Arquivo para velho safado

Onde Enfiar

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on janeiro 8, 2014 by canibuk

não me culpe se seu carro quebra na rodovia.

não me culpe se sua mulher vai embora.

não me culpe se você foi para a guerra e descobriu que pessoas matam.

.

não me culpe por você ter assassinado 4 anos votando no cara errado.

não me culpe por a transa às vezes falhar.

.

não me culpe se eu não atendo o telefone e não consigo assistir tv.

.

não me culpe pelo seu pai.

não me culpe pela igreja da esquina.

não me culpe pela bomba de hidrogênio.

.

me culpe se você estiver lendo isto.

não me culpe se você não entender.

.

não me culpe pelo mundo fervilhando de assassinos.

não me culpe se você é um deles.

culpe seu pai.

culpe a igreja da esquina.

.

não me culpe pelo natal ou o feriado da independência.

culpe qualquer fudido que você quiser mas não me culpe.

.

não me culpe pelos sem-teto.

não me culpe por 162 jogos de beisebol todo ano.

não me culpe pelo basquete.

.

não me culpe por não querer entrar em elevadores cheios de gente.

não me culpe por não ter um herói.

não me culpe por não criar um.

.

não me culpe por ficar aturdido com a risada das massas.

não me culpe por rir sozinho.

.

não me culpe pelo enjaulamento do tigre.

me culpe por que minha morte não será temível.

.

mas não culpe a si mesmo.

escrito por Charles Bukowski, “Á Toa em San Pedro”, Spectro Editora.

a toa em san pedro

Numa Vizinhança de Assassinos

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , on fevereiro 18, 2012 by canibuk

as baratas cospem

clipes de papel

e o helicóptero descreve círculos e mais círculos

em busca de sangue

luzes de busca deslizando furtivas por nosso

quarto

.

5 caras nesta área têm pistolas

outro um

facão

somos todos assassinos e

alcoólatras

mas a coisa é ainda pior no hotel

do outro lado da rua

eles ficam sentados na entrada verde e branca

banais e depravados

esperando para serem institucionalizados

.

aqui cada um de nós tem um pequeno vaso

na janela

e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da manhã

falamos

baixinho

e em cada uma das varandas

há um pequeno prato de comida

sempre esvaziados pela manhã

presumimos

pelos

gatos.

por Charles Bukowski.

Ilustração de Robert Crumb.

Camas, banheiros, você e eu.

Posted in Bebidas, Buk & Baiestorf, Literatura with tags , , , , , , , on novembro 22, 2011 by canibuk

pensando nas camas

usadas e reutilizadas

para trepar

para morrer.

nesta terra

alguns de nós trepam mais do que

nós morremos

mas a maioria de nós morre

melhor do que

trepamos,

e morremos

bocado a bocado também –

em parques

tomando sorvete, ou

nos iglus

da demência,

ou em esteiras de palha

ou sobre amores

desembarcados

ou

ou.

camas, camas, camas

banheiros, banheiros, banheiros

o sistema de esgoto humano

é a maior invenção do

mundo.

e você me inventou

e eu inventei você

e é por isso que nós não

damos

mais certo

nesta cama.

você era a maior invenção

do mundo

até que resolveu

me mandar descarga

abaixo.

agora é a sua vez

de esperar que alguém aperte

o botão.

alguém fará isso

com você,

puta,

e se eles não fizerem

você fará –

misturada ao seu próprio

adeus

verde ou amarelo ou branco

ou azul

ou lavanda.

Charles Bukowski.

a derrota

Posted in Literatura with tags , , , , , on setembro 11, 2011 by canibuk

tinha um pregador num canal UHF

que eu realmente gostava.

vamos chamá-lo de Joe Warts.

ele apresenta um programa

onde ele convida pessoas

odiadas.

e atrás de Joe Warts está

uma bandeira americana e uma foto de

John Wayne

e na sua platéia estão esses garotos

brancos e gordos

entre 17 e 30 anos

e eles adoram

Joe Warts

porque Joe Warts acredita na

América e em Deus.

.

então esses garotos de Glendale,

Burbank e outros lugares assim

gritam

agitam os braços

enquanto Joe

ataca seus convidados:

“hey, veado, você mora numa

comuna, certo? você faz

lavagem cerebral naquelas pessoas, certo?

admita, veado, você planta sua própria

ERVA naquele morro,

certo?

vocês vivem com o auxílio que vem

dos nossos impostos!

nós trabalhamos para sustentar vocês e você ficam lá

fumando MACONHA! eu vou dizer o que nós

vamos fazer, veado! nós vamos

arrecadar fundos para mandar todaa gangue de

vagabundos para a China Comunista!”

os rapazes na platéia ficaram loucos, loucos!

Joe Warts é bom, ele berra bem

e ele escolhe a dedo seus convidados,

ele vence noite após noite.

a única vez que ele cometeu

um erro

foi numa noite em que ele convidou duas

mulheres que lutavam na lama

para seu show.

quando as garotas vieram

para seus lugares

os garotos gordos começaram

a assobiar e

a uivar.

Joe repreendeu sua gangue

“fiquem quietos.”

então voltou para suas

convidadas e

berrou para elas

quem iria querer ver

duas mulheres lutando

na lama?

e,

porque elas andavam por aí semi-

nuas desse jeito?

isso era desagradável aos olhos dele e

aos olhos do

Senhor!

.

as duas garotas apenas

riram e se sacudiram em suas cadeiras e

disseram

que outras mulheres vestiam menos todos os dias

na praia

e também,

muitos homens vinham para vê-las

lutarem na lama, na verdade, toda

noite estavam tendo a casa cheia

e elas também lutavam no

óleo

e o pagamento era bom

era certamente melhor do que o de uma

garçonete ou uma secretária ou uma

prostituta,

e elas não tinham nada contra

a América ou Deus

mas elas lutariam na lama ou no

óleo na

Rússia ou na China ou na França ou

em qualquer outro lugar

e que

se ele não calasse a boca

as duas iriam pregar o rabo dele

na parede

ali mesmo!

.

os rapazes pularam e berraram e

acenaram e uivaram

mas finalmente não por

Joe Warts

que ficou sentado

boquiaberto e em silêncio

enquanto atrás dele

a foto de John Wayne

enrubescia.

escrito por Charles Bukowski (extraído do livro “Tempo de Vôo para Lugar Algum”, lançado no Brasil pela Spectro Editora).

Entrevista com o velho safado

Posted in Arte e Cultura, Entrevista with tags , , , , on junho 21, 2011 by canibuk

Petter e eu somos adoradores do Bukowski, ele é sem dúvida meu escritor preferido de todos os tempos e a cada pouco postamos aqui no blog poemas e outras curiosidades sobre  esse gênio do sarcasmo e da linguagem crua e sem rodeios, hoje reproduzimos uma entrevista de 1987 feita pelo Sean Penn enquanto estava em Los Angeles para protagonizar “Barfly“, a cinebiografia sobre a vida de Charles Bukowski (papel que ele acabou perdendo pro Mickey Rourke), na entrevista o Bukowski fala sobre as mesma questões que estão sempre presentes em seus livros,  contos, poemas e da mesma forma desbocada e debochada/cínica/bêbada/demente que lhe é peculiar.

BARES: “Eu não vou muito a bares. Tirei isso do meu sistema. Hoje, quando entro num bar, sinto náuseas. Freqüentei muito, enche o saco. Os bares servem para quando somos jovens e queremos brigar, dar uma de macho, arrumar umas mulheres. Na minha idade, eu não preciso mais dessas coisas. Agora só entro nos bares para urinar. Às vezes, entro e já começo a vomitar”.

ÁLCOOL: “O álcool é provavelmente uma das melhores coisas que chegaram à Terra, além de mim. Nos entendemos bem. É destrutivo para a maioria das pessoas, mas eu sou um caso à parte. Faço todo o meu trabalho criativo quando estou intoxicado. O álcool, inclusive, me ajudou muito com as mulheres. Sempre fui reticente durante o sexo, e ele me permitiu ser mais livre na cama. É uma liberação porque basicamente eu sou uma pessoa tímida e introvertida, e ele me permite ser este herói que atravessa o espaço e o tempo, fazendo uma porção de coisas atrevidas… O álcool gosta de mim.”

FUMAR: “O cigarro e o álcool se equilibram. Certa vez, ao despertar de uma embriaguês, notei que havia fumado tanto que minhas mãos estavam amarelas, quase marrons, como se eu tivesse colocado luvas. E passei a reclamar: ‘Droga! Como estarão os meus pulmões?'”

BRIGAR: “A melhor sensação é quando você acerta um sujeito que todo mundo acha impossível. Certa ocasião enfrentei um cara que estava me xingando. Falei pra ele: ‘Tudo bem, venha’. Não tive problema – ganhei a briga facilmente. Caído no chão, com o nariz ensangüentado, ele falou: ‘Jesus, você se move tão lentamente que pensei que seria fácil. Mas quando começou a briga, eu não conseguia nem ver as tuas mãos. O que aconteceu?’. Respondi: ‘Não sei, cara. As coisas são assim. Um homem se prepara para o dia que precisa’.”

GATOS: “É bom ter um monte de gatos em volta. Se você está mal, basta olhar pra eles e fica melhor, porque eles sabem que as coisas são como são. Não tem porque se entusiasmar com a vida, e eles sabem. Por isso, são salvadores. Quantos mais gatos um sujeito tiver, mais tempo viverá. Se você tem cem gatos, viverá dez vezes mais que se tivesse dez. Um dia, isso será descoberto: as pessoas terão mil gatos e viverão para sempre.”

MULHERES, SEXO: “Eu as chamo de máquinas de queixas. As coisas entre elas e os homens nunca estão bem para elas. E quando vêm com essa histeria… Ah, eu tenho que sair, pegar o carro, ir embora para qualquer lugar. Tomar café em algum canto, fazer qualquer coisa, menos encontrar outra mulher. Acho que elas são feitas de maneira diferente, não? Quando a histeria começa, o cara tem de ir embora e elas não entendem porque. ‘Onde vai?’, gritam. ‘Vou à merda, querida!’. Pensam que sou um misógino, mas não é verdade. É fofoca. Ouvem por aí que Bukowski é ‘um porco chauvinista’, mas não vêm de onde partiu o comentário. Verdade! Às vezes, eu pinto uma má imagem das mulheres nos meus contos, e faço a mesma coisa com os homens. Até eu me ferro nesses escritos. Se realmente não gostar de uma coisa, digo que é ruim, seja homem, mulher, criança ou cachorro. As mulheres são tão encanadas que pensam que são meu alvo especial. Esse é o problema delas.”

PRIMEIRA VEZ: “Minha primeira vez foi insólita. Não sabia como fazer, e ela me ensinou todas essas coisas de sacanagem. Lembro que ela dizia: ‘Hank, você é um bom escritor, mas não sabe nada sobre as mulheres.’ ‘O que você está dizendo? Eu já estive com uma porção de mulheres.’ ‘Não, não sabe nada. Vou te ensinar algumas coisas.’ Concordei. Depois, e ela disse: ‘Você é bom aluno, entende rápido’. [Bukowski faz cara de envergonhado. Não pelos detalhes, mas pelo sentimento da lembrança.] Mas esse assunto de … Eu gosto de servir a mulher, mas isso tudo tá tão exagerado! O sexo só é bom quando você não o faz.”

ESCREVER: “Escrevi um conto a partir do ponto de vista de um violentador de uma menininha. E as pessoas passaram a me acusar. Diziam: ‘Você gosta de violentar criancinhas?’. Eu disse: ‘Claro que não. Estou fotografando a vida’. De repente, estava envolvido com uma porrada de problemas. Por outro lado, os problemas vendem livros. Em última instância, eu escrevo para mim. [Bukowski dá uma longa tragada em seu cigarro.] É assim. A tragada é para mim, a cinza é para o cinzeiro. Isto é publicar. Nunca escrevo de dia porque é como ir pelado a um supermercado – todos te podem ver. À noite é quando saem os truques da manga… E vem a magia.”

POESIA: “Faz séculos que a poesia é quase um lixo total, uma farsa. Tivemos grandes poetas, entenda bem. Existiu um poeta chinês chamado Li Po que tinha a capacidade de colocar mais sentimento, realismo e paixão em quatro ou cinco simples linhas que a maioria dos poetas em suas doce ou treze páginas de merda. Li Po bebia vinho também e costumava queimar seus poemas, navegar pelo rio e beber vinho. Os imperadores o amavam porque entendiam o que ele dizia. Lógico que ele só queimou os maus poemas. O que eu quis fazer, desculpem, é incorporar o ponto de vista dos operários sobre a vida… Os gritos de suas esposas que os esperam quando voltam do trabalho. As realidades básicas da existência do homem comum… Algo que poucas vezes se menciona na poesia há muito tempo.”

SHAKESPEARE: “É ilegível e está demasiadamente valorizado. Só que as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer que fulano é um péssimo ator, mas não pode dizer que Shakespeare é uma merda. Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles se transformam em bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.”

HUMOR E MORTE: “Para mim, o último grande humorista foi um cara chamado James Thurber. Seu humor era tão real que as pessoas gritavam de rir, como numa liberação frenética. Eu tenho um ‘fio cômico’ e estou ligado a ele. Quase tudo o que acontece é ridículo. Defecamos todos os dias – isso é ridículo, não? Temos que continuar urinando, pondo comida em nossas bocas, sai cera de nossos ouvidos… As tetas, por exemplo, não servem para nada, exceto…”.

NÓS: “A verdade é que somos umas monstruosidades. Se pudéssemos nos ver de verdade, saberíamos como somos ridículos com nossos intestinos retorcidos pelos quais deslizam lentamente as fezes… enquanto nos olhamos nos olhos e dizemos: ‘Te amo’. Fazemos e produzimos uma porção de porcarias, mas não peidamos perto de uma pessoa. Tudo tem um fio cômico.”

GANHAR: “E depois de tudo, morremos. Mas a morte não nos ganhou. Ela não mostrou nenhuma credencial; nós é que nos apresentamos com tudo. Com o nascimento, ganhamos a vida? Não, verdadeiramente, mas a filha da puta da morte nos sufoca… A morte me provoca ressentimento, a vida também, e muito mais estar pressionado entre as duas. Você sabe quantas vezes eu tentei o suicídio? Me dá um tempo, tenho só 66 anos. Quando alguém tem tendências suicidas, nada o incomoda, exceto perder nas corridas de cavalos.”

AS CORRIDAS: “Durante um tempo quis ganhar a vida com as corridas de cavalos. É doloroso, vigoroso. Tudo está no limite, o dinheiro do aluguel, tudo. É preciso ter cuidado. Uma vez, eu estava sentado numa curva, haviam doze cavalos na disputa, todos amontoados. Parecia um grande ataque. Tudo o que eu via era essas grandes traseiras de cavalos subindo e descendo… Pareciam selvagens. Pensei: ‘Isso é uma loucura total’. Mas tem outros dias em que você ganha 400 ou 500 dólares, ganha oito ou nove corridas, e se sente Deus, como se soubesse tudo.”

AS PESSOAS: “Não olho muito as pessoas. É perturbador. Dizem que se você olha muito para uma outra pessoa acaba ficando parecido com ela. Pobre Linda! Na maioria das vezes eu posso passar sem as pessoas. Elas me esvaziam e eu não respeito ninguém. Tenho problemas nesse sentido. Estou mentindo, mas, creia-me: é verdade.”

A FAMA: “É uma cadela, é a maior destruidora de todos os tempos. A fama é terrível, é uma medida numa escala do denominador comum que sempre trabalha num nível baixo. Não tem valor nenhum. Uma audiência seleta é muito melhor.”

SOLIDÃO: “Nunca me senti só. Durante um tempo fiquei numa casa, deprimido, com vontade de me suicidar, mas nunca pensei que uma pessoa podia entrar na casa e curar-me. Nem várias pessoas. A solidão não é coisa que me incomoda porque sempre tive esse terrível desejo de estar só. Sinto solidão quando estou numa festa ou num estádio cheio de gente. Cito uma frase de Ibsen: ‘Os homens mais fortes são os mais solitários’. Viu como pensa a maioria: ‘Pessoal, é noite de sexta, o que vamos fazer? Ficar aqui sentados?’. Eu respondo sim porque não tem nada lá fora. É estupidez. Gente estúpida misturada com gente estúpida. Que se estupidifiquem eles, entre eles. Nunca tive a ansiedade de cair na noite. Me escondia nos bares porque não queria me ocultar em fábricas. Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.”

TEMPO LIVRE: “É muito importante e temos que parar por completo, não fazer nada por longos períodos para não perdê-los inteiramente. Ficar na cama olhando o teto. Quem faz isso nesta sociedade moderna? Pouquíssimas pessoas. Por isso é que a maioria está louca, frustrada, enojada e com ódio. Antes de me casar, ou de conhecer muitas mulheres, eu baixava as cortinas e me punha na cama por três ou quatro dias. Levantava só para ir ao banheiro e comer uma lata de feijão. Depôs me vestia e saía à rua. O sol brilhava e os sons eram maravilhosos. Me sentia poderoso como uma bateria recarregada.”

BELEZA: “A beleza não existe, especialmente num rosto humano – ali está apenas o que chamamos fisionomia. Tudo é um imaginado, matemático, um conjunto de traços. Por exemplo, se o nariz não sobressai muito, se as costas estão bem, se as orelhas não são demasiadamente grandes, se o cabelo não é muito comprido. Esse é um olhar generalizante. A verdadeira beleza vem da personalidade e nada tem a ver com a forma das sobrancelhas. Me falam de mulheres que são lindas… Quando as vejo, é como olhar um prato de sopa.”

FIDELIDADE: “Não existe. Há algo chamado deformidade, mas a simples fidelidade não existe.”

IMPRENSA: “Aproveito as coisas más que dizem sobre mim para aumentar a venda de livros e me sentir malvado. Não gosto de me sentir bem porque sou bom. Mas, mau? Sim, me dá outra dimensão. Gosto de ser atacado. ‘Bukowski é desagradável!’ Isso me faz rir, gosto. ‘É um escritor desastroso!’ Rio mais ainda. Mas quando um cara me diz que estão dando um texto meu como material de leitura numa universidade, fico espantado. Não sei, me assusta ser muito aceito. Parece que fiz alguma coisa errada.”

O DEDO: [Ergue o dedo mínimo de sua mão esquerda] “Você viu alguma vez este dedo? [O dedo parece paralisado em forma de “L”]. Quebrei uma noite, bêbado. Não sei porque, ele nunca voltou ao normal. Mas funciona bem para a letra ‘a’ da máquina de escrever, e – que mistério! – acrescenta coisas aos meus personagens.”

VALENTIA: “Falta imaginação à maioria das pessoas supostamente valentes. É como se não pudessem conceber o que aconteceria se alguma coisa saísse mal. Os verdadeiros valentes vencem a sua imaginação e fazem o que devem fazer.”

MEDO: “Não sei nada sobre isso.” [Risos]

VIOLÊNCIA: “Acho que, na maioria das vezes, a violência é mal interpretada. Faz falta uma certa violência. Existe em nós uma energia que precisa ser liberada. Se ela for contida, ficamos loucos. Às vezes, chamam de violência à expulsão da energia com honra. Existe loucura interessante e loucura desagradável; há boas e más formas de violência. Sei que é um termo vago, mas ela fica bem se não acontecer às custas dos outros.”

DOR FÍSICA: “Com o tempo, o cara se endurece e agüenta. Quando eu estava no Hospital Geral, um cara entrou e disse: ‘Nunca vi ninguém agüentar a agulha com tanta frieza’. Ora, isso não é valentia. Se o sujeito agüenta, alguém cede. É um processo, um ajuste. Mas não existe maneira de se acostumar com a dor mental. Fico longe dela.”

PSIQUIATRIA: “O que conseguem os pacientes psiquiátricos? Uma conta. Creio que o problema entre um psiquiatra e seu paciente é que o psiquiatra atua de acordo com o livro, ainda que o paciente chegue pelo que a vida lhe fez. E mesmo que o livro possa ter certa astúcia, as páginas sempre são as mesmas e cada paciente é diferente. Existem muito mais problemas individuais que páginas. Tem muita gente louca para resolvê-los, dizendo: ‘São tantos dólares por hora e quando a campainha tocar a sessão estará terminada’. Isso só pode levar um cara um pouco louco à loucura total. Quando as pessoas começam a se abrir e sentir bem, o psiquiatra diz: ‘Enfermeira, marque a próxima consulta’. O cara tá aí para sugar, não para curar. Quer o teu dinheiro. Quando toca a campainha, que entre o louco seguinte. Aí o louco sensível vai perceber que quando toca a campainha, é sinal que o fodeu. Não existem limites de tempo para curar a loucura. Muitos psiquiatras que vi parecem estar no limite deles mesmos, mas estão bem acomodados. Ah, os psiquiatras são totalmente inúteis. Próxima pergunta…”

FÉ: “Tudo bem que as pessoas a tenham, mas não me venham enfiar isso na cabeça. Tenho mais fé no encanador que no Ser Eterno.”

CINISMO: “Me chamaram sempre de cínico. Creio que o cinismo é uma uva amarga, uma debilidade. É dizer: ‘Tudo está uma merda. Isso não tá bom, aquilo tá ruim’. O cinismo é a debilidade que evita que nos ajustemos ao que acontece no momento. O otimismo também é uma debilidade: ‘O sol brilha, os pássaros cantam, sorria.’ Isso é uma merda igual. A verdade está em algum ponto entre os dois. O que é, é. Se você não está disposto a suportar a verdade, dane-se!”

MORALIDADE CONVENCIONAL: “Pode ser que não exista o inferno, mas os que julgam podem perfeitamente criá-lo. As pessoas estão muito domesticadas. O cara tem que ver o que acontece e como vai reagir. Vou usar um termo estranho aqui: o bem. Não sei de onde vem, mas sinto que existe um componente de bondade em cada um de nós. Não acredito em Deus, mas creio nessa ‘bondade’ como um tubo que está dentro de nossos corpos e que pode ser alimentada. Ela é sempre mágica quando, por exemplo, numa estrada sobrecarregada de automóveis, um estranho te oferece lugar para mudar de mão.”

SOBRE SER ENTREVISTADO: “É vergonhoso e, por isso, nem sempre digo toda a verdade. Gosto de brincar e mentir um pouco. Daí que dou informações falsas só pelo gosto de distrair. Se quiserem saber alguma coisa de mim, não leiam uma entrevista. Ignorem esta, também”.

Chinaski

Posted in Literatura with tags , , , on junho 1, 2011 by canibuk

parodia a si mesmo, romantiza a si mesmo.

ele está em um pequeno quarto de novo,

sempre em um pequeno quarto, fechando a porta,

trancando o mundo

do lado de fora.

em seus 70 anos ele ainda estará tentando superar

sua infância brutal

e ele nunca teve uma compreensão real

das mulheres.

seus escritos são irregulares

ainda que potentes

e mesmo nos seus melhores há uma sensação

de redundância,

de nada novo.

ele foi imitado por hordas

de escritores

que acham seu estilo simples

atraente.

agora ele tem uma casa, uma

piscina, um spa, um carrão

e uma mulher que lhe dá

vitaminas.

ele é um recluso

e se você se aproxima dele no

hipódromo

há a chance de que você seja

ignorado ou insultado.

seus únicos visitantes parecem ser

estrelas de cinema,

diretores de filmes e

entrevistadores.

após sua morte

talvez um pequeno lugar

lhe será dedicado

na literatura mundial

onde irá mofar sob a

sombra de Céline, Hemingway, Jeffers

e Henry Miller.

que deus descanse sua alcoólatra

alma

agnóstica

e vamos agora para

coisas mais

interessantes.

escrito por Charles Bukowski (publicado aqui no Brasil no livro de poema “À Toa em San Pedro”, Spectro Editora ).