Do Bang Bang ao Blá Blá Blá com Tonacci

Nos meses de novembro e dezembro de 2000, com ajuda de Thomas Albornoz e Carlos Reichenbach, consegui entrevistar o cineasta Andrea Tonacci para o fanzine “Brazilian Trash Cinema” (o “BTC”) que eu editava em parceria com o Coffin Souza. Resolvi resgatar essa entrevista aqui no blog.

Baiestorf: Fale um pouco sobre você e sua obra:

Tonacci: Rapidamente, 56 anos, branco, romano, há 49 anos brasileiro, pai, separado, arquiteto e engenheiro como formação, desenhava, pintava, gravava, comecei a filmar viagens familiares com uma Paillard 8mm de corda e a primeira experiência com ficção foi de um minuto ou pouco mais, sem som, cujo título era “A Vida do Tempo”, uma seqüência rápida de imagens curtas, do nascimento até a morte através de rostos, pessoas, coisas, arte, civilização, talvez perdido ou talvez em alguma caixa ou lata guardada, enferrujada. Depois consegui uma Paillard 16mm também de corda e posteriormente um motor adaptado, e então, “Olho por Olho” e a fotografia do “Documentário” do Sganzerla e no “O Pedestre” do Otoniel Santos Pereira. Isso era tempo de rua Maria Antonia, 1966, antes do pau. Em 1967/68 no Rio (de Janeiro) aprendo com liberdade pouco responsável, e com sorte, o nível de violência física e de manipulação ideológica e social administrado bestialmente pelos subservientes militares golpistas. Da raiva, da impotência, da mentira e do idealismo cego nasce “Blá Blá Blá”. Da tentativa de quebra da auto-imagem, do questionamento dos valores moralistas, éticos/estéticos e humanos surge “Bang Bang”, metáfora intencional do eterno estado de conflito, do caos, dos homens sucata, da sobrevivência, da busca e da invenção, de insight da realidade ou ficção, e lentamente descubro o lugar da linguagem, como lugar/forma para o trânsito do sentido que no encontro com o outro pode revelar o universo comum. Mas ingenuamente busco o olhar do outro através de nossa tecnologia e vou procurar o olhar tecnológico do Índio. Ponho a Câmera na mão deles e afinal contribuo para mais um pouco de dominação imaginando estar contribuindo para a reflexão e para o mútuo entendimento. A morte de meu pai me leva ideologicamente a ter que afirmar minha capacidade de subsistência e por alguns anos trabalho dirigindo comerciais varejão e institucionais para empresas. O tempo passou e foi somente 10 anos mais tarde que “Conversas no Maranhão” devolveu alguma coisa aos índios Canela, a verdadeira dimensão e limites de seu território, quando os que eram crianças na imagem, já como adultos, vendo o filme após a morte dos velhos que lá narram a história recente do grupo, cobraram dos pais o porque da diferença territorial na versão oral por eles recebida. Os pais mentiram e manipularam a história por conveniência de sobrevivência e fraqueza. A versão ouvida era diferente da que os velhos contavam no filme. Depois “Os Arara”, editado em 1983, foi definido por Jean Claude Bernardet como uma antropologia de nós mesmos, o que é bastante próximo do que posteriormente percebi, se colocarmos isto no campo da experiência vital, sensorial, o documentário como vivência, resultado mais de um processo existencial que de uma intenção racional/documental. Mas isso eu só percebi após as mudanças metabólicas e na ordem dos meus sentidos quando passei 8 meses seguidos dentro da floresta acompanhando uma expedição oficial de primeiro contato. Isto para desespero do imediatismo da TV Bandeirantes (nota do canibuk: atual Band) que me financiava a viagem junto com uma bolsa da Guggenheim. O filme sobre a excursão dos Autos Sacramentais pelo Irã e Europa com Vitor Garcia, Ruth Escobar e companhia foi a oportunidade de trabalhar essa antropologia de nós mesmos entre nós mesmos, e com atores. Acabou em conflito jurídico com a Ruth, como produtora do filme, por revelar-lhe o jogo manipulador. O filme nunca foi exibido na TV ou cinema. Desde 1973 trabalho com vídeo portátil e até hoje venho gravando “At Any Time”, a construção de uma história que mais vivo do que conheço, que inclui amigos, familiares, realidade e encenação ao longo do tempo, as pessoas mudando, crescendo, trabalhando. A uma parte mais recente dei o nome de “Paixões”, o título que Rosemberg dera a um projeto de episódios que poderíamos ter feito com as leis de incentivo, mas não fomos hábeis na captação. Depois escrevo “Agora Nunca Mais” que foi revisto e trabalhado pelo Inácio Araújo e pelo Carlos Reichenbach, mas que nunca chegou a ser produzido e que constituiu um dos seis roteiros que a Casa de Imagens, de que éramos sócios, idealizou produzir em série. Em seguida realizo documentários e documentações de arte brasileira e internacional (90 horas de material inédito) para a fundação Bienal de SP, um de 30 minutos para a Biblioteca Nacional e um de 60 minutos sobre 100 anos do Theatro Municipal de SP. Desde 1985 dirijo a Extrema, minha produtora independente onde com a montadora Cristina Amaral consegui autonomia de realização, da captação à montagem e finalização. A produtora sustenta-se prestando serviços de edição não linear com o sistema Heawyworks e realizando vídeos como prestação de serviços. Atualmente escrevo o roteiro e produzo uma versão gravada em vídeo digital do “Serras da Desordem”, argumento para um longa-metragem, selecionado para uma oficina de roteiros do Sundance e premiado com bolsa da Fundação Vitae de SP para pesquisas. Já gravei 15 horas e gostaria de filmar no segundo semestre de 2001. Preparo um clip musical e planejo duas séries para TV. O resto é contagem regressiva.

Baiestorf: O curta “Blá Blá Blá”, de 1968, acabou por tornar-se um importante documento histórico sobre o momento pelo qual a sociedade brasileira passava na época. Comente a respeito da criação do curta, composição das personagens, roteiro e diálogos:

Tonacci: “Blá Blá Blá”. As personagens são o homem e suas ambições e sua palavra e sua contradição e sua luta e sua ignorância e seu medo e sua necessidade de sobreviver à invenção que faz de si e do mundo. E assim surge do vazio das palavras diante da traição ao seu sentido e ao homem como fim. E assim o discurso do político Paulo Gracindo compõe-se de trechos de discursos de santos à Hitlers, a Nietzsche a Mao a H. Miller a Buda a Franco a Cristo a Mussolini a Getúlio a JK e Jango e Castelo e a Andrea (Tonacci) costurando-se na reflexão e na trama do pensamento voltado ao poder da ambição e ego cegos que repetidamente na história vem justificando a violência e o extermínio de gente e idéias em nome da justiça, do direito, da paz, de Deus, da liberdade, da nova humanidade, num ritual espiral de cega invenção e progressiva desumanização, chegando hoje ao possível suicídio/genocídio coletivo. Escrevi o roteiro de um impulso em 30 dias trancado no apartamento de um amigo, com vista para o mar. Ele me hospedou após a casa onde eu vivia ter sido depredada pela repressão. Os demais personagens, de alguma forma também reais e ficcionados, representam a mesma contradição humana nas esquerdas do campo e nas cidades, ambas trucidadas pela ignorância, ingenuidade e oportunismo histórico. A besta irracional do militarismo servil aos interesses econômicos que vivíamos então era água com açúcar diante da farsa atual, da tecnologia, da manipulação, da tortura que o neo-zistema globalizante está finalizando para a consumidora humanidade descartável.

Baiestorf: E como foram as filmagens dele?

Tonacci: As filmagens foram produzidas como pequenas ações independentes e planejadas para serem rápidas e filmadas uma única vez, como as do saguão do aeroporto de Congonhas em SP, ou a discussão do Nelson Xavier no viaduto, o jipe aberto pela cidade… Ensaiadas antes e vividas na hora da câmera. Não solicitamos nunca autorizações e nem tivemos em nenhum momento qualquer interferência surpresa. Foi quase tudo filmado em lugares isolados e estúdios fechados e o material de arquivo “desapropriado” às televisões.

Baiestorf: Acho seu filme “Bang Bang” um dos mais criativos já produzidos no Brasil. Como foi a reação do público na época? Existiram muitas exibições para um público não intelectualizado? O que as pessoas comuns achavam de “Bang Bang” na época de seu lançamento?

Tonacci: A reação do público na época ao “Bang Bang” era de sentar e curtir ou insuportar, tanto que usei esta frase para significar a forma de encará-lo, mas afora amigos e jovens entusiastas o público geral do Belas Artes em SP, onde foi projetado e retirado após 4 dias (e pelo Nelson posteriormente relançado) saia em pencas, mas os que ficavam, “viajavam”. Meu pai ficou horrorizado, foi ver sem me falar, acho que questionou-se se havia feito algo errado… Bem, foi assim que, afora o (Nelson) Aguilar e o Novais Teixeira, o filme foi percebido. Mais sensorialmente que racionalmente. As projeções para um público não “intelectualizado” foram casuais mas surpreendentes, onde se gargalhava e falava sem constrangimento, e nas conversas após as exibições revelava-se a quantidade de sentidos que os símbolos projetados provocavam pela ausência cultural/memorável das referências cinematográficas citadas. Memorável foi uma exibição para funcionários de limpeza pública num cinema do Rio de Janeiro, onde, quando indo como incógnito espectador, a bilheteira me avisou tratar-se de um filme nacional e que como eu era o único espectador não haveria sessão, o que só seria possível se houvesse cinco espectadores. Providenciei no ato, na calçada, ali mesmo, para constrangimento do gerente a quem ameacei com fiscalização. O filme é inédito na TV até hoje (nota do canibuk: Dezembro de 2000). Nem a TV cultura exibiu. Existe para alguns poucos como você, cuja admiração até hoje me surpreende e gratifica.

Baiestorf: A narrativa caótica-marginal de “Bang Bang” foi uma opção ou necessidade?

Tonacci: Não sei bem se caótica-marginal, pois para mim existia uma linearidade interna às seqüências e uma lógica que no dia a dia das filmagens era continuidade, apesar de improvisar a cada noite, relendo o roteiro original, a cena a ser filmada no dia seguinte. A estrutura narrativa foi uma opção, uma escolha planejada que o montador Roman Stulback soube aproveitar indo além dos saltos que eu pretendia ter dado.

Baiestorf: “Bang Bang” é uma paródia ou é cinema de arte criticando o cinema comercial?

Tonacci: “Bang Bang” é uma paródia. A contraposição arte/comercial é manipulação ideológica e de mercado, quando não postura pedante. A época era de sangue ou conivência. A ditadura e a alta burguesia de “esquerda” geraram e financiaram o Cinema Novo como oportuna imagem internacional. Salvou-se Glauber Rocha, que soube ser brasileiro, enterrado pelos mui amigos que só foram de si próprios.

Baiestorf: Você realizou alguns curtas em vídeo com o Luiz Rosemberg. Como foi a experiência?

Tonacci: De verdade na prática pouco trabalhamos juntos, mais conversamos, muito, nos ajudamos mutuamente nas produções mais que na realização. Associamos os nomes das produtoras, e escrevemos, isto sim, roteiros e projetos que infelizmente não geraram filmes juntos. O trabalho de Rosemberg em vídeo é único e merece uma ampla retrospectiva. Gostaria de sugerir uma retrospectiva de seus filmes, de seus muito vídeos, uma publicação, uma mostra de suas colagens, de seus textos, ouvi-lo em sua visão… É um amigo radical. (nota do Canibuk: em 2005 a Mostra do Filme Livre realizou uma importante retrospectiva da obra de Luiz Rosemberg).

Baiestorf: Projetos futuros?

Tonacci: Dos projetos atuais e futuros acho que está respondido nas questões anteriores. Ficaram de fora pequenas coisas que andei fazendo recentemente como seis minutos sobre televisão para a mostra dos 50 anos da TV brasileira, o depoimento de um chefe Mankraré (Kraho) para um amigo nos estados Unidos, seis minutos como uma página do meu diário de viagem ao Maranhão para a Vitae.

Baiestorf: Como podemos adquirir cópias de seus filmes?

Tonacci: É raríssimo vender cópias, mas quando acontece costumo pedir vinte reais mais o valor do sedex. Parece justo. Nem de graça, nem o preço na praça. (nota do canibuk: em 2009 a Lume Filmes, em parceria com a Heco Produções e com apoio da Cinemateca Brasileira, lançou uma série de filmes da produção experimental dos “marginais” brasileiros, entre elas uma cópia boa do “Bang Bang” e “Blá Blá Blá” de extra, pode ser adquirido fácil nesses sites de venda pela net por uns 40 reais, confira após o trailer do “Bang Bang” mini-entrevista com o Marcelo Colaiacovo sobre esses lançamentos).

Entrevista com Marcelo Colaiacovo sobre lançamento da coleção Cinema Marginal em DVD:

Baiestorf: Como aconteceu o projeto com a Lume Filmes para lançar em DVD importantes realizações do Movimento cinematográfico que ficou conhecido como Cinema Marginal?

Marcelo Colaiacovo: Foi o intento da Heco Produções de continuar o trabalho de resgate desse período, em andamento com projetos de mostras desde 2001, unido ao belo trabalho de distribuição de DVDs de filmes de arte gringos, da Lume Filmes…

Baiestorf: Como estão as vendas?

Marcelo Colaiacovo: Caminhando…

Baiestorf: Quais são os próximos títulos de clássicos do Cinema Marginal que pretendem lançar?

Marcelo Colaiacovo: Não está confirmado, mas provavelmente Sergio Bernardes e João Silvério Trevisan…

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