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Fascismo Verde Amarelo: O Mito do Silva

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 26, 2018 by canibuk

Conheci o Fabiano Soares quando ministrei uma oficina de vídeo no Rio de Janeiro em 2012, parte da programação da Mostra do Filme Livre. Juntos bolamos o curta Perdigotos da Discórdia, que envolvia necrofilia e outras peripécias cremosas, como sexo pervertido com membros de plástico realistas que acabaram dando problemas com o Banco do Brasil, patrocinador da Mostra naquele ano. Tivemos que explicar um boquete que Gurcius fazia explicitamente no tal pinto de plástico que fazia as vezes do membro pulsante de Pablo Pablo. Logo em seguida ele dirigiu o ótimo curta O Terno do Zé, com integrantes da banda Gangrena Gasosa e o Carlo Mossy no elenco, e, também, foi diretor de segunda unidade do longa Desagradável, do diretor Fernando Rick. Depois dirigiu A Revolta do Boêmio, vídeo clip para a banda Uzômi, com Angelo Arede e Gurcius Gewdner nas personagens principais. Agora em 2018, ano literalmente tenebroso na vida política do Brasil, Fabiano retorna com O Mito do Silva, curta que sintetiza de maneira quase didática – e brutal – o que está rolando no país do Pau Brasil.

Segue uma entrevista com ele sobre O Mito do Silva e suas observações sobre este conturbado momento em que o povo brasileiro se entocou. E, também, link para assistir o primeiro corte de O Mito do Silva e sua filmografia completa:

Petter Baiestorf: O Mito do Silva é um retrato do Brasil atual, como foram as filmagens do curta, da concepção do roteiro até as filmagens? Alguma história curiosa das gravações?

Fabiano Soares: Eu tinha escrito em 2016 um texto sobre o assunto, o “Mito”, utilizando como base um político que tava se destacando pelas merdas que falava, mas que, naquele ano, parecia bastante exagerada a ideia de o cara se candidatar a presidente. Então, partindo desse prenúncio de distopia, eu convidei o cineasta Marcos Lamoreux, daqui do Rio, para me ajudar a transformar em roteiro, acrescentando ou retirando trechos que ele achasse necessários. O Marcos é um amigo, ativista, negro, artista em diversas áreas, e topou. Nessa transformação do texto em roteiro, além das transformações estruturais, recebi algumas aulas dele, desde pequenas mudanças lingüísticas para não ofender sem querer, a origens de palavras como “linchar”, que acabaram dando um conceito mais forte ao filme. Então um cara, o Marcelo Paes, que me deu aula, decidiu entrar como produtor cedendo a câmera e alguns acessórios, além de dar uma ajuda na parte de produção.

Nossa bandeira jamais será vermelha.

Como eu faço um cinema com amigos, alguns velhos amigos se juntaram em suas áreas, e foi assim que o Thor Weglinski veio ajudar na produção e na assistência de direção; o Caio Cesar Loures topou fazer o som direto; o Gabriel P. Almeida fez a arte; e o Ricardo Schmidt, a fotografia. Tudo gente que quem já viu algum filme meu, já conhece de créditos. Chamei a Fany Coelho, uma maquiadora de gore fodona daqui, que abraçou a ideia; e o Marcos Lamoreux foi essencial também para conseguir os figurantes. E teve o Juan, que deu uma ajuda no set quando pôde. Sem essa galera aí, eu estaria fodido, porque fiz mais um filme sem dinheiro, só convidando as pessoas e tentando mostrar o roteiro, pra ver se topavam; e porque a Luciana estava trabalhando na época, o Edgar com 5 meses quando eu comecei esse processo de roteirização, e achei que conseguiria facilmente cuidar dele, decupar o roteiro, ensaiar com atores, ter reuniões de equipe, e finalizar um livro que estou escrevendo, só porque eu estava de férias. Eu mal conseguia cagar sem ficar pensando nas minhas responsabilidades de pai, e tinha só a partir das dez da noite para resolver tudo em relação ao curta. A Luciana, a namorada com quem casei e tive um filho (porque acho brega escrever “esposa” ou “minha mulher”), aliás, não pôde participar tanto desse curta diretamente, mas o fez cuidando do Edgar quando chegava em casa, permitindo que me dedicasse ao curta nesses momentos, e fazendo a comida pra batalhão na diária que teria, segundo minhas contas, 40 pessoas. Ah, e sempre, mesmo torcendo o nariz para algumas ideias minhas, meus pais dão uma força: figuração, transporte, comida. Uma observação: sempre rola uma opção vegana de comida, geralmente uma caponata de berinjela feita pela minha mãe, já que tem uma galera vegana / vegetariana entre esse pessoal que topa participar dessas coisas que eu invento.

O Mito em sala de aula

Para escolher o ator, procurei um ator amador, amigo meu, o Moisés, cuja primeira pergunta que fiz foi: “O que você acha do “político X” (o Brandão do filme)?” Quando ele respondeu, dizendo que não estava entendendo morador de favela apoiando esse cara, decidi que seria ele. O Marcelo foi arrumar o cara pra fazer o político, e a primeira opção dele, um ator com visual meio milico, declinou por um motivo óbvio: ele era eleitor do cara. Segundo o Marcelo, foi a primeira vez que ele achava alguém do círculo de contatos dele demonstrando apoio ao cara, foi quando ele viu que aquela piada ruim poderia ser mais assustadora do que era. Estávamos em junho de 2018. E contei mais uma vez com a participação do ex-galã da Globo, agora doutor em filosofia e ator de produções menos ostentatórias, Marc Franken, um cara gente boníssima!

Cara, filme independente sempre tem perrengue, e esse não foi diferente. O drone, que tinha uma utilização estética para simular celular gravando de um prédio, zicou e ficamos sem. Os 30 figurantes que confirmaram para a cena de agressão ao Silva, só apareceram uns 10, 12; pessoal no Rio é daqueles “Vamos marcar, borá!”, e furam. Aí entraram meus pais, o namorado da Fany, quem estava de bobeira no set virou figurante. E muita gente parava para perguntar o que estava acontecendo, achando ser real o Moisés ensanguentado. Além dos contratempos de chuva, intervenção federal, que atrapalharam bastante o cronograma, teve também as desistências de equipe e figurantes no último segundo, que rolou bastante, mas nada que abalasse o andar da carruagem, só desesperava um pouquinho, até conseguir dar um jeito.

Figurantes

Ah, e de última hora, o Leo Miguel, que fez assistência de direção no dia mais complicado, a externa da agressão, ficou enrolado pra fazer a edição do filme, e aí outro Leo, o Miranda, que editou já muita coisa minha, assumiu o posto. E nisso, uma coincidência que achei doida demais: no primeiro corte, o Leo botou uma música clássica. Eu estava lendo O Selvagem da Ópera, do Rubem Fonseca, que fala sobre a vida do Carlos Gomes, e é uma base de roteiro para um filme sobre o maestro e compositor brasileiro, que enfrentou uns casos de racismo na Itália por ser negro e brasileiro. Quando ouvi a música – eu não conheço muito de música clássica, embora ouça muito no trabalho, não é algo que eu grave ou escute em casa –, perguntei “É Carlos Gomes?”, e o Leo me disse que não. Fiquei pensando “Que idiotice, só porque eu tô lendo um livro sobre o cara, tudo o que é música clássica vou achar que é ele…”; aí quando terminamos de ver o corte, a música, que ele tinha pego aleatoriamente no catálogo do Domínio Público, ele viu “Ah, é sim, Antônio Carlos Gomes!”. Achei bizarra a coincidência, e disse ao meu ceticismo: “É um sinal!” Melhor ouvir o universo e ficar com a trilha de Carlos Gomes! Lógico que o fato de não ter ninguém para compor uma trilha sonora em dois dias, de graça, ajuda bastante…

Baiestorf: Achei ele bem ilustrativo para aqueles que se negam em enxergar o que está acontecendo no país. Foi opcional essa narrativa tão didática? Porque?

Fabiano Soares: Pô, eu acho que eu faço sempre um cinema por diversão, é bem quadrado na estética, eu gasto minha piração com o texto. Eu não sou cineasta, né? Eu faço uns filmes, é diferente; é como se eu fosse um cara que faz paródias subversivas de uma novela mexicana, mas não falando de paixões desencontradas, mas de filhadaputice humana. Acho que meus filmes são tudo sobre o pior lado do ser humano, mostrar que deu tudo errado. Mas a didática não tem nada a ver com isso, é só de talvez eu ser um roteirista que quer ver aquela merda numa tela, e como ninguém em sã consciência vai querer fazer isso, acabo fazendo. Aí não tenho aquela intimidade com a linguagem cinematográfica a ponto de saber subverter e dar certo. Aí eu faço o meu feijãozinho com arroz, batata frita e bife, e taco um pouquinho de sangue pra dar um gosto. O foda é que eu gosto muito de uns filmes mais doidos, que brincam mais com a linguagem, mas não consigo fazer. Deve ser medo de entropia, do público comum não pescar sobre o que eu estou falando. Acho que me preocupo muito em explicar didaticamente pro público.  Vou tentar pensar mais nesse assunto.

Fabiano e Moisés em O Mito do Silva

Baiestorf: Alguma observação sobre os eleitores do “mito” Brandão? Sobre essa “cegueira” coletiva (ou mau caratismo mesmo)?

Fabiano Soares: Cara, andando na Uruguaiana, um mercado popular no centro do Rio, vi muito camelô vendendo camisas do cara que inspirou o personagem, vendido como o salvador da pátria, e só fiquei pensando: esse cara não entendeu que ele vai se foder com o discurso de ódio. Que ele é visto pela elite como um vagabundo, trambiqueiro, e no que puderem usar de força bruta contra eles, usarão. Será que vale esse lucro? É como se, na atual conjuntura, eu topasse fazer um vídeo para um político evangélico, que eu sei que vai foder com qualquer possibilidade de uso correto da máquina pública, que já é uma merda. Poderia ganhar um dinheiro, adiantar o meu lado, da maneira mais egoísta possível.

E cara, eu tô realmente ficando mal com esse assunto. Você precisa explicar o óbvio, e após toda uma didática infantil, bem explicadinha, na falta de argumentos, os cegos só mandam memes e “fora PT”. Mas eu nem tô falando do PT, ô caralha! E tem muita gente cega mesmo, que não foi criada para pensar, mas para reproduzir discursos, que acaba indo na onda. Mas óbvio que sempre existe aquele mau-caráter, que esperou na moita o momento em que poderia falar abertamente sobre seus preconceitos e incentivá-los, porque agora naturalizou-se isso, passou a ser apenas um ponto de vista, que deve ser respeitado. Porra, intolerância não é aceitável, e  não podemos ser tolerantes com intolerantes, sem medo de parecer incoerentes. Essa naturalização do machismo, da homofobia, do racismo, vindo de gente que deveria representar o povo, é assustadora. Fazendo uma analogia idiota, é como a música de um churrasco com gente dos mais diferentes gostos musicais: o cidadão pode chegar e colocar, sem medo ou vergonha, Maiara e Maraísa (e realmente pode, um espaço democrático em geral), outro coloca Molejo, outro entra no Melhor do Axé, e depois de você ouvir isso tudo, você decide colocar um som que você gosta, um Black Sabbath (para citar um exemplo até mainstream): será repreendido, porque naturalizou-se a ideia de que só pode tocar música “que todos vão gostar” – só esquecem que nem todos gostam das outras músicas. A mesma lógica vale para os assuntos cotidianos. A pessoa acha que pode puxar um papo com você falando sobre não gostar de “ver viado andando junto”, sem nem saber seu pensamento sobre isso, porque naturalizou-se o “ninguém gosta de homossexual, até tolera, mas não gosta”. Esquecem que os gays que gostam de andar juntos fazem parte da sociedade. E assim vão tentando excluir cada vez mais o que os incomoda, chamando de minorias, através da supressão da fala, impondo a opinião preconceituosa como se fosse o pensamento comum. E esse discurso vai sendo naturalizado pelo cidadão comum, que nem é mau-caráter, mas reproduz isso. É a favor de morte para bandido, mas esquece do filho que vende droga, do irmão que instala gato de luz, da vez em que subornou um guarda, etc.

Cidadão de Bens

Baiestorf: Você produziu o curta no RJ, que já é uma cidade que vive sob uma ditadura evangélica radical. Você pode falar sobre as transformações da vida cultural carioca nos últimos anos.

Fabiano Soares: Cara, a vida cultural sobrevive em pontos de resistência, centros culturais independentes de verbas do município. Aqui tem muita gente, muito grupo agitando suas correrias, então não tem do que reclamar. Mas do ponto de vista político… Bom, eu estou realmente preocupado com essas eleições presidenciais. Você vem lembrar do pastor que é prefeito do Rio. Bom, eu sou a favor de acabar com essa merda de misturar política e religião. Não dá certo. Você acredita em Deus, foda-se, vai pra porra da igreja e converse com seus amiguinhos, todo mundo com o mesmo amigo imaginário, e sejam felizes! Eu não me importo com a religião das pessoas, desde que não queiram fazer leis que têm como base crenças religiosas. Vou voltar a falar da merda da naturalização: pessoal acha normal falar “vai com Deus”, mas fica abismado se receber de volta um “Satã te ilumine”, “fica com Exu”. Então vai pra puta que o pariu com a sua crença se você não aceita a do outro. E essa contaminação evangélica que tem acontecido não só no Rio, como no Brasil, busca cada vez mais reger a vida de todos tomando como natural os ensinamentos cristãos, “porque a maioria pensa assim”. Eu já estou me preparando para comprar muita briga com professor acéfalo que for passar doutrina religiosa pro meu filho em escola. Uma coisa é ensino religioso, onde você vai falar da diversidade religiosa no mundo; outra é falar que uma religião é a certa, que deve-se seguir isso ou aquilo. E falei porra nenhuma da vida cultural no Rio. Cara, tem vida cultural, deve estar escoando muito dinheiro da prefeitura para igrejas, pecinha de igreja deve estar recebendo milhões, patrocinada pelo pastor do Rio, o prefeito da Universal, Crivella. Mantendo-se longe disso, tem uma galera boa movimentando arte de verdade. Tá, julgamento de valor meu, mas foda-se. Arte que questiona algo.

Fany maquiando em O Mito do Silva

Baiestorf: A personagem principal é um negro seduzido pelo discurso de “bandido bom é bandido morto”, quais suas observações sobre isso?

Fabiano Soares: Algumas pessoas não estão entendendo o que está acontecendo, esqueceram chacinas, apagaram da memória casos recentes de racismo. E é apenas para exemplificar: poderia ser misoginia, homofobia. Pessoas que são naturalmente privilegiadas apoiarem um cara como esse, eu não acho certo, mas é compreensível: não quer largar de ser mimado; o garotinho branco, rico, quer que continuem governando para ele, protegendo-o de qualquer risco que possa correr. Mas uma pessoa que encontra-se em um dos grupos atacados, concordar com ele, é masoquismo. Mas o ódio é apaixonante, né? Eu lembro que eu com 13, 14 anos, achava lindo tudo o que eu estava estudando e pregava violência: Hitler, Mussolini, Robespierre, Mao Tsé-Tung… Eu era um idiota e achava que ser revoltado era fazer apologia à violência, tinha que matar todo mundo. Felizmente me dei conta rápido que não era bem assim, mas possivelmente, em 99, 2000, eu seria um passador de vergonha na internet, compartilhando meme de “mimimi”, cheio das confusões identitárias de raça.

O Mito do Silva

Se você pega um lugar movimentado, pega dois atores, um loiro e um negro, e bota os dois para correr ao mesmo tempo, separados por alguns metros lateralmente, e um terceiro gritando “pega ladrão!”, eu não tenho dúvidas que a maior parte ia olhar e escolher o negro como o ladrão. E isso é uma construção social perversa, que fez, ao longo dos anos, vítimas da escravidão serem vistas como marginais da sociedade após libertadas. Construção social, mais uma vez, desculpa, sou chato mesmo, naturalizada. Então a pessoa vê um menino negro em um sinal (semáforo, farol, faroleiro, chame como quiser aquela merda de três luzes), e fecha a janela do carro, porque tem medo. Tem medo de um menino magro que tenta conseguir um trocado para comer, provavelmente. A mesma irracionalidade leva uma pessoa negra a concordar em dar mais poder à polícia militar, por exemplo, que no Rio de Janeiro metralhou com mais de cem tiros um carro com cinco meninos que tinham saído para dar uma volta. Meninos que não estavam armados, nem atropelaram alguém. Mas eram negros. O filho do Eike Batista atropelou e matou uma pessoa. A polícia não deu tiros no carro dele. Por que? Enfim, ter uma opinião isenta sobre racismo é estar do lado do opressor. O dia em que você perceber que você não é branco, ou que sua sobrinha, seu filho, ou quem quer que seja na sua família ou círculo de amizade, dançou exclusivamente por conta de um julgamento pela cor dele(a), acho que será tarde demais para entender.

Baiestorf: Acho a personagem do professor um tanto apática aos comentários de seus alunos em sala de aula, sem tomar uma posição mais firme, talvez um retrato fiel de como se comportaram os professores nos últimos anos. Como competir com as fakes news? Como os professores podem fazer a diferença numa época em que os alunos “fabricam” suas verdades?

Fabiano Soares: Eu sou um cara do “copo vazio”, sou derrotista mesmo. Desisto fácil, e não culpo a apatia de professores: como lutar quando o mundo está contra você? Como explicar o óbvio e não ficar puto quando for chamado de doutrinador? Se eu fosse professor já teria desistido. Mas façam o que eu digo, não façam o que eu faço. Professores fazem diferença ao sugerir leituras, ao mostrar ao aluno que as ideias dele podem e devem evoluir. Eu lembro de um professor de artes que eu tive, e em um passeio a um museu, tinha um quadro com dois homens se beijando, e ele foi falar do quadro, e eu falei Que viadagem! (nessa época aí, de 13 anos, eu quase um nazipardo desses… Por isso digo que adolescentes podem mudar muito, independente das merdas que falem. Mas burro velho eu não tenho paciência). Ele mandou na mesma hora “Viadagem por quê?”, e eu falei provavelmente um “Porque sim!”, esse argumento valiosíssimo nos dias de hoje. E ele mandou eu ver o quadro, meio que me desafiou, e eu me neguei, e ele falando pra eu olhar, e a turma vendo isso… Resolvi olhar. Era um quadro no qual o artista tinha duplicado a fotografia dele e simulava um beijo entre ele e ele mesmo. Aquilo me deu um baque, foi o primeiro, quando eu vi que eu era burro. E que eu não podia falar das coisas sem saber, sem ver do que eu tô falando. Esse professor nem sabe, mas ele provavelmente me ajudou a mudar o pensamento de certeza sobre tudo sem nem precisar ver o outro lado; e é nisso que os professores são essenciais, não em explicar a verdade absoluta, mas a ensinar os alunos a questionarem-se, a botar dúvidas no lugar de certezas. Isso muda vidas. É desanimador, por conta das fake news multiplicadas sem filtro, só com um botãozinho; mas é uma luta essencial pela humanidade. Que botem a pulga atrás da orelha sobre essas notícias de whatsapp nos alunos. Muitos poderão rir, mas vai ter um que vai duvidar de fake news, que vai duvidar de isenção jornalística nos grandes meios de comunicação. E só por esse, já vai ter valido a pena.

Reunião de equipe

Baiestorf: O papel da arte é ser resistência? O que tu acha dos artistas “isentões”, que não estão tomando posição neste momento tão crítico de nossa história?

Fabiano Soares: Porra, pergunta pra textão. Não, o papel da arte não é ser resistência. Mas o papel da arte que eu gosto, sim. Eu acho que a arte eleva seu potencial de ser relevante ao ser resistência, porque junta ao estético o conceito e a ideia de mudança social. Mas não sei se seria o papel da arte, se eu estaria usando muito o meu juízo de valores. No entanto, se não bota o dedo na ferida, se não cutuca, eu deixo para ser fruída por outros, tenho mais o que fazer. Artistas isentões não existem. Não se posiciona, está do lado do mais forte. Ouve falar que tem que bater em homossexual e não diz nada? Está apoiando. Tá vendo, se é artista, faz arte, mas se é isentão, provavelmente eu não me interesso pela arte que ele faz. Ou se me interesso, diminuo o apreço agora…

Baiestorf: Com o Supremo, com tudo?

Fabiano Soares: As pessoas estão cegas, surdas e loucas. Tá aí, né? Depois desse “acordão”, muito facilitado pelo posicionamento dos deputados e senadores, para passar o impeachment, fico realmente espantado com o número de deputados que o partideco do “Brandão” conseguiu eleger. Vários militares. O golpe virá, e o pior é que será pelas vias legais… Espero que seja apenas uma distopia, culpa do meu pessimismo constante. Assim como em 2016 o “Mito” era…

Fabiano Soares dirige O Mito do Silva

Baiestorf: Brasil, país de racistas enrustidos de antes a país de racistas assumidos (violentos) de agora? Para onde vamos?

Fabiano Soares: Ladeira abaixo. Todo o tipo de preconceito e discurso de ódio vindo à tona, e o pessoal achando que é zoação, é só mais um HUEHUEBR. Acho que tem uma galera descrente de eleição que tá votando pensando que é voto de protesto. Mas esse Macaco Tião é perigoso…

Baiestorf: O espaço é seu Fabiano.

Fabiano Soares: O espaço é nosso, e não deve ser cerceado. Independente de sofrer ou não racismo, homofobia, misoginia, tenhamos um pouco de empatia. Ninguém deve ter medo de andar nas ruas por achar que sua cor, seu credo, sua orientação sexual ou seu gênero o coloquem em um estado de risco. O mundo já está uma merda, o ser humano já é escroto por natureza, não precisa ser incitado a isso. Pensem, não tenham certezas, leiam, leiam, leiam. E ouçam. Não dá pra você viver tranqüilo em uma sociedade que elege religioso pra representar o povo. Principalmente esse câncer que é a bancada evangélica, um sintoma de uma sociedade doente que quer ser ovelha a todo momento. Por isso, defendo ser radical contra a mistura de política e religião (principalmente se for uma religião hegemônica, no nosso caso, cristã) assim como contra esse novo fascismo, que não por acaso vem ganhando forças sendo carregado em uma cama de “Deus acima de todos”. Eu tenho um filho para experimentar muita coisa na vida, e não pode ser calado por um governo que flerta abertamente com a ditadura, apoia torturador. Pensem nas crianças que vocês dizem gostar tanto. Tá ficando meio Zé do Caixão, né?

E se tudo der certo, “O Mito do Silva” será um episódio de um longa-metragem. Isso se eu não desanimar e desistir, porque vou te falar, tá foda… E sem isenção, dia 28 agora é 13 contra o fascismo! E ser humano deveria vir antes de ser anti-PT, portanto, não há desculpa.

Fany trabalhando

Filmografia Completa de Fabiano Soares:

2008 – O Dia do Folclore; 2009 – Acertos Errados; 2009 – Boneco de Pano; 2011 – SolidariedAIDS (co-direção); 2012 – O Terno do Zé; 2012 – Thrash Star; 2012 – Perdigotos da Discórdia (Co-direção); 2013 – Desagradável (diretor de 2ª Unidade); 2014 – Churrasco Misto (animação, co-direção); 2014 – Eu Aceito; 2015 – Primeiro Ato (co-direção); 2015 – Eleven Years (Videoclipe); 2015 – Olho Maldito (animação); 2015 – Par ou Ímpar (co-direção); 2015 – Vegetal (co-direção); 2016 – A Revolta do Boêmio (Videoclipe); 2016 – Paterno; 2016 – Sacrifício; 2018 – O Mito do Silva.

Assista aqui, também, estes outros trabalhos do diretor:

2009- Boneco de Pano

2012- Perdigotos da Discórdia

2012 – O Terno do Zé

2013 – Desagradável (diretor de segunda unidade)

2014- Eu Aceito

2015- Par ou Ímpar

https://vimeo.com/130901429

2016- A Revolta do Boêmio

2016- Paterno

 

As Maquiagens Gore de Alice Austríaco

Posted in Cinema, Entrevista, Ilustração, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 9, 2018 by canibuk

A história da maquiagem gore no Brasil é bem recente, tem seus primórdios no SOV da década de 1990, com artistas como Júlio Freitas, Ricardo Spencer e Carli Bortolanza em seus trabalhos em vídeo pela Canibal Filmes. Só no século XXI que o país começou a ganhar grandes artistas dos efeitos melequentos e corpos dilacerados que levaram os efeitos sangrento para outro patamar. Em 2008 Rodrigo Aragão surgiu como o principal nome com seu “Mangue Negro”, junto de artistas como Kapel Furman que, em São Paulo, já estava realizando muitas maquiagens extremas. No sul surgiu Ricardo Ghiorzi e Caroline Tedy, ambos realizando maquiagens lindas. Em Vila Velha surgiu Alexandre Brunoro, que agora também está se especializando em fazer máscaras e próteses e acabou de lançar seu último trabalho, “Você, Morto”, com direção de Raphael Araújo. No Rio de Janeiro Jorge Allen é outro nome cujos trabalhos merecem ser visto. Em Goiânia Hérick João tem realizado make-ups ótimas e tive o privilégio de dirigi-lo no curta “Beck 137” e o cara é rápido sob pressão.

Um novo nome para ficar atento é Alice Austríaco (pretendo trabalhar com ela e Alexandre Brunoro no meu próximo filme), da cidade de Contagem/MG, pertinho de Belo Horizonte. Alice é assistente social formada pela Universidade Una, área em que atuou por dois anos, até que percebeu que não precisa de um emprego formal e que poderia se dedicar em tempo integral para as artes. Formada também em artes gráficas pela Escola Saga, além de maquiadora gore, também tatua, faz ilustrações e desenha roupas.

No momento Alice está realizando as maquiagens gore de um projeto fotográfico envolvendo crianças zumbis em situações de extrema violência, que também deverá se tornar um curta-metragem. Para falar mais sobre este trabalho, entrevistei Alice Austríaco.

Alice Austríaco

Petter Baiestorf: Como surgiu seu interesse por efeitos e maquiagens gore?

Alice Austríaco: Como qualquer criança a influência dos pais foi agente principal pra construção da personalidade e dos gostos, assim a paixão pelo cinema surgiu de forma natural e praticamente imperceptível. Minha mãe admiradora dos grandes romances clássicos e, meu pai, um grande entusiasta do cinema Western, me ensinaram o valor e a importância do cinema ainda quando eu era bem nova. Era hábito alugar algumas fitas durante o final de semana e foi em um desses dias que tive meu primeiro contato com o gore, aos nove anos de idade.  Me lembro bem do “moço da locadora” (como eu o chamava) me recomendando Evil Dead (1981), não sei se com a intenção de me assustar, mas, se foi, não deu muito certo. Me apaixonei. Desde então filmes carregados de efeitos e maquiagens gore se tornaram prioridade, despertaram em mim curiosidade e o sentimento de um cinema repleto de possibilidades e sentimentos. Já mais velha, em contato com alguns filmes, incluindo O Monstro Legume do Espaço que tenho enorme apresso, desenvolvi o interesse pela parte técnica e busquei estudar e compreender o cinema atrás das câmeras, me encantando pela maquiagem. Programas como o Cinelab também fizeram parte desse processo e me mostraram alternativas baratas para o que, até então, parecia impossível.

Alice realiza seus testes de maquiagem em si própria

Baiestorf: Algo que adoro em suas maquiagens e testes gore é a pegada sujona que você imprime a elas. Quais são suas inspirações, tantos nacionais quanto internacionais?

Alice: Minhas inspirações são variadas, Lua Tiomi que é uma maquiadora sensacional e trabalha com muita delicadeza, Mimi Choi que, apesar de ser especialista em Bodypaint (que não é o meu estilo), me inspira bastante, Dick Smith e Greg Nicotero, que são grandes nomes internacionais, me inspiram e uso de referência pra muitos dos meus trabalhos. Entretanto, acredito que o aspecto “sujo” seja uma identidade própria, quase como uma assinatura que desenvolvi ao longo do tempo e tem muito da estética que eu considero bonita no gore.

Baiestorf: Efeitos e maquiagens práticas ou digitais? Ou uma harmonização entre os dois estilos usando o melhor de cada técnica?

Alice: Ainda que eu tenha me inserido no mundo do cinema tardiamente, em que os efeitos digitais já estavam mais comuns, minha preferência sempre será pelas maquiagens e efeitos práticos. Acredito que, dessa forma, toda a produção fica mais orgânica e impactante. Não abomino o uso dos efeitos digitais e sei da sua importância, mas se possível que seja usado por necessidade e não como principal ferramenta na produção. Acredito também que o efeito prático envolve o set numa atmosfera divertida, gerando um resultado final real e vívido.

Baiestorf: Você testa bastante, inclusive utilizando de materiais baratos e fáceis de encontrar. Como funciona seu processo de criação?

Alice: Testar maquiagens é uma das coisas que mais gosto de fazer no dia a dia. A necessidade de usar materiais baratos veio da intenção de produzir sem dinheiro, através desses testes aprendi que é possível usar qualquer material e conseguir um resultado interessante. Comecei usando papel higiênico de qualidade duvidosa, garrafas de plástico, guache e até tinta aquarela que eu havia guardado de um trabalho de pintura em papel. A partir daí comecei a testar farinha, café, beterraba e qualquer outra coisa que fosse possível extrair cor ou uma textura que fosse necessária no momento. Também uso material específico para maquiagem, mas sei que em qualquer situação de necessidade, após uma feira e uma ida ao mercado, consigo fazer um gore impactante e, o mais importante, gastando pouco. Já o processo de criação sempre vem de formas variadas. Quando é um trabalho que o cliente tem exatamente o que quer em mente, geralmente busco imagens reais (um ferimento, por exemplo) e, apesar de desconfortável, busco enxergar os detalhes e reproduzir de maneira fiel. Já quando tenho liberdade de criação, costumo fazer uns storyboards mal feitos, apenas pra que eu não esqueça o meu objetivo, uma vez que, quando me empolgo, começo a fazer muita coisa e me esqueço da principal intenção e o que era pra ser uma ferida pequena se transforma numa autópsia completa. Além disso, independente do que seja o trabalho eu sempre testo em mim, primeiro porque acho necessário ajustar detalhes e compreender o que pode ou não ser feito no dia da produção e segundo porque gosto de saber como o modelo/ator vai se sentir no dia e até onde posso ir sem que se torne desagradável para quem estiver sendo maquiado.

Baiestorf: Como é o espaço em MG para trabalhar com maquiagens gore e cinema de gênero? Há espaço?

Alice: Em Minas Gerais infelizmente o gore ainda é pouco explorado, existe um carinho pelo cinema documental por aqui, principalmente em Belo Horizonte. Já o gore é pouco considerado, o público além de ser muito específico não busca fomentar o gênero, assim os locais públicos que fazem mostras de cinema raramente trazem a temática e reproduzem esses filmes. Por isso não existe espaço para quem deseja trabalhar na área. O lado bom disso é que onde não tem espaço, é possível criar um, e isso tem sido um fator motivacional para prosseguir – mesmo que exista uma vontade de ir para São Paulo, ainda acredito que seja possível começar a movimentar as coisas por aqui, em MG. Outro aspecto que venho observando é que o impacto que o gore causa torna os profissionais envolvidos temerosos quanto as suas participações. Muitos ficam receosos de se envolverem com o gênero e receberem julgamentos desagradáveis, afinal, o gore pode trazer desconforto e sempre vai ter alguém para apontar e achar tudo isso um absurdo, até mesmo usar de preceitos religiosos para fazer críticas ácidas e desproporcionais, o que já aconteceu e exigiu bastante jogo de cintura para contornar a situação. Optar por trabalhar com isso em Minas Gerais é assumir riscos, passar por julgamentos e ter que buscar outras maneiras de ter uma renda minimamente aceitável, uma vez que o retorno financeiro é pouco, mas confesso que tem sido muito prazeroso esse processo e tenho conhecido pessoas sensacionais, empenhadas e dispostas.

Baiestorf: Você esteve participando do Cinelab Aprendiz. Pode contar como foram as gravações? Como foi trabalhar com o Kapel, Armando e Raphael?

Alice: O Cinelab Aprendiz foi um divisor de águas e me impulsionou a tomar decisões que vêm mudando o meu rumo profissional desde então. As gravações aconteceram em São Paulo, cidade que havia visitado uma única vez e não conhecia absolutamente nada. Foi um risco que resolvi correr e, apesar da timidez, compreendi que seria necessário enfrentar, uma vez que me enriqueceria não somente no âmbito profissional, mas também pessoal. Todos os dias de gravação foram intensos e os programas exigiam, além de conhecimento na maquiagem, uma necessidade de conhecer também um pouco de cada função desempenhada no set . Tudo isso fez com que eu aprendesse e explorasse tudo o que sabia e não sabia, aprendi muito com meus companheiros de equipe e até mesmo das equipes adversárias, existindo ali um clima de companheirismo e uma troca intensa de saberes. Conhecer os mentores, Kapel, Armando e Raphael, foi o real prêmio pra mim, uma vez que são pessoas que já nutria uma admiração absurda, não só por causa do programa, mas também por seus projetos, dos quais acompanhava muito antes de participar do reality show. Os três estavam empenhados em nos ajudar e ensinar o que fosse necessário para que pudéssemos desenvolver e aprender. Aproveito o espaço para agradecer o Raphael Borghi, que foi o meu mentor durante as gravações e me ensinou muito. Todas as dicas que me passou vêm sendo colocadas em prática constantemente, inclusive foi fundamental para que eu reafirmasse meu senso de coletividade e me mostrou a necessidade de ter sempre comigo uma equipe coesa, que acredita minimamente nas mesmas coisas que eu, de forma que qualquer trabalho seja prazeroso e respeitoso com todos os envolvidos. Contudo, saí do programa empenhada a trabalhar com cinema, desenvolver projetos e me dedicar ainda mais à maquiagem, especificamente com o gore.

Baiestorf: Algum história envolvendo os efeitos/maquiagens durante o Cinelab Aprendiz que você possa contar?

Alice: As maquiagens eram sempre feitas na pressa por causa do tempo das provas e eu sempre saía com o sentimento de que poderia ter feito melhor, mas em uma das provas a equipe resolveu se dedicar integralmente na caracterização e todos estavam focados em fazer o melhor possível. Gabriel Niemietz e eu ficamos durante toda a prova dedicando à maquiagem de extraterrestre que foi feita no Gustavo Saulle que, no final, ficou irreconhecível. Essa maquiagem foi feita com papel higiênico e látex que, com ajuda de um soprador térmico, secou a tempo para que pudéssemos pintar de verde. Fazer isso foi extremamente desgastante ao Gustavo que ficou com dificuldades de respirar em alguns momentos devido ao cheiro forte do látex, o que nos levou a improvisar um canudo que colocou na boca, a fim de aliviar e facilitar a respiração dele. Durante essa prova recebemos o desafio surpresa de realizar também um estripamento e, desesperada por causa do tempo, no momento em que fui montar o efeito cortei o microfone de lapela que estava presa ao corpo do Gustavo. Isso apenas me mostrou a importância de não deixar o desespero e a pressa me guiarem. Confesso que hoje dou risadas do episódio, mas no dia fiquei em pânico.

Alien do Cinelab realizado por Alice e companheiros de equipe.

Baiestorf: Como foi sua percepção quanto ao mercado paulista de vídeo?

Alice: Tive um choque com a diferença do mercado e do interesse das pessoas em produzir em relação à Minas Gerais. No pouco tempo que estive em São Paulo conheci pessoas maravilhosas que estavam empenhadas em colocar “a mão na massa” (ou no sangue, nesse caso) e me convidaram para participar de projetos independentes, trabalhar e manter estadia em São Paulo. Ainda acredito que seja um objetivo e sei que terei mais facilidade em me dedicar na área, mas tudo precisa de planejamento e isso requer uma atenção e cuidado, considerando que o mercado da arte (que nunca foi valorizado), tende a oscilar e decisões precisam ser tomadas visando também o futuro. A maior diferença que encontrei é o risco que as pessoas estão dispostas a correr para colocar um projeto em prática, mesmo que seja assustador ou chocante, o mercado paulista não se inibe. Talvez pelo gore ser mais explorado ou por ser uma cidade com um público diverso, de forma que sempre haverá consumidor pra qualquer gênero que seja, ainda que cause estranheza em muitos lugares.

Baiestorf: Você tem feito maquiagens em vídeo clips, pode falar deles?

Alice: Trabalhar com vídeo clips tem sido uma experiência maravilhosa. Como o mercado pro gore no cinema ainda é escasso em Belo Horizonte, os clips são uma forma de apresentar às pessoas essa possibilidade e mostrar também que o gore pode ser usado de diversas maneiras. O trabalho nesse sentido se difere de um curta, por exemplo, por ser muito rápido. Em um dia tudo tem que estar pronto e geralmente no mesmo dia que começa, termina. São trabalhos rápidos, mas que exigem muita colaboração do set e cumplicidade dos envolvidos, inclusive da banda que está focada na sua parte e precisa confiar nos demais e, principalmente, na maquiagem. Só assim o trabalho consegue ser desenvolvido de maneira fluida e resultar em algo que agrade os fãs da banda, os músicos e as demais pessoas que trabalharam na produção.

Baiestorf: Você está realizando um ensaio fotográfico, em parceria com o artista Maxwell Vilela, que envolve crianças interpretando zumbis em situações de extremo gore. Como está sendo a realização deste trabalho? Pode contar situações dos bastidores?

Alice: A ideia surgiu de uma conversa despretensiosa e foi se transformando conforme desenvolvíamos o diálogo. Trabalhar com o Max é sensacional, assim como toda a equipe presente (Cadu Passos e Éric Andrada), que são pessoas dedicadas e empenhadas. Tive muita liberdade pra desenvolver a maquiagem desse projeto, as ideias foram tomadas junto com o Max, mas toda a identidade, o sangue e a construção foram pensadas por mim, onde pude desenvolver uma maquiagem agressiva, mesmo que tenha sido feita em uma criança de 9 anos, a Ayla. A pequena modelo demonstrou muita personalidade ao abraçar a ideia e não se incomodou com o sangue ou até mesmo pelo fato de ter seu coração “arrancado” de seu corpo. A foto abaixo foi feita em um parque público e, como imaginávamos, as pessoas naturalmente se espantaram, até então era compreensível, afinal, não é sempre que você encontra uma garotinha segurando o próprio coração por aí, o incômodo real surgiu dos comentários infelizes de algumas senhoras que usaram a religião de subterfúgio para proferir comentários ácidos sobre o trabalho (como dizer que ela estava horrível, que aquilo não era de Deus e coisas mais absurdas), o que gerou um desconforto não só na equipe, mas também na Ayla, que decidiu encerrar e darmos continuidade em outro momento. Temos como objetivo chocar, causar estranheza, mas acima de tudo questionar a adultização da infância, uma vez que maquiagens pesadas em garotinhas, sexualização, privação da infância dentre outras coisas são naturalizadas e não assustam. Destruir a idealização da princesinha encantada foi um objetivo comum e, com certeza, alcançado.

Baiestorf: Quando e onde sairá este ensaio?

Alice: Todos os envolvidos são artistas multitarefas a fim de manter a subsistência, por isso as datas são incertas, precisamos terminar o que começamos e pra isso temos a necessidade de abrir mão de trabalhos rentáveis, mas temos planos para lançar isso em breve! Inclusive novas ideias surgiram nesse processo e, com certeza, esse projeto se tornará maior do que a proposta inicial. De inicio vamos expor onde nos couber, pensamos em expor uma das fotos no metrô de Belo Horizonte o que causará um impacto em quem passa diariamente por lá e as vezes fica alheio ao meio. Talvez seja o momento de sacudir e chocar um pouco.

Baiestorf: Além do ensaio será editado também um curta? Pode falar sobre isso?

Alice: O curta tem sido um exemplo do cinema de guerrilha. Sem verba, sem uma grande equipe, mas muita motivação e esforço pessoal de cada envolvido. O acordo é que manteríamos suspense, por isso só posso adiantar que vai ter muito sangue. Tem sido um processo divertido, mas sujo!

Baiestorf: Além de maquiadora você também realiza ilustrações, tatua e cria roupas. Como é conciliar tudo no seu dia a dia?

Alice: As pessoas tendem a padronizar comportamentos, profissões e até a rotina se faz necessária. Por causa dessa construção demorei a compreender que é sim possível fazer tudo o que tenho vontade, basta ter organização e paciência, já que às vezes as coisas parecem sair um pouco do controle. Contudo, trabalhar com arte requer jogo de cintura e quase te obriga a explorar novas áreas, de maneira que seja possível ter um retorno financeiro aceitável. O que torna tudo mais prazeroso e possível é que são trabalhos dos quais tenho liberdade de horários, flexibilidade de organização e remanejamento. Acredito sim na possibilidade de trabalhar com aquilo que ama e, mesmo que sejam muitas tarefas, nada é desgastante, mas sempre muito divertido. Me envolver em áreas distintas permite que eu conheça muitas pessoas e aprenda diariamente, cada conhecimento adquirido pode auxiliar em outros projetos e, desta forma, sinto que consigo estabelecer uma conexão entre todas as áreas que resolvi me envolver.

Baiestorf: Algum projeto envolvendo ilustrações?

Alice: Constantemente projeto ideias para as ilustrações, mas ironicamente elas nunca saíram do papel. Imagino mil possibilidades com as ilustrações, mas nunca consegui estruturar algo para elas, senão me auxiliar na tatuagem, encomendas ou alguns storyboards mal feitos, dos quais esboço de forma bem simplista as maquiagens que tenho que fazer. Algumas anotações que faço costumam acompanhar pequenos esboços e rabiscos, que foi uma forma que encontrei de memorizar tarefas e me organizar no dia a dia. Tenho a pretensão de desenvolver algum projeto voltado para as ilustrações, mas ainda preciso pensar a respeito.

Baiestorf: Você ainda não está trabalhando com látex e animatrônicos em seus projetos, certo? Algum plano, ou testes, nessa direção?

Alice: Os trabalhos com látex e animatrônicos tem sido o meu principal objetivo na maquiagem, venho estudando e testando as próteses de látex e glicerina, o que tem gerado bons resultados. Já sobre os animatrônicos ainda não tive oportunidade de começar a desenvolver, mas pretendo até o final do ano ter dado início aos estudos e testes, de maneira que, em 2019, eu consiga me dedicar integralmente às maquiagens.

Baiestorf: Como o pessoal faz para acompanhar seu trabalho?

Alice: Sempre publico as maquiagens nas redes sociais e venho tentado dialogar com quem acompanha. Instagram: www.instagram.com/aliceaustriaco Facebook: www.facebook.com/aliceafm

Baiestorf: Como te contratar para futuros projetos?

Alice: Sempre respondo todos através das redes sociais, mas para trabalhos e afins disponibilizo o e-mail: aliceaustriaco@gmail.com

Baiestorf: Alice, gostaria de te agradecer pela entrevista. O espaço é seu para falar sobre algo que eu não tenha perguntado.

Alice: Petter, gostaria de agradecer o espaço e a consideração por mim e pelo meu trabalho. Suas produções sempre me motivaram, principalmente em trabalhar com o gore, me mostrando que é sim possível valorizar o gênero em solo nacional. Seus trabalhos construíram parte da minha identidade dentro da maquiagem e sigo me espelhando e aprendendo constantemente com o que me oferece. É uma grande honra fazer parte disso e ter essa oportunidade. Muito obrigada!

Dica de Alice:

ingredientes para a massa:

Vaselina sólida

Pó compacto da cor desejada

Amido de Milho

para o sangue:

Glucose de milho

Corante em pó vermelho

Corante em pó marrom (ou achocolatado em pó)

Corante em pó preto

modo de preparo:

Em uma vasilha acrescente duas colheres de vaselina sólida, pó compacto em pequena quantidade (até que alcance a cor desejada) e, aos poucos, o amido de milho. A consistência final é uma massa moldável e firme.

Para o sangue basta misturar na glucose de milho, o corante vermelho e, aos poucos, acrescentar o corante marrom. As quantidades podem variar de acordo com a cor desejada pela pessoa, por isso é necessário acrescentar todos os ingredientes devagar, sempre misturando e conferindo a cor.

Espalhe a massinha e, com ajuda do dedo úmido, molde de acordo com o formato do corpo. Com um lápis ou palito úmido faça pequenos furos na massa.

Com um pincel espalhe o sangue por toda a massa de maneira desuniforme, deixando alguns pedaços sem e outros buraquinhos que foram feitos com o lápis preenchidos de vermelho. Por fim, com o auxilio de uma esponja úmida, dê pequenas batidinhas por toda a maquiagem com o corante em pó preto, até que chegue a um resultado satisfatório.

Canibuk Apresenta: A Arte de Daniela Távora

Posted in Arte e Cultura, Ilustração, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 1, 2018 by canibuk

Conheci a Daniela Távora por conta do Cine Bancários de Porto Alegre, onde ela é gerente e eu, geralmente, faço a primeira exibição de meus novos filmes. Pouco depois tomei contato com a arte de Daniela através de um fanzine sem título que ela lançou (aliás, sem nenhuma palavra escrita, somente imagens) e que passei a admirar os traços dela. Daniela é das minhas, nada contra a corrente e não tá interessada em entregar as coisas para o público de mão beijada.

Daniela é formada em Artes Visuais pela UFRGS e um tempo atrás começou a experimentar em todo o tipo de arte, inclusive vídeo e fotografia, como essa abaixo, de uma série ainda inédita feita em parceria com o Itapa Rodrigues.

Daniela Távora

Atualmente produz vídeos, fotografias, zines, histórias em quadrinhos, ilustrações e baralhos de tarô. Sua pesquisa artística se apropria da linguagem cinematográfica de horror, terror e suspense, norteadas por abordagens fantásticas e micro narrativas pessoais.

Fiz uma entrevista com Daniela para apresentá-la aos leitores do Canibuk. Se você gostou do trabalho dela, entre em contato e encomende alguma peça.

Petter Baiestorf: Gostaria que você contasse como começou seu interesse pela arte e, também, sobre seus primeiros trabalhos.

Daniela Távora: Meu interesse pela arte surgiu logo após os primeiros esculachos que a vida fez comigo. Revolta, frustração e sentimento de impotência, ainda na adolescência, me fizeram sacar que se eu xingasse todos os escrotos que haviam ao meu redor, em uma folha de papel, apesar de nada acontecer com os alvos da minha raiva, eu poderia ter alguns textos mais ou menos interessantes. Tentei o teatro, mas era muito tímida, não deu certo. Além da escrita, descobri no desenho uma maneira de expressar o que sentia. Sempre tive a mente muito poluída pelas porcarias que passavam na televisão, logo comecei a ver muitos filmes, o que aos poucos foi me despertando o interesse pelo vídeo e fotografia.

Baiestorf: Sua arte sofre influências de quais artistas e escolas estéticas. Fale o que te atraí neles, se quiser falar sobre os porquês seria muito interessante.

Daniela: Praticamente tudo na minha vida aconteceu por acidente inclusive a arte. Quando pequena por algum motivo, eu estava entediada e abri um livro, que era da minha mãe, da Gnosis (aquela seita esquisita), onde haviam várias ilustrações da divina comédia. Fiquei apaixonada e apavorada. Eu era tão preguiçosa que nem me prestei a ler o nome do cara que tinha feito os desenhos. Tarde demais, eu já tinha aquelas imagens tão profundamente impressas no meu cérebro que só conseguia desenhar coisas muito parecidas. Muito tempo depois que fui descobrir que eram do Gustave Doré. Mais tarde conheci Eddie Campbell, Hitoshi Iwaaki, Harry Clarke, Jake e Dinos Chapman e William Kentridge que me influenciaram muito. Meus filmes preferidos sempre foram os mais baratos, diferentes ou com roteiro doidão. O Bandido da Luz Vermelha e Abismo de Rogério Sganzerla, Os Idiotas de Lars Von Trier, Filme Demência de Carlos Reichenbach, A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero foram muito importantes para mim, praticamente uma escola. Vendo filmes de Zé do Caixão, da Boca do Lixo, pornochanchadas e Petter Baiestorf descobri que o que eu queria estava muito perto de mim, e que eu poderia fazer o vídeo que eu quisesse, onde eu bem entendesse, com a câmera de qualquer amigo e a participação de todos os malucos (que eu amo) que estão só esperando um convite para fazer cenas de terror, morte e nudez. O terror me interessou mais, pois temas como família, convivência em sociedade, egoísmo, solidão, desigualdade e amor são explorados a partir de rupturas sinistras com a realidade. Histórias do universo White Trash, a burrice e a tosquice das pessoas, dramas comuns a adultos frustrados, adolescentes feios e sem perspectiva de futuro e crianças largadas aos próprios cuidados, pertencentes a famílias dissolvidas pelo capitalismo é como se fossem histórias feitas em homenagem a mim, meus amigos de infância e meus irmãos.

Baiestorf: Com sua arte você está aberta a todo tipo de trabalho ou gostaria de se especializar somente em uma área? Porque?

Daniela: Prefiro estar aberta a todo o tipo de loucura. Por meu próprio interesse fiz desenho, fotografia e vídeo. Ok. Mas por força da vida e convite de amigos doidos já me envolvi com serigrafia, música, cinema, até cover da Gretchen já acabei fazendo. Ou seja, acho que aprendo (e me divirto) mais quando foco menos.

Baiestorf: Conte sobre suas exposições e como produtores poderiam levá-la para suas cidades/estados.

Daniela: Quando comecei a expor os trabalhos eram em desenhos/ilustrações e foto, e as galerias eram em Porto Alegre. Hoje eu produzo mais vídeos do que coisas físicas, o que facilita, pois é só mandar o link com os arquivos para qualquer lugar do Brasil onde for rolar a exibição. Isso acontece bastante com festivais de cinema, que abrem muito mais espaço para vídeo experimental do que galerias de arte, diga-se de passagem.

Baiestorf: Como é realizar trabalhos artísticos aqui no Brasil? Há reconhecimento? Oportunidades?

Daniela: Só vejo trabalho requentado em galerias de arte, pois é mais fácil de vender. E eu entendo. Tem que ser muito corajoso ou corajosa para montar uma galeria pensando em exibir arte autoral, sabendo que o público é saudosista e que só vai comprar coisas já legitimadas há no mínimo uns 30 anos, ou cópias atuais de obras que fizeram sucesso há 30 anos. Faço minhas coisas de teimosa mesmo e não estou nem aí. E tenho muito pouca inserção, pois ainda não se descobriu como vender vídeos em galerias de arte. Às vezes me inscrevo em editais de espaços públicos e festivais de cinema com programação para vídeo experimental, e acabo sendo selecionada em alguns, pois nesse tipo de local é mais comum existir interesse pelo trabalho artístico de pesquisa, não pelo que é mais comercializável. Reconhecimento e oportunidades: de amigos queridos que valem ouro, fazem as coisas em parceria, ajudam, divulgam e compram. Ano passado tive a alegria de ser convidada para participar de uma mostra por alguém que não era diretamente um amigo de bar, “Ao lado dela, do lado de lá”, que aconteceu no Instituto Goethe, em Porto Alegre. Fiquei muito feliz.

Baiestorf: Você está com trabalhos em finalização? Poderia falar sobre eles e como o público poderá acompanhá-los?

Daniela: Tenho um vídeo sendo construído em parceria com a Pomba Claudia e Itapa Rodrigues que se chama “O estranho caso do rato que se achava águia”. Também estou produzindo uma série fotográfica com muito sangue, nudez e simbologias que nem eu mesma entendo, que ainda não tem nome, talvez quando eu terminar tenha um nome. Mas por enquanto, tem este site aqui que está em construção https://danielatavorao.wixsite.com/arte onde se pode ver o que tenho pesquisado nos últimos anos.

Baiestorf: E seus projetos? É possível sabermos um pouquinho deles?

Daniela: Meus projetos tem a mania de aparecer na minha cabeça do nada, e eu vou fazendo e então vão ficando bem diferentes do que imaginei conforme o processo, que faz com que fiquem mais maravilhosos. Além do vídeo com a Pomba e Itapa que estou montando e das fotos, estou interessada por pesquisar as personagens de mulheres monstruosas do cinema japonês, e agregar este “conceito” às minhas personagens, em vários suportes, como vídeo, desenho e foto.

Baiestorf: Geralmente a arte no Brasil é produzida de forma independente e é difícil conseguir se manter. O que você gostaria de observar sobre isso.

Daniela: Eu tenho um emprego para poder manter minhas necessidades básicas. O dinheiro que me sobra eu torro com equipamentos, tintas, figurinos, maquiagens e cenários para minhas ideias de arte. Ainda não vejo uma forma de conseguir se manter com trabalhos artísticos no sistema atual. Por um lado é ruim, pois se faz arte quando se consegue (grana, espaço, tempo, energia mental…). Ao mesmo tempo me sinto livre para fazer coisas esquisitas sem me preocupar em “pentear” meu trabalho para que ele se torne mais comercializável. Quanto a tentar editais para projetos de arte, sinceramente, tenho preguiça. Independente é mais gostoso para mim.

Baiestorf: O espaço é seu para as considerações finais:

Daniela: Gosto do feio, do sujo e do mal acabado. Ponto. Para mim é um modo de romper e de me expressar além de cânones estéticos vigentes. Não me importa o que os outros estão fazendo, vou fazer o que eu quiser fazer, pois a vida já nos obriga a fazer coisas chatas e por obrigação demais. Para mim é libertador trabalhar com o que quero e não me dobrar para tendências artísticas contemporâneas. Só se vive uma vez, já diria a canção do escroto do Roberto Carlos. Eu quero é decolar toda a manhã (Arnaldo Baptista).

Siga Daniela Távora no youtube:

https://www.youtube.com/channel/UCCSykLJu4vHHhftw-c33wuA/featured

Contatos de Daniela:

E-mail: daniela.tavora.o@gmail.com

Fone: 51 996061060

https://danielatavorao.wixsite.com/arte

danielatavora.tumblr.com

Artes de Daniela Távora:

Dedo Semovente

As Pancadarias de José Sawlo – O Jackie Chan do Sertão

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 26, 2013 by canibuk

José Sawlo tem a maior pinta de herói bom moço no melhor estilo do genial Jackie Chan. Sawlo é um realizador de filmes de ação independentes na cidade de Queimadas/PB, pertinho de Campina Grande, que produz filmes de kung fu com amigos da vizinhança. Na hora das cenas de pancadaria dá pra perceber que Sawlo e sua equipe possuem  um talento natural pra coisa. Quase um ano atrás assisti dois de seus longas (queria ter divulgado os filmes de José Sawlo antes, mas a produção do meu longa “Zombio 2: Chimarrão Zombies” atrapalhou meus planos para o Canibuk).

“Punhos em Ação” ( ? , 60 minutos) de José Sawlo. Com: José Sawlo e Jair Francisco.

Punhos em AçãoDois amigos inseparáveis se metem num assalto e se tornam inimigos mortais quando o irmão de um deles é morto. Sawlo, mais família, é o ladrão bonzinho, enquanto Jair Francisco caracteriza muito bem o bandido mais violento. A história é cheia de furos de narrativa e a iluminação é inexistente, mas o clima conseguido com as cenas de luta compensam essas falhas, como na luta final, travada no meio do sertão Nordestino com as duas personagens principais coreografando uma ágil luta sangrenta (com muitos momentos de bom humor inspirados em Jackie Chan). O ponto fraco do filme é sua trilha sonora pop deslocada (em dado momento toca até Guns’n’Roses), levando-se em conta os riquíssimos estilos musicais Nordestinos. José Sawlo bem que poderia ter conseguido algum compositor de sua região para elaborar uma trilha sonora original que combinasse melhor com o clima do filme (apesar de que, inconscientemente, “Punhos de Ação” é um bom exemplo do quanto o Brasil do povão é um quintal cultural dos U.S.A. – e de outras culturas -, à exemplo de quase toda a totalidade das produções amadoras brasileiras – incluindo aqui as minhas próprias produções). Momento impagável do filme: Uma maleta cheia de dinheiro, que na verdade são notas de 2 reais, que deve somar a incrível quantia de uns 300 reais.

“No Rastro da Gang” (2009, 74 minutos) de José Sawlo. Com: José Sawlo, Thiago Cruz e Linaldo Silva.

No Rastro da Gang1Talvez o grande clássico de Sawlo (preciso ver mais produções dele), “No Rastro da Gang” conta, de forma alinear (e completamente bagunçada, como o bom cinema de terceira classe de Hong Kong), a história de dois policiais que vivem numa comunidade dominada por grandes traficantes de drogas e lutam para livrar a sociedade deste mal. Com cenas de pancadaria mais elaboradas “No Rastro da Gang” empolga em diversos momentos, nota-se que Sawlo e seus amigos sabem coreografar muito bem as cenas de ação (com direito até a um sujeito despencando de um telhado e uma personagem que golpeia se movimentando no ar, como nos bons filmes de Hong Kong). Mas o principal modelo de cinema que a turma segue é o cinema de Jackie Chan, então há sempre umas paradas no ritmo do filme para cenas de drama familiar (que quando interpretados por amadores sempre ganham ares de deliciosa comédia involuntária). Momentos impagáveis do filme: São cenas com o uso de alguns efeitos digitais caseiros ultra toscos (e hilários) que mostra uma chuva virtual e um carro explodindo. Genialidades do Mondo Tosco!

Mesmo com suas deficiências técnicas (uma edição mais dinâmica, um diretor – para que Sawlo possa se preocupar apenas com as cenas de ação -, um figurinista, um iluminador e um roteirista melhor já deixariam os filmes com uma roupagem mais profissional), essas duas produções de José Sawlo são imperdíveis para os fãs do cinema de Bordas (José Sawlo precisa ser descoberto por estes pesquisadores). Sonho em ver algum produtor reunindo num mesmo filme José Sawlo, Rambú, David Cardoso, Coffin Souza, Joel Caetano, Seu Manoelzinho e outros grandes nomes do cinema de gênero brasileiro para a feitura de “Os Mercenários Tropicais” do cinema independente.

Petter Baiestorf.

No Rastro da Gang2

Crowfunding para Finalização do Curta-Metragem O Estripador da Rua Augusta

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on março 26, 2013 by canibuk

Assim como Fernando Rick fez para realizar seu documentário sobre a banda Gangrena Gasosa e eu estou fazendo para produzir meu longa-metragem “Zombio 2: Chimarrão Zombies“, Felipe Guerra e Geisla Fernandes estão agora em busca de investidores/apoiadores para a finalização do curta-metragem “O Estripador da Rua Augusta”, estrelado pela Monica Mattos. Este apoio financeiro dos fãs do cinema de horror é extremamente importante para que a qualidade dos projetos nacionais aumentem e continuem sendo produções independentes sem o apoio estatal. Não adianta muito os fãs de horror ficarem reclamando que os produtores de filmes nacionais não sabem fazer filmes de horror se o apoio financeiro não vir. Uma coisa é certa, este aumento de qualidade não vai vir de editais do governo, se vier é certeza que virá dos fãs.

Geisla e Felipe dirigindo

Abaixo reproduzo o release de “O Estripador da Rua Augusta”:

Nos Estados Unidos, várias belas estrelas de filmes pornográficos dividiram suas atenções entre o cinema adulto e as produções de horror. Alguns exemplos famosos: Marilyn Chambers, atriz do clássico pornô “Atrás da Porta Verde”, estrelou o terror “Enraivecida – Na Fúria do Sexo”, do consagrado diretor David Cronenberg; a musa Traci Lords deixou o cinema X-Rated para fazer o horror classe B “Vampiro das Estrelas”; mais recentemente, a estrela pornô da nova geração Jenna Jameson estrelou “Zombie Strippers”, cujo divertido título é auto-explicativo.

Este fenômeno agora chega ao Brasil. Monica Mattos, a maior estrela do cinema adulto nacional, aposentou-se dos filmes pornôs para transformar-se em estrela do cinema de horror independente.

Monica MattosA linda paulista de 29 anos, que garante ter feito mais de 300 filmes pornográficos, foi a única brasileira a ganhar o AVN Award nos Estados Unidos (prêmio considerado “o Oscar do Cinema Pornô”), em 2008, pela melhor performance de uma atriz estrangeira em filme adulto. Fã de terror desde pequena, a transição dos gemidos para os gritos foi natural.

“Sempre gostei de filmes de horror, desde criança, e nunca tive medo e nem pesadelos por conta disso. Pelo contrário, eu me divirto muito! Lembro que quando era criança eu juntava a turminha da escola pra assistir filmes, e sempre escolhia os de terror. O mais divertido era ver todo mundo morrendo de medo enquanto eu achava tudo engraçado”, contou Monica, que acabaria se tornando uma atriz do gênero que tanto gosta: “Eu nunca imaginei que um dia seria atriz em filmes de horror, mas quando surgiu o primeiro convite achei o máximo!”.

Ela já estrelou três curtas do gênero: “Zombeach” (2011), de Newton Uzeda; “Driller Killer” (2011), de Rodrigo Freire, e “Red Hookers” (2012), de Larissa Pajaro Chogui. Mas é o seu mais novo trabalho que pretende ser o mais ousado e ambicioso da ex-musa pornô: “O Estripador da Rua Augusta”, uma história de horror e humor negro não-pornográfica, mas repleta de sensualidade.

Escrito e dirigido por Felipe M. Guerra e Geisla Fernandes, o curta-metragem “O Estripador da Rua Augusta” traz Monica Mattos no papel de uma sedutora vampira com séculos de existência que usa a famosa Rua Augusta, em São Paulo, e a profissão de prostituta como fachadas para conseguir alimento fácil nas agitadas e selvagens noites paulistanas. Isso até que seu caminho se cruza com o de outro monstro que ataca no mesmo endereço, o Estripador do título – um serial killer que está matando prostitutas na região, interpretado pelo jovem ator de teatro e cinema Henrique Zanoni.

O curta-metragem é a primeira associação entre o diretor gaúcho Felipe e a diretora paulistana Geisla. Ambos já são nomes reconhecidos no circuito independente: Felipe começou a fazer produções caseiras em VHS em 1995 e já viu seus trabalhos de baixíssimo orçamento, como “Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado”, chegarem a renomados festivais de cinema nacionais e internacionais, enquanto Geisla, que graduou-se na Academia Internacional de Cinema de São Paulo, teve seu mais recente trabalho, o curta de zumbis “Necrochorume”, exibido em festival temático na Colômbia.

Autor do argumento e co-autor do roteiro de “O Estripador da Rua Augusta”, Felipe explica como surgiu a ideia de convidar Monica Mattos para estrelar o curta: “Depois de ler o roteiro pronto, percebi que a Monica era a única atriz que eu enxergava no papel. O curta é uma resposta mais sangrenta e sensual a esses filmes de vampiros infanto-juvenis que estão na moda, então ela se encaixou perfeitamente na proposta, e está fantástica em todos os sentidos!”.

Kapel maquiando e Monica Mattos detalheGeisla fala com entusiasmo sobre o projeto: “É uma ficção permeada de humor negro e apelo sexual. Uma experiência que tenciona surpreender o espectador. A trama é corajosa e inventiva, pois construímos dois universos distantes – o da heroína e o do vilão -, e os colocamos em paralelo na narrativa, até culminar no ponto onde se chocam, criando uma atmosfera absurda e exótica que envolve e atiça”.

Para tirar “O Estripador da Rua Augusta” do papel, os realizadores juntaram uma equipe pequena e competente, onde o grande destaque é o técnico de efeitos especiais André Kapel Furman. Um dos mais famosos profissionais da área do cinema brasileiro, ele tem trabalho reconhecido em longas-metragens como “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins, “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, e “Reflexões de um Liquidificador”, de André Klotzel.

A própria estrela está bastante entusiasmada com as filmagens: “Eu sempre gostei de filmes de vampiros e adorei a história do curta, essa mistura de sedução com terror acho bem interessante. A parte mais legal foi passar pela maquiagem de efeitos. Alguns me impressionaram muito, e agora todo filme que vejo eu fico tentando imaginar como foram feitos os efeitos”, afirmou Monica.

As filmagens estão sendo realizadas em São Paulo, num apartamento no centro da cidade e, claro, na Rua Augusta. Atualmente, a produção encontra-se na reta final, com previsão de lançamento do curta ainda em 2013 e a promessa de transformar Monica Mattos também em estrela do horror independente brasileiro.

E, considerando a performance da moça em “O Estripador da Rua Augusta”, não será nada difícil que esta promessa se concretize.”

O_Estripador_da_Rua_Augusta__1

Além do release, também reproduzo aqui as intenções dos diretores com o projeto:

“Qual é nossa causa?

Queremos finalizar nosso novo curta-metragem, “O Estripador da Rua Augusta”, com qualidade e respeito a todos que investiram seu tempo e seu talento neste projeto completamente independente – uma divertida história de horror e humor negro que provavelmente ficaria perdida nos labirintos burocráticos do mundo dos editais e leis de incentivo à cultura.

Do que trata o projeto?

Escrito e dirigido por Felipe M. Guerra e Geisla Fernandes, o curta-metragem “O Estripador da Rua Augusta” traz Monica Mattos no papel de uma sedutora vampira com séculos de existência que usa a famosa Rua Augusta, em São Paulo, e a profissão de prostituta como fachadas para conseguir alimento fácil nas agitadas e selvagens noites paulistanas. Isso até que seu caminho se cruza com o de outro monstro que ataca no mesmo endereço, o Estripador do título – um serial killer que está matando prostitutas na região, interpretado pelo ator  Henrique Zanoni.

Nos Estados Unidos, várias belas estrelas de filmes pornográficos dividiram suas atenções entre o cinema adulto e as produções de horror, como Marilyn Chambers, que fez o clássico pornô “Atrás da Porta Verde” e depois estrelou o terror “Enraivecida – Na Fúria do Sexo”, do consagrado diretor David Cronenberg, ou as musas Traci Lords, Jenna Jameson e Sasha Grey. Este fenômeno agora se repete no Brasil, onde Monica Mattos, a maior estrela do cinema adulto nacional, aposentou-se dos filmes pornôs e tenta reinventar-se como estrela do cinema de horror independente.

Quem somos?

O_Estripador_da_Rua_Augusta__2Esta é a primeira associação entre o diretor gaúcho Felipe M. Guerra e a diretora paulistana Geisla Fernandes, ambos nomes reconhecidos no circuito independente brasileiro e até internacional.

Felipe começou a fazer produções caseiras em VHS em 1995 e já dirigiu cinco longas-metragens, além de diversos curtas, todos trabalhos de baixíssimo orçamento. Algumas de suas obras, como a sátira “Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado”, chegaram a renomados festivais de cinema do Brasil e também da Argentina, Colômbia e Porto Rico. Em 2009, co-dirigiu o vídeo musical “David Blyth’s Damn Laser Vampires” ao lado do cineasta cult da Nova Zelândia responsável por filmes como “Guerra para a Morte” (1984) e “Programada para Morrer” (1990).

Geisla, que graduou-se na Academia Internacional de Cinema de São Paulo, produz, dirige e escreve. Entre suas obras estão os curtas “A Carne” (2007), “Na Privacidade do Número Ímpar” (2009), “López El Lobo” (2009), ” Água Doce” (2010) e “Desalmados – Um filme de humor negro romântico” (2011). Seu mais recente trabalho, o curta de terror ambiental “Necrochorume”, foi exibido em diversos festivais temáticos.

“O Estripador da Rua Augusta” tem uma equipe pequena e competente, onde o grande destaque é o técnico de efeitos especiais André Kapel Furman. Um dos mais famosos profissionais da área do cinema brasileiro, ele tem trabalho reconhecido em longas-metragens como “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins, “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, e “Reflexões de um Liquidificador”, de André Klotzel.

Onde será investido o dinheiro arrecadado?

Com o valor recebido, faremos o merecido pagamento do elenco, cobriremos nossos custos de produção (alimentação da equipe, transporte, objetos de cena que precisaram ser adquiridos, material para maquiagem de efeitos, aluguel de locação) e investiremos na finalização de imagem, na mixagem e na masterização do curta. Também usaremos parte do dinheiro para bancar a confecção dos brindes que serão oferecidos como recompensa para quem colaborar com nosso projeto. Num país em que muitos cineastas usam dinheiro do Governo, via editais e leis de incentivo à cultura, para fazer filmes que ninguém vai ver, acreditamos que é mais digno contar com a colaboração dos verdadeiros fãs de cinema independente (e cinema fantástico) para concluir nosso humilde curta-metragem. Além disso, sempre fomos incentivados a melhorar nossas produções, investindo mais nelas e deixando de lado o improviso. Portanto, esta é a sua chance de colaborar para que consigamos fazer nosso trabalho mais sério e profissional!

Em que pé está o processo?

As gravações do curta ocorreram no final de 2012 e no início de 2013, num total de 4 diárias. O filme está parcialmente filmado, faltando apenas 10% de cenas – ou seja, uma diária. E toda a etapa de pós-produção, que será realmente trabalhosa.

Como a realização do curta foi financiada?

O_Estripador_da_Rua_Augusta__3Acreditando no potencial e no resultado do nosso trabalho, nós financiamos toda a produção do próprio bolso, contando com o apoio e compreensão da equipe, já que boa parte dos atores e técnicos trabalhou de graça esperando pelo futuro sucesso do projeto de crowdfunding para ganhar um cachê simbólico. Sempre produzimos os nossos próprios filmes,  às vezes em sem nenhum retorno financeiro. Dessa vez, por se tratar de uma produção mais ambiciosa e repleta de nomes conhecidos, os custos foram mais altos e esperamos pelo menos poder cobri-los com o total arrecadado no Catarse.

Quais são as recompensas?

Disponibilizamos recompensas bem variadas, algumas relacionadas ao filme, outras que efetivamente fizeram parte dele, incluindo objetos de cena utilizados pelos personagens. Nosso objetivo é o de assegurar que o colaborador que participar com qualquer quantia passe a fazer parte da nossa pequena equipe, ajudando esse projeto a tornar-se realidade. Contribuições estrangeiras serão bem-vindas. Os valores em dólares são maiores do que os que pedimos em moeda brasileira, para bancar o envio das recompensas via encomenda internacional.”

O_Estripador_da_Rua_Augusta__4

Para ajudar na finalização deste projeto, visite a página deles no Catarse:

http://catarse.me/pt/estripador

Download de fotos em alta resolução:

http://www.4shared.com/folder/ki-59dg6

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FICHA TÉCNICA:

“O Estripador da Rua Augusta” (2013, Brasil)

Direção e roteiro: Felipe M. Guerra e Geisla Fernandes

Elenco: Monica Mattos e Henrique Zanoni

Direção de fotografia: Vinícius Bock

Assistente de fotografia e som: Eduardo Luderer

Direção de arte: Elise Miyasaki

Produção: Daniela Monteiro, Elise Miyasaki, Felipe Guerra e Geisla Fernandes

Maquiagem de efeitos: André Kapel Furman

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Any Day Now

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 7, 2012 by canibuk

“Any Day Now” (2012, 5 min.) de Ismael A. Schonhorst.

Essa delícia de curta demente (como todos os vídeos independente deveriam ser) conta a história de um jovem que acorda após noitada de bebedeira e se depara, ao lado de sua cama, com Gurcius Gewdners. Milhares de Gurcius estão em sua vida, dois em seu quarto, um casal de Gurcius na sala, Gurcius na cozinha, Gurcius e mais Gurcius saindo pela culatra, como num pesadelo ao som de Os Legais, banda de Gurcius Gewdner!!! Assim o jovem re-encontra seu orgasmo interior desmaiando de prazer após o gozo alucinadamente ardente.

Com uma produção simples, mas bem realizada, Ismael Schonhorst conseguiu criar um universo caótico que lembra em muito os filmes e shows de Gurcius Gewdner, realizando uma bela homenagem ao ícone catarinense que atualmente vive como travesti no Rio de Janeiro. O diretor Ismael, em importante depoimento ao Canibuk, fala sobre a produção do curta “Any Day Now”: “Uma madrugada de pesadelo e uma conversa com o superstar GurciusGewdner. Disso saiu a ideia para o primeiro videoclipe do disco d´Os Legais feito em parceriaInterzone-virtualesca com maior maestro de todos os tempos, o genial BURT BACHARACH. Videoclipe que acabou se desdobrando e hoje não sabe se é propaganda de álbum picareta, curta metragem chapado de sorvete estrelado, ou se é apenas uma alucinação que tende a ser esquecida em breve pelo consciente dos que experimentarem o prazer calcificante destes 5 minutos de amor e cuspe; Retorno meu ao mundo da direção cinematográfica, que estava afastado desde 3 fracassos sucessivos de finalizar curtas, resolvi que queria fazer neste trabalho algo que pudesse ser escrito em todas as categorias de festivais pelo mundo à’for’a-ll. Sem preconceitos. O que está ali é para chegar às mentes e permitir uma livre interpretação, tanto se for visto como um vídeo d’Os Legais, quanto se for visto como um curta metragem baseado no pensamento da violência-sexual de J.G. Ballard e na idéia de psique-decomposta de Emil Cioran, como assim é na verdade dentro da mente do diretor, ou seja, da minha mesma. A própria gravação do curta foi uma decomposição. Originalmente éramos para ter 20 pessoas dançando freneticamente, uma orgia de animais, batidas de carro reais, e um casal de verdureiros. Acabou que o casal desapareceu quando soube que não iriam aparecer em tela, os carros reais custavam muito caro, os animais acharam que a orgia era no IBAMA e foram parar no local errado, e as 20 pessoas que prometeram que apareceriam no clipe (inclusive uma gostosa que seria minha homenagem à Canibal Filmes no vídeo) desistiram, ou inventaram desculpas (dimensões paralelas, etc…), ou tiveram que ir em algum enterro de algum parente que morreu no dia da gravação. Fazer cinema sem dinheiro e sem drogas para os atores no Brasil dá nisso. Mas não desisti, e resolvi reconstruir a ideia, mudar os planos planejados (cof! cof!), e fazer como dava. E deu! Eis aqui o clipe finalizado (em um PC vagabundo; outro problema que tive foi o meu computador pifar no dia da edição), distribuído, sem censura, sem cortes, sem a gostosa, mas com uma gostosa banha de nosso ator sensual número 2 que, acreditem, foi contratado para pousar nu na próxima edição da Z Magazine. Depois dizem que as bordas não servem de vitrines culturais! Novos projetos estão sendo fermentados na Cachorro Bandido Produções. Um primeiro trabalho chamado Ruído Branco, também pseudo-filosófico-tecnocrata-apocalíptico, está em nosso canal do YouTube e circulando o país todo em festivais, eventos médicos, e feirinhas infantis. Sigam o canal para receberem as futuras atualizações. Divulguem entre seus amiguinhos. Se masturbem ao som de Os Legais. E salvem o mundo das cáries.”

“Any Day Now” é cinema demente como somente os catarinenses, com seu senso de humor retardado, conseguem produzir! Masturbe-se gostoso por Gurcius Gewdner!

Você pode assistir na integra o curta-metragem (que na minha opinião não é vídeo-clip) aqui:

E não perca também o curta-metragem “A Vida e a Morte da Reencarnação de Gurcius Gewdner” clicando neste link.

Cineminha 3

Posted in Fanzines, revistas independentes brasileiras, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2012 by canibuk

Acabou de ser lançado o terceiro número da revista de cinema independente editada pelo grupo Fudidos e Malpagos de Rio Claro/SP. Este novo número, uma homenagem ao diretor Carlos Reichenbach e ao ator Jorge Timm, abre com um texto humorístico escrito por mim e intitulado “Como Viajar de Graça Fazendo Filmes Baratos” que ensina aos jovens como unir o útil ao agradável. Cineasta independente pode se foder financeiramente o tempo todo, mas as viagens que seus filmes lhe proporcionam faz este sofrimento da eterna falta de grana ser tolerável. Em seguida há um interessante artigo de Bruno Nicoletti chamado “Cinema Terceiro Mundista Hoje”, teorizando sobre o cinema do terceiro mundo no Brasil emergente de hoje, que agora faz um cinema político inexpressivo. Um novo clássico como “O Bandido da Luz Vermelha” me parece impossível nos dias atuais, mas espero estar enganado! “A Odisseia Para Além do Humano”, de J.R. Sant’Ana, uma punhetagem sobre “2001” do Kubrick, e “Cinema de Esquina”, de César Felipe, sobre o documentário “Histórias de Esquina” (2006) de Felipe Diniz, estão na seqüência e são igualmente empolgantes. Aí tem um texto do Daniel Mittmann, “Por Um Manifesto Canibal-Caipira: Pensando um Cinema Tranqueira Gambiarra de Zumbis em Rioclaroville”, que toma o livro “Manifesto Canibal” (2004, escrito por mim e Coffin Souza) como base a ser aplicado nos pólos de cinema da cidade de Rio Claro/SP. Mittmann é certeiro num comentário sobre o cinema que tento fazer a mais de 20 anos com recursos próprios, quando escreve: “Souza e Baiestorf buscam, de alguma forma, construir um cinema perigoso”. É isso, não sei se o cinema que faço é perigoso ou não, mas tento fazer algo que possa incomodar os acomodados, atingir ou não o expectador é outra história! E fechando este número, mais um texto de Bruno Nicoletti, “O Andarilho”, que teoriza sobre os documentários brasileiros. Nestes tempos digitais não é brincadeira o que tem de cineasta independente documentando coisas, nem sempre com abordagens interessantes, infelizmente!

Enfim, mais um exemplar da “Cineminha” disponível, revista (na verdade é um fanzine fodão) que aos poucos está se tornando uma referência aos produtores independentes e ao público que aprecia filmes feitos sem a esmola estatal. Quero aproveitar e dar uma sugestão: no próximo número (que poderia ganhar mais páginas) seria bem vinda uma sessão com filmes independentes atuais resenhados/divulgados, o contato de seus realizadores e como o público interessado pode adquirir estes filmes, para criar um intercâmbio, um diálogo, entre cineastas independentes e público. Fazer filmes independentes não é um passatempo, fazer filmes com recursos próprios é uma filosofia de vida, é um compromisso com o cinema!

Já aguardo o quarto número da Cineminha, é louvável essa iniciativa e espero que mais grupos editem suas próprias revistas, quanto mais canais de divulgação para o cinema independente, melhor!

Contatos: fudidosemalpagos@gmail.com

por Petter Baiestorf.

* Quero aproveitar este post para pedir desculpas pela não atualização do Canibuk nos dias certos, o que acontece é que voltei das filmagens do “Mar Negro” (novo filme de Rodrigo Aragão) com uma gripe fodida que me derrubou e não consegui escrever novas matérias/resenhas pro blog. Como já estou melhor agora, espero normalizar tudo nesta semana, sempre com postagens inéditas nas segundas, quartas, sextas e domingos. Obrigado pela força pessoal!