Arquivo para William Burroughs

O Gato por Dentro

Posted in Literatura with tags , , , , , on outubro 2, 2011 by canibuk

Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim.

Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não aconteceu há milhões de anos.


Na noite passada sonhei com um gato de pescoço muito comprido e um corpo que parecia o de um feto humano, cinza e translúcido. Eu o acaricio. Não sei do que ele precisa ou como providenciá-lo. Outro sonho há muitos anos com uma criança humana de olhos imóveis. É muito pequena, mas pode andar e falar.

– Você não me quer?

Na verdade, não sei como cuidar da criança. Mas estou decidido a protegê-la e alimentá-la a qualquer custo! É a função do Guardião proteger híbridos e mutantes no vulnerável estágio da infância.


Indícios apontam que os gatos foram domesticados pela primeira vez no Egito. Os Egípcios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraíam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso seja exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são muito mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.


O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos.

Para entender uma questão antiga, traga-a para o presente. Meu encontro com Ruski e minha conversão a um homem de gatos foi a reencenação da relação entre os primeiros gatos domésticos e seus protetores humanos.


Não me lembro exatamente quando Ruski entrou na casa pela primeira vez. Lembro que eu estava sentado em uma poltrona perto da lareira com a porta da frente aberta. Ele me viu a quinze metros de distância e correu. Soltava uns ruídos agudos que nunca ouvi outro gato fazer, e pulou em meu colo. Aconchegou-se ronronando e botou as patinhas perto do meu rosto. Dizia que queria ser meu gato.

Mas eu não o escutei.


Vou aproveitar esta oportunidade para denunciar e execrar a vil prática inglesa de caçar a cavalo e com cães. Dessa forma, os caçadores estúpidos podem observar uma bela e delicada raposa ser dilacerada por seus cães fedorentos. Encorajados por esse espetáculo grosseiro, retornam à sede da propriedade para ficar ainda mais bêbados do que já estão. Não são melhores que suas bestas imundas e bajuladoras, que comem merda, rolam em carniça e assassinam bebês.


Todos vocês que amam os gatos lembrem que os milhões de gatos que miam pelos quartos do mundo depositam toda sua esperança e confiança em vocês. Somos os gatos por dentro. Os gatos que não podem andar sozinhos, e para nós há apenas um lugar.

Escrito por William Burroughs (pequenos trechos do livro “O Gato por Dentro”, editora L&PM).

Decodificando Christiane F.

Posted in Arte e Cultura, Cinema, Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2011 by canibuk

Neonstadt, Decoder, Wunderbar / Der Tod holt mich ein, Gesundheit… certamente esses são nomes que você nunca ouviu falar, mas  fazem parte do currículum de uma figura que ficou conhecida apenas como “drogada e prostituída”.  Poucos sabem que Christiane F. também foi atriz de filme underground, cantora e membro de banda experimental nos anos 80.

Sentimentale Jugend.

A banda que no início dos anos 80 ficou conhecida dentro da cena musical amadora de Berlim, se apresentava em festivais de música experimental,  foi fundada pelo, na época seu namorado, Alex Hacke, cara que seria  o fundador da fantástica Einstürzende Neubauten. Na época, Christiane participou  de algumas gravações da banda, tocando guitarra e cantando. Na tentativa de  fugir da fama do filme “Wir Kinder Vom Bahnhof Zoo” (Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída, no Brasil), chegou a raspar a cabeça pra não ser reconhecida e usava o pseudônimo de Christiane X nos créditos do disco.  É possível achar alguns sons disponíveis pra download pela internet.

Sentimentale Jugend

Neste vídeo eles se apresentam num festival de 1981 Geniale Dilletanten, em Berlim.

Carreira solo.

Em 1982, Christiane lança seu primeiro disco solo, um EP intitulado Gesundheit.  Nesse disco ela parte pra um estilo que crescia na Alemanha naquela época, o Neue Deutsche Welle (um gênero musical que difundiu um movimento cultural surgido na Alemanha nos anos 80.  O estilo, originalmente derivado do punk e da new wave,  começou como fenômeno underground, e logo se tornou absurdamente popular depois que foi descoberto pela mídia e grandes gravadoras que não tardaram em investir em bandas cada vez mais comerciais. Esse movimento deu  fôlego e abriu um novo espaço pra música pop alemã, que até então era vista com maus olhos).

No mesmo ano lança o EP Final Church, que traz na capa o nome “Christiana” e foi gravado nos EUA e conta novamente com a participação de  Alex e demais membros da antiga banda. Este, que na minha opinião é o melhor, é mais experimental, traz alguns efeitos estranhos e músicas gritadas. Também é fácil achar arquivos pra download por aí. Procurem!

Segue um som foda que faz parte desse EP.

Outras versões das canções contidas no primeiro EP foram lançadas e em 2003 foi publicado um LP/CD com as duas versões da WunderbarHealth e Dub.

Cinema.

Em 1981, estreia no cinema protagonizando o filme punk “Neonstadt”,  do cineasta  Klaus Maeck, com quem ela dividia apartamento por aquelas épocas. O filme mostra, em cinco episódios, a vida de jovens moradores de grandes cidades e, sem fugir da realidade daquela época, expressa  a falta de esperança dos jovens com o futuro. Os episódios são dirigidos por jovens de Munique formados em cinema.

Em 1984, Christiane participa do filme cult “Decoder“, dirigido por Muscha, onde contracena com o grande escritor beatnik  William Burroughs.  O filme é baseado nos escritos do Burroughs e traz, em meio a imagens de caos urbano,  um roteiro simples, mas nada linear e um estilo único.

Embora tenha sido bastante ativa nos anos 80, depois de tudo, Christiane F. seguiu sua vida sumindo da mídia e voltando pra heroína. Aos 51 anos, ela vive atualmente na Alemanha, continua usando heroína, sofre de hepatite tipo C, faz hemodiálise regularmente e, segundo os médicos, seu caso é irreversível.