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Lady Snowblood

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 2, 2012 by canibuk

“Shurayukihime” (“Lady Snowblood”, 1973, 97 min.) de Toshiya Fujita. Com: Meiko Kaji, Toshio Kurosawa e Miyoko Akaza.

Quem viu “Kill Bill” (na minha humilde opinião um dos melhores trabalhos de Quentin Tarantino, sobretudo a segunda parte da saga) deve ter lido em algum lugar que o filme é uma concha de retalhos de referências pop, umas obscuras, outras nem tanto. Dentre as obscuras está o filme que inspirou não só a criação da personagem O-Ren Ishii interpretada por Lucy Liu, mas também a própria trajetória de vingança da Noiva, interpretada por Uma Thurman. O filme é “Lady Snowblood” (“Shurayukihime”). A produção japonesa da Toho Company de 1973, de baixo orçamento e dirigida por Toshiya Fujita, é protagonizada pela atriz e cantora nipônica Meiko Kaji, nascida Masako Ota em 1947 na capital japonesa, Tóquio. “Lady Snowblood” é um filme sobre vingança, e isso ninguém faz melhor do que os asiáticos (e europeus, vamos considerá-los). A ação se passa no fim do período feudal japonês, quando o país começa a receber influências do ocidente e passa por transformações políticas. O país fica dividido entre os que aceitam as mudanças e os que querem se preservar sem influências de fora. Sayo Kashima, mãe de Yuki, junto com o marido e o filho são confundidos com integrantes da ala inovadora por uma gangue de assassinos simpatizantes dos conservadores. Logo após ver marido e filho serem assassinados a sangue frio, Sayo é capturada e violentada e inicia a partir daí um plano de vingança para eliminar os quatro elementos integrantes da quadrilha. Após conseguir executar seu primeiro alvo, Sayo é levada para um presídio onde oferece favores sexuais a diversos homens com o objetivo de gerar um filho que complete sua vingança. Nasce Yuki, Sayo morre após o parto e pede às companheiras de cela que cuidem para que a criança cresça e seja treinada para executar os três remanescentes da quadrilha. Com apenas oito anos de idade, Yuki inicia um árduo treinamento para se tornar uma exímia espadachim. Aos vinte, já uma perigosa guerreira, inicia sua caçada aos assassinos de sua família

O filme tem influências dos papas do Western como John Ford, Sam Peckinpah e Sergio Leone, além, é claro, do maior expoente do cinema conterrâneo, Akira Kurosawa. Apesar do baixo orçamento, a produção conta com um bom trabalho de direção de arte, figurino e atuações convincentes. As seqüências de ação estilizadas serviram de inspiração para vários cineastas asiáticos de ação e artes marciais como para cineastas ocidentais, além do supracitado Tarantino. Em se tratando de uma história de vingança, não haveria como mostrar execuções sendo econômico em sangue. E a quantidade de sangue que se vê jorrar na película seria suficiente para encher vários baldes.  Uma curiosidade é que em uma determinada cena, Meiko chegou a ficar coberta de sangue falso que jorrou em excesso. A bela trilha sonora também merece atenção. Trata-se toda ela de música tradicional asiática , muito bem executada e com nuances épicas.

Lady Snowblood é uma adaptação de um mangá homônimo escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Kazuo Kamimura, e foi publicado no Japão em 1972. Apenas em 2000 foi traduzido para o inglês e lançado nos Estados Unidos e no Canadá pela editora Dark Horse. Além de Tarantino, o diretor coreano Park Chan Wook também se  inspirou na saga de Yuki em seu “Lady Vingança”, o filme que fecha a sua trilogia da vingança iniciada por “Mr. Vingança” e prosseguiu com “Oldboy”. O filme rendeu uma continuação em 1974, “Lady Snowblood 2: Love Song of Vengeance”, além de servir de inspiração para a produção “The Princess Blade”, lançada em 2001, que se tratava de uma versão futurista da saga de Yuki.

por Cesar Monteiro.

Queen Kong

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on junho 1, 2012 by canibuk

“Queen Kong” (ou “Queen Gorilla”, 1976, 87 min.) de Frank Agrama. Com: Robin Askwith, Rula Lenska e John Clive.

Na ânsia de lucrarem alguns poucos dólares, produtores de filmes exploitations sempre caçaram assuntos/temas em evidência para fazer de seus pequenos filmes baratos, grandes negócios lucrativos. Em 1976 o produtor Dino De Laurentiis lançou o remake de “King Kong” (1933) e Frank Agrama rapidamente lançou este hilário “Queen Kong” (que nunca foi lançado no Reino Unido devido a uma ação legal movida por De Laurentiis contra a imitação de Agrama), objeto de culto no Japão, onde o filme foi completamente redublado por comediantes japoneses para ficar ainda mais mongol. Aliás, os japoneses são tão fanáticos por King Kong que é da produção nipônica que vem “Wasei Kingu Kongu” (1933) de Torajiro Saito, um curta-metragem feito no mesmo ano do clássico de Cooper & Schoedsack e que hoje é considerado perdido (numa época foi sugerido que o filme se perdeu após os bombardeios atômicos de 1945, pronto, já deu prá entender porque USA quis tanto testar a bomba nuclear contra os japoneses); Ainda nos anos 30 os japoneses fizeram outro filme com o Kong, “Edo ni Arawareta Kingu Kongu: Henge no Maki/King Kong Appears in Edo” (1938) de Sôya Kumagai também foi produzido sem autorização da RKO Radio Pictures e mostra King Kong atacando no Japão medieval, hoje é considerado perdido também; Em 1962 a Toho Studios promoveu a luta do século em “Kingu Kongu tai Gojira/King Kong Vs. Godzilla”, dirigido pelo mestre Ishirô Honda, que também dirigiu “Kingu Kongu no Gyakushû/King Kong Escapes” (1967), onde Kong luta contra um robô gigante. Graças aos japoneses o grande macacão tarado se manteve sempre em evidência (os Shaw Brothers também contribuíram para o mito de Kong, saiba mais lendo o artigo “Evelyne e o King Hong Kong” de nosso colaborador Coffin Souza).

“Queen Kong” é uma paródia “cena por cena” do King Kong original, mas com todo o cinismo e sarcasmo dos anos 70. A produção do filme é bem pobre, as nativas da ilha de “Konga” usam um figurino colorido que parece roubado de alguma escola de samba aqui do Brasil, a fantasia da gorila é feia e desajeitada, o dinossauro com quem ela luta (foto acima) é um dos piores que já vi, as maquetes são grosseiras e os efeitos especiais mal elaborados; isso, combinado à interpretações canastronas e um roteiro cara de pau, transforma  o filme de Agrama numa grande curtição que nunca se leva a sério e tira proveito de suas próprias deficiências, enfim, um ótimo candidato para ser exibibido aos amigos acompanhado, lógico, de pizzas e caixas e mais caixas de cerveja.

Frank Agrama, o produtor/diretor por trás do filme, é um egípcio cheio de energia para empreitadas duvidosas (na Itália ele tem mais de dez processos correndo na justiça por fraudes fiscais). Em 1965 dirigiu “El Ainab el Murr” e tomou gosto pela coisa. Seus filmes seguintes não chegaram ao ocidente (leia-se Europa e USA) e fomos privados de títulos como “Toufan Bar Farase Petra” (1968) e “Bazy-E-Shance” (1968), filme onde se tornou, além de diretor, produtor de seus próprios projetos. Em 1972 escreveu, produziu e dirigiu o thriller “L’Amico del Padrino” em associação com produtores italianos, que foi estrelado por Erika Blanc (atriz do clássico cult “Operazione Paura/Kill, Baby, Kill!” (1966) de Mario Bava). Assim conseguiu chamar atenção na Europa e seu próximo filme, “Essabet el Nissae” (1973) foi estrelado por ninguém menos que o superstar turco Cüneyt Arkin (que foi ator em mais de 270 filmes, entre eles os clássicos “Kara Murat Ölüm Emri” (1974) de Natuk Baytan e “Dünyayi Kurtaran Adam” (1982) de Çetin Inanç, a versão turca de “Star Wars” que coloca o filme de George Lucas no chinelo). Seu filme mais popular como diretor é “Dawn of the Mummy” (1981), sobre modelos sendo atacadas por uma múmia com alguns ótimos momentos gore. Nos anos 80 Agrama passou apenas a produzir e ganhou certa fama com a série “Robotech”, que depois virou video game de sucesso.

O ator Robin Askwith, que em “Queen Kong” interpreta Ray Fay (trocadilho idiota com o nome de Fay Wray, estrela do Kong original), é um comediante inglês que geralmente fazia comédias sexuais como “Bless This House” (1972) de Gerald Thomas e “Cool It Carol!” (1972) de Pete Walker, ou filmes de horror como “Tower of Evil” (1972) de Jim O’Connolly, “The Flesh and Blood Show” (1972) também de Pete Walker ou seu filme mais famoso, o cult “Horror Hospital” (1973) dirigido pelo maluco Antony Balch. Em 1999 a editora Ebury Press lançou sua autobiografia “The Confessions of Robin Askwith”, infelizmente inédita no Brasil. John Clive, que também paga mico em “Queen Kong”, tem em sua filmografia grandes clássicos do cinema: “Yellow Submarine” (1968) de George Dunning, onde faz a voz de John; “The Italian Job” (1969) de Peter Collinson, onde ladrões ingleses planejam um assalto na Itália e “A Clockwork Orange/Laranja Mecânica” (1971) de Stanley Kubrick, um dos melhores filmes já produzidos pelo cinema mundial.

por Petter Baiestorf.

frame de “Wasei Kingu Kongu” (1933).