___Futuro

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on março 19, 2019 by canibuk

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A pia inundada de sangue, o amarelado do mármore e vermelho dégradé formando várias linhas irregulares. Procurando o olho, uma prótese retiliana com capacidade de 800.000 mega pixels, pululante como esperma querendo fecundar ralo abaixo, agarrou pelo nervo óptico que estava gorduroso e visguento, o buraco no lado esquerdo da face piscava duas cores florescentes. Parecia uma festa escrota onde estavam comemorando sua dor e a cada segundo as paredes e o azulejo refletiam o quase silencioso desespero, “o código genético não é compatível, desgraça… esses implantes ópticos estão cada vez piores, descartáveis como tudo que existe neste buraco preciso me concentrar e procurar uma, tsi… tsi… que porra, que por… tsi…” Convulsões. “Estourei o chip caro, vou usar esse vagabundo, como nos tempos da R.E.P.U.L.S.A duas pílulas de catalisador neural e um desfibrilador craniano que serve para suportar os 14 segundos de agonia causada por centenas de micro choques em todas as regiões do cérebro. A saliva espumando e melando a camisa, ranger de dentes rachando alguns.

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Acordou com o lado esquerdo dormente, mas foi passageiro e não há tempo para sentimentos, sem poder usar o sistema neural de comunicação apela para o modo arcaico, aperta o dedo mindinho e instantaneamente o símbolo da Corporação se faz presente como a entidade máxima deste mundo. Nome:  080409-001_ Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo, coração e fígado artificiais, “vocês já sabem de tudo e mesmo assim torna as coisas mais estúpidas do que já são, tsi… que porra!”, “olá”. Projetor holográfico formando imagem feminina, um espectro em mundo de sonho lisérgico… fótons, neutrinos e luz, forma incorpórea que se pode apalpar e ter qualquer fantasia, “me apresente os modelos de olhos.” “menos de 12hs e já destruiu o protótipo, “sua opinião não significa nada”, “ querido, compro qualquer coisa pra você, mas não suma, choraria se ainda tivesse as glândulas. “ você é uma criatura medonha e mesquinha, nem precisa de humanos e mesmo assim se diverte com nós os bonequinhos.”  “há muito tempo não tenho paladar ou  qualquer vestígio de animalidade… você sabe? A mente se vicia em padrões, dá significados a cada gesto, nossas ações aleatórias parecem sincronizadas com alguma coisa, mas é invenção da mente, já pensou num ser estranho observando outro ser estranho? Não saberíamos onde começa e termina, a boca e o cu seriam o mesmo orifício ou nada disto existe nem mesmo a simples anatomia… te entendo, por isso quer o olho e ter a ultra realidade de volta…ma… “ cala a boca sua puta inanimada! a ultra realidade é passado, sei como vocês mantem a suposta eternidade, se sou o preferido…tsi…tsi se sou o t..si porque não compartilhou comigo? “simples… você ainda é animal, posso me divertir… você sempre quis assim, vá para casa.” “ só queria essa resposta, mas toda vez tenho que ouvir filosofia barata de uma Tr+ decadente.

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Dormiu e não teve sonho, quando abriu o olho a dor no outro lado voltou com as mesmas luzes piscantes, sentiu que estava sendo vigiado. Um homem quase gordo de cara seca, era 080409-003 sorrindo, “ sabe… ruuuu…”, arrotou alto e todo  seu sistema digestivo sintético estremeceu, “poderia ter matado você antes…ruuu… mas prefiro te ver em pedaços, “ ela me quer, entende isso? “ você não pode entrar na ultra realidade, está começando a desmontar, viciados em upgrade são a escória, se acham os melhores….ruuuuuuu…” dessa vez vomitou uma pasta branca junto com fluídos sintéticos plasmáticos, uma espécie de combustível que gera energia para o estômago corrosivo, 080409-001 olhou aquela boca sem dentes, em menos de 2 segundos esmurrou o estômago macio da criatura que parecia um esgoto ambulante, bateu com toda energia e ódio acumulado, poderia até sentir pena se fosse num outro mundo ou em outra época, se divertiu com o som do atrito que a mão fazia misturado com ruuuu… os olhos de 080409-003 se enchiam de ódio, pensou em levar os olhos mas desistiu porque com certeza era de um modelo bem pobre e ninguém compraria algo vindo de um –X. “ vou arrancar seu HD Neural, não veio aqui por ciúmes, isso não existe tsi…tsi…tsi…tsi…tsi…arrrrgggghhhhh”  todo o cérebro necrosado imerso na papa branca, o fedor insuportável tomou conta do banheiro, “ não preciso de ninguém, é só manter a calma e procurar a porra de um vendedor.”

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Tinha que suportar o mundo físico, a limitação de precisar se locomover através de veículos, de ver as paisagens horrorosas, a padronização vagabunda dos prédios, lixo e todo resto de componentes eletrônicos recondicionados ou simplesmente esquecidos jogados por toda parte, próteses das mais variadas regiões do corpo, incontáveis números de modelos e tamanhos. Pedaços de crânios artificiais dividiam espaço com robôs limpos e brilhantes, mais belos que a humanidade, movimentam-se imitando o criador, possuem todo comportamento de civilidade perdida, quase silenciosos zombam através da idealização do que nunca vamos ser, por isso são escravos. O céu virtual mal disfarça a escuridão provocada pelas nuvens tóxicas, não há energia suficiente para manter a cidade aparentemente saudável, isso irrita mais que o cheiro de máquina obsoleta. O carro deslizava no ar, as paisagens quase iguais e com os mesmos padrões, sem nenhuma personalidade, impessoal e desbotada com os humanoides lá embaixo vivendo e multiplicando-se, só tinha que voltar para o seu amado mundo onde pode mudar a arquitetura e estar num lugar onde os sentidos não sejam agredidos, precisava chegar em casa. Estava entrando na escuridão da galeria, fazem 15 anos e não consegue se acostumar, passa numa velocidade que pode ver seus vizinhos nos cubículos: velhos perdedores amputados que sobrevivem com próteses doadas, robôs domésticos nos seus últimos dias de vida útil, pessoas saindo das cabines de autosexo, catadores de lixo… em suma, o subúrbio. Encostou na porta e a esfera zunindo brilhante veio fazer a biometria. Nome:  080409-001 Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo… A porta se abriu revelando um cubículo cor de azul neon que instantaneamente mudou para o branco florescente, as paredes iluminam-se e transmitem o calor necessário para um ser vivo sobreviver, qualquer lugar pode ser o banheiro, cozinha, sala ou quarto, o sistema mantem a casa higienizada como se fosse uma habitação nova.

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Como não está conectado a ultra realidade ligou a Tv tridimensional, as imagens coloridas e transparentes atingem o olho direito, mundo opaco e com os mesmos discursos de milênios, se interessa nas formas limpas mesmo que desbotadas, a violência impessoal e programada na dose certa do noticiário conforta bastante, como sempre nessa hora “Retrospectiva – História Das Guerras, Um Panorama Desde Que A Bomba Atômica Se tornou Obsoleta”. A voz suave platinada não informa questões sócio culturais e filosóficas para os acontecimentos das batalhas que de sangrentas ficaram apenas o nome, corpos pulverizados ou aparentemente ilesos nos bunkers, emissões das mais variadas rajadas de energia, A Voz entrava na minucia de descrever a geografia que normalmente era numa cidade gigantesca com vegetação sintética mínima e as maravilhas dos mecanismos de morte, tudo muito rápido, higiênico, dentro de qualquer regra considerada “humanista”. 080409-001 estava cansado e com vergonha de si mesmo, nunca tinha cometido dois erros num dia, deixou a obsessão por upgrade acima do senso de preservação, matou o asqueroso e sabia que não poderia descansar, não se importou. “Preciso urgente de você…tsi… um implante retiliano tipo 5. “Venha buscar só e não traga a escória, arranquei a cabeça do seu amigo, não suporto ladrão principalmente quando são viciados sem um mínimo de brilhantismo, era pra eu te arrancar uns pedaços, mas como você paga… Saiu do modo de comunicação da Tv holográfica e deixou A voz se expandir pelas paredes cintilantes até adentrar sua consciência metade cefálica e metade positrônica, do chão levantou uma gaveta, abriu-a e retirou ferramentas com a mão esquerda e ao mesmo tempo que com a outra destampa a proteção craneana, é crime fazer upgrade mas não se importa a muito tempo arrancou os alarmes e não possui nenhuma cicatriz, apenas lembranças. Jorrou sangue quando com a chave errou o ponto que pretendia tocar de leve, estava cansado de sentir dor e conseguiu desabilita-la, o chão empapado de sangue pouco importa, tomou banho e trocou de roupa ali mesmo, ficou em pé e rapidamente o lar estava como tinha deixado, foi procurar o novo olho.

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Entrou na galeria 57, terceira a ser construída, deserto e cheiro de éter milenar impregnavam cada partícula do local, a 500 anos atrás, esses quadrados eram depósitos de máquinas construtoras, tanques e drones que retorciam metal, fabricavam concreto, instalavam sistemas eletrônicos e alimentavam os mesmos anseios de sempre, 080409-001 só vê a decadência de ideais perdidos no tempo, a oxidação de sonhos numa época que ainda não tinham conseguido planificar seu mundo, poderia até ter esperança se nesse devaneio de compreensão não fosse acertado por uma força que o arremessou a alguns metros de distância caindo no entulho de peças oxidadas e pontiagudas cortando rosto, peito e barriga. “vá tomar no cu, desgraça!” A pele sintética rasgou exibindo fragmentos de ossos, músculos, fios e pequenos sistemas eletrônicos, sentiu dor moral de ser pego de surpresa e desmaiou.

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“Dx xltxmx Vxz qxx nxs xncxntrxmxs, vxcx rxxbxx mxx dxcxdxfxcxdxr dx vxz, txnhx xsxdx xssx mxdxlx defxxtxxsx!!!” O ser socou a própria cabeça freneticamente, salpicando pra todo lado saliva amarelada e mal cheirosa. “ Cara vxu te xbrir ax mexo, tudo que fxzemox juntxx x xxxxxxxxxxxxxxx…” Outra pancada frenética na cabeça. “Isso tá me deixando maluco xxxxxx, bem que me disseram pra não me envolver com viciados em upgrade, não há consideração com quem está afim de melhorar… vxx xrrxncxr sxx brxçx!!! Qxxntx cxstxx? 080409-001 enfiou o dedo indicador no corte do rosto, lentamente brincava com a ferida e o sangue sintético que começava a escorrer até o queixo. “ Tsi…Tsi… estou quase morrendo e mesmo assim…tsi…ts…i vim até você para fazer compras e faz isso comigo. ” “ qxerx mex dxcxdxfxcxdxr dx vxltx. “ Falou mais tranquilo pensando no que poderia ganhar se o deixasse vivo. “ Cxrtx, vxmxs pxrx mxnhx lxjx.

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A loja limpa e cheirando a plásticos das mais variadas cores, muitos componentes espalhados de forma aleatória, 080409-001 está no lugar mais agradável que poderia imaginar, as cascas pós humanas quando preenchidas adquirem a força do dono, nesse quadrado são apenas formas de sonhos incompletos, viu uma cabeça familiar na mesa, era o sócio desaparecido a dois dias. “Sxbx…txx lxndx…xnfxxtxndx x lxr.” “Ele morreu, ou você retirou o HD neural?” Passou a mão na cabeça sentindo o cabelo ralo entre os dedos, todo corpo sorria através da boca. “xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx… pxgxr dx vxltx!!! Enfiou a mão por baixo segurando a parte da        espinha e puxou com força, saiu os olhos e o resto dos componentes, a cabeça murchou se tornando apenas um pano de carne sintética, com rapidez retirou a peça e apertou a garganta retirando o dispositivo falho trocando-o. Voz suave. “Seus olhos estão aqui, mas você não vai pagar, tenho um negócio para nós… xxxxxx… sabe…sabe… unghsuh!!! Quero que pegue daqui a 12hs um suprimento para a loja, terá que usar um dos meus corpos…sabe…vou devolver seu amigo, mas quero esse carregamento, esse seu corpo de viciado é uma bosta, tá usando muito a cabine de autosexo, né? Fiquei sabendo que seu clone se deu bem melhor na vida do que você, não aguentou ficar sem um melhoramento e vendeu a máquina criogênica e ainda por cima liberou seu clone, ele é melhor que você, isso é muito estúpido, não pode culpar ninguém pelo que é…meu melhor cliente é você porque o seu D.N.A replicado quer assim, sabe porque fica vivo? A escória diverte. ”

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As paredes do estreito corredor guardam os corpos vazios, as cascas sem consciência são quase incolores e do mesmo tamanho. “Vai usar um modelo militar. ” Sentou na cadeira e automaticamente o processo de scaneamento em 5 segundos, da testa surgiu um compartimento com o símbolo da Corporação florescente. Começou a brotar ramificações, artérias neurais movendo-se irregular acoplando na outra testa murcha, 080409-001 relaxou os músculos para a transferência de consciência nível 3, veio a luz branca intensa, tudo escureceu, retornou a realidade com as cores saturadas e logo tudo como antes. “é simples, você vai roubar o carregamento de memória que se encontra em alguma lua de Júpiter, vá de teletransporte use uma cabine do setor 17 que ainda funcionam sem defeito, você não quer ser lançado ao sol ou ficar vagando por trinta anos em um limbo qualquer ou ser esmigalhado pelos meteoritos…vi um no neurojornal semana passada, foi achado apenas uma perna…”  “ você fala demais.”

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O corpo militar causou bem estar, movimentos leves e sinapses cerebrais velozes sem nenhuma interferência, a visão restaurada e toda tecnologia orgânica de ultima para fazer o que mais gosta, não pensava em devolver essa casca e pouco se importava com o parceiro que poderia deixar de existir, mas qual o problema? Todos compravam memórias, personalidades moldadas em sonhos artificiais, as pessoas não se importam com a verdade, apenas dormem e acordam mudando de casca, reptilianos tecnorganicos, comprar lembranças e mistura-las com a realidade concreta possui o charme de não se importar, de aceitar o cotidiano com o céu fora do ar, as imagens holográficas borradas e toda violência impessoal dos que vivem sem uma dose de imortalidade ou sem upgrade adequado.

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Estava deslizando nos corredores estreitos que mal cabe uma pessoa por vez, o azul florescente fazendo a ambientação apenas interrompida em 10 e 10 minutos com o vermelho indicando o alerta do teletransporte. 080409-001 saturado em passar por cada setor e a biometria se fazendo presente, Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo, coração e fígado artificial… A monotonia de parecer imóvel solitário num cubículo faziam suas mãos suarem, pensou em Júpiter e no trabalho que a Corporação fez para torna-la habitável, depois que foi criado os supra corpos a humanidade foi saturada com a falsa sensação de quebra de limites, corpo e mente integrados harmoniosamente, a nova estrutura carbônica unida a sinapses positrônicas, cada cidadão uma ferramenta distorcendo o espaço e tempo cada vez mais rápido, as neuropropagandas hiperbolizando feitos milenares e evidenciando a carcaça sintética, a metamorfose idealizada alcançada, o verme imperfeito migrando e super potencializando a individualidade montando a terceira natureza e construindo a quarta que é cerebral binária e sem nenhum tipo de emoções frugal. Mas o lodo registrado nos genes não segue meta ou explicações através de linguagens simplórias, a sociedade apenas requintou tudo aquilo que é, na povoação de planetas o que aconteceu no passado de certa forma se repetiu estruturalmente e pouca coisa mudou de fato, 080409-001 pensa nas colônias em Ganímedes, IO, nas Guerras De Titãs onde foram pulverizadas algumas luas de Júpiter porque alguns colonizadores não habitaram os satélites nos parâmetros corporativos, na construção das megacidades batizadas de Pequenos Júpiteres que são na verdade fábricas de proto-humanos e armas para manter o controle das colônias. Cheiro de vapores industriais, ácidos diversos, bruma de metais em fundição, sons constantes de testes de armas, tudo organizado sem nenhum nano segundo de atraso ou adiantamento.

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Quando chegou na estação de IO duas pessoas o aguardavam, no peito o símbolo da       Corporação se destacando, eram mulheres como ele, duas bonecas humanoides que rapidamente o cercaram, “080409-001, temos pouco tempo para pegarmos essas memórias, nosso cliente está ansioso em ter lembranças harmoniosas. ” Comunicou em sua mente a que parecia uma espécie de líder, era uma mulher sem vestígio de sentimentos só não confundiu com um autômato porque lá no fundo dos olhos tinha a chama da vida, a outra quase idêntica a ela permanecia calada e com um sorriso que parecia que explodiria a qualquer momento. Não sabia o que responder, acenou afirmativamente mesmo sabendo que seu empregador não citou que teria ajuda. “não se preocupe, vamos dividir tudo em 3 partes iguais, vocês acharam que ninguém da Corporação não perceberia o seu interesse em nosso melhor carregamento de memória? Os laboratórios estão cheios de cientistas e máquinas só para construir lembranças… não adianta tentar desconectar de nossa frequência, sou eu que mando nesse quadrante, venha logo! Nos chame de 080000-034 e 080000-079.”

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O automóvel da Corporação decolou em alta velocidade e desceu os tuneis onde se encontra a cidade 33 sem que 080409-001 pudesse ver a vastidão de satélites, o vermelho, amarelo e as brumas incandescentes de Ra Patera. “ Vamos entrar na zona limbo, ativamos a Sala Vibratória.”

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Aterrissou o carro na plataforma subterrânea e a sua frente uma gigantesca estátua antropomórfica de touro segurando um bebe em posição de sacrifício, na testa o símbolo da Corporação. 080409-001 viu a enorme escultura levantar a criança acima da cabeça e olhar para as visitas disparando um raio que teletransportou-os para dentro de si. A sala branca e esterilizada, ouviu a voz metálica, “Deus é uma palavra-símbolo, que designa todas as personalizações da Deidade. O termo requer uma definição diferente para cada nível pessoal de função da Deidade e deve, ainda, futuramente, ser redefinido dentro de cada um desses níveis, pois esse termo pode ser usado para designar as personalizações diversas, coordenadas e subordinadas, da Deidade, como por exemplo: os Filhos Criadores do Paraíso: os pais dos universos locais”. Logo as paredes começaram a tremer e o espaço a aumentar formando fauna e flora natural, cheiro de ambiente primitivo, 080409-001 ouviu sons de seres que só reconheceu por causa do banco de dados em seu hd neural, havia um sol sadio se pondo, céu azulado e nuvens roxas de fim de tarde, do chão um monólito de 30 metros brotando e rasgando o solo refletindo no centro o símbolo da Corporação. A voz continuava, “A realidade eterna do Absoluto da Deidade tem muitas características que não podem ser inteiramente explicadas à mente tempo-espacialmente finita, mas a factualização de Deus, o Absoluto, existiria em consequência da unificação da segunda Trindade experiencial, a Trindade Absoluta. Isso constituiria a realização experiencial da divindade absoluta, na unificação de significados absolutos, em níveis absolutos; mas não estamos seguros no que diz respeito à abrangência de todos os valores absolutos, pois não fomos, em tempo algum, informados de que o Absoluto qualificado seja equivalente ao Infinito. Destinos supra-últimos estão envolvidos nos significados absolutos e em uma espiritualidade infinita e, sem que essas duas realidades sejam alcançadas, não podemos estabelecer valores absolutos.”  Um raio foi disparado 080000-034 perdeu a cabeça, explodiu igual a uma bola de soprar, massa vermelha e ligações neurais pra todo lado, o corpo sintético ficou estático, não foi derramado nenhum fluido porque as travas de biossegurança estancaram as artérias. “Não se preocupe 080000-034 tem o hd neural numa unidade remota daqui a 4 horas ela estará em atividade.” Respondeu sorridente 080000-079 mas não por muito tempo, outro raio arrancou seu braço direito, só não perdeu a cabeça porque percebeu o disparo a tempo e pulou, o monólito agora parecia maior e mais tétrico, outro raio na direção de 080409-001 que facilmente esquivou. Logo o vazio do silêncio e o medo da morte invadindo órgãos e circuitos, 080000-079 correu na direção oposta do monólito, agora estava só com um corpo estático ao seu lado. “A realidade está sujeita à expansão universal, a personalidade à diversificação infinita; e ambas são capazes de uma coordenação quase ilimitada com a Deidade e de uma estabilização eterna. Se bem que o campo metamórfico da realidade não pessoal seja definitivamente limitado, não conhecemos limitações para a evolução progressiva das realidades da personalidade. ” Depois de ouvir a voz começou a perder controle do corpo, sentiu um enorme peso na cabeça e começou a levitar como se alguém o suspendesse por ela e quanto mais subia sentia que estava se tornando parte do monólito, da testa o símbolo da Corporação se fez presente e emitiu uma onda que foi em direção da estrutura quadriculada ativando outro símbolo que se chocaram, nesse momento o ambiente bucólico se transformou novamente e o sol foi parcialmente coberto pela lua, era um eclipse rápido como numa máquina de simulação da realidade. 080409-001 foi assimilado pelo monólito e começou a gritar de dor, seu corpo foi amassado e esticado para todas as direções até que se recompôs caindo de joelho num corredor estreito e aparentemente infinito, por mais que corresse parecia não sair do lugar até que se acalmou e descobriu que nas paredes havia gavetas e nelas numerações de pós-humanos, tocou em uma e viu corpos transparentes exibindo o esplendor de uma anatomia primitiva, porém superior.

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 “Esses seres que geram 70% de nossa realidade.” 080409-001 compreendeu que a voz dizia e puxou sua X Buster que é um vulcão portátil de plasma e apertou o gatilho com a arma em direção as lápides poligonais, disparou três vezes para conseguir o resultado esperado. Os Hds neurais eram bem maiores e mais pesados e não estavam acoplados aos corpos, percebeu uma rede que levava ao hd central. 080409-001 ativou o dispositivo para se conectar com a rede, mais uma vez o símbolo da Corporação presente e a ventosa neural buscando o cadeado para a exploração sinestésica na realidade binária. O encaixe e luz branca. Estava flutuando e quase se tornando o nada, mas apareceu centenas de milhares de espirais multicoloridos cada um representando universos de memórias ligadas por um vórtice um pouco maior de cor não perceptiva aos padrões normais de consciência. Tocou os minúsculos buracos negros um de cada vez roubando pedaços de lembranças, as melhores vitórias pessoais, os pequenos triunfos cotidianos, os amores, os prazeres e pequenas dores existenciais… Toda uma humanidade que ele até então desconhecia, tantos sentimentos, respostas e dúvidas algo que no fundo sabe ter dentro de si mas ignora. Nadou para fora do aquário cibernético, a luz se apagou e retornou a realidade da Zona Limbo vendo as cores saturadas e o hd neural quase sem espaço, pensou se havia como derrubar o monólito, observou a feminina escultura sem cabeça que estava estranhamente oxidada. Ativou o hd neural reserva para isolar as memórias colhidas e pensar melhor sem tanta sinapse caótica, precisava localizar o carro e cair fora antes de ser pulverizado.

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Encontrou o veículo também estranhamente oxidado, mas todos os comandos operacionais em ordem. Pilotou o carro fazendo-o deslizar sobre a paisagem vendo o monólito se tornando cada vez menor e ativou a Sala Vibratória para voltar a dimensão que vive deixando pra traz a estranha escultura. Saiu de IO e foi direto para a loja. “vejo que conseguiu as memórias, agora você percebe que a ultra realidade é uma invenção obsoleta?” “ já sabia, mas ainda era bem melhor que esse mundo em que vivemos.” “não diga isso 08040-001, nossa realidade é pobre mas pelo menos podemos pegá-la e na dimensão que pretende morar as coisas são apenas restos de sonhos delirantes, me passa essas memórias e… Antes de completar a frase recebeu uma descarga de X Buster no estômago fazendo um enorme buraco, dava para ver do outro lado,  a mesa onde estavam braços e restos de diversos pós humanos recondicionados, “ você me deve filho da puta, acha mesmo que seria tão rápido assim?” O corpo tombou no chão e aos poucos o sangue artificial foi mudando a cor da sala. 08040-001 sabia que não tinha tempo e com certeza o vendedor tinha outro hd neural e corpo reserva e não seria perdoado, começou a atirar desintegrando muitas peças que poderiam ser úteis num futuro próximo, roubou a máquina criogênica, um pequeno útero com dispositivo keyboard holográfico, poderia voltar a vida antiga de regalias escravocratas.

5

Chegando em casa fez três clones que demoram nove horas para estarem maturados e a diferença entre eles é bem visível, defeituosos e com patrão cerebral individual, não se preocupou e achou interessante a possibilidade de interagir com clones que poderiam ser bem divergentes da matriz original.

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Os três clones em menos de doze horas provocaram um motim, não queriam fazer ou faziam tudo que o chefe ordenava ao contrário e prevendo serem desintegrados esperaram 08040-001 estar distraído e o dominaram com uma carga do desfibrilador craneano que sem o catalisador neural a dor é paralisante como uma bomba de nêutrons explodindo no cérebro. “Quero usar esse corpo, ele é… “imbercil somos de carne primitiva e não temos conectores para migrar!” “mas… ma… Levou um chute na barriga, “para que você está vivo mesmo?” “ unhgisu, huoius, só quero…” “…tomar o lugar do miserável, mas não percebe que não temos pra onde ir nem o que fazer, somos uma existência descartável, sem nossa função primária não…” “…há sentido? Você quer derreter nesse lugar, só topou porque sentiu tédio, não tem acesso a toda tecnologia da casa.” Falou o terceiro clone que tinha acabado de entrar. “não se aguentou e foi para cabine de autosexo, não é a mesma coisa para nós… como é que pode nos castrarem e mesmo assim o desejo continua, continua!!! “ você fala demais, sua paranoia vai nos atrapalhar, vamos simplesmente mata-lo e curtir seis meses de existência num planeta qualquer, compramos identidades e supra corpos.” “ como não pens…” antes de completar a frase foi empurrado para o chão e pisado na cabeça. “vão fazer o que quero.” Os outros foram pra cima do clone dominador. “ você não é o chefe.” 08040-001 disparou uma rajada de XBuster que desintegrou os três clones, bruma e cheiro de carne clonada frita impregnou a casa, não conseguia ver nada a sua volta e em imediato ouviu a voz de um drone policial que rasgou seu cérebro, mas ficou tranquilo, a polícia estava atrás do vizinho que tentando escapar e foi incinerado com o raio da morte de versão obsoleta que apenas carboniza o alvo, provavelmente usou uma peça roubada ou não pagou a comida.

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08040-001 estava se deliciando com uma das memórias roubadas quando decidiu ir para as Ilhas Flutuantes onde não existem leis e todo tipo de comercio é permitido existindo uma população de seres enjeitados e comerciantes que por atender gostos peculiares vão aos céus e vendem seus produtos sem problemas éticos, pensou em vender a máquina criogênica e algumas memórias, foi até o carro e saiu deslizando pelo céu observando que  de cima não existe decadência, apenas halo de formas organizadas e que o colapso parece inevitável. As Ilhas Flutuantes eram centenas de cidades antigas que foram recondicionadas e desprendidas do solo por um grupo de famílias ricas que não queriam obedecer as regras da Corporação mas que pagam tributos altíssimos para que se tenha a liberdade vigiada, é o único lugar que não existem Drones policiais cumpridores da lei e as câmeras de vigilância não ficam ligadas 24hs e tem um feriado que uma vez por ano não se liga nenhum dispositivo externo aos supra corpos. A primeira ilha começava a crescer perante seus olhos, centenas de prédios com janelinhas imitando o estilo do século XXI e embaixo humanoides vendendo todo tipo de pequenos equipamentos, quando saiu do carro observou um grupo de monges que resolveram assimilarem-se formando um tipo de escultura, espécie de arvore dhármica recitando mantras, “o que é apego? Há quatro tipos de apego, o apego aos prazeres sensuais, apego a uma mesma opinião, a regras e ritos, apego a ideia do “eu”… quando eles terminavam quase em uníssono repetiam, viu que estavam vendendo capsulas metamórficas que há 300 anos foram proibidas pela corporação que censurava qualquer integração humana a qualquer tipo de vida extraterrena ou com a biodiversidade da terra, e hoje o que se encontra na terra é apenas simulacro de formas que foram perdidas no tempo. “vendo essa capsula mutagênica de híbridos das galáxias do setor 70 que mescla vidas simbiose com vidas etéreas e biológicas que já foram encontradas em nosso sistema.” “ o que precisamos é voltarmos aos cultos experimentais… onde poderíamos retalhar a carne e não simplesmente construir algo além nossas necessidades…eles nos vendem sonhos, nos vendem nosso próprio corpo…padronizam nossas experiências controlando nosso cérebro, nos tornamos objetos que compram mais objetos, negamos a liberdade? Não negamos o que não existe…” O pregador era um cubo emanando ondas cerebrais que interrompem a neuropropaganda. 08040-001 sentiu-se seguro e foi direto a uma loja segurando a máquina criogênica subindo um túnel de serviço que é incolor percebendo que a altura que estava o holograma que simula o dia e a noite no planeta perde quase todo seu efeito borrando o céu como espectro de uma filmagem vulgar. As dimensões da loja são desproporcionais ao que é vendido, luxo arcaico contrastando com proto humanos modificados a moda antiga, repteis de planetas extintos e que se reproduzem no cativeiro semi iluminado, autônomos de políticos de 100 anos atrás e que servem apenas para fingir opulência, máquinas criogênicas obsoletas que chamam atenção apenas de colecionadores, algumas armas de projeteis materiais, pequenos módulos a energia nuclear… espalhados para não parecer que há essa diversidade de escolhas. O vendedor estava atrás da cabine e acionou o autônomo, “senhor o que deseja?” “ quero vender essa máquina criogênica e memórias especiais extraídas da dimensão vibratória.” “ veio ao local certo senhor, mas essas transações só podem ocorrer pessoalmente com o vendedor… aguarde 5 minutos senhor.

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O vendedor saiu da cabine de segurança, era um homem de carne, “vocês lá de baixo perderam todo prazer da vida, acham que os supra corpos te dão alguma vantagem… estão anestesiados por causas e objetos que nem entendem, as memórias clonadas e padronizadas empesteiam o universo e o que vocês conseguem com isso? Apenas diversão. ”  “O que você sugere?” “ Nada, absolutamente nada além de objetos para compra ou troca, e sei que você tem as memórias que necessitamos por aqui, algo que a neuropropaganda classifica como Crime do Pensamento e eu chamo de Crime de Pensar Por Si Mesmo” “ você acredita nessa porcaria toda de mudar a ordem ou é apenas um vendedor com sentimento de culpa?” “apenas vendo, isso vai além da ordem, as memórias controlam nossos desejos, elas nos mergulham em sonhos e prazeres que por mais virtuais e impossíveis que pareçam nos dão algo de humano” “não precisamos de humanidade, olhe o que é isso aqui, negar isso é um paradoxo”  “ quem está negando? quem usa supra corpos e ultra realidade se nega o tempo todo, a Corporação sabe disso e fabrica um monte de 08040-001… a cada dia você deixa uma particularidade sumir, todos os componentes que usa para upgrade pode ser comprado por qualquer um, não existe individualidade apenas um preço a pagar, não percebe?” “ não quer vender?” “ obvio, mas se não é você agora será outros e outros trazendo algo que acham especial.” “essa memória é da Zona Vibratória, percebo sua tentativa de barganha, vendedores e sua mania de tentar barganhar.” “ não há barganha, suas memórias já foram compradas a mais de 500 anos, elas são um doce fino na boca da escória, sabe quem é você?” “estou pensando se desintegro você, pessoas que falam demais são preguiçosas e sem coragem que acham que podem manipular os outros para fazer o que querem.” “você tem mais 5 minutos de vida, seu hd neural é descartável, tanto poder na mão de um clone “ que bosta está falando?” “ você está preste a derreter, seu dono trocou de lugar com você para que esse roubo acontecesse, a Zona Vibratória só possui um defeito, não detecta clones como ameaça porque normalmente são apenas servos com vontade controlada pela Corporação, mas não fique triste, você é o primeiro da sua espécie a ter êxito e conhecer um funcionário de alta patente, observe.” Apertou o botão que fez aparecer a imagem de um  08040-001 um pouco diferente e dizendo, “ posso te chamar de irmão ou algo mais importante, não é muito legal acabar consigo mesmo, considero assim, sou irmão de mim mesmo e nessa era que vivemos pude materializar isso, você é melhor que eu, não pensa muito… o agir é algo que pude aperfeiçoar em você, obrigado por trazer as memórias, elas serão vendidas a muitas pessoas que não compreendem o que é viver, e você sabe disso, ama a vida e para isso não pode perder tempo, anime-se você não terá fim, é um sonho também e futuramente será compartilhado até um infinito incompreensível, aproveite os últimos momentos para uma última felicidade, comtemple.” A imagem desapareceu e o vendedor segurou seu ombro, “ me acompanhe, tem um lugar para descansar. ” Chegou num terraço que dava para ver o céu esfacelado pela poluição, cinzento como tudo que está dentro de si, sentiu conforto, “ deite-se aqui, não é lindo?” Começou a derreter tomado pela tranquilidade.

Texto de Jean Souza.

Arte de Walmir Knop Júnior.

O Shot-on-Video e o Cinema Independente Brasileiro

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Sempre existiu na história do cinema mundial a figura do cineasta miserável que dava um jeito de inventar seus recursos, independente da quantia de dinheiro disponível. A própria história da mais cara arte do planeta está cheia de exemplos. Ainda nos anos de 1920 pequenos produtores exploravam temas tabus para competir com o cinema feito pelos grandes estúdios. Nesta época era corriqueiro que milionários encomendassem pequenos filmes domésticos à cineastas despudorados que sabiam como ninguém a arte de filmar rápido/barato os assuntos mais polêmicos que não encontravam espaço nos cinemas normais. Na década de 1920 já existia cinema pornô, por exemplo. Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz, 1929, Luis Buñuel), outro exemplo, só existe porque independentes o realizaram.

No pós-guerra, na década de 1950, houve uma explosão de produtores independentes, que encontraram uma forma de ganhar dinheiro com filmes de monstros e/ou alienígenas feitos sem grandes recursos e que encontravam público. Tanto público que os grandes estúdios se apropriaram do gênero e faturaram muito dinheiro. Considero-os a principal influência do cinema Shot On Video, o SOV, que surgiu no início dos anos de 1980, principalmente nos USA. E essa influência transou com as influências do cinema underground e deixou tudo mais divertido ainda, porque a grande sacada do SOV foi a de misturar todo tipo de influências e recriar tudo à sua maneira.

Talvez Ray Dennis Steckler seja um dos grandes precursores do cinema caseiro mundial, com filmes como Lemon Groove Kids Meet the Monsters (1965) e Rat Pfink A Boo Boo (1966) que, embora produzidos em 35 mm, tinham todos os elementos de fundo de quintal que os SOVs dos anos de 1980 popularizaram. Mesmo um cineasta autoral, e agora respeitado por sua obra, como John Waters, começou fazendo produções caseiras com ajuda de amigos e familiares, caso de Mondo Trasho (1969) ou Multiple Maniacs (1970), inspirados nos filmes caseiros que artistas como George Kuchar e Jack Smith vinham fazendo no underground americano.

Rat Pfink a Boo Boo

Com distribuidores como Harry H. Novak garantindo espaço para escoar a produção independente, o mercado viu uma verdadeira epidemia de produções baratas surgirem, onde muitas vezes o dinheiro gasto era somente na película virgem e revelação do filme. Doris Wishman, H.G. Lewis, Ted V. Mikels, Al Adamson, entre outros, são exemplos.

Com o declínio dos Drive-In Theaters e grindhouses na década de 1970, e o surgimento de formatos domésticos como Super-8, Beta Tapes, Laser Disc e, talvez, o mais importante deles, a Fita VHS – que permitia uma arte chamativa em suas enormes caixas protetoras – o cinema SOV da década de 1980 começava, timidamente, a perceber suas possibilidades concretas.

Shot-on-Video!!!

Não demorou muito para que a jovem geração, ociosa e bêbada, descobrisse que era possível realizar filmes com câmeras VHS. Inicialmente o formato não havia sido recebido com muito entusiasmo. Sua qualidade de som e imagem deixava muito a desejar e era, geralmente, usada para o registro de aniversários, casamentos, viagens e outras festividades familiares. Mas estes artistas amadores improvisados começaram a provar o valor do VHS, agora pessoas comuns estavam conseguindo produzir seus filmes com a paixão e devoção que somente os fãs possuem. Hollywood não realiza o filme dos seus sonhos? Não tem problema, faça-o você mesmo em VHS, com ajuda de seus amigos tão sem noção quanto você! Teus amigos não te ajudam? Possivelmente você está andando com as pessoas erradas!!!

Nos anos de 1980, nos USA, houve uma explosão de produções Shot on Video, mas um dos únicos destes filmes a conseguir lançamento em um Drive-In de Long Island, NY, foi o longa-metragem Boardinghouse (1983, John Wintergate), seguido de Sledgehammer (1983, David A. Prior) e Black Devil Doll from Hell (1984, Chester Novell Turner). Os três filmes eram produções bem limitadas, mas nada pior do que um freqüentador habitual de Drive-In já não tivesse visto antes, só que produzido em 35 mm.

Com as videolocadoras popularizadas nos anos de 1980, quando qualquer cidadezinha minúscula perdida no meio do nada era bem servida dos clássicos e vagabundagens do cinema, os produtores atentaram para o fato de que não era mais necessário um circuito exibidor formado de cinemas. O filme que provou ser possível chegar à um público gigante através das locadoras foi o SOV Blood Cult (1985, Christopher Lewis), que foi um estrondoso sucesso na locação de vídeo e abriu espaço para outras produções no estilo, como Blood Lake (1987, Tim Boggs) e Cannibal Campout (1988, Jon McBride e Tom Fisher). O sucesso de vendas e locações de Blood Cult se deve ao fato de que criaram uma distribuidora exclusivamente para oferecê-lo às locadoras, com material de divulgação e muita lábia – conseguiram vender como se fosse uma produção profissional. Só que o público não só assistiu, como gostou, se influenciou e também quis se divertir fazendo seus próprios filmes.

Em seguida, o agora clássico, Video Violence (1987, Gary Cohen) foi comprado pela distribuidora Camp Video. Com base em Los Angeles, a Camp Video fez uma ampla divulgação da produção de fundo de quintal – que permanece sendo o filme SOB da década de 1980 com maior venda – e conseguiu colocá-lo em locadoras dos USA inteiro. Video Violence chegou a ser indicado para o prêmio de melhor filme independente no American Film Institute daquele ano. Em tempo: Video Violence é um filme que reflete sobre o assunto “violência é boa, mas o sexo não é”, algo que constatei pessoalmente com 30 anos de produções independentes pela Canibal Filmes, onde nunca fui censurado pelas cenas de violência, mas sim, apenas e unicamente, por cenas de sexo.

A distribuidora Camp Video também foi a responsável por colocar o filme Cannibal Hookers (1987, Donald Farmer) no mapa. E seu faturamento com estes filmes foi o responsável direto pelo interesse da Troma Entertainment  por SOVs, que comprou o filme Redneck Zombies (1989, Pericles Lewnes) e constatou que era muito lucrativo lançar aqueles filminhos amadores, não abandonando-os nunca mais. Aliás, muita gente confunde os filmes distribuídos pela Troma com sua produção própria. Os filmes da Troma não são SOVs, mas inúmeros filmes distribuídos por eles são. Alguns exemplos: O inacreditavelmente ruim Space Zombie Bingo! (1993, George Ormrod); Bugged (1997, Ronald K. Armstrong); Decampitated (1998, Matt Cunningham); Parts of the Family (2003, Léon Paul de Bruyn); Pot Zombies (2005, Justin Powers); Crazy Animal (2007, John Birmingham) e Blood Oath (2007, David Buchert). Outra distribuidora que costuma lançar SOVs é a Severin Films. Fundada em 2006 por David Gregory, já disponibilizou em DVD ou Blu-Ray vagabundagens como Blackenstein (1973, William A. Levey), filmado em 35 mm, mas tão amador quanto qualquer SOV feito em VHS, e clássicos como a trinca Sledgehammer (1983), Things (1989, Andrew Jordan) e The Burning Moon (1992, Olaf Ittenbach).

Sim, as produções SOV são essencialmente de fundo de quintal, feitas por entusiastas se autointitulando cineastas, que conseguem meter seus amigos e familiares no sonho de fazer cinema. Geralmente são produções amadoras desleixadas, desfocadas, com efeitos especiais improvisados, atores canastrões, figurinos inexistentes e roteiros absurdos. Mas é essa combinação que faz com que os filmes funcionem e tenham legiões de fãs ao redor do mundo. Outra particularidade do cinema SOV: São produções locais que ultrapassam fronteiras, ou seja, um filme vagabundo produzido entre amigos num sítio em Palmitos, SC, Brasil, é perfeitamente capaz de dialogar com um entusiasta do SOV que morou a vida inteira num pequeno apartamento em Tokyo, por exemplo.

O blog Camera Viscera, na matéria “Video Violence – 13 Days of Shot on Video!”, faz outra importante observação à respeito dos SOVs: “Eles conseguiram congelar o tempo. O que quero dizer é que os sets que você vê nestes filmes não são cenários construídos, são videolocadoras e mercearias reais. As roupas que você vê não são fantasias, são roupas reais que os atores tinham em seus roupeiros. As ruas, os carros, os locais, são todos reais e intocados, e você consegue vê-los como estavam em seu estado natural em 1987. Essas jóias do “no-budget” dos anos de 1980 capturaram a essência do tempo e isso é um bem inestimável. Eles são como se suas famílias tivessem filmes caseiros dos anos 1980, exceto com mais assassinatos (ou menos, dependendo do tipo de família que você veio).”

Não existe uma produção SOV inaugural. A produção mundial é enorme. A produção em um país como a Nigéria, conhecida como Nollywood e que é considerada a terceira maior indústria cinematográfica em volume de produção – atrás apenas de Hollywood e Bollywood -, é formada quase que exclusivamente de produções SOVs. Então é praticamente impossível catalogar a totalidade dessa produção, ainda mais se levarmos em consideração que muitos títulos lançados nem saem do círculo de amizades dos produtores – países da Europa, Ásia e América Latina também tem uma produção enorme. Tentar catalogar apenas os SOVs produzidos no Japão já seria tarefa impossível, por exemplo.

Nos USA alguns diretores que se destacaram são Todd Sheets – com quem geralmente sou comparado nas reviews da imprensa especializada, e, acreditem, isso não é um elogio! -, Donald Farmer, Tim Ritter, Kevin J. Lindenmuth, Hugh Gallagher e J. R. Bookwalter. Este último, inclusive, teve seu filme em super-8 The Dead Next Door (1989) apadrinhado pelo trio de amigos Sam Raimi, Bruce Campbell e Scott Spiegel.

Na Europa alguns produtores de SOVs que tiveram destaque foram o francês Norbert Georges Mount, com Mad Mutilator (Ogrof, 1983), que tem Howard Vernon no elenco; Trepanator (1992) e o impagável Dinosaur from the Deep (1993), com Jean Rollin no elenco. E os alemães Olaf Ittenbach, que causou sensação com seu The Burning Moon (1992), mas nunca chegou a fazer sucesso como um Peter Jackson, por exemplo; Andreas Schnaas, responsável por uma série de filmes gore exagerados que são fantásticos e inventivos: Violent Shit (1989), Zombie’90: Extreme Pestilence (1991), Goblet of Gore (1996) e Anthropophagous 2000 (1999); e Andreas Bethmannn, criador de Der Todesengel (1998), Dämonenbrut (2000) e Rossa Venezia (2003), este com Jesus Franco e Lina Romay no elenco.

Uma das grandes armadilhas na produção SOV é que dificilmente os diretores/produtores conseguem romper as fronteiras do cinema independente, mas não é impossível. Evil Dead (1981), de Sam Raimi, era essencialmente uma produção SOV, mas foi realizada com tanta garra e empenho que conseguiu colocá-los na mira dos grandes estúdios. Peter Jackson quando realizou seu Bad Taste (1987) estava fazendo um autêntico SOV com amigos – embora filmado em película – e acabou que a produção lhe deu o suporte necessário para se destacar na comissão de cinema da Nova Zelândia e o resto é história. Santiago Segura, hoje um dos mais respeitados cineastas da Espanha por conta de sua série de sucesso Torrente, iniciou-se na produção com curtas feitos em vídeo. Relatos de la Medianoche (1989) e Evilio (1992) são feitos em vídeo. Perturbado (1993), curta bem acabado que realizou de maneira mais profissional, fez com que conseguisse o dinheiro para a produção do primeiro Torrente (1998), que na época de seu lançamento, na Espanha, bateu a bilheteria do Titanic (1997, James Cameron) naquele país.

Bruce Campbell & Sam Raimi em Evil Dead

Pessoas que participaram de produções cinematográficas que se tornaram filmes de culto conseguiram manter suas carreiras atrávez de produções SOV. Talvez o exemplo mais famoso seja o de John A. Russo, conhecido roteirista de The Night of the Living Dead (A Noite dos Mortos Vivos, 1968, George A. Romero), que foi diretor de produções em vídeo como Scream Queens Swimsuit Sensations (1992) ou Saloonatics (2002). Aliás, o clássico de George A. Romero legou ainda outro diretor de SOVs: Bill Hinzman (ator que interpretou o primeiro zumbi que aparece no clássico) que realizou The Majorettes (1987) e FleshEaters (1988), este último uma tranqueira imitação de The Night of the Living Dead, onde Bill repete seu papel de zumbi magrelo sedento por carne humana.

Não só isso. Antigos diretores de cinema dos anos de 1960/1970 só conseguiram manter/retormar suas carreiras após os anos 2000, quando ficaram possibilitados de voltar a produzir seus filmes em vídeo, muitos deles autênticos SOVs. Jesus Franco realizou um punhado de SOVs divertidíssimos, como Vampire Blues (1999), Snakewoman (2005) e o hilário Revenge of the Alligator Ladies (2013), finalizado por seu fiel assistente Antonio Mayans. H.G. Lewis voltou a filmar 30 anos depois de seu último filme de cinema, que havia sido The Gore Gore Girls (1972), com o quase amador Blood Feast 2: All U Can Eat (2002). Ted V. Mikels, diretor dos clássicos The Astro-Zombies (1968) e The Corpse Grinders (1971), passou por algo parecido. Impossibilitado de bancar seus filmes em película, produziu em vídeo mesmo, com ajuda de conhecidos e fãs, The Corpse Grinders 2 (2000) e Mark of the Astro-Zombies (2004), re-encontrando seu espaço na produção SOV do novo milênio, que está cada vez mais parindo filmes extremamente bem produzidos com quase nada de dinheiro.

O verdadeiro cinema independente é o SOV. Nos USA o orçamento médio de um filme chamado de independente é de 30 milhões de dólares, valor absurdamente grande quando comparado aos SOVs produzidos com uma média de 10 mil dólares.

No Brasil o orçamento médio de produções bancadas por editais é entre um e dois milhões de reais, enquanto muitos SOVs de longa-metragem foram feitos com orçamento médio de cinco mil reais, geralmente dinheiro bancado pelo bolso do próprio diretor/produtor. Sempre fiquei na dúvida se ficava orgulhoso ou ofendido, quando meus filmes de cinco mil reais eram comparados com produções de mais de 500 mil reais no orçamento. Acho bastante injusto uma produção minha ser colocada no mesmo patamar de cobranças que um filme de 500 mil reais, mas se fazem a comparação é porque meu filme está dizendo algo, não?

Equipe da Canibal Filmes filmando Criaturas Hediondas (1993)

Aqui ainda houve o agravante de que as produções SOVs surgiram exatamente junto com a moda Trash, que assolou a década de 1990. O SOV brasileiro ganhou força com a cara de pau de minha produtora, Canibal Filmes, que, por ser realizada com orçamentos tão irrisórios, também encaixavam na descrição do Trash. Aí a imprensa oficial, que geralmente é preguiçosa e não vai atrás de informações para apurar os fatos, tratou de difundir essa confusão e o SOV ficou desconhecido aqui, sendo tratado como filmes Trash. Quando estava acabando a moda Trash estes filmes passaram a ser objetos de estudo de um grupo de acadêmicos que passaram a chamá-los de Cinema de Bordas, e perdeu-se a oportunidade de categorizar o SOV Brasileiro na história do cinema amador mundial.

O Monstro Legume do Espaço, filme que produzi em 1995, foi o primeiro título SOV brasileiro a ter uma distribuição em nível nacional, provando que era possível fazer cinema amador e ter público com sua produção feita na vontade e amizade. E, após isso, o cinema Shot on Video nacional finalmente deslanchou.

Guia de SOVs Essenciais

SOVs Essenciais (para entender este peculiar estilo de se fazer cinema):

Elaborei uma lista de Shot on Videos bem básica, que servirá para introduzi-lo na arte do cinema amador (optei por destacar nessa lista básica a produção americana e brasileira). São filmes fáceis de achar na internet, então possíveis de serem assistidos.

Within the Wood (1978) de Sam Raimi. Curta SOV, produzido em super 8, que deu origem ao clássico Evil Dead (1981).

The Long Island Cannibal Massacre (1980) de Nathan Schiff. A história é uma bagunça, mas as cenas de mutilação com serras elétricas são lindas. Super 8.

Boardinghouse (1983) de John Wintergate. Pensão é reaberta após uma carnificina ter acontecido lá. Vídeo.

Sledgehammer (1983) de David A. Prior. Um jovem assassina sua mãe e amante com um martelo. Vários anos depois os assassinatos do martelo reiniciam na mesma área. David também foi diretor do terrível filme profissional amador The Lost Platoon (Pelotão Vampiro, 1990). Vídeo.

Black Devil Doll from Hell (1984) de Chester Novell Turner. Uma mulher compra uma boneca possuída e passa a ter inúmeros problemas hilários. Vídeo.

Blood Cult (1985) de Christopher Lewis. Universitárias são assassinadas e partes de seus corpos são usados em estranhos rituais. Vídeo.

The New York Centerfold Massacre (1985) de Louis Ferriol. Aspirantes à modelo são molestadas e assassinadas misteriosamente. Vídeo.

Black River Monster (1986) de John Duncan. Filme de monstro feito para a família, com um adorável Sasquatch (Pé Grande) feito de uma ridícula fantasia felpuda. Duncan dirigiu ainda o psicótico The Hackers (1988). Vídeo.

Dead Things (1986) de Todd Sheets. Caipiras matam quem se aventura pelo seu bosque. Vídeo.

Gore-Met, Zombie Chef from Hell (1986) de Don Swan. Dono de restaurante mata pessoas para servir aos clientes. Super 8.

Truth or Dare?: A Critical Madness (1986) de Tim Ritter. Após encontrar a esposa na cama com outro homem, o corno passa a matar pessoas participando de dementes jogos da “verdade ou desafio”. Vídeo.

Cannibal Hookers (1987) de Donald Farmer. Como parte de um trote de iniciação para uma irmandade, duas garotas precisam fingir serem prostitutas. Acabam se tornando zumbis que matam as pessoas da vizinhança. Vídeo.

Demon Queen (1987) de Donald Farmer. Uma vampira e suas agitadas tentativas de conseguir sangue. Vídeo.

Tales from the Quadead Zone (1987) de Chester Novell Turner. Fantasmas atormentam um casal. Vídeo.

Video Violence (1987) de Gary Cohen. Casal abre uma videolocadora e percebe que os clientes só levam filmes de horror extremamente violentos, então começam a produzir seus próprios snuff movies. Vídeo.

555 (1988) de Wally Koz. Adolescentes são mortos – das mais variadas e divertidas maneiras – por um psicopata de visual hippie. Foi produzido na época com a pretensão de ser um SOV melhor do que todos os outros que estavam sendo feitos. Vídeo.

Cannibal Campout (1988) de Jon McBride e Tom Fisher. Grupo de jovens em passeio pelo bosque se envolve com trio de psicopatas. Vídeo.

The Dead Next Door (A Morte, 1989) de J. R. Bookwalter. Uma equipe anti-zumbis é formada pelo governo. Bastante cenas gore e produção bem feita. Super 8.

Oversexed Rugsuckers from Mars (1989) de Michael Paul Girard. Aliens tarados estupram mulheres usando aspirador de pó. Muitas drogas e depravações nesta produção que está no limite entre um SOV e um filme profissional. 35mm.

Robot Ninja (1989) de J. R. Bookwalter. Desenhista de HQs se torna um super herói para combater uma gangue de estupradores. Vídeo.

Things (1989) de Andrew Jordan. Marido impotente deseja tanto o nascimento de um filho que precisa lidar com uma ninhada de criaturas que se materializam em sua casa. Vídeo.

Zombie Rampage (1989) de Todd Sheets. Um jovem que está indo encontrar seus amigos acaba cruzando com zumbis, serial killers e gangues homicidas neste clássico do SOV sangrento. Vídeo.

Fertilize the Blaspheming Bombshell! (1990) de Jeff Hathcock. Durante uma viagem, mulher é atormentada por adoradores do diabo. Vídeo.

Gorgasm (1990) de Hugh Gallagher. Garota mata os homens com quem transa. Hugh também foi editor da revista Draculina, dedicada ao cinema SOV americano. Vídeo.

Alien Beasts (1991) de Carl J. Sukenick. Alien caça humanos em assassinatos ultra gores feitos sem dinheiro, nem técnicas. É muito ruim, mas é impossível não vê-lo inteiro. Vídeo.

Nudist Colony of the Dead (1991) de Mark Pirro. Musical envolvendo zumbis numa colônia nudista. Super 8.

A Rede Maldita (1991) de Simião Martiniano. As peripécias de um grupo tentando enterrar uma pessoa. Vídeo.

Science Crazed (1991) de Ron Switzer. Cientista injeta droga experimental em uma mulher que morre ao dar a luz a um monstro já adulto. Vídeo.

O Vagabundo Faixa-Preta (1992) de Simião Martiniano. Kung Fu no sertão de Alagoas. Vídeo.

Criaturas Hediondas (1993) de Petter Baiestorf. Cientista marciano vem à Terra fazer os preparativos para a invasão re-animando alguns cadáveres terráqueos. Vídeo.

Goblin (1993) de Todd Sheets. As diabruras gores de um Goblin que chega até a perfurar os globos oculares das pobres vítimas. Vídeo.

Gorotica (1993) de Hugh Gallagher. Um ladrão morre após engolir uma jóia que havia roubado, então seu parceiro conhece uma necrófila. Vídeo.

Zombie Bloodbath (1993) de Todd Sheets. Um colapso numa usina nuclear transforma as pessoas em zumbis. Vídeo.

Acerto Final (1994) de Antonio Marcos Ferreira. Estrelado por Talício Sirino interpretando um herói em sua cruzada contra as drogas. Vídeo.

Gore Whore (1994) de Hugh Gallagher. Assistente de laboratório rouba uma fórmula que cai em mãos erradas. Vídeo.

Shatter Dead (1994) de Scooter McCrea. Drama muito bem encenado e filmado envolvendo uma mulher que quer chegar à casa de seu namorado num mundo pós-holocausto zumbi. Causou sensação quando foi lançado, mas a carreira de McCrea não decolou. Fez ainda Sixteen Tongues (1999) e foi ator em vários filmes de Kevin j. Lindenmuth. Vídeo.

Vampires and other Stereotypes (1994) de Kevin J. Lindenmuth. Dois “homens de preto” (que não estão usando preto) são encarregados de livrar o planeta dos seres sobrenaturais. Vídeo.

Addicted to Murder (1995) de Kevin J. Lindenmuth. Garoto que mantém amizade com uma vampira está disposto a alimentá-la. Vídeo.

Chuva de Lingüiça (1995) de Acir Kochmanski e Andoza Ferreira. Comédia rural ao estilo de Mazzaropi. Essa produção nacional é hilária e as piadas realmente funcionam. Um dos grandes clássicos do SOV brasileiro. Vídeo.

Creep (1995) de Tim Ritter. Psicopata escapa da prisão e vai pedir ajuda para sua irmã stripper. Vídeo.

Fronteiras sem Destino (1995) de Antonio Marcos Ferreira. Filme de ação eletrizante com Talício Sirino. Vídeo.

O Monstro Legume do Espaço (1995) de Petter Baiestorf. Alienígena constituído de tecido vegetal escapa de sua prisão e aniquila os humanos que cruzam seu caminho. Teve uma continuação em 2006, bastante inferior ao original. Vídeo.

Red Lips (1995) de Donal Farmer. Garota que doa sangue para conseguir dinheiro vira cobaia de um médico. Michelle Bauer e Ghetty Chasun estão no elenco. Vídeo.

Space Freaks from Planet Mutoid (1995) de Dionysius Zervos. Alienígenas convivem com terráqueos. Vídeo.

Blerghhh!!! (1996) de Petter Baiestorf. Grupo de terroristas não consegue se livrar de um zumbi. SOV com efeitos mecânicos e muito gore. Vídeo.

Feeders (1996) de Jon McBride, John Polonia e Mark Polonia. Aliens vem ao planeta Terra para um banquete de vísceras, atacando jovens do interior dos USA. Ótimos efeitos especiais, atores canastrões e aliens – feitos ao estilo de fantoches – que funcionam. Teve uma continuação em 1998. Vídeo.

Colony Mutation (1996) de Tom Berna. Casal vai para uma colônia de mutantes. Vídeo.

Eles Comem Sua Carne (They Eat Your Flesh, 1996) de Petter Baiestorf. Comunidade de canibais se alimenta de fiscais da prefeitura que teimam em ir cobrar o IPTU. Por anos foi o filme mais sangrento já produzido no Brasil. Vídeo.

The Bloody Ape (1997) de Keith J. Crocker. Baseado no conto “Assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe. Super 8.

Fatman & Robada (1997) de Rogério Baldino. Pastiche sátira com Batman & Robin. No ano de seu lançamento foi o SOV brasileiro de melhor produção. Cult-movie. Vídeo.

The Necro Files (1997) de Matt Jaissle. Estuprador canibal volta do túmulo como um zumbi alucinado. Vídeo.

Shuín – O Grande Dragão Rosa (1997) de Cristiano Zambiasi. Gordinho lutador de kung fu entra num campeonato de artes marciais para descobrir quem está contrabandeando sorvete seco. Vídeo.

Gore Gore Gays (1998) de Petter Baiestorf. Casal de gays tenta deixar de ser gays e realiza brutais atos de violência e depravações sexuais. Vídeo.

Night of the Clown (1998) de Todd Jason Cook (sob pseudônimo de Vladimir Theobold). Milionário que quer vender sua empresa se torna alvo de um assassino. Vídeo.

Road SM (1998) de José Salles. Estranha relação sadomasoquista entre um grupo de pessoas. Vídeo.

They All Must Die! (1998) de Sean Weathers. Três bandidos torturam uma mulher. A capinha de seu lançamento vem com todos aqueles avisos do estilo “Proibido por 13 anos!”, “Cuidado!”, “Agora sem cortes!”, ou seja, pode assistir que é vagabundagem certa. Vídeo.

Dominium (1999) de Cleiner Micceno. Zumbis mongolóides atacam Sorocaba. Vídeo.

Zombio (1999) de Petter Baiestorf. Sacerdotiza Vudú reanima cadáveres. O primeiro filme de zumbis autenticamente nacional. Filmado em 1998, lançado em 1999. Vídeo.

Blood Red Planet (2000) de Jon McBride, Mark Polonia e John Polonia. Impagável sci-fi com maquetes muito bem elaboradas. A história é sobre um planetóide em direção ao planeta Terra. Vídeo.

Boni Coveiro: O Mensageiro das Trevas (2000) de Boni Coveiro. Ser satânico ataca escoteiros numa floresta. Vídeo.

Edmund Kemper – La Mort de Ma Vie (2001) de Laurent Tissier e Fred Quantin. O psicopata Kemper em sua jornada macabra. Petter Baiestorf faz participação especial em Edmund Kemper Part 4 – La Mort Vengeresse (2018, Laurent Tissier). Vídeo.

Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado (2001) de Felipe M. Guerra. Jovens que só estão a fim de festa se deparam com um atrapalhado psicopata. Vídeo.

Raiva (Rage-O-Rama, 2001) de Petter Baiestorf. Trio de ladrões rouba uma coleção das revistas Spektro e acaba numa vila de pessoas raivosas. Com cenas de carro explodindo. Vídeo.

Attack of the Cockface Killer (2002) de Jason Matherne. Serial killer com uma máscara de pinto mata de todas as maneiras possíveis as pessoas que encontra pelo caminho, incluindo com consolos improvisados de armas. Vídeo.

Rubão – O Canibal (2002) de Fernando Rick. As aventuras gore de uma família canibal. Vídeo.

Feto Morto (2003) de Fernando Rick. Por conta de uma relação incestuosa um rapaz tem um feto em sua cabeça. É o primeiro SOV nacional a ser lançado em DVD. Vídeo.

The Low Budget Time Machine (2003) de Kathe Duba-Barnett. Viajantes do tempo vão para o futuro e encontram mutantes. Vídeo.

Quadrantes (2004) de Cesar Souza. Um viajante dimensional experimenta os prazeres de vários quadrantes. Vídeo.

Eyes of the Chameleon (2005) de Ron Atkins. Serial killer ataca em Las Vegas. Vídeo.

The Stink of Flesh (2005) de Scott Phillips. Zumbis fedorentos tentando comer algumas pessoas. Boa produção. Vídeo.

Canibais & Solidão (2006) de Felipe M. Guerra. Jovens tentando perder a virgindade se metem em confusões envolvendo canibalismo. Ou não. A modelo Edna Costa está no elenco. Vídeo.

O Homem sem Lei (2006) de Seu Manoelzinho. Western capixaba remake da produção homônima de 2003. Vídeo.

Minha Esposa é um Zumbi (2006) de Joel Caetano. Ótima comédia sobre um funcionário dos laboratórios Z que transforma sua esposa em zumbi. Vídeo.

Sandman (2006) de A. Normale Jef. Uma aventura com o Mal. Vídeo.

Telecinesia (2006) de Danilo Morales. Garota que tem poder mental ajuda a policia na investigação de um desaparecimento. Vídeo.

Arrombada – Vou Mijar na Porra do seu Túmulo!!! (2007) de Petter Baiestorf. Ricaços se aproveitam de suas posições de poder para comprar pessoas e barbarizar em orgias sexuais. Ljana Carrion no elenco. Vídeo.

Mamilos em Chamas (2007) de Gurcius Gewdner. Uma história de amor encenada com fantoches feitas de coelhos mortos. Vídeo.

Rambú III – O Rapto do Jaraqui Dourado (2007) de Manoel Freitas, Júnior Castro e Adilamar Halley. Aldenir Coti, o Rambo brasileiro, é a estrela nessa produção de ação ambientada na Amazônia. Vídeo.

Satan’s Cannibal Holocaust (2007) de Jim Wayer. Jovem jornalista se envolve num culto canibal para satã. Vídeo.

Mangue Negro (2008) de Rodrigo Aragão. Zumbis atacam no mangue. Produção que se encontra no tênue limite entre SOV e filme profissional, tendo representado um ganho em qualidade ao cinema independente brasileiro. Os filmes seguintes de Aragão não são SOVs. Vídeo.

Synchronicity (2008) de Brian Hirschbine. Homem acorda coberto de sangue e não se lembra do que fez. Vídeo.

Vadias do Sexo Sangrento (2008) de Petter Baiestorf. Casal de lésbicas cruza os domínios de Esquisito, um psicopata que foi estuprado por 48 Padres quando criança. Ljana Carrion e Lane ABC no elenco. Vídeo.

Black Ice (2009) de Brian Hirschbine. Um conto de fantasia, sexo e assassinatos. Vídeo.

No Rastro da Gangue (2009) de José Sawlo. Mestre do Kung Fu baiano luta contra um bando de traficantes. Pancadarias ao estilo Jackie Chan. Vídeo.

Atomic Brain Invasion (2010) de Richard Griffin. Estranhas criaturas alienígenas atacam pequena cidadezinha do interior americano. Um exemplo perfeito de como os SOVs de hoje evoluíram e estão com uma qualidade fantástica. Griffin está construindo uma carreira de respeito, com ótimos filmes. Também é dele Splatter Disco (2007). Vídeo.

Birdemic: Shock and Terror (2010) de James Nguyen. Pássaros se rebelam contra a humanidade. A produção virou cult por ser tão ruim. Vídeo.

El Monstro del Mar! (2010) de Stuart Simpson. Três assassinas enfrentam um monstro marinho. Outro exemplo de SOV muito bem produzido. Vídeo.

Nasty Nancy (2010) de Sandi Mance. Numa escola onde os professores resolvem tudo com sexo, uma estudiosa aluna se vinga, violentamente, de uma nota baixa. Produção fantástica. Recomendo! Vídeo.

O Tormento de Mathias (2011) de Sandro Debiazzi. As confusões num hospício muito louco. Joel Caetano e Felipe M. Guerra estão no elenco. Vídeo.

Confinópolis (2012) de Raphael Araújo. Sci-fi com ótimo aproveitamento de cenários. Um ditador oprime o povo. Vídeo.

Rat Scratch Fever (2012) de Jeff Leroy. Ratos gigantes do espaço atacam Los Angeles. Com efeitos especiais fuleiros é diversão garantida. Vídeo.

Breeding Farm (2013) de Cody Knotts. Após uma noitada de festa quatro amigos acordam presos num porão, onde estranho homem tem uma fazenda humana. Vídeo.

Hi-8 (Horror Independent 8) (2013) de Ron Bonk, Donald Farmer, Marcus Koch, Tony Masiello, Tim Ritter, Chris Seaver, Todd Sheets e Brad Sykes. Longa em episódios que reúne alguns dos nomes de maior destaque na história das produções americanas de Shot on Video.

Sinister Visions (2013) de Henric Brandt, Doug Gehl, Andreas Rylander e Kim Sonderholm. Longa em episódios com trabalhos dos USA, Inglaterra, Suécia e Dinamarca. Vídeo.

Gore Short Films Anthology Part 2 (2015) de Jeff Grienier, Rob Ceus, Sam Bickle, Jim Roberts, Colin Case, Alexander Sharglaznov, Fuchi Fuchsberger, Petter Baiestorf e Esa Jussila. Coletânea de curtas com representantes do SOV mundial atual organizada por Yan Kaos para lançamento em DVD no Canadá. São curtas do Canadá, Bélgica, USA, Russia, Alemanha, Brasil e Finlândia. 2000 Anos Para Isso? (1996) é o curta representante do Brasil.

Zombio 2: Chimarrão Zombies (2013) de Petter Baiestorf. Em um holocausto zumbi os humanos são o maior problema de todos. Miyuki Tachibana e Raíssa Vitral no elenco. Vídeo.

13 Histórias Estranhas (2015) de Fernando Mantelli, Ricardo Ghiorzi, Claudia Borba, Petter Baiestorf, Marcio Toson, Cesar Souza, Taísa Ennes Marques, Rafael Duarte, Gustavo Fogaça, Renato Souza, Léo Dias, Paulo Biscaia Filho, Felipe M. Guerra, Filipe Ferreira e Cristian Verardi. Longa em episódios que reúne alguns dos principais nomes do SOV brasileiro. Vídeo.

Pazúcus – A Ilha do Desarrego (2017) de Gurcius Gewdner. Casal de lunáticos enfrenta a mãe natureza com seus cocôs mafiosos. Vídeo.

Termitator (2017) de Roxane De Koninck, Camille Monette e Keenan Poloncsak. Um mutante extermina jovens que vão passar alguns dias em cabana na floresta. Vídeo.

Astaroth (2017) de Larissa Anzoategui. A demônia Astaroth se envolve com tatuadores e rockistas para cooptar almas humanas. Vídeo.

O Mito do Silva (2018) de Fabiano Soares. Ótima produção política lançada às vésperas da eleição presidencial de 2018. Aqui Soares alerta para o crescimento do fascismo no Brasil. Vídeo.

Contos da Morte 2 (2018) de Vinicius Santos, Ana Rosenrot, Cíntia Dutra, Danilo Morales, Diego Camelo, Janderson Rodrigues, Larissa Anzoategui e Lula Magalhães. Antologia com vários episódios de horror, reunindo alguns dos principais diretores do novo SOV brasileiro. Vídeo.

Escrito por Petter Baiestorf.

Iara – A Sereia do Pantanal

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 24, 2019 by canibuk

Reza a lenda que foi mais ou menos pra lá dos cafundós do Pantanal que você encontrou Iara, a sereia das lendas indígenas que te assombravam quando criança.

No dia em que seu marido lhe falou sobre o plano de assaltar aquele casal de fazendeiros ricaços, seu sexto sentido de mulher grávida, lhe fez coçar as orelhas. Você sabia que devia seguir sua intuição e não ir junto, afinal estava grávida de sete meses de seu primeiro filhinho. Somente isso seria motivo mais do que suficiente para que ficasse naquele grande e caro apartamento, que possuíam graças aos roubos e seqüestros.

Você sabe que seu marido a teria deixado ficar no apartamento, mas sua ganância foi maior do que a coceirinha que você sentia atrás da orelha. Na verdade, você era viciada na adrenalina dos assaltos, na sensação de poder que o empunhar de uma arma lhe proporcionava, e queria estar lá, junto, tocando o terror naquelas pobres vítimas.

E você pensava ainda que aquele casal de ricaços idosos não tinha nada que guardar tanto dinheiro em casa. Que colocassem num banco, porra! Ou que pagassem pela segurança do dinheiro, não é mesmo? Fosse o que fosse, você queria aquele dinheiro todo pra si porque queria continuar bancando sua vida de luxo e de mordomias mil.

Você se sentia especialmente poderosa na noite em que foram assaltar os velhos. Você, seu filho de sete meses se remexendo animado em seu útero, seu marido com um sexy olhar de assassino carrasco e João, o informante paspalhão que cantou tudo sobre o casal de sovinas ricaços. O informante que vocês já haviam decidido matar após estarem com o dinheiro, afinal, agora você trazia mais uma boca para alimentar e dinheiro nunca é demais.

Vocês quatro estacionaram o carro perto da fazenda, se armaram até os dentes e calmamente seguiram sob o luar até a casa grande onde os velhos viviam sós. Sozinhos e abarrotados de dinheiro e joias, muito dinheiro e muitas joias, coisa de velhos que não confiam nos outros para guardar suas riquezas.

Era muito fácil, não?

Era só entrar na casa, atirar nos velhos e procurar com toda a calma do mundo o local onde guardavam o dinheiro e as joias. Tinha tudo para ser moleza demais, não?

Como adivinhariam que, no momento de render o casal, já dentro da casa, aqueles velhos filhos da puta estariam limpando suas armas? Como adivinhariam que o velho estaria com uma doze nas mãos e a velha, com uma espingarda de caça, como se estivessem esperando os assaltantes?

Você mal assimilou qual era o objeto que o velho carregava nas mãos quando ouviu o estampido do tiro que arrancou a cabeça de seu marido, fazendo com que toda a parede atrás dele se salpicasse de carne moída triturada e esmigalhada.

Você ficou ali, parada, surpresa, vendo seu marido sem cabeça em espasmos, tombando ao chão. E, antes que pensasse em reagir, ouviu o tiro da espingarda de caça que lhe atorou o braço esquerdo fora a fora, deixando-o meio pendurado em seu corpo.

A dor que você sentia era intensa, mas quando você viu João se mandar correndo escuridão adentro, você sacou que, mesmo com seu braço dependurado junto ao corpo, mesmo com seu filho agitado dentro de sua barriga lhe chutando nervoso como quem pede para que faça a coisa certa, você também precisava se mandar dali.

E você se mandou.

Com forças sabe-se lá d’onde conseguidas, você ignorou a dor e correu em direção ao carro, mas já era tarde, agora você o via se afastar já longe, pois João era só “rodas pra que te quero” para salvar apenas seu próprio rabo.

Confusa, sem saber muito bem o que fazer, você correu o máximo que pôde para dentro dos banhados do Pantanal que circundavam a fazenda dos velhos.

E você correu por um bom tempo pântano adentro. Correu e correu muito, até não aguentar mais e desmaiar sobre seu braço dependurado por um mix retorcido de carne e ossos.

Você já não sentia mais seu filho chutando sua barriga, alucinadamente, como se pedisse sua atenção. Você simplesmente não tinha mais forças para aguentar aquela dor toda e só queria desmaiar em paz e que, de agora em diante, fosse o que o diabo tivesse lhe reservado.

Assim, você não percebeu quando aquela velha senhora centenária, completamente enrugada e de lento andar, encontrou seu corpo todo fodido e o arrastou até o casebre construído sobre palafitas num rio qualquer do pantanal.

Você não despertou de seu desmaio enquanto a velha limpou seus ferimentos com um paninho úmido. Também não acordou quando a idosa retirou toda sua roupa e ficou, por um longo tempo, contemplando sua barriga de grávida. Barriga essa que fazia a senhora do pântano abrir um tenro sorriso em seu rosto carcomido pelo tempo.

Você não acordou quando a velha imobilizou com cipós suas pernas e seu braço ainda inteiro. O outro braço, inútil, não foi necessário imobilizar.

Você só acordou quando sentiu o facão empunhado pela velha senhora lhe rasgar a barriga. Aí sim, de um único suspiro, você recobrou a consciência sentindo as mãos da velha entrando em seu útero e arrancando de seu interior quentinho seu inocente filho.

Você tentou se livrar dos cipós, mas a dor lhe impossibilitava de ter as forças necessárias para se desvencilhar das amarras bem apertadas, no estilo indígena do Pantanal.

Urrando de dor, você viu quando a velha se afastou vagarosamente carregando seu filho banhado de seus líquidos gotejantes. Você sentiu o cordão umbilical se esticar até se romper por completo.

Sem forças nem para morrer, você viu quando a velha largou seu filho prematuramente nascido sobre a mesa da simplória cozinha do casebre. Seu filho que se remexia desesperado tentando chorar ou, simplesmente, gritar, sabendo que você o meteu naquela furada.

Você ainda viu a velha começar a preparar o que parecia ser uma refeição. Viu quando ela picou uma cebola inteira, acompanhada de três dentes de alho, salsinha a gosto mais cebolinha verde, para dar o gostinho da felicidade. Você a viu pegar quatro batatas e cortar em rodelas, logo antes de triturar cinco tomates num moedor de carne manual. Pelo jeito, a velha senhora adorava um molho bem grossinho. Manjericão, folhas de louro e um punhado de coentro também foram reservados para o delicioso prato que você via tomar forma diante de seus últimos minutos de vida.

Você ainda pensou, naquele instante, que, se tivesse ficado no conforto de seu grande e caro apartamento, poderia ter proporcionado segurança ao seu pequenino rebento ainda não assado. Mas, “e se” é algo que não existe. O que foi feito é o que foi feito. E ali estavam vocês, tu e teu filho, a mercê de uma cozinheira de tão rebuscado paladar. Você nos últimos suspiros e ele pronto para entrar na panela.

Seus pensamentos voltaram-se ao momento presente, quando você viu a velha senhora colocar banha de porco numa bandeja. Não muito, lógico, somente o suficiente para não deixar as carnes de seu filho grudarem no utensílio doméstico.

Você ficou completamente aterrorizada quando viu seu filho ser colocado na bandeja junto das batatas picadas. Você gritava de pavor enquanto a velha acrescentava os temperos e seu filho chorava indefeso, tomando o cheiro e o gosto de tão deliciosas especiarias.

Você ainda viu quando a senhora abriu a pequena portinha de seu forno de barro já pré-aquecido e enfiou seu filho lá dentro, fazendo com que a choradeira da criança logo se acabasse após alguns gritinhos mais agudos de dor. Ser assado vivo em tão tenra idade não é mole não, mamãe!

Você viu! Você viu! Você viu tudo, querida mamãe!

O silêncio desolador que você sentiu naquele momento lhe amorteceu os sentidos. Embora você soubesse que deveria sentir toda a dor do mundo – e ainda ser merecedora dessa dor – você nada sentiu quando a velha serrou seu crânio com um velho serrote sem fio.

Você apenas morreu em silêncio, aterrorizada, olhando cegamente para o forno de barro onde seu filho agora assava para compor o mais fantástico dos pratos macabros.

Morta, você nada mais sentiu quando a velha retirou de sua casca sem vida seus miolos ainda fresquinhos. Você nada sentiu quando ela passou sua massa cinzenta no moedor de carne e nada viu quando ela misturou aos tomates moídos que seriam cozidos com muito alho, cebola e uma pitadinha de manjericão com coentro.

Seu corpo morto não viu quando a velha senhora retirou seu filho assado do forno de barro e acrescentou o molho de miolos à gordura de porco que borbulhava na bandeja, deixando as carnes de seu filho crocantes, mas, ainda assim, macias.

Você não viu quando o tétrico prato ficou pronto e a velha o salpicou com muita salsinha e cebolinha verde.

Não viu quando ela cheirou o prato alegrando-se com o aroma indescritível de tão rara iguaria.

Você ali, morta, não viu o prazer magnânimo que a velha sentiu em suas papilas gustativas a cada grande naco da carne bem temperada de seu filho assado, que ela devorava com apetite voraz. A velha parecia estar a vida toda sem comer. E talvez até estivesse.

Você não viu a velha comer todo o seu filho, limpando até o último pequeno ossinho nem bem formado e lambendo os dedos engordurados para então, somente então, dar-se por saciada.

Ali, morta, você nem sequer imaginou que seu filho, e seus miolos, fossem ingredientes de um satânico ritual de uma milenar lenda do Pantanal, parte de um banquete de rejuvenescimento da sereia Iara, a bruxa canibal dos rios brasileiros.

Se você tivesse agüentado viva mais alguns minutinhos, teria visto que após o banquete a velha senhora sofreria uma sanguinolenta metamorfose, em que suas flácidas carnes de idosa centenária amoleceriam fazendo que, de seu interior gosmento, uma nova Iara belíssima, com rabo de sereia e tudo, saísse lá de dentro tal como uma borboleta deixa seu casulo, voltando a ser uma encantadora mulher-peixe, que voltaria a nadar nos rios, hipnotizando ribeirinhos e devorando solitários pescadores que se aventuram pelas alucinantes noites do Pantanal.

Escrito por Petter Baiestorf.

ilustração de Marcel Bartholo.

Fevereiro de 2018.

Compre ainda hoje o livro Narrativas do Medo Vol. 2 (clique na capa do livro)

Bad Erna – Ups!

Posted in download, Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 4, 2018 by canibuk

Bad Erna é um projeto de electro-horror cujos membros anônimos são seguidores de Erna, a guerreira feminista, que após a batalha de Rìgspula organizou uma festa rave com tambores feitos com a pele humana de seus inimigos. Essa festa durou 11 dias e 11 noites, regadas à paganismo, chás de cogumelos e sons estridentes que quebravam o silêncio das florestas nórdicas de 1033 d.C.

Ups! trás 11 composições, uma para cada noite/dia da rave original, com liberdades para misturar a guerreira Erna com Legs, John Carpenter e a melodia do Hula Hula nas praias cariocas cheias de docinhos sintéticos eletrizantes.

Faça o download do disco clicando no link abaixo:

BAD ERNA – Ups!

(electro-horror tropical)

Músicas:

1- Bom Dia, Legs! (01’:47”)

2- Caminho Torto (03’:52”)

3- Na Noite Derretida (05’:43”)

4- Ups (06’:09”)

5- Uma Coceirinha Hula Hula (02’:32”)

6- Carrapatos Mentolados (02’:36”)

7- Xamaaa (05’:52”)

8- A Nota do Carpenter (01’:34”)

9- Pegue o Doce (04’:37”)

10- Sintéticos Gostosos (05’:11”)

11- Eu Preciso de um Pirulito, Véi! (06’:27”)

Experimentação do Caos Cósmico (demo-tape para download)

Posted in download, Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 17, 2018 by canibuk

Não sou músico, o que não me impede de retirar alguns dos ruídos que dançam na minha cabeça para compartilhar com você. Não sou músico, o que não me impede de parir um terceiro disco inspirado no meu guru musical, Gurcius Gewdner, que afirma: “Não saber tocar nenhum instrumento não é desculpa para não fazer!”.

Essa experimentação do caos cósmico também bebe da liberdade com que Jesus Franco fazia músicas, com seu free jazz realmente livre. O minimalismo das melodias de John Carpenter também me incentivaram na busca dos ruídos cósmicos do theremin e da sujeira do sintetizador.

Gravei essa demo-tape sem pretensão nenhuma. São testes iniciais de uma mente barulhenta que está usando estes instrumentos a 24 horas e, naquela hiper-atividade dos sem-noção, quis registrar as primeiras sonoridades arrancadas  dos desarranjos hiper nucleares espaciais.

Ouça no escuro, usando fones de ouvido, no volume máximo.

DOWNLOAD

BAIESTORF – EXPERIMENTAÇÃO DO CAOS CÓSMICO (Demo-tape)

Músicas:

1- Experiência da Desconstrução Cósmica – Você assistiu o filme Dark Star? Lembra do surfista espacial que desliza rumo ao cosmos infinito sobre os escombros da espaçonave? Pois bem, este som fala de uma canção cósmica que este surfista estelar ouve no infinito, só que aqui a imaginei com as notas batidas de forma invertida no vácuo do espaço gelado.

2- Experiência Espacial Plano 2 – Tentei compartilhar a melodia que ouço quando cavalgo a baleia espacial, seguida de corais de golfinhos, nos mais tenros rincões interestelares do passado imemorial.

3- Experiência Carvão Termo-Nuclear – Ontem teve um momento em que parei dentro de um milésimo. Sentei no milésimo e quis ficar olhando as notas do silêncio barulhento. O treco é que o chão do milésimo ondula, hora pra dentro, hora pra fora. Este ondular é mais intenso pra fora, diminuindo ao re-entrar. Musiquei este milésimo aqui.

4- Experiência Espacial Plano 4 – Às vezes o espaço-tempo tem coordenadas tão relativas restritas que o fundo do espaço faz uma dobra que dá nas fossas abissais do oceano terrestre onde vivem as sereias. Nesta faixa fiz uma reflexão na linguagem delas, que é um dialeto do baleionês.

5- Experiência Caótica do Plasma EspectralO free jazz que o Jesus Franco compôs para o seu filme Vampyros Lesbos serviu de inspiração para a composição dessa canção. Digamos assim que é uma volta aos prazeres profanos terrestres. Existe duas falhas nessa canção que não são falhas.

Baiestorf Experimentação do Caos Cósmico

Novembro de 2018

57 minutos.

Capa: Tsuneo Sanda (1991).

Theremin e Sintetizador: Petter Baiestorf.

Todas as desconstruções decompostas por Petter Baiestorf.

 

Você também pode gostar dos discos abaixo (ou não):

U – “Involução no Terceiro Planeta”

Baiestorf – “Abdução”

Baiestorf – “Stupid Stupid”

Baiestorf – “Zero”

Baiestorf – “Criaturas da Lua”

Astaroth: A Mulher Esquecida, A Identidade Negada, O Filme Independente!

Posted in Cinema, Entrevista, Vídeo Independente with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 13, 2018 by canibuk

Acabei de assistir o longa Astaroth, de Larissa Anzoategui, que acompanho desde o início da carreira e admiro bastante suas produções independentes. Com inspiração nas produções de Heavy Metal Horror da década de 1980, Larissa e sua equipe criaram um pequeno clássico do Metal Horror, com direito à musa Monica Mattos no papel da demônia sexy que vem em busca de corpos humanos.

Larissa Anzoategui

Larissa lançou o longa numa edição em DVD caprichada e aproveitei o lançamento para entrevistá-la sobre Astaroth e indicar aos leitores do blog a compra para incrementar suas coleções com um SOV muito bem produzido pelo cinema independente brasileiro.

Petter Baiestorf: Como surgiu a ideia para a produção de Astaroth?

Larissa Anzoategui: Surgiu primeiro a ideia de produzir um longa no mesmo esquema independente que fizemos os nossos curtas. O Ramiro tinha um argumento e desenvolveu o roteiro para o que seria o nosso longa, o nome era Embrião Maldito. Fomos atrás das locações, convidamos alguns amigos para atuar, enfim, demos inicio à pré-produção e no meio desse processo sentimos que não iríamos conseguir algumas coisas e resolvemos mudar de plano. Para parte da equipe não se dispersar e perder o ânimo, o Ramiro em pouquíssimos dias escreveu o roteiro do Astaroth e corremos atrás da nova pré-produção.

Baiestorf: Percebe-se uma inspiração oitentista nele, quais foram os filmes que te influenciaram?

Larissa Anzoategui: Nossa equipe (eu, Ramiro Giroldo, Pedro Rosa e Renato Batarce) cresceu assistindo as produções oitentistas, inclusive aquelas que iam direto para a locadora. Quando resolvemos fazer um longa, a primeira coisa definida era: inspiração nos filmes da década de 80. Acho que essa inspiração já aparece em todos os nossos filmes. De uma maneira geral posso citar alguns diretores/produtores que são grandes influências para mim: Stuart Gordon, Brian Yuzna, Frank Henenlotter, John Carpenter, Lloyd Kaufman, Charles Band, David DeCoteau. Têm alguns filmes específicos também: Night of the Demons, A Volta dos Mortos Vivos, Natal Sangrento, A Hora do Pesadelo, Evil Dead, A Hora do Espanto, Phantasm. Mas a inspiração para o Astaroth foram os Heavy Metal Horror. Alguns dos que mais me marcaram: Hard Rock Zombies, Black Roses, Trick or Treat, The Gate. Também pensei nos filmes de ação, de artes marciais, como o Ninja III.

Baiestorf: O roteiro, escrito por Ramiro Giroldo, apresenta uma versão de Astaroth. Quais foram as fontes para a criação da história e personagens? Você poderia falar sobre Astaroth?

Larissa Anzoategui: Vou deixar essa aqui para o próprio Ramiro: “A entidade Astaroth vem, como é mencionado no filme, da divindade ‘pagã’ Astarte, que era feminina. Na Idade Média, a Igreja Católica e seus demonologistas transformaram essa figura em um demônio masculino. Achei isso curioso e tentei fazer a Astaroth essa mulher que foi esquecida, que teve sua identidade negada. Ela tenta voltar, nada contente com esse nosso mundo. Mas procurei deixar isso de fundo, priorizando a história que queria contar.”

Roteiro

Baiestorf:  O trio de atrizes principais está fantástico. Fale um pouco sobre Jacqueline Takara, que está perfeita no papel, Ju Calaf e a Monica Mattos.

Larissa Anzoategui: Essas três mulheres são a encarnação desse conceito tão usado nas redes sociais : mulherão da  porra. Donas de si, inteligentes, talentosas. Levam o trabalho a sério e no que puderem contribuir para que a produção fique o melhor possível, contribuem. A Ju esteve presente desde a primeira empreitada da Astaroth Produções (antes chamada Vade Retro Produções), o curta Limerence. Desde sempre foi muito parceira, estava na equipe como atriz, mas no que precisasse ela ajudava. Inclusive fez altos rangos maravilhosos em todos os filmes que participou.Ela é comprometida com o trabalho, atua muito bem, ajuda a levantar o astral no set. Só não está nas produções mais recentes por ter ido embora do Brasil.

Ju

A Jacque e a Monica entraram nas nossas vidas com o Red Hookers. E já foram mostrando também grande comprometimento. No primeiro dia de gravação a Jacqueline teve uma aula rápida de pole dance, o que foi suficiente para fazer a cena dançando como se fosse especialista em dança exótica. Foi surpreendente! Para o Astaroth ela encarou algumas aulas de Ninjtsu. A Monica também é super comprometida e tem a melhor noção de continuidade do Planeta Terra! Crio junto com elas, explico o que penso das personagens, elas dão o ponto de vista que formaram e a gente vai moldando.

Jacque

Baiestorf: Com a Monica você já havia trabalhado em Red Hookers, como é tê-la nas produções?

Larissa Anzoategui: É ótimo! Sempre foi muito tranquilo, apesar de ser tudo o que é – talentosa, poderosa, linda, inteligente, uma atriz premiada- ela é super de boa. Está sempre com as falas decoradas e tem bastante paciência com nosso esquema independente de produção. A considero uma ótima atriz. Hoje ela está trabalhando como tatuadora. É assim, determinada. Quer fazer, faz: acho que não tem algo impossível pra ela.

Monica

Veja o Making Off aqui:

Baiestorf: O Renato Batarce está muito divertido no papel do gordinho tímido. Vocês trabalham juntos há um bom tempo, como iniciou essa parceria?

Larissa Anzoategui: Conheci o Renato em São Paulo, em algum evento ligado ao terror, e a gente se reencontrava nas mostras e festivais que envolviam o gênero.  Fizemos o curso do Lloyd Kaufman How to make your own damn movie e acho que foi lá que começou essa conversa de produzir alguma coisa. Eu e o Pedro já estávamos há um tempo tentando desenvolver algum roteiro viável, meio na dica Robert Rodrigues: a gente vê o que tem disponível e pensa no que dá para filmar com aquilo. Nesse período eu li um texto da escritora Paula Febbe e já fui pedindo permissão para adaptar, ela foi mais generosa ainda e escreveu o roteiro de Limerence, indicou a atriz (Ju Calaf), participou da pré-produção e fez até uma ponta atuando. Com esse roteiro em mãos reuni o Pedro, o Renato, o Fábio Moreira e também o Magnum Borini. Gravamos em dois finais de semana e a partir daí o Renato quase sempre esteve presente nas produções, mas atrás das câmeras. Quando o convidei para fazer o Josias, a primeira resposta foi um “não sei” muito puxado para o “não”. Depois mudou de ideia, ainda bem! Ninguém seria melhor do que ele.

O gordinho tímido

Baiestorf: Eu gostaria de destacar o trabalho de maquiagens do filme, principalmente a caracterização da demônia Astaroth. Como foi este processo?

Larissa Anzoategui: São dois os responsáveis pela concepção da demônia: Daniel Shaman, designer. Ele criou a imagem da nossa Astaroth, fez os desenhos, a concepção final. Quem deu vida a essas ideias foi o Fritz Hyde. Os dois já tinham trabalhado com a gente no Red Hookers. Na hora de gravar mudamos um detalhe: a demônia teria um rabo, mas não ficou funcionou muito bem e aí desistimos dessa ideia.

Fritz & Criatura

Baiestorf: Outro destaque é a trilha sonora. Achei a escolha das bandas bastante interessante, principalmente porque reforçaram em muito o climão de Heavy Metal and Horror anos 80. Apresente as bandas da trilha e seus contatos.

Larissa Anzoategui: Vou começar com as bandas locais (Campo Grande –MS):

Hollywood Cowboys –Este ano estão comemorando 10 anos de formação, tocam hard rock. Começaram com covers e depois passaram a apresentar composições próprias. Em 2014 abriram o show do ex-vocalista do Iron Maiden, BlazeBailey.

https://www.facebook.com/HollywoodCowboysOfficial/

Labore Lunae – Atualmente estão dando um tempo, mas, se procurar no YouTube, tem vários vídeos da banda. Foram mais ou menos 15 anos se dedicando ao death/doom. Também começaram com covers e logo passaram a compor as músicas do repertório. Chegaram a gravar um álbum que está disponível online neste link: https://www.youtube.com/watch?v=bViNRxEL0SQ&t=630s

https://www.facebook.com/LaboreLunae/

Shadows Legacy: Fundada em 2016, a proposta do caras é tocar heavy metal tradicional. Também abriram para o Blaze Bailey, inclusive o vocalista faz participação em uma das faixas do disco  “You’re Going Straight To Hell”. Este mês lançam o segundo álbum chamado “Lost Humanity”. Gravamos já três videoclipes para eles.

https://www.facebook.com/shadowslegacy/

http://www.metalmedia.com.br/shadowslegacy/index.php

A trilha original foi composta pelo Aldo Carmine, um cara genial e muito sensível para criar o clima que o filme pedia. Ele é um grande fã de metal, inclusive teve várias bandas, mas compõe em qualquer estilo. Digo isso porque já escutei outras trilhas em que ele trabalhou.

Contato do Aldo: https://www.facebook.com/anubishomestudio/

Outra banda que colaborou com a trilha sonora foi o Disorder of Rage, de death/thrash. Com 18 anos de existência, a banda tem ep, cd e colaborações nas trilhas de outros filmes independentes como Era dos Mortos e Vadias do Sexo Sangrento.

https://disorderofrage.bandcamp.com/

https://www.facebook.com/disorderofrage/

Destaco também a inglesa Demon, banda clássica ainda em atividade com verdadeiro espírito underground. Formada em 1979, é um dos maiores nomes da New Wave of British Heavy Metal.

http://the-demon.com/

https://www.facebook.com/DemonBandOfficial/

Filmando Astaroth

Baiestorf: Também gostei muito do trabalho de som do filme. Gostaria de acrescentar algo sobre a captação, edição de som e efeitos sonoros de Astaroth?

Larissa Anzoategui: Muitas pessoas captaram o som nas gravações. Em torno de 5 pessoas diferentes, até o Batata (Renato) entrou nessa. Mas os dois principais responsáveis foram o Fábio Moreira de Carvalho e o Leonardo Copetti. A tarefa de costurar tudo, mixar e criar os efeitos sonoros ficaram também para o Leo. Maior trabalheira! Ele criou sons cortando/esmagando frutas e legumes, entre outros truques. Pensou em cada detalhe. Eu tinha uma lista de sons que estavam faltando e ele conseguiu “enxergar” vários outros.

Filmando Astaroth

Baiestorf: Quero histórias de bastidores:

Larissa Anzoategui: As gravações aconteceram em Sampa e em Campo Grande (MS), então ou eu e Ramiro íamos até São Paulo, ou o povo vinha em peso pra cá. Todas as gravações aconteceram em finais de semana espalhados, e muitos imprevistos aconteceram. O roteiro foi sendo adaptado para resolver tudo o que acontecia entre uma gravação e outra. Mas foi tudo bastante divertido, no final das contas, e todos saíram bastante satisfeitos com a experiência.

Equipe de Astaroth

Baiestorf: Como está sendo a carreira do filme por festivais e mostras?

Larissa Anzoategui: Está rolando. Até agora o filme foi selecionado, entre mostras e festivais, para ser exibido em 10 eventos, quatro deles internacionais.

Baiestorf: Fora do Brasil existe uma cena muito boa, e que valoriza as produções, para os SOVs de Horror. Como está sendo a divulgação/distribuição de seu filme fora do Brasil?

Larissa Anzoategui: Festivais e agora lançamos tanto o Astaroth quanto os outros filmes no VOD do Vimeo (https://vimeo.com/user14899326/vod_pages). O retorno está vindo de fora, a maioria do pessoal que aluga é dos Estados Unidos, Noruega e Alemanha. Os caras assistem um filme e já vão alugando os outros. Acho que é um bom sinal.

Larissa Anzoategui

Baiestorf: Preciso destacar a ótima edição em DVD de Astaroth. Quando recebi minha cópia fiquei bastante empolgado, pois é bom demais ter o filme em mídia física na coleção. Diga como foi elaborada essa edição e, também, como os leitores do Canibuk podem comprá-lo para suas coleções.

Larissa Anzoategui: A parte mais difícil na produção do DVD foi encontrar um lugar que fizesse as cópias no tal esquema prensado. Tive dor de cabeça com algumas cópias do Red Hookers que foi apenas duplicado, em um lugar profissional e tudo o mais, mesmo assim deu problema. Enfim, além de exigir que fossem DVDs prensados e dual layer para que todo o material ficasse bonitão na tela, também corremos atrás de um designer (parceiro costumeiro Daniel Shaman/Bermudas estúdio) para criar a arte da capa, da bolacha e dos menus. Falando assim, até parece que foi tudo fácil, mas demorou vários meses. Depois de ter a arte pronta, ter achado uma empresa que iria fazer as cópias, tive um perrengue com o programa de edição, não conseguia exportar um arquivo decente, no formato para DVD. Enfim, quem salvou minha vida foi uma mina que também trabalha com audiovisual aqui de Campo Grande, a Catia Santos. Obrigada, Catia!

Para adquirir o DVD: https://astarothproducoes.com.br/pt/loja/dvds/dvd-astaroth/

Caso o frete assuste (estou pesquisando um meio de adicionar uma opção mais viável) pode entrar em contato comigo e comprar por depósito bancário. Consigo enviar com um frete mais camarada. E-mail: larissa.anzo@gmail.com

Um dos demônios de Astaroth

Baiestorf: Como está a produção/edição de seu novo filme, Domina Nocturna?Pode contar um pouco dos bastidores e previsão de lançamento?

Larissa Anzoategui: Tem um primeiro corte e muitos detalhes para mexer ainda. Era para ser um curta chamado Pallidus Domina. Chamamos um amigo (Joni Lima) para montar o cenário na sala de casa, que ficou tão legal que inspirou o Ramiro a escrever outras três histórias. Quando a gente viu o projeto de curtinha virou um longa de antologia e até eu acabei atuando. Esse filme tem um clima expressionista, não há diálogos, a ação fica por conta da expressão corporal e do som (trilha, efeitos sonoros). Não vejo a hora de vê-lo finalizado, o que provavelmente  vai acontecer em algum mês de 2021.

Monica sendo transformada em Astaroth

Baiestorf: Projetos?

Larissa Anzoategui: Além do Domina Nocturna, temos outros filmes em pós-produção. No começo deste ano rolou um acampamento produtivo aqui em casa. Formamos uma equipe com pessoas daqui, de São Paulo, do Rio e de Brasília. A maioria era o pessoal que trabalhou no Astaroth, a novidade no elenco foi a multi talentosa Larissa Maxine. Em duas semanas gravamos um longa e quatro curtas. Um dos curtas está finalizado rodando os festivais: A Janela da Outra. Pretendo lançar mais um dos curtas ano que vem e o longa Abissal, em 2020. Outro projeto é lançar um DVD com os curtas: Limerence, Red Hookers e A Janela da Outra.

Ninja Girl

Baiestorf: Seus filmes são produções independentes, sem uso de dinheiro público. Como você vê as políticas para a cultura brasileira, que irão aniquilar a produção, anunciadas pelo novo governo que deverá assumir o país em 2019?

Larissa Anzoategui: Estou preocupada com os rumos que a arte e a cultura podem tomar.Talvez este governo venha ser o ápice da atitude conservadora que a gente viu aparecer no Queermuseu. Soma-se a isso a perspectiva de acabar com os fomentos e a possibilidade de censura. Boom! Será que vai tudo pelos ares? Eu sei que muita gente produz com a grana de editais, o que está certo. É um trabalho danado fazer uma produção artística! Fico revoltada com pessoas que chamam artista de vagabundo. Mas acho que a gente vai ter que dar nossos pulos para não deixar a produção morrer. Vai ter que ser produção como uma forma de resistência.

Astaroth

Baiestorf: Você é diretora de filmes de horror. Ou seja, mulher e aborda assuntos considerados satânicos pelos evangélicos. Está sofrendo algum tipo de preconceito com sua obra?

Larissa Anzoategui: Às vezes os jornais locais fazem uma nota, ou matéria sobre os filmes da Astaroth Produções. Em uma dessas, li uns comentários bem de fanático religioso, dizendo que o filme é do capeta, que só Jesus salva. Eu nem me senti ofendida, dei risada. Só que no fundo dá um certo desespero constatar a falta de conhecimento das pessoas. Parece que a Idade Média permanece. Os líderes religiosos se aproveitam dessa falta de conhecimento, ao invés de mostrar as possibilidades de interpretação da bíblia, falam só do que acham que é o certo ou do que querem convencer seus seguidores. Eu sou cristã, mas não vou em igreja nenhuma, não dá, não bate minhas ideias. Só pra começar: faz muito sentido pra mim as pessoas escolherem ser ateias. Acho que desviei o assunto… Quanto ao machismo, provavelmente tem gente que acha algum defeito nos filmes ou julgam qualquer certa incapacidade por eu ser mulher. Nunca vieram me falar nada, só que eu não duvido. O mundo é machista e ponto.O que já aconteceu foi outra mulher dizer que meu filme, no caso, o Red Hookers, é machista. Já falaram que meu olhar ali é masculino por sexualizar as mulheres. Sei lá, não posso colocar a arte em uma caixinha e dizer: – Não, esse filme é isso e só!- as pessoas trazem as reflexões e vivências delas. Mas posso me defender. Minhas influências cinematográficas são cheias de peitos femininos e eu considero o corpo da mulher algo muito poderoso, um poder que vai além dessa ideia de só objetificação. Confesso que esses comentários sobre o Red Hookers me fizeram ficar pensando nessa questão do nu e filmes de terror. Tanto que agora estou desenvolvendo uma pesquisa num programa de mestrado sobre o assunto.

Larissa conferindo a fotografia

Baiestorf: Obrigado pela entrevista Larissa e, também, por ter feito um filme tão divertido. O Espaço é seu para considerações finais:

Larissa Anzoategui: Eu que agradeço a oportunidade! Agradeço pelo apoio desde que fiz aquela bagaceira de Zumbis do Espaço de Lá. Vou deixar aqui alguns links para quem quiser saber mais sobre a Astaroth Produções, como o endereço do nosso site. Lá tem informações sobre os filmes, ensaios fotográficos lindíssimos e produtos à venda para a gente pegar essa grana e transformar em novos filmes.

https://www.facebook.com/astarothprod/

https://astarothproducoes.com.br

Invoque Astaroth

O Cu: Moleza com Sacanagem Total

Posted in Bizarro, Fanzines, Literatura, Quadrinhos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 8, 2018 by canibuk

Moleza com Sacanagem Total

I.

O deserto tentou me engolir. Pulei fora e rolei em direção de uma grande e úmida circunferência. Tal circunferência possuía um odor característico fácil de ser identificado. Sim, possuía odor de cu. Era um cu gigante logo abaixo de um imenso deserto de pele e não areia como os bobos imaginaram. Tudo estava claro agora, claro como uma trepada gostosa sobre a relva e eu sempre tive razão: O cu era uma circunferência, portanto, redondo. Beijo o cu gigante feliz porque sempre estive certo e os professores é que estavam errados. O belo cu é redondo !!! Re-don-do !!! Olhando diretamente para o buraco que havia no centro de tão enorme e poderoso cu, vejo uma luz no fim do reto. Fiquei deverás curioso, pensando cá com meus ovos, louco para saber o que poderia haver no fundo do cu, se é que cu tem fundo. Será que no fundo do cu haveriam criaturas monstruosas ? Vermezinhos falantes ? Lombriguinhas dançantes ? Bactérias fecais intelectualizadas pela Globo ? Realmente estou muito curioso…

II.

O amor caiu junto da sujeira e ficou sujo. Com um pequeno esforço consegui entrar no cu ciente que se não conseguir ver as criaturinhas do cu – Culenses ? – finalmente ei de saber o que é aquela luz que brilha no interior do cu.

III.

Caminhei sempre seguindo em direção a luz que brilhava no horizonte pomposo. Meus pés afundavam na merda amolecida a cada passo. Cansado sentei num caroço sangrento que havia na tripa grossa. Parecia ser o início de uma úlcera maligna. O sangue meio coagulado, meio líquido, molhou minha bunda. Ironia ou não do destino, mas o fato é que agora havia um cu dentro de um cu, ou seja, meu cu dentro daquele enorme cu solitário no deserto de pele. Melhor um cu dentro de um cu do que um cu com cu. Porém, para minha surpresa, o tal cu gigante possuía vários cuzinhos em seu interior. Suas paredes cheias de remelas e cascas fecais secas possuíam uma imensa galeria de cus de todos os tipos e variados cheiros. E para espanto geral, aqueles cuzinhos pequeninos falavam. Porra do caralho caralhudo, um cu gigante que tem vários cuzinhos e um cuzão dentro dele. Aliás, tem dentro dele um cuzão com seu próprio cu, perplexo, olhando descaradamente para a parede de cuzinhos falantes. Bem, aproveitarei a oportunidade e farei perguntas, como todo bom curioso deve se portar.

IV.

Sentado na úlcera pergunto aos cuzinhos do cu sobre a misteriosa luz que havia a nossa frente. Eles, sempre em coro – depois descobri que todos os cuzinhos faziam parte de um único cérebro pensante e todo poderoso – me respondem que aquela luz é o centro do Universo e que dali surgiu tudo já expurgado para dentro da humanidade. E completam ainda que todos são iguais perante a luz e aqueles que são diferentes são expurgados de volta a humanidade. Pensei: “Porra, eu sou diferente !!! Sou um cuzão humano com um cu e não um cu soberano com vários cuzinhos !”. Os cuzinhos gargalham debochando de mim. A luz, o centro de todo o Universo, faz um estrondo ensurdecedor e gases me carregam para fora do enorme cu que havia no deserto de pele. Enquanto vôo para fora do todo poderoso cu que rejeita os diferentes, fico pensando: “Bem que isso tudo poderia se chamar ‘O Centro Da Humanidade É Uma Luz Sem Forma Com Pequeninos Guardiões Que Falam Toda E Qualquer Língua’ !!!” e no chão caio, batendo minha cabeça no deserto, esfolando meu queixo. Finalmente sei de toda a verdade, mas acho que não irá adiantar nada pois certamente passarei por um profeta do caos enlouquecido e a esmo deverei vagar pela eternidade.

Texto de Petter Baiestorf.

Em 2000 o desenhista Reginaldo criou a HQ “O Cu“, inspirado no texto “Moleza com Sacanagem Total“, que editei no fanzine ARGHHH #29, e versava sobre o cidadão classe média brasileiro. Segue o resgate da HQ aqui: