimos.

Você acha que os governantes legítimos são mais honestos, mais desinteressados?
Para falar de uma maneira vulgar, os presidentes das repúblicas têm sempre uma tendência, porque o seu mandato dura apenas cinco anos, a fazer combinações, para pôr dinheiro à esquerda e à direita.  Na Suíça, quem nasce príncipe que não precisa fazer dinheiro, apenas tem que nascer.

Você acredita no restabelecimento das monarquias na Europa?
Na minha opinião, tudo caminha para a monarquia. Inevitávelmente. Na Espanha, é um fato. Roménia vai seguir.  E então eu não sei. O terrível é que os reis atuais não são monárquicos. Eles dizem: seja liberal, falam de socialismo e assim por diante.  Não é assim. Tem que ser absoluto. Mas convencer um rei de que deve ser monárquico é muito complicado. Portanto, eu gostaria de publicar extratos do livro de Saint-Bonnet Blanc e oferecer ao meu príncipe, Juan Carlos.

Você acha que o rei de Don Juan Carlos será um rei monárquico?
Para um rei, a chave não é ser um gênio, e sim o mais legítimo possívell, tendo recebido uma boa educação e acreditar em sua missão. Juan Carlos recebeu uma educação muito boa, estava no Zaragoza. E estou convencido de que ele acredita em sua missão.

Como você vive em casa, em Cadaqués?
Minha vida é muito rigorosa, mas sempre brincando. Eu me levanto muito cedo. Dou um passeio sempre a mesma hora. Eu faço uma sesta de meia hora, eu levo mais meia hora para nadar. Sempre vou pra cama na mesma hora. Em Cadaqués, às 10h30 já estou na cama. Sempre jogando todo o tempo, me divertindo como um louco.

O que joga?
Um monte de jogos. Por exemplo, quando eu escrevo na cama, eu tenho diante de mim uma televisão japonesa. E eu olho para trás para não saber o que acontece na tela, ou coloco um filtro na frente para complicar as imagens. Depois, como torradas com mel. Coloco mel dentro da minha camisa para grudar na pele e sentir meu pelo todo pegajoso.

Por que TV? Necessita de informação?
Não. Para mim, a televisão é uma espécie de tela que você vê tudo o que pode imaginar.

Resumindo, faz suas festas pessoais sem parar?
Sem parar.  Eu tenho medo de morrer de excesso de satisfação. Veja, hoje eu me divirto muito com você.

Em Cadaqués, repete todos os dias o mesmo script?
Nunca! Um dia, pego mel.  Outro, coloco uma abelha debaixo da minha camisa. Uma vez, eu coloquei sob os meus olhos uma caixa de formigas iluminadas por partículas fluorescentes. Alguns dias, eu não faço nada. Outros, me livro de todos os tipos de manipulações com aglomerados de matéria que tiro do meu nariz, ou se não, manuseio, farejo, rodo de um lado pro outro. De repente, a bola escapa. A perco.  Então, aí vem a loucura. Poderia começar de novo, fazer outra, substituir por uma migalha de pão… Mas deve ficar assim.  Porque corresponde a um pensamento cibernético.

Você já experimentou a angústia por outras razões?
Não, nunca. Não experimento qualquer sentimento humanitário. As grandes catástrofes, como o Paquistão, eu exulto. Quanto mais desastres e guerras ao meu redor mais prazer tenho.  Mesmo assim, sendo um cavalheiro católico, apostólico e romano, quando tais coisas acontecem, envio  dinheiro, eu me comporto como devo, melhor que os humanitários sentimentais.  Se me chamam a prestar contas…  precisam estar corretas.

Mas quem poderia lhe pedir contas?
Todas estas histórias, Deus, tudo isso … “Sejamos prudentes”, como dizia Saint-Granier.

Você sentiu a morte de seus amigos? Você gostava de Federico García Lorca.  Quando ele foi baleado, se comoveu?
Eu gostei. Além disso, como eu disse,  como eu sou um jesuíta ao mais alto nível, eu sempre sinto, quando um dos meus amigos morrem, que fui eu quem os matou. Que morreu por minha culpa.  É particularmente verdadeiro para Lorca, porque se ele tivesse me seguido a guerra civil não teria o surpreendido.  E eu disse  para não ir  juntar-se a mim na Itália, onde eu estava, e ele me disse, quando morreu, que não era minha culpa. Mais uma vez  o maravilhoso foi que, de alguma forma, eu sabia que não era verdade. Mas meu sentimento de culpa não dura muito tempo. Eu penso, afinal, já morreram. E isso me faz duplamente feliz.

Tudo o que você disse é humor negro. Lembra do cão andaluz, que rodou com Buñuel em 1929.  Por que não faz filmes?
Primeiro, porque não é uma arte. Uma pessoa não pode se expressar através do cinema, porque existem outros meios. Quando você tem também muita riqueza à sua disposição, é impossível fazer uma obra de arte.  Nem mesmo uma peça.

Quer dizer que a obra de arte é mais coerção?
Tudo é baseado na coerção.   Gérard Dou poderia fazer uma obra-prima porque tinha uma tela, óleo e seu olho.  No cinema, nem bem se fotografa a coisa, foge o mistério.

Na sua opinião, a arte é a coerção. Uma definição muito clássica na boca de um personagem como você.
Ah, mas eu sou de uma rigidez ainda maior.  Eu sou pelos períodos de Inquisição. Quanto mais coerção há, maior é a precisão no que se quer dizer. A liberdade é o esforço. Nosso tempo esqueceu.  Se libertou do tema da pintura, da técnica, da cor, da figuração, da forma. Veja os resultados: quadros  onde há apenas uma cor com uma linha.

Mas você, quando fala, quando escreve, tem uma linguagem muito livre, rejeita absolutamente qualquer coerção.
Porque eu sou um jesuíta, hipócrita, e uso todos os meios para divulgar as idéias que quero impor ao meu tempo.

Você está preparando uma continuação para O Diário de um Gênio?
Não. Concentrei toda a minha atividade literária na tragédia erótica em três atos e um verso, definida na época de Vermeer e Dou. Já fiz dois atos.  Só falta o terceiro.

Você pretende exibir em Paris?
Embora existam regimes democráticos creio que não poderão representar em nenhuma parte.  Isso irá requerer vários anos de monarquia para que  um rei possa permitir a representação de tal abominação.  O Marquês de Sade, para mim, é engraçado.

Você, que ama as catástrofes, as abominações, o que você acha da bomba atômica?
Eu gosto tanto de catástrofes que eu estou pronto para receber uma bomba nuclear na cabeça. Com uma bomba atômica, só se corre um risco, ir de homem ao status de anjo.  Nada a perder, tudo a ganhar.

Você deseja uma espécie de coroação, a apoteose atômica …
Eu realmente gosto do Apocalipse. Além disso, o ilustro. Mas eu sou como Santo Agostinho. Quero que venha o mais tarde possível.  Quando Santo Agostinho fez todas as orgias, a maior orgia que jamais sonhou, orou a Deus toda noite para fazê-lo. Mas terminou a sua oração dizendo: “Mas espera duas ou três semanas.”

Uma última palavra de Salvador Dalí. É um homem feliz?
Você viu muito bem que durante essa conversa eu não fiquei entediado um segundo…  Acima de tudo, não se esqueça de adicionar um pouco de confusão no texto, se as coisas parecerem muito claras …

O Que Pensam, o que Querem os Surrealistas

Posted in Anarquismo, Literatura with tags , , , , , , on maio 11, 2011 by canibuk

Generalidades

É preciso não apenas que cesse a exploração do homem pelo homem, mas que cesse a exploração do homem pelo pretenso “Deus”, de absurda e provocante memória. É preciso que seja inteiramente revisado o problema das relações do homem e da mulher. É preciso que o homem passe, com armas e bagagem, para o lado do homem. Basta de flores sobre os túmulos, basta de instrução cívica entre aulas de ginástica, basta de intolerância, basta de engolir sapos! (André Breton, 1942).

Não poderá haver novo humanismo senão no dia em que a história, reescrita após ter sido acertada entre todos os povos e limitada a uma única versão, consentir tomar por sujeito todo homem, da época mais remota que os documentos permitirem, e perceber, com toda objetividade, seus fatos e gestos passados sem considerações especiais à região que este ou aquele habita e à língua que ele fala. (André Breton, 1945)

Nosso entrincheiramento agressivo contra a sociedade deliqüescente, nossa hostilidade em relação a seus ideais degradantes encontram seu corolário… Em nosso desejo de um grande vento Ateu, purificador e revolucionário. (Jean Schuster, 1950)

Surrealismo ou Realidade

Tudo o que amo, tudo o que penso e sinto inclinam-me a uma filosofia particular da imanência segundo a qual a surrealidade estaria contida na própria realidade e não lhe seria nem superior nem exterior. E reciprocamente, pois, o que contém também seria o conteúdo. (André Breton, 1928)

Os surrealistas, no que os concerne, não cessaram de invocar o livre pensamento integral. Concentrando deliberadamente suas pesquisas em torno de certas estruturas destinadas, de um modo totalmente abstrato, a evocar a ambiência ritual, procuram em nada assumir o absurdo e o ridículo de buscar promover por suas próprias mãos um novo mito. (André Breton, 1947)

Sonho & Revolução

… Desde que a démarche refletida e racional da consciência sobrepujou a démarche apaixonante do inconsciente, quer dizer, desde que o último dos mitos cristalizou-se numa mistificação deliberada, o segredo parece ter se perdido, segredo esse que pirmitia conhecer e agir sem alienar o conhecimento adquirido. O sonho e a revolução são feitos para pactuar, não para se excluir. Sonhar com a Revolução não é renunciar a ela, mas fazê-la duplamente e sem reservas mentais. (Ruptura Inaugural, 1947)

Religião

Em 1931, os surrealistas declaram, por ocasião das primeiras lutas na Espanha: “Tudo o que não é a violência quando se trata de religião. do espantalho Deus, dos parasitas da oração, dos professores da resignação, é assimilável com esses inumeráveis vermes do cristianismo, que devem ser exterminados”. (Benjamin Péret, 1948)

A religião cristã, a mais evoluída e a mais hipócrita de todas as religiões, representa o grande obstáculo espiritual e material à liberação do homem ocidental, pois é o auxiliar indipensável de todas as opressões. Sua destruição é uma questão de vida ou morte. (Benjamin Péret, 1948)

Pátria, Estado

Em 1925, os surrealistas declaram: “Ainda mais que o patriotismo, que é uma histeria como outra qualquer, contudo, mais vazia e mais mortal do que qualquer outra, o que nos repugna é a idéia de Pátria, que é verdadeiramente o conceito mais bestial, menos filosófico que tentam fazer penetrar em nosso espírito”. (a Revolução primeiramente e sempre!)

Em 1935, os surrealistas declaram: “Todo sacrifício de nossa parte à idéia de pátria e aos famosos deveres que dela resultam entrariam de imediato em conflito com as razões iniciais mais certas que conhecemos de termos nos tornado revolucionários… É a inanidade absoluta de tais conceitos que atacamos e, sobre isso, nada nos forçará a nos redimir”. (do tempo em que os surrealistas tinham razão)

Revolta, Revolução

O poeta não deve alimentar em outrem uma ilusória esperança humana ou celeste, nem desarmar os espíritos insuflando-lhes uma confiança sem limite num pai ou num chefe contra quem toda crítica se torna sacrílega. Muito pelo contrário, cabe a ele pronunciar as palavras sempre sacrílegas e as blasfêmias permanentes. (Benjamin Péret, 1945)

A idéia cristã da vaidade absoluta dos esforços do homem não tem inimigo mais irredutível que a poesia, que é a mensagem de esperança e revolta. Mesmo desesperada, essa poesia não aceita, com efeito, o desespero; ultrapassa o sofrimento transformando-o em fonte de revolta. Proclama por isso mesmo sua confiança no verdadeiro poder do homem. (Jean-Louis Bédouin, 1950).

Arte fantástica de H.R. Giger

Posted in Arte e Cultura, Arte Erótica, Bizarro with tags , , , , , , , , on maio 8, 2011 by canibuk

Fundamental para a natureza de seu trabalho é sua estética biomecânica, uma dialética entre homem e máquina, o que representa um universo ao mesmo tempo perturbador e sublime.“,  Site Oficial H.R Giger.

H.R. Giger é um artista suiço conhecido e admirado pelos seus trabalhos com formas  biomecânicas executadas com perfeição.  Muitos o conhecem apenas como  o criador do alienígena do filme “Alien” (filme americano de 1979 dirigido por Ridley Scott),  sua obra mais famosa e que lhe rendeu um oscar (seu livro mais famoso “Necronomicon” de 1977 foi a principal inspiração para o primeiro filme da série Alien), mas H.R Giger é muito mais que isso.

Sua obra mais famosa, Alienígina criado para a série "Alien".

Com grandes obras que passeiam por diversas áreas e criações artísticas, ele se divide entre os talentos de pintor, escultor, desing de comunicação e arquiteto de interiores. Sua arte, classificada por ele mesmo como surrealista/realista fantástica, é  mórbida e futurista. São formas monstruosas e ao mesmo tempo sensuais e eróticas, de um realismo inquietante e extraordinário.

Giger, já na infância, começou a mostrar interesse pelo sexo e pelo obscuro do ser humano, temas constantes em suas obras. “Desde muito cedo me senti atraído pelo sexo oposto. Os locais que mais me interessavam eram os mais escuros. Por isso, logo que deixaram me vestir sozinho, comecei a usar o preto. O local mais escuro da casa era debaixo da mesa, num porão pequeno e sem janelas, que me servia de quarto de brincar.“, diz o artista.

Aos dezoito anos, e como não conseguia boas notas, foi  mandado para um trabalho não-remunerado em uma associação de arquitetos, o que foi importantíssimo em seu gosto para o desenho, teve aí sua primeira oportunidade de trabalhar como desenhista.

A partir de 1964,  ano em que cursava escola de artes,  começou a ter seus primeiros trabalhos publicados em revistas e jornais. Estudos concluídos, Giger começa a trabalhar como designer de móveis de escritório, mesma época em que casa com a atriz Li Tobler, musa inspiradora de vários de seus quadros. Logo começa a produzir desenhos maiores e faz sua primeira exposição individual.

Em 1979, após muitas exposições e de  uma tentativa frustrada de Alexandro Jodorowski em adaptar o livro “Dune” para o cinema, onde o Giger seria contratado para trabalhar como designer, dando vida aos cenários e criaturas, foi que seu trabalho começou a ser reconhecido pelo grande público, graças àquela famosa criação, já citada antes, para o filme Alien.

"Palácio de Harkonnen" esboço de Giger para o filme de Jodorowsky.

Outra obra para o filme do Jodorowsky.

Em 1998, inaugurou na Suiça, seu próprio museu no castelo de St. Germain onde abriga suas esculturas, desenhos, quadros, móveis e outros tipos de arte de sua autoria. O museu abriga também artes de outros artistas de sua coleção privada, coleção enriquecida com nomes como Salvador Dalí e Joe Colleman.  O museu também aloja sua residência e um bar fabuloso, onde em quatro anos de obras intensas, o Giger se empenhou pessoalmente para que tudo ficasse exatamente do jeito que ele projetou, cada milímetro, cada detalhe! O bar foi reproduzido como uma enorme caverna mórbida e como um interior monstruoso e fossilizado de algum animal pré-histórico, com ossos e vértebras, que, como mostram as imagens, parecem ser de um realismo surpreendente e rico! Pouca coisa, né?! Lugar que, de passagem pela Suiça, vale a pena conhecer e sentar pra tomar uma cerveja, mórbida cerveja!

H.R. Giger – Erotomechanics Art:


Eu venho tendo sempre os mesmos sonhos, e são pesadelos. Eles são terríveis. Mas eu descobri que quando faço desenhos sobre eles, os sonhos vão embora. Eu me sinto muito melhor. É uma espécie de auto-psicanálise“,  H.R. GIGER, o gênio!

H.R Giger – The Official Website.


Quando Teresa Brigou com Deus

Posted in Literatura with tags , , , on abril 10, 2011 by canibuk

“Quando Teresa Brigou com Deus” (1992, 375 páginas, Ed. Planeta do Brasil) é um livro do Alejandro Jodorowsky onde ele desfila 375 páginas de cenas visuais impactantes que ele, provavelmente, gostaria de ter filmado e não pode por conta das limitações de orçamento de seus filmes. É surrealismo Jodorowskiano na melhor de suas formas, é Gabriel García Márquez com LSD na cabeça. Li este livro no ano que foi lançado aqui no Brasil, 2003 se não me engano, e devorei o livro inteiro numa única sentada (deixei de ir trabalhar prá ficar lendo o livro sem parar). Aqui Jodorowsky conta a saga de sua família, judeus russos que escapam pro Chile e delira o tempo todo, exagerando as passagens até tornar coisas simples, como colher mel, em uma espécie de mitologia sagrada familiar, os paralelos com as histórias criadas pelo homem para explicar os eventos religiosos como conhecemos, não são mera coincidência. No prólogo do livro Jodorowsky alerta o leitor, dizendo:

“Todos os personagens, locais e acontecimentos são reais (ainda que, por vezes, a ordem cronológica tenha sido alterada). Mas essa realidade é transformada e exaltada até ser levada ao mito. Nossa árvore genealógica é, por um lado, a armadilha que limita nossos pensamentos, emoções, desejos e vida material… Por outro lado, é o tesouro que encerra a maior parte de nossos valores. Além de ser um romance, este livro é um trabalho que, se foi bem sucedido, tem a aspiração de servir de exemplo para que cada leitor o siga e transforme, por meio do perdão, sua memória familiar em lenda histórica.”

“Quando Teresa Brigou com Deus” é imperdível, o melhor que o surrealismo literário já criou. Este livro foi escrito pelo Jodorowsky logo após a produção do clássico “Santa Sangre”, nesta época ele estava em grande forma e hiper ativo (até o filminho onde ele trabalhou de diretor de aluguel, “The Rainbow Thief”, é bem divertido). Como este livro já foi lançado a tanto tempo, creio que pode estar fora de catálogo, então, fiquem de olho nos sebos!

“Cada pássaro canta melhor em sua árvore genealógica.” (Jean Cocteau).

Curiosidades da Obra Cinematográfica de Alejandro Jodorowsky

Posted in Arte e Cultura, Cinema with tags , , , , on março 1, 2011 by canibuk

Cineasta, poeta, homem do teatro, surrealista, escritor (de romances e roteiros de cinema/quadrinhos) e psicomago (Jodorowsky é psicólogo, uma vez por semana ele faz umas charlatices com cartas de Tarô que servem de auto-ajuda à sociedade classe-média entediada de Paris). O melhor livro que já li, “Cuando Teresa Se Onojó Con Dios”, foi escrito por ele. Três dos melhores filmes que já vi foram escritos/dirigidos por ele (“El Topo” de 1970, “The Holy Mountain” de 1973 e “Santa Sangre” de 1989). Resolvi postar inúmeras curiosidades sobre a obra cinematográfica deste genial chileno cheio de clássicos (“Tusk”, longa de 1980, é o único filme dele que achei bem ruim). Essas informações que posto aqui são para os cinéfilos já iniciados na obra cinematográfica dele.

Infância:

* Nasceu ao Norte do Chile, Tocopilla, onde por 3 séculos não havia chovido, sendo o lugar mais seco do mundo. Na cidade havia apenas 8 árvores e até seus 10 anos foram as únicas árvores que ele conheceu. Tocopilla era uma cidade portuária de 2 mil pessoas onde aportavam navios do mundo inteiro. Havia a rua do puteiro e para as crianças era uma grande aventura ver o que acontecia por lá. Jodorowsky e os amiguinhos se masturbavam em círculos onde ele se descobriu diferente (branco, circuncidado com pênis no formato de cogumelo enquanto os amigos eram morenos com pênis pontudo.

* Ainda criança assistiu ao funeral do pênis de um marinheiro.

* Nunca teve contato físico com seu pai. Quando tinha uns cinco anos o carro que os levava quebrou e seu pai teve que carrega-lo por alguns quilômetros, isso marcou Jodorowsky prá sempre.

* O interesse pelo estudo das religiões veio porque seu pai era um ateu fanático. Toda vez que Jodorowsky ganhava algum símbolo religioso seu pai atirava-o no sanitário gritando: “Deus não existe!”

* Se formou em Filosofia e Psicologia.

Movimento Pânico:

* O nome remete ao Pânico e ao Deus Pan. Suas peças teatrais eram uma mistura de vanguarda, cinema e literatura.

* Fernando Arrabal era um de seus parceiros nas peças de Teatro de Pânico. Suas peças teatrais lembram os filmes de Otto Mühel e Kurt Kren (adoro os filminhos deles), só que não tão radicais.

* Criaram o movimento Pânico porque achavam que o surrealismo estava morto. O Surrealismo não gostava de rock’n’roll, não gostava da ficção cientifica, da pornografia. Politicamente os surrealistas eram trotskystas. O movimento do pânico era uma piada. Eles (Jodorowsky e Cia.) chamavam de pânico qualquer coisa que faziam. Acreditavam em confusão e desordem. Acreditavam que um artista precisava estar dentro do seu trabalho. Mas o grupo cultural, a sociedade, os levou a sério e acreditavam, até hoje, que foi um movimento. Mas nunca existiu, é uma piada, a cultura popular é idiota.

* “La Cravate” é o primeiro filme de Jodorowsky, feito de forma intuitiva, sem ser pensado, como “Fando Y Lis”.

Fando y Lis:

* Um dia fez amizade com um garoto com Síndrome de Down, transformou-o em assistente e motorista. Já estava filmando algumas coisas do “Fando Y Lis” (O garoto aparece na cena em que Lis é oferecida a 3 homens, o garoto com problemas mentais é o de cartola) e este garoto cometeu suicídio (acidental) quando sua cama pegou fogo com ele fumando um baseado. O pai deste garoto era Moshe Rosenberg,  um rico comerciante de jóias no México. Pela dedicação de Jodorowsky ao seu filho quis pagar uma peça, mas Jodorowsky pediu 100 mil dólares para terminar o “Fando Y Lis”. Moshe Rosenberg também foi um dos investidores no filme “El Topo”.

* “Fando Y Lis” é inspirado na peça de Fernando Arrabal, o roteiro tinha uma página e Jodorowsky foi fazendo o filme baseado em suas memórias da peça. Arrabal, como todo artista surreal, odiou o resultado.

* A peça era meio auto-biográfica. Fando possuí tanto ódio de Lis porque possuí ódio de sua mãe. Num flashback vemos que a mãe de Fando acusa seu pai de ser um revolucionário e ele é preso. Essa cena é inspirada na mãe de Arrabal que acusou o pai de Arrabal de ser um revolucionário. Arrabal tentou se exorcizar disso em seus dois primeiros filmes, “Viva la Muerte” (1970) e “J’irai Comme un Cheval Fou” (1973).

* Quando fez “Fando Y Lis” Jodorowsky não sabia nada de técnicas cinematográficas, então se amarrou ao diretor de fotografia (Rafael Corkidi) por um fio de borracha e movia o diretor de fotografia ao seu bel prazer.

* Jodorowsky odiava o ator que interpretou Fando por ele ser profissional demais. Depois disso sempre fazia questão de usar atores amadores quando possível.

* Nas cenas do cemitério das crianças enterradas foram filmar numa pequena cidade. Filmaram rápido e escondidos porque não tinha autorização e como haviam arrancado e misturado as cruzes achavam que poderiam ser mortos pela população.

* Na cena das pessoas nuas na lama Jodorowsky queria todos nus mas não pode fazer porque havia um espião do governo. A censura mexicana, na época, era bem pior que a censura brasileira.

* Os atores que fazem os travestis não são atores, são todos travestis reais que Jodorowsky mandou um assistente gay procurar pro filme.

* Na cena em que é tirado o sangue do braço de Lis (sem cortes), o ator que tira o sangue é um médico de verdade que quis trabalhar no filme. Ele tira sangue de verdade no braço e bebe, em 1966 não existia AIDS. Com a cena Jodorowsky quis simbolizar que todos os adultos são vampiros que sugam a inocência das crianças. O filme é sobre crianças perdendo a inocência, sobre a relação homem-mulher.

* Nos filmes de Jodorowsky se vê bastante (principalmente “Fando Y Lis” e “Holy Mountain”) pessoas alvejadas por tiros com pássaros que voam para fora destes ferimentos. Para os Egípcios a alma era um pássaro.

* Quando terminou as filmagens de “Fando Y Lis” Jodorowsky mostrou as cenas para Carlos Savage (que foi o editor de todos os filmes do Buñuel feitos no México) que o ajudou com idéias.

* “Fando Y Lis” foi filmado de forma “fora da lei”, sem permissão do sindicato mexicano. Foi dividido em 4 capítulos porque o sindicato, tomado por velhos diretores, não deixavam jovens diretores dirigir. Assim parecia quatro curtas e recebia apoio do sindicato dos curtas e podia ser exibido. Quando o filme ficou pronto um produtor o inscreveu no Festival de Acapulco e o escândalo foi tão grande que cancelaram o festival prá sempre.

* Emilio Fernandez, o maior diretor mexicano da época, que já havia matado duas pessoas, neste mesmo festival, disse: “Matarei Jodorowsky hoje à noite!”. Jodorowsky o viu na festa do festival e descobriu que ele sempre bebia uma garrafa de uísque, mandou outra garrafa de presente e quando viu que ele havia secado a primeira garrafa foi até ele e disse: “Estou aqui para você me matar!”. Emilio Fernadez gargalhou e disse que ele havia dado uísque e que estava tudo bem. No dia seguinte Emilio Fernandez declarou num jornal que queria ser assistente do Jodorowsky no próximo filme dele. Quando Jodorowsky filmou “Santa Sangre”, em 1989, precisou de uma casa estranha e alugou da filha de Emilio Fernadez a casa dele para filmar.

* Depois que finalizou “Fando Y Lis” ninguém queria saber do filme e não foi exibido por um ano.

El Topo:

* Primeiro Jodorowsky escreveu o roteiro de “El Topo”, aí mudou o roteiro ao encontrar as locações. Depois que encontrou os atores fez novas mudanças. Assumiu a personagem “El Topo” porque nenhum outro ator mexicano aceitou.

* Como não tinha dinheiro prá fazer os figurinos, Jodorowsky alugou trajes de uma ópera e o físico dos atores que determinava quem usava o que.

* Os atores só tem diálogos nos filmes dele quando não pode mostrar algo visualmente.

* “El Topo” começa quase biográfico. Quando Brontis (filho de Jodorowsky) desce do cavalo para enterrar o urso de pelúcia, era seu próprio urso de pelúcia. O retrato da mulher sobre a cova era a mãe de Brontis, ex-mulher de Jodorowsky. Fazia sete anos que Jodorowsky não via Brontis e no dia daquelas filmagens era o aniversário moleque.

* “El Topo” é um Deus vingativo, para cria-lo buscou inspiração em Zorro, Elvis Presley e nos rabinos. Também se inspirou em Moisés já que quando “El Topo” está no deserto faz os mesmos milagres.

* Os animais que ele usa no começo do filme eram animais doentes que ele comprou num abatedouro.

* O massacre da cena inicial ele filmou num local que não havia água, Jodorowsky levou mais de 5 mil litros prá fazer sangue. Nessa cena ele deixou os figurantes deitados no sol por mais de 4 horas, depois teve que leva-los pro hospital por causa da insolação. Ninguém reclamava porque ele se vestia de negro e agia como um Deus perverso e todos no set tinham medo dele (queria ver Jodorowsky e Klaus Kinski no mesmo set).

* Os coelhos foram levados prá filmar no deserto mas começaram a morrer de calor, se você prestar atenção vai ver os coelhos agonizando de calor durante o decorrer da cena onde eles aparecem.

* O técnico de som nos filmes de Jodorowsky sempre é o Gavira, que usava seu corpo e uma mala cheia de lixo prá criar os efeitos sonoros. Ganhou um Oscar depois ao fazer os efeitos sonoros do “O Exorcista”.

* Em todos seus filmes Jodorowsky dubla os atores.

* O diretor Alfonso Arau (que depois ficou famoso ao dirigir o filme “Como Água Para Chocolate”), aparece no filme como um dos pistoleiros que “El Topo” mata logo no começo do filme.

* Em “El Topo” há bandidos malvadões homosexuais (que dançam com os padres numa cena belíssima) e os xerifes homosexuais na cidade (cenas no vilarejo, perto do fim do filme), foi um choque na época.  Inclusive os padres são feitos por garotos loiros (muito difíceis de se achar no México) que Jodorowsky mandou seu assistente gay achar.

* O primeiro mestre, que é um carrasco (mas quando está sem os símbolos do poder é uma quase uma criança) inspirado em Pinochet.

* Jodorowsky explica que no filme os bandidos se redimem, o mocinho se torna mal. Não há distinção clara entre o bem e o mal, isso é uma doença americana. Ninguém é mal completo. Ninguém é bom por completo. Ninguém é mau por completo. Jodorowsky acha que se existe mal no mundo todos são culpados por este mal.

* Os dois meio-homens que fazem o Double-pistoleiro completo, se odiavam, mas funcionavam bem na tela formando o John Wayne jodorowskiano.

* Com o “El Topo” ele teve problemas com o sindicato novamente. Mas não respeitava o sindicato e filmava sem permissão. Em “El Topo” todas as cenas do deserto foram filmadas com 8 técnicos em 4 semanas.  Depois veio o sindicato que contratou 100 pessoas que passavam o dia inteiro comendo e se embriagando.

* Geralmente filmava tudo em uma ou duas tomadas (raramente 3) porque não havia tempo nem dinheiro. E as atuações eram realizadas quase em transe.

* Ao filmar “El Topo” ele queria expressar o que estava aprendendo com a meditação Zen, se sentia quase um santo. Mas ao mesmo tempo queria triunfar como artista. Depois se afastou deste sentimento e ficou anos sem gostar do filme.

* Na cena final Jodorowsky queima um esqueleto humano de verdade para ter maior realismo.

* Nesta época Jodorowsky acreditava que o cinema era uma arte. Era uma busca por um cinema sagrado (por isso o uso de tudo que é símbolo religioso).

* “El Topo” custou 400 mil dólares. Para diminuir despesas encontraram uma cidade cinematográfica que fora usada numa produção americana. Teve que se apressar e filmar todas as cenas finais na cidade porque estavam colocando uma rede de alta tensão e o set ficava no meio. Subornavam os trabalhadores da rede de alta tensão para atrasarem o trabalho e assim a produção do filme ganhar mais tempo.

* Todo orçamento do filme era em cheques, quando acabaram as filmagens tinham uma dívida de 400 mil dólares e um filme que não era entendido pelos mexicanos e não tinha distribuição internacional. Até que conseguiram vender o filme e o resto é lenda.

* “El Topo” foi o primeiro filme com estréia sem críticos convidados. O distribuidor não queria que os críticos destruíssem o filme antes do público ver.  Então foi feita a primeira exibição e se formou o que hoje é conhecido por “Sessão da Meia-Noite”. A crítica do New York Times destruiu o filme com uma crítica negativa e o público reagiu enviando cartas indignadas, tanto que o jornal acabou publicando uma página inteira elogiando o filme.

* “El Topo” foi exibido no cinema Elgin quando John Lennon e Yoko Ono estavam exibindo seus curtas do movimento Fluxus. O distribuidor do filme pediu pro John Lennon apresentar o filme e pedir que os espectadores ficassem para assisti-lo. As pessoas ficaram e “El Topo” virou filme Cult. Ficou um ano em cartaz no cinema Elgin. Jodorowsky acompanhou umas 3 sessões do filme e sempre era exibido com uma nuvem de fumaça de maconha pairando no ar.

* Depois que fez “El Topo”, o cineasta Sergio Leone o chamou para jantar, queria saber como tinha feito os movimentos de grua. Jodorowsky respondia: “Grua?… Que Grua, subi numas cadeiras!”.

The Holy Mountain:

* Em “Holy Mountain” o produtor secreto era John Lennon que deu um milhão pro Jodorowsky fazer o filme através da gravadora Apple.

* Allen Klein apresentou os Beatles para Jodorowsky. George Harrison ficou encantado com o roteiro e queria fazer o filme, com exceção da cena onde o ladrão estava nu e o alquimista lava seu ânus. Jodorowsky achava que precisava  mostrá-lo porque “Holy Mountain” não era apenas um filme, mas sim um filme que mudaria a vida das pessoas e fazendo a cena George Harrison estaria dando um grande exemplo ao deixar o ego para trás. Harrison argumentou que não podia mostrar seu ânus num filme e Jodorowsky, cabeçudo como todos os bons surrealistas, não removeu a cena. Deu o papel do ladrão à um cômico e perdeu milhões de dólares de bilheteria por não usar George Harrison no filme.

* “Holy Mountain” é a tentativa de se fazer um filme sagrado. Jodorowsky, nesta época, almejava mudar a humanidade com seus filmes. Achava que o cinema deveria ser melhor e mais poderoso que o LSD, que seu cinema iria ser uma fonte de iluminação para o público.

* Para entender o “Holy Mountain” é interessante estudar as cartas do Tarô e também a Cabala porque são usados vários elementos dela. Por exemplo, a personagem principal de “Holy Mountain”, o ladrão cristão, é o louco do Tarô.

* Para a cena da conquista da América espanhola interpretada pelo Gran Circo de Sapos e Camaleões, Jodorowsky conta  que foi muito difícil vestir os sapos, sua urina era como ácido. Quando colocavam as armaduras os sapos se enchiam de ar e depois o soltava para escapar. Os camaleões vestem trajes astecas e os símbolos ali são todos astecas.

* Nesta época ele queria trabalhar apenas com pessoas comuns/reais. Pensava: “Vou filmar com pessoas comuns e ilumina-las!”.

* Quando filmou a cena dos soldados dançando com os civis (que são a mesma coisa: um soldado é um civil de uniforme, um civil é um soldado sem uniforme), apareceu um cara ensandecido e colocou uma arma no peito dele e disse: “Pare de filmar ou te mato!”. Jodorowsky ficou louco e começou a gritar: “Se me matar, eu te mato!”. E o cara foi embora.

* No México foi o lugar onde Jodorowsky mais foi ameaçado. Durante as filmagens de “The Holy Mountain” a igreja publicou um livro contra ele, o ministro do interior pediu prá ele não colocar uniformes no filme, nem padres, nem militares, nem bombeiros. Nada. Foi quase uma ameaça de morte. No dia seguinte Jodorowsky juntou todo seu material, família e equipe e foi prá New York terminar o filme lá.

* No filme as cartas de Tarô usadas foram inventadas por ele.

* A trilha sonora foi criada por Jodorowsky e Don Cherry, um músico de vanguarda que se vestia com um terno feito de retalhos, tocava um trompete quebrado e tudo que usava em sua casa era recolhido do lixo.

* Como não havia dinheiro, os cenários grandiosos do filme são fábricas transformadas em lugares surrealistas.

* Jodorowsky vivia repetindo: “O artista deve ser um curandeiro!”.

* Quando filmou nas montanhas, os xamãs que aparecem no filme não são atores, são xamãs verdadeiros que vivem nas montanhas e que ele deixou improvisar no filme.

* Quando começaram a escalar a montanha, Jodorowsky decidiu que precisavam mesmo escalar a montanha. Mas ficavam exaustos por causa da altitude.

* Ele não planejou terminar o filme do jeito que termina. A idéia inicial era que iriam flutuar no ar e se tornariam imortais. Mas devido as dificuldades de se filmar na montanha, decidiu que o fim do filme seria no mundo real. “Somos mortais e o cinema é uma ilusão!”. Esse final causou muita polêmica e deixou muitas pessoas zangadas. “Chega de símbolos!”, é a mensagem final (essa explicação é do próprio Jodorowsky, não é minha).

* Um dos produtores de “The Holy Mountain” fugiu com 300 mil dólares e nunca mais apareceu.

* Quando o filme foi prá Cannes o presidente do festival pediu pro filme ser inscrito em nome de um país. Mas o México se recusou a reconhecer a fita.

* Depois do sucesso de “The Holy Mountain” Allen Klein queria que Jodorowsky dirigisse “A História de O”, só que Jodorowsky se recusou a fazer e entrou no Projeto de “Duna”.Por isso,  Allen Klein parou de exibir “El Topo” e “The Holy Mountain”. Os filmes sobreviveram pela pirataria. 30 anos depois fizeram as pazes e os filmes foram liberados em DVD com cópias decentes.

Última:

* Jodorowsky afirma que a grande enfermidade do cinema hoje são os atores. A segunda os distribuidores, os donos das salas. Se conseguir fazer um novo filme quer tirar esse filme dos cinemas e exibir ele nos muros das cidades, em museus, em festivais. Um filme livre que pague seus custos e seja exibido em todos os lugares

Trailers (ou não) dos longa-metragens de Jodorowsky:

Beksinski

Posted in Arte e Cultura, Bizarro with tags , , , , , , on fevereiro 24, 2011 by canibuk

Zdzisław Beksiński foi um pintor, fotógrafo e escultor polonês de arte fantástica. Quando jovem estudou arquitetura, mas o que lhe atraia mesmo era a pintura, a escultura e a fotografia. Começou fazendo esculturas  e produziu inúmeras fotografias obscuras com características da arte gótica e barroca. Mais tarde dedicou-se à pintura surrealista, tendo em 1964 todas as suas obras vendidas numa exposição feita em Vasorvia, fato que o fez mergulhar ainda mais na pintura, produzindo sem parar e tornando-se a principal figura contemporanêa da arte polonesa. Em 1980 adotou o gênero “Fantasy Art” e foi nesta época onde teve sua fase mais produtiva e criou suas obras mais surrealistas e obscuras.

Beksiński acreditava que suas obras não eram bem interpretadas, dizia que muitas delas eram otimistas e bem humoradas, embora ele tenha deixado algumas obras sem título e nem mesmo conseguisse explicar o significado de algumas delas. Em 1977 ele queimou uma seleção de quadros explicando depois que algumas dessas obras  ou era muito pessoal ou não era satisfatória e ele não queria mostrá-las as pessoas.

Beksinski ficou viúvo em 1998 e um ano mais tarde, seu filho cometeu suicídio, tendo seu corpo descoberto pelo próprio Beksinski. Talvez por isso sua arte foi se tornando cada vez mais fantasmagórica, apocalíptica e sombria.

No final da vida o artista se dedicou a arte digital, trabalhando com fotografias e foto-manipulação.

Aos 75 anos de idade, em fevereiro de 2005, Beksiński foi  assassinado à facadas por um estudante de 19 anos.

Fonte: Official Website (O site do cara é excelente, vale a pena dar uma olhada): http://www.beksinski.pl/