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Cigar Box Guitars

Posted in Entrevista, Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 20, 2018 by canibuk

Imagine usar pedaços de madeira, isqueiros, arames, parafusos, pregos e utensílios de cozinha para fabricar um instrumento único e com excelente sonoridade? Esses são alguns materiais que o músico Lincoln Samarina (RJ) reutiliza na Oficina de Construção de Guitarra para ensinar os alunos a construírem seu próprio instrumento de forma caseira, com poucas ferramentas e estimular a criatividade com o uso das adaptações.

“A oficina de Cigar Box Guitar vai além da construção de um instrumento musical. Assuntos como a origem do Blues e o surgimento desses instrumentos primitivos serão peças para montar essa transmissão de conhecimento e cultura, relacionado a este universo dos negros descendentes de escravos que viviam no sul dos USA e construíam seus próprios instrumentos de forma arcaica para se expressar. Além disso, a vivência também abrange a temática da sustentabilidade, do meio ambiente e do reaproveitamento de material reciclado. É uma forma de ampliar o acesso ao universo da música e produzir um instrumento exclusivo, sem abrir mão do consumo consciente”, destaca Samarina.

Origem

A Cigar Box Guitar é um instrumento musical cordofônico, que surgiu por volta dos anos 30, quando houve a Guerra Civil – momento histórico conhecido como a grande depressão. Devido à dificuldade de adquirir materiais importados nessa época e também pela falta de condições financeiras, os negros trabalhadores da zona rural utilizavam as caixas de charuto e outros materiais para construir seus próprios instrumentos, fazendo adaptações, já que a estética não era tão importante, e sim o som. Foi a necessidade de se expressar que deu origem ao surgimento das Cigar Box Guitar, quando o Blues ainda não tinha se tornado elétrico e seu estilo era bem primitivo e rural, assim como a sua essência. Mais tarde, o Blues se propagou com suas vertentes e variações.

(Intro retirada do release da oficina ministrada por Samarina que rolou na casa de Alexandre Brunoro).

Entrevista

Entrevistei o Brunoro, maquiador gore e músico, sobre a oficina de Cigar Box Guitars, com Samarina. Em novembro tem nova oficina, se você quer aprender como construí-las, recomendo manter contato com o Brunoro.

Petter Baiestorf: Você é envolvido com a cena musical brasileira a muitos anos, poderia fazer uma pequena apresentação?

Alexandre Brunoro: Toco em banda desde os 15 anos de idade, já comecei atuando na cena goregrind nacional, com a banda Gory Gruesome, tivemos nossa estréia no clássico bar de Curitiba 92º, ocasião em que conheci você e o grande amigo Coffin Souza. Fomos tocar junto com outra banda aqui do ES, I Shit On Your Face, onde depois de uns anos eu acabei virando o baixista, quando o grande brother Gustavo Argentino faleceu. Toquei uns 7 anos no ISOYF, durante esse tempo eu toquei no Chuck Norris, que posteriormente virou Chico Noise, já tive também uma banda chamada “foda-se e morra” que era um crossover thrash core muito divertido. Após o término do ISOYF eu montei o projeto ERRO, que era basicamente umas músicas do ISOYF que eu compus e ainda não haviam sido gravadas. Mas a banda durou pouco tempo, logo os caras tiveram que se dedicar a outras coisas da vida, tipo filho, faculdade, emprego, essas táticas que o sistema utiliza pra foder com lindos projetos (risos). Depois de tocar nessas bandas de grind que eu citei, tive minha primeira experiência tocando na cena Surf/Garage com a banda Los Muertos Vivientes, onde pude conhecer uma galera massa dessa cena, tive a chance de abrir o show de bandas que eu gostava muito, como por exemplo o Agent Orange. Foi durante esse circuito que conheci a sonoridade da Cigar Box Guitar, vi uns vídeos do Lendário Chucrobillyman e pirei. O Colt Cobra foi meu último projeto, foi durante esse tempo que conheci o Lincoln Samarina, através de um anúncio do Facebook. Nessa época eu tava vendo muito vídeo de artistas que usam esse tipo de instrumento.

Baiestorf: lembro que quando gravamos juntos o curta-metragem “Você, Morto”, de Raphael Araújo, em 2017, você já estava sempre dedilhando numa Cigar. Como surgiu seu interesse pela Cigar Box Guitars?

Brunoro: Surgiu logo depois de eu ter assistido uma apresentação do Klaus Koti, com seu projeto onemanband “O Lendário Chucrobillyman”. Foi amor à primeira vista, aquela guitarra de caixa de charuto e taco de sinuca, com uma corda de baixo e uma de guitarra me deixou doido. Depois eu pesquisei bastante sobre o assunto, aí então que cheguei até o Samarina. Logo comprei uma guitarra na mão dele, e tivemos a idéia de produzir a primeira oficina de cigar Box guitar do Espírito Santo (não sei se isso já aconteceu em outro lugar no Brasil). Desde o primeiro dia que peguei ela, não parei de tocar, estudo todos os dias a sonoridade dessa maravilha de instrumento.

Baiestorf: Lincoln Samarina esteve em Vila Velha, na sua casa, ministrando uma oficina sobre como produzir essas belezinhas. Como foi isso?

Brunoro: O Lincoln é uma pessoa iluminada bicho, cara sagaz demais! A primeira edição da oficina foi feita no ano passado, no extinto espaço Prego, do amigão Alex Vieira. Lá foi algo mais expositivo, pois a estrutura do local não suportava. Aí desde então ficamos com essa ideia na mente, que deveríamos fazer aqui no meu ateliê e tal. Esse ano conseguimos concretizar o projeto, tivemos oito alunos que em quatro dias construíram suas guitarras com restos de madeira, refugo de madeireiras, partes de móveis antigos, tamos de gaveta e até um vídeo cassete antigo entrou na roda (risos). Foi muito foda a experiência, devemos repetir a oficina em novembro num outro espaço, dessa vez maior, com mais materiais e ferramentas disponíveis.

Baiestorf: Vocês gravaram a oficina, certo? Como pessoal de outros estados pode ter acesso a este material?

Brunoro: Infelizmente não conseguimos gravar na íntegra, mas fizemos bons registros que em breve estarão circulando nas redes sociais.

Baiestorf: Alguma idéia de montar um grupo musical só com Cigar Box Guitars?

Brunoro: Já tenho em mente isso a algum tempo, agora que não to com banda, pretendo fechar umas músicas e gravar um material ainda esse ano. A idéia é ter um projeto onemanband e sair em tour junto com o Samarina, levando a oficina e os shows.

Baiestorf: E uma trilha sonora? Fica aí o convite, inclusive!

Brunoro: Trilha sonora é uma coisa que eu acho maravilhosa, adoro pensar no clima que a cena pede, e traduzir isso pra música! Quem quiser me contratar é só mandar um e-mail pra alexandre.brunoro@gmail.com que eu cobro baratinho se falar que viu meu contato no Canibuk (risos).

Baiestorf: Você está produzindo os Instrumentos? Aceita pedidos? Como proceder para encomendar?

Brunoro: Ainda estou fechando minhas primeiras guitarras, to na fase de encontrar uma fórmula ideal, onde eu vou conseguir replicar as peças iguais. Fechei uma parceria com um amigo marceneiro aqui de vila velha, que inclusive participou dessa última oficina. Assim que tivemos as primeiras guitarras montadas e funcionando eu vou começar a vender e aceitar encomendas, a idéia é montar uma empresa nesse ramo!

Baiestorf: Obrigado Brunoro. Espaço é seu para incentivar as pessoas a fazerem por si próprias:

Brunoro: Eu só tenho a agradecer aqui pelo espaço mais uma vez, gostaria de agradecer muito ao Samarina pelo conhecimento e pela amizade valiosa que ele proporciona pra todo mundo que tá ao alcance. Quem quiser construir a sua própria guitarra, tenham uma coisa em mente, tudo que você aprender sobre luthieria é balela, dá pra fazer instrumentos com lixo sim, sem ferramentaria pesada, só com uma faca de pão, uma régua e uma furadeira já rola! Procurem vídeos no youtube, ouçam as músicas de artistas que usam esse tipo de guitarra, façam vocês mesmo! Se libertem do mercado de instrumentos, pois as possibilidades são infinitas!

Contatos: alexandre.brunoro@gmail.com ou Facebook.

Links para as atividades da oficina:

https://www.facebook.com/alexandre.brunoro/videos/10216907290698774/?t=6

https://www.facebook.com/alexandre.brunoro/videos/10216963398741440/?t=13

https://www.facebook.com/alexandre.brunoro/videos/10216963402621537/?t=27

https://www.facebook.com/alexandre.brunoro/videos/10216914750445263/?t=17

Links para as bandas onde Brunoro já tocou:

LOS MUERTOS VIVIENTES:

COLT COBRA:

https://coltcobra.bandcamp.com

GORY GRUESOME:

ERRO:

I SHIT ON YOUR FACE:

CHUCK NORRIS:

Viradão de Cinema Fantástico no Festival de Cinema de Vitória

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O cinema fantástico nacional está na moda e está ganhando visibilidade em inúmeras mostras de cinema que não tem tradição na exibição de produções neste gênero. Em 2014 já havia ganho a “Mostra Bendita” na Mostra de Cinema de Tiradentes com a exibição do longa “As Fábulas Negras” de José Mojica Marins, Rodrigo Aragão, Joel Caetano e Petter Baiestorf e a produção “Noite” de Paula Gaitán. Leia a história do Cinema Fantástico Brasileiro aqui no Canibuk.

Agora é a vez do Festival de Cinema de Vitória incluir em sua programação uma pequena mostra, intitulada “Viradão Novo Cinema de Horror“, na sua programação, atestando que finalmente os grandes festivais de cinema estão percebendo que o Cinema Fantástico brasileiro tem um grande apelo junto ao público.

No dia 19 de novembro, um sábado, com início à 01 hora da madrugada no Teatro Carlos Gomes, com previsão de acabar somente às 07 da manhã do mesmo sábado, o viradão promete uma divertida noitada aos cinéfilos que se aventurarem pelos domínios do gênero fantástico brasileiro. Acompanhe as novidades do Festival pelo site oficial: http://festivaldevitoria.com.br/23fv/

Os seguintes filmes estão programados no Viradão:

“13 Histórias Estranhas” (Ficção, 90′, SC, 2015), de Fernando Mantelli, Ricardo Ghiorzi, Cláudia Borba, Petter Baiestorf, Marcio Toson, Cesar Coffin Souza, Rafael Duarte, Taísa Ennes Marques, Gustavo Fogaça, Renato Souza, Leo Dias de los Muertos, Paulo Biscaia Filho, Felipe M. Guerra, Filipe Ferreira, Cristian Verardi. Filme coletânea. São 13 histórias curtas, onde o numeral é a base do roteiro.
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“A Casa de Cecília” (Ficção, 102′, RJ, 2015), de Clarissa Alpett. Cecília tem 14 anos e está sozinha em casa há duas semanas. Após dias intercalados de solidão e euforia, Lorena, uma adolescente misteriosa, surge em sua casa. Apesar da nova companhia, a casa parece ficar cada vez mais vazia e os eventos, cada vez mais peculiares.
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“Encontro Às Cegas” (Ficção, 10′, RJ, 2016), de Isabela Costa. Quando um vampiro cego, em pleno 2016, atrai suas vítimas por meio de aplicativos de celular, uma surpreendente chegada muda o rumo da noite.
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“O Diabo Mora Aqui” (Ficção, 80′, SP, 2015), de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini. Jovens numa casa assombrada.
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“O Duplo” (Ficção, 25′, SP, 2012), de Juliana Rojas. Silvia é uma jovem professora em uma escola de ensino fundamental.  Certo dia, sua aula é interrompida quando um dos alunos vê um duplo da professora andando no outro lado da rua. Silvia tenta ignorar a aparição, mas este evento perturbador passa a impregnar seu cotidiano e alterar sua personalidade.
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“O Segredo da Família Urso” (Ficção, 20′ SC, 2014), de Cíntia Domitt Bittar. 1970, ditadura militar brasileira. Geórgia, uma menina de 8 anos, é proibida de entrar no porão de sua casa, onde costumava brincar. Longe dos olhos dos pais e da velha babá, Geórgia encontra a porta destrancada: há alguém lá dentro.
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Quem estiver em Vitória/ES nesta data, fica aqui a dica para aproveitar o viradão. O fantástico brasileiro é o gênero cinematográfico nacional que mais tem conseguido, por conta própria, espaço em importantes festivais pelo mundo. “Zombio 2” (Petter Baiestorf), “Mar Negro” (Rodrigo Aragão), “Cabrito” (Luciano de Azevedo), “Encosto” (Joel Caetano), “Bom Dia, Carlos!” (Gurcius Gewdner), “FantastiCozzi” (Felipe M. Guerra), “Nervo Craniano Zero” (Paulo Biscaia) são apenas alguns dos filmes brasileiros que tem sido exibidos em vários festivais importantes do gênero fantástico por todas as partes do mundo. E é muito bom ver o gênero sendo reconhecido, também, em festivais de cinema brasileiro.
Bom Viradão à todos e obrigado por prestigiarem o cinema fantástico nacional!
Assista o documentário que o Canal Brasil produziu sobre o cinema fantástico brasileiro:
https://www.youtube.com/watch?v=XiSl3sb0MTY

 

 

O Doce Avanço da Faca foi Exibido Sem Censura em Vila Velha/ES

Posted in Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , on agosto 14, 2011 by canibuk

Dia 27 de julho foi exibido em Vila Velha/ES, numa sessão organizada pelo Cine Clube Central, meus dois últimos filmes: “Ninguém Deve Morrer” (2009) e “O Doce Avanço da Faca” (2010).

Resolvi fazer este post porque um dia antes da exibição fiz um post aqui no blog onde eu falava sobre a escolha deles de não exibir “O Doce Avanço da Faca”, fato que acabou NÃO ocorrendo, o filme foi exibido SEM CORTES para os espectadores adultos. Todos os leitores do blog e pessoal da imprensa só noticiou a censura, mas ninguém, depois, se interessou em noticiar que o filme foi exibido sem cortes pelo Cine Clube Central, então aproveito o espaço aqui no Canibuk para desfazer esse mal entendido todo. O Cine Clube Central, em decisão acertada, resolveu exibir o filme sem cortes como inicialmente programado.

Junto da exibição dos filmes foi distribuído um zine/cartaz do evento com uma entrevista minha, aproveito a postagem desta errata (“O Doce Avanço do Faca” NÃO  foi censurado em Vila Velha/ES) para disponibilizar aqui a entrevista na íntegra (que por falta de espaço físico, foi publicado apenas uma parte dela no zine do Cine Clube Central). A entrevista foi realizada pelo organizador da sessão, Ariel Fonseca Lacruz.

Ariel Fonseca Lacruz: O que é o manifesto canibal e a estética Kanibaru Sinema?

Petter Baiestorf: Kanibaru Sinema não pretende ser uma escola estética, nem um movimento, muito menos um amontoado de regras que as pessoas devem seguir. Kanibaru Sinema (que pode ser usado qualquer outro nome) é uma pequena mostra que é possível fazer seus filmes, seus fanzines, suas músicas como o que você tem em mãos! E depois de feito é possível largar suas produções por aí para que as pessoas assistam elas e o debate está criado! O Kanibaru Sinema é uma declaração de guerra dos que nada tem e tudo fazem contra os que tudo tem e nada fazem! Só isso!

Ariel: O que te motiva a fazer filmes?

Baiestorf: Sou hiper ativo, tenho que estar sempre fazendo alguma coisa! E fazer filmes é sempre uma aventura, nenhuma produção é igual a outra! Quando vejo os noticiários de jornais e TV tenho idéia prá filmes o tempo todo, gosto de fazer filmes sobre padres, políticos, militares e vários outros tipos de caras que usam seus empregos prá tirar proveito próprio! Mesmo fazendo filmes exagerados, eles sempre tem um fundo crítico com relação à algum assunto social, religioso ou ideológico, não creio que dá prá abrir mão disso! Claro que como filmo rápido, geralmente filmo um média-metragem em apenas 5 dias, nem sempre consigo aprofundar essas críticas nos roteiros, mas sempre tento fazer isso! Outra coisa que me motiva a continuar fazendo filmes é a possibilidade infinita de narrativas que o cinema permite explorar, por isso tenho tantos filmes surreais, absurdos, que discutem as possibilidade do cinema como instrumento de transformação, como, por exemplo, o longa-metragem “A Curtição do Avacalho”, que fiz em 2006, ou uma série de filmes metalingüísticos que fiz, com destaque aos títulos “Não há Encenação Hoje” (2002), “Palhaço Triste” (2005), “Que Buceta do Caralho, Pobre só se Fode!!!” (2007), “Vadias do Sexo Sangrento” (2008) e “Ninguém deve Morrer” (2009) que são pertencente à uma série que estou fazendo e que discute as possibilidades narrativas e estéticas do cinema.

Ariel: Quem é a “classe média”?

Baiestorf: Todos os escolarizados, que sabem interpretar um texto, sabem que é possível melhorar nosso país, mas ficam sentados na frente da TV vegetando e sonhando em ir gastar seu dinheirinho de bosta nos USA ou na Europa!

Ariel: Filmes indigestos têm mercado? Como rola a distribuição e os circuitos de exibição?

Baiestorf: Tem muito espaço, pessoal curte prá caralho! Quem produz este tipo de filme sabe que há muita gente cansada dessas mega-produções dos grandes estúdios onde tudo é tão perfeitinho que soa falso demais! A vida não é perfeita, o humano não é perfeito! Muita gente se identifica com meus filmes imperfeitos!

Ariel: Desde o primeiro filme já se passaram dezoito anos e de lá pra cá você se tornou um ícone do cinema grind. Porém o ídolo é algo incompatível com o pensamento anárquico. Como é a sua relação com os fãs?

Baiestorf: Em 2012 a Canibal Filmes vai completar 20 anos. Abri a Canibal Filmes em 1992, passei boa parte daquele ano filmando um longa chamado “Lixo Cerebral de Outro Espaço” que não consegui finalizar por uma série de fatores. Já estou começando a preparar a Pré-produção de um novo longa-metragem em homenagem aos nossos 20 anos, vai ser sangrento, delirante, crítico, debochado e tudo que o pessoal que acompanha a Canibal Filmes nestes 20 anos curte, vai ser um presente ao pessoal que gosta de nossos filmes, com pênis pulsantes balançando na frente da câmera, vaginas apetitosas, com personagens escrotas, com violência exagerada e etc… Esse negócio de ídolo é coisa que as pessoas criam, eu sou apenas um cara que fica fazendo o que tem vontade! Quando estou em mostras converso com todo mundo de igual prá igual, aliás, tenho pavor de puxa saco, gosto de conversar de igual prá igual. Faço filmes toscos, não há menor possibilidade de eu me achar superior aos outros fazendo filmes vagabundos, nem faz parte do meu perfil isso!

Ariel: No seu processo de criação, a trilha sonora é fundamental. Fale sobre a relação da música com seus filmes.

Baiestorf: Antes de escrever um filme eu gosto de saber que sons vou usar na trilha sonora. As vezes não é possível ter a trilha sonora antes de escrever o roteiro, então procuro algumas bandas/sons na linha do que tenho em mente e filmo usando algo similar e aí, antes de editar o filme, tento achar os sons que se encaixem no clima que quero passar com cada cena. Prá mim a trilha sonora é 50% do filme, sem música eu não saberia fazer nenhum filme, não sei fazer filme sem som! Já fiz 2 musicais, “Caquinha Superstar a Go-Go” (1996, que é ruim demais) e “Ninguém deve Morrer” (2009) e pretendo fazer vários outros musicais na medida do possível, eu simplesmente adoro fazer musicais. Mas tem uma coisa, não curto fazer vídeo-clips, os que fiz foram prá bandas de amigos, vivo recusando ofertas prá dirigir clips porque simplesmente não gosto do formato, meu negócio é com filmes musicais escritos por mim, musical misturado ao gore permite a mente ir ao extremo dos delírios na narrativa e visual de um filme, gosto disso!!!

Ariel: O que rola nos bastidores?

Baiestorf: Gurizada vê aquele monte de atrizes peladas nos meus filmes, aquelas cenas de putaria e acha que as filmagens são umas festas, mas é justamente ao contrário. Como filmo rápido e tentando baratear a produção de todas as maneiras possíveis, sou extremamente centrado no que estou fazendo e exijo comprometimento completo com o filme de quem está trabalhando nele. Não gosto de gente conversando bobagens no set de filmagens, não gosto de gente bebendo ou chapando durante o trabalho. As filmagens são maçantes e cansativas, não é lugar prá bobo alegre punheteiro, por exemplo!

Ariel: O que acha de filmes de terror?

Baiestorf: Olha só, não gosto de filmes de horror! Vejo os filmes, vejo praticamente tudo que sai, mas dificilmente eu gosto de algo. Gosto mais de cinema autoral, estilo George Kuchar, Jack Smith, Dusan Makavejev, Alexando Jodorowsky, Koji Wakamatsu, Christoph Schlingensief, John Waters, Russ Meyer, entre outros desta linhagem! Cinema de horror é sempre conservador, quadradinho e são poucos os filmes com algo à dizer!

Ariel: Quais os cineastas mais te perturbaram, e por que?

Baiestorf: Desculpe-me, mas nenhum cineasta me perturba. Cinema é apenas um negócio, é como construir muros de pedra ou pontes de madeira! Tu faz e as outras pessoas usam!

Ariel: Comente o doce avanço da faca:

Baiestorf: “O Doce Avanço da Faca” é meu último filme, fiz ele em 2010 e por um pequeno probleminha de distribuição continua inédito, coisa que pretendo resolver em breve. É um média-metragem sobre fanáticos religiosos perseguindo pessoas que não compartilham dos mesmos ideais que eles. Escrevi este roteiro em uns dois dias, chamei meus colaboradores habituais e filmei em apenas cinco dias com orçamento extremamente baixo, custo final dele ficou pouco mais de mil reais! Tem encontrado seu público em exibições em cine clubes, mostras e festivais, pessoal têm discutido ele, mas é claro, tendo em mente que “O Doce Avanço da Faca” é um filme debochado, exagerado e que em momento nenhum se leva tão à sério assim.