Loucos pelo Rabo da Sereia

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 28, 2016 by canibuk

Gums (1976, 70 min.) de Robert J. Kaplan. Com: Terri Hall, Brother Theodore, Robert Kerman e Jody Maxwell.

gums1Em 1975 o mundo foi tomado de assalto pelo lançamento de “Jaws/Tubarão” do jovem cineasta Steven Spielberg e o terror tomou conta das praias fazendo com que o cidadão comum ficasse escondido no conforto dos cinemas. Os produtores de cinema aproveitaram isso realizando, à toque de caixa, ótimas paródias para o grande sucesso . Aqui no Brasil, ainda no mesmo ano de lançamento de “Jaws”, Adriano Stuart botou no mercado o impagável “Bacalhau”. Nos USA o produtor Robert J. Kaplan resolveu parodiar o filme incluindo bem-vindas cenas de sexo explícito e lançou “Gums”, estrelado pela belezoca Terri Hall.

gums2“Gums” conta a história de uma pequena cidade costeira que é atacada por uma sereia que suga a energia vital de suas vítimas. O prefeito da cidade vai cobrar providências do xerife e enquanto discutem acaba recebendo um molhado boquete da secretaria do xerife (as cenas de insert da felação são a mais pura zoeira, não dando para saber se o ator branco ganhou um dublê de pau negro propositalmente ou se foi incompetência da produção). Em ótima referência ao filme “Moby Dick” (1956), de John Huston, surge o capitão Carl Clitoris (em seu uniforme nazista) e faz um inflamado discurso durante uma reunião dos líderes da cidade dizendo que vai acabar com a deliciosa criatura sugadora de homens. Em meio a uma legião de cidadãos loucos que caçam a sereia é, também, chamado o oceanógrafo Sy Smegma para resolver o problema e assim “Gums” vai ficando cada vez mais nonsense e parte para uma transa do xerife com sua esposa (que ao invés de mostrar a relação humana mostra dois cachorros em relação carnal) até que são interrompidos por Smegma que traz uma boneca inflável para ele e o delegado discutirem o que farão para combater a sereia. Assim a esposa do xerife, que ficou sozinha, chupa uma fantoche (pistas para o final do filme?) e, não saciada pelo boneco, se dirige até onde estão os heróis e transa com os dois enquanto nós do público acompanhamos uma cena, fora de contexto, que mostra uma mulher se esfregando num poney enquanto um pessoal feio se masturba alucinadamente. Mais bagunçado, impossível! Após essas liberdades libertinosas o filme volta a parodiar “Jaws” e os heróis seguem com um barco para o alto mar no intuito de eliminar a sereia boqueteira. Antes do final do filme ainda somos brindados com duas cenas memoráveis: primeiro a sereia sai d’água e bota sua aranha para brigar com a aranha de uma índia gostosa fazendo uma dança erótica após a briga e, já no barco, Smegma esta batendo uma punheta no banheiro e a sereia invade o barco pelo sanitário para chupá-lo. Como a mente dos produtores picaretas é uma explosão de criatividade cafajeste exemplar, na seqüência final as personagens masculinas se tornam fantoches para o enfrentamento final, e mortal, com a estranha criatura marítima sugadora de homens.

gums3“Gums teve a direção de Robert J. Kaplan que não seguiu na carreira cinematográfica. Seu primeiro trabalho foi no curta-metragem “Geronimo Jones” (1970) de Bert Salzman, o suficiente para que ele se animasse com a indústria de cinema. Em 1972 Kaplan usou suas economias para levantar a produção da comédia dramática musical “Scarecrow in a Garden of Cucumbers”, uma tranqueira estrelada por Holly Woodlawn que anos antes havia estado no elenco de “Trash” (1970) e “Women in Revolt” (1971), ambos filmes de Paul Morrissey, e Tally Brown, atriz que também pertencia ao círculo de Andy Warhol, tendo estrelado “Batman Dracula” (1964); “Camp” (1965) e “****” (1967), todos com direção do mago do pop. Sua última tentativa com cinema foi justamente “Gums” na esperança de lucrar com o mercado adulto.

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Terri Hall

O elenco de “Gums” é uma espécie de seleção “The Best” dos filmes adultos da década de 1970, a começar pela lindíssima Terri Hall no papel da sereia tarada. Terri, nascida em 1953 e falecida em 2007, esteve no elenco de inúmeros clássicos do cinema pornô. Em 1975 participou do rape and revenge “Terri’s Revenge!” dirigido pelo ator Zebedy Colt; logo em seguida fez “The Story of Joana” (1975), drama adulto classudo de Gerard Damiano, onde interpretou a personagem título; “The Divine Obsession” (1976), produção da fase pornô de Lloyd Kaufman (usando o pseudônimo Louis Su) que depois viria a se tornar o presidente-fundador da Troma; “Honey Pie” (1976) de Howard Ziehm (não creditado), que dois anos havia realizado o imperdível “Flesh Gordon” em parceria com Michael Benveniste. “The Opening of Misty Beethoven” (1976) de Radley Metzger, que assinava suas obras com o nome Henry Paris (pornófilos lembrarão dele); “Fantasex” (1976), produção da fase pornô de Roberta Findlay (usando o pseudônimo Robert Norman); “Sex Wish” (1976) de Victor Milt (sob pseudônimo de Tim McCoy); “The Ganja Express” (1978) de Richard MacLeod, uma tentativa no cinema exploitation. Jody Maxwell, que em “Gums” interpretava a “Miss Mayhem”, esteve no elenco do blaxploitation “Bucktown” (1975) de Arthur Marks, onde dividiu cena com Fred Williamson e Pam Grier; foi atriz principal no pornô “The Devil Inside Her” (1977) de Zebedy Colt (também com Terri Hall); e nos clássicos adultos “The Satisfiers of Alpha Blue” (1980) de Gerard Damiano e “A Girl’s Best Friend” (1981) de Henri Pachard. Crystal Sync, que em “Gums” usa o pseudônimo de Rachel McCallister, trabalhou em mais de 40 filmes, quase sempre usando nomes diferentes. Em “The Night of Submission” (1976) de Joe Davian, assinou como Petula Smith; em “The Incredible Torture Show” (1976), mais conhecido pelo título alternativo “Bloodsucking Freaks” de Joel M. Reed, assinou como Erica Wolfe; em “The Fox Affair” (1978) de Fereidun G. Jorjani, assinou como Eden Whitefield e no clássico “Maraschino Cherry” (1978) de Radley Metzger (Henry Paris), como Jenny Lind. Confuso? Crystal usou ainda outros pseudônimos como Chriss Williams, Inga Fox, Erica Baron, Eleanor Barnes, Cara Mogul, Sandy Long, Melinda Sol e outros nomes para (tentar) se proteger da hipocrisia humana que aceita psicopatas assassinos mas condena atrizes pornôs. Curiosamente ela assinou com seu nome alguns filmes, como o pornô de William Lustig “The Violation of Claudia” (1977); “Punk Rock” (1977), putaria de Carter Stevens e “The Tiffany Minx” (1981) de Roberta Findlay não creditada.

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Atores de “Gums” se divertindo.

Entre os atores de “Gums” encontramos Brother Theodore” (nascido Theodore Gottlieb) que iniciou sua carreira cinematográfica em “The Strange/O Estranho” (1946) de Orson Welles e depois passou a freqüentar produções B com grande afinco. Também abrilhantou lixos como “Horror of the Blood Monsters” (1970) de Al Adamson; “Gang Wars” (1976), uma mistura envolvendo kung fu e demônios malignos saídos da cabeça do diretor Barry Rosen; o vampiresco “Nocturna” (1979) de Harry Hurwitz (sob pseudônimo de Harry Tampa), até a produção hollywoodiana “The ‘Burbs/Meus Vizinhos São um Terror” (1989) de Joe Dante, divertida comédia estrelada por um Tom Hanks antes da fama. E o Richard Lair creditado em “Gums” (que intrepretou o papel de Sy Smegma) é Richard Bolla (seu nome real é Robert Charles Kerman), uma lenda da indústria pornô americana tendo estrelado mais de 180 filmes, de filmes adultos  clássicos como “Debbie Does Dallas” (1978) de David Buckley (sob pseudônimo de Jim Clark), passando por filmaços do porte de “Cannibal Holocaust” (1980) de Ruggero Deodato e “Mangiati Vivi/Os Vivos Serão Devorados” (1980) de Umberto lenzi, até blockbusters como “Spider-Man/Homem-Aranha” (2002) de Sam Raimi em início da decadência. O pornô, definitivamente, esconde inúmeros (e variados) talentos.

Como curiosidade: a música de “Gums” foi composta por Brad Fiedel em início de carreira, anos depois ele realizou trabalhos famosos em super-produções como “The Terminator/O Exterminador do Futuro” (1984) de James Cameron e “Fright Night/A Hora do Espanto” (1985) de Tom Holland.

por Petter Baiestorf.

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Casamento na Pocilga

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Vase de Noces (“One Man and His Pig”, 1975, 80 min.) de Thierry Zéno. Com: Dominique Garny.

vase-de-noces3Essa produção é única, um perfeito exemplo da tênue linha que separa o cinema de arte do cinema vagabundo (ou vice-versa, já que ambos são estilos indispensáveis de cinemas feitos para públicos muito específicos). “Vase de Noces” conta a história de um fazendeiro que se apaixona por uma porca e, depois de muita farra sexual pelas pocilgas da fazenda, tem porquinhos mutantes com ela. O fazendeiro é meio transtornado e gosta de matar animais por diversão, também tem uma estranha fixação por cabeças de bonecas e recolhe suas fezes em frascos de vidro, mas assim que seus filhotinhos nascem ele tenta se aproximar deles e ser um bom pai. Essas tentativas são meio inúteis e os filhotinhos preferem sua mãe deixando-o com raiva, até que mata seus entes queridos num ataque de fúria paternal. Como num bom drama de Hollywood às avessas, a porca descobre os filhotinhos mortos e desesperada se suicida num lamaçal deixando o fazendeiro zoófilo desesperado quebrando todos seus pertences e, após elaborar uma infusão a base de fezes e urina, se enforca finalizando este tocante drama do absurdo.

vase-de-noces2Produzido na Bélgica, “Vase de Noces” nunca teve um lançamento comercial nos cinemas. Foi proibido em quase todo o mundo (na Austrália, por exemplo, continua proibido), fato que relegou ao filme a fama de maldito e o seu quase desaparecimento por completo. As poucas cópias da produção sobreviveram graças à festivais de cinema de arte que, de tempos em tempos, exibiam-no. Lembro que em meados da década de 1990 o filme era uma verdadeira relíquia rara e quando consegui uma cópia dele em VHS com pirateiros do Canadá me senti um verdadeiro felizardo por estar pondo meus olhos e mente em filme tão obscuro. Nos dias de hoje com a internet funcionando como uma verdadeira cinemateca global não existem mais filmes obscuros, é só pesquisar, fazer o download e assistir essas belezinhas esquecidas da sétima arte.

vase-de-nocesO diretor Thierry Zéno nasceu em 1950 na cidade de Namur, Bélgica. É um destes cineastas que filma pouco mas que sempre tem o que dizer/mostrar e influencia muitos outros cineastas com seu estilo cru e selvagem (Jörg Buttgereit me parece ser bem influenciado por ele). Depois de “Vase de Noces” realizou o documentário “Des Morts” (1979) repetindo a parceria com Dominique Garny e Jean-Pol Ferbus que já estavam trabalhando no filme anterior. Neste mórbido documentário os diretores visitaram vários países para registrar como as pessoas de diferentes locais lidam com a morte. Tomando gosto pelos documentários realizou em 1983 “Les Muses Sataniques”, novamente em parceria com Dominique Garny. Em 1987 realizou “Eugène Ionesco, Voix ET Silences” com o criador do teatro do absurdo. Nos anos de 1990 Zéno voltou suas lentes para o México e realizou dois interessantes documentários. O primeiro foi “Chroniques D’um Village Tzotzil” (1992) que levou quase dez anos para ser realizado com Thierry Zéno fazendo várias viagens, entre 1984 e 1992, à uma comunidade nos arredores de San Cristobal de las Casas até conseguir ganhar a confiança dos índios mexicanos e assim colher depoimentos. Em seguida realizou “Ya Basta!: Le Cri Des Sans-Visage” (1997) sobre vários municípios de Chiapas e a relação dos índios pobres com o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Zéno também foi o responsável pela criação de um departamento de vídeo na Acadêmia de Dessin et des Arts Décoratifs de Molenbeek-Saint-Jean, onde foi professor e, a partir de 1999, diretor. Como curiosidade, em 1975 Zéno foi ator na comédia “Grève et Pets”, um curta de 16 minutos dirigido por Noël Godin e Yolande Guerlach (ambos assinam a obra com o pseudônimo Les Boudou).

vase-de-noces4“Vases de Noces” é bastante conhecido como “The Pig Fucking Movie”, seu título informal de internet, mas que nunca foi utilizado oficialmente em nenhum de seus raros relançamentos. O filme foi lançado em DVD na Alemanha pela distribuidora Camera Obscura e na Suécia pela Njuta Films. No Brasil continua inédito, sendo eventualmente exibido em mostras de filmes com curadoria de Gurcius Gewdner ou minha e em cineclubes que primam pela exibição de obscuridades da sétima arte.

por Petter Baiestorf para seu livro “Arrepios Divertidos”.

Assista o filme aqui:

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Viradão de Cinema Fantástico no Festival de Cinema de Vitória

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O cinema fantástico nacional está na moda e está ganhando visibilidade em inúmeras mostras de cinema que não tem tradição na exibição de produções neste gênero. Em 2014 já havia ganho a “Mostra Bendita” na Mostra de Cinema de Tiradentes com a exibição do longa “As Fábulas Negras” de José Mojica Marins, Rodrigo Aragão, Joel Caetano e Petter Baiestorf e a produção “Noite” de Paula Gaitán. Leia a história do Cinema Fantástico Brasileiro aqui no Canibuk.

Agora é a vez do Festival de Cinema de Vitória incluir em sua programação uma pequena mostra, intitulada “Viradão Novo Cinema de Horror“, na sua programação, atestando que finalmente os grandes festivais de cinema estão percebendo que o Cinema Fantástico brasileiro tem um grande apelo junto ao público.

No dia 19 de novembro, um sábado, com início à 01 hora da madrugada no Teatro Carlos Gomes, com previsão de acabar somente às 07 da manhã do mesmo sábado, o viradão promete uma divertida noitada aos cinéfilos que se aventurarem pelos domínios do gênero fantástico brasileiro. Acompanhe as novidades do Festival pelo site oficial: http://festivaldevitoria.com.br/23fv/

Os seguintes filmes estão programados no Viradão:

“13 Histórias Estranhas” (Ficção, 90′, SC, 2015), de Fernando Mantelli, Ricardo Ghiorzi, Cláudia Borba, Petter Baiestorf, Marcio Toson, Cesar Coffin Souza, Rafael Duarte, Taísa Ennes Marques, Gustavo Fogaça, Renato Souza, Leo Dias de los Muertos, Paulo Biscaia Filho, Felipe M. Guerra, Filipe Ferreira, Cristian Verardi. Filme coletânea. São 13 histórias curtas, onde o numeral é a base do roteiro.
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“A Casa de Cecília” (Ficção, 102′, RJ, 2015), de Clarissa Alpett. Cecília tem 14 anos e está sozinha em casa há duas semanas. Após dias intercalados de solidão e euforia, Lorena, uma adolescente misteriosa, surge em sua casa. Apesar da nova companhia, a casa parece ficar cada vez mais vazia e os eventos, cada vez mais peculiares.
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“Encontro Às Cegas” (Ficção, 10′, RJ, 2016), de Isabela Costa. Quando um vampiro cego, em pleno 2016, atrai suas vítimas por meio de aplicativos de celular, uma surpreendente chegada muda o rumo da noite.
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“O Diabo Mora Aqui” (Ficção, 80′, SP, 2015), de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini. Jovens numa casa assombrada.
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“O Duplo” (Ficção, 25′, SP, 2012), de Juliana Rojas. Silvia é uma jovem professora em uma escola de ensino fundamental.  Certo dia, sua aula é interrompida quando um dos alunos vê um duplo da professora andando no outro lado da rua. Silvia tenta ignorar a aparição, mas este evento perturbador passa a impregnar seu cotidiano e alterar sua personalidade.
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“O Segredo da Família Urso” (Ficção, 20′ SC, 2014), de Cíntia Domitt Bittar. 1970, ditadura militar brasileira. Geórgia, uma menina de 8 anos, é proibida de entrar no porão de sua casa, onde costumava brincar. Longe dos olhos dos pais e da velha babá, Geórgia encontra a porta destrancada: há alguém lá dentro.
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Quem estiver em Vitória/ES nesta data, fica aqui a dica para aproveitar o viradão. O fantástico brasileiro é o gênero cinematográfico nacional que mais tem conseguido, por conta própria, espaço em importantes festivais pelo mundo. “Zombio 2” (Petter Baiestorf), “Mar Negro” (Rodrigo Aragão), “Cabrito” (Luciano de Azevedo), “Encosto” (Joel Caetano), “Bom Dia, Carlos!” (Gurcius Gewdner), “FantastiCozzi” (Felipe M. Guerra), “Nervo Craniano Zero” (Paulo Biscaia) são apenas alguns dos filmes brasileiros que tem sido exibidos em vários festivais importantes do gênero fantástico por todas as partes do mundo. E é muito bom ver o gênero sendo reconhecido, também, em festivais de cinema brasileiro.
Bom Viradão à todos e obrigado por prestigiarem o cinema fantástico nacional!
Assista o documentário que o Canal Brasil produziu sobre o cinema fantástico brasileiro:
https://www.youtube.com/watch?v=XiSl3sb0MTY

 

 

Viagem ao Céu da Boca

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Viagem Ao Céu da Boca (1981, 82 min.) de Roberto Mauro. Com: Bianca Blonde, Eduardo Black, Angela Leclery, Eliane Gomes e Leovegildo Cordeiro.

viagem-ao-ceu-da-boca1Cada vez mais atual, “Viagem ao Céu da Boca” é um pornô com crítica social produzido no final da ditadura militar brasileira. Na história um bandidinho pé de chinelo (Eduardo Black) invade a mansão de uma ninfomaníaca (Bianca Blonde) que exige que a violente. Não muito a vontade com a milionária tarada o bandido se engraça pela travesti Paula (Angela Leclery) que estava visitando a mansão e a tortura com requintes de crueldade e a cumplicidade da ricaça. Não satisfeito com a sessão sadomasoquista que aplicou no travesti ainda estupra uma ninfetinha (Eliane Gomes, claramente uma mulher de uns 20 anos no papel de menininha de 13) desvirginando-a de modo grosseiro. Neste momento o travesti volta como uma espécie de pomba-gira do além das macumbas cinematográficas e dá um nó no pênis do bandido que desperta de seu sonho dentro de uma prisão e é torturado pela policia.

roberto-mauroCom uma produção simples e barata, mas muito eficiente em criar um climão de pesadelo sexual, “Viagem ao Céu da Boca” tem direção do veterano Roberto Mauro. Nascido no Rio de Janeiro em 1940 (e falecido em 2004), entrou nos negócios cinematográficos em 1972 realizando o documentário “Sai Dessa, Exu!” e seu primeiro longa de ficção, “As Mulheres Amam por Conveniência”, uma comédia estrelada pelo ator global Tony Vieira, Wanda Kosmo e os diretores Clery Cunha e Cláudio Cunha. Na onda do sucesso de “The Godfather/O Poderoso Chefão” (1972), de Francis Ford Coppola, produziu “O Poderoso Machão” (1974), comédia escrita por Cláudio Cunha. Dono de um senso de humor cretino, realizou todo tipo de filmes, mas sempre misturados a comédia que era sua paixão. “As Mulheres Sempre Querem Mais” (1974), escrito pelo também diretor Luiz Castellini (do horror Cult “A Reencarnação do Sexo”, 1982) e “As Cangaceiras Eróticas” (1974), zoeira com o cangaço estrelado pelas beldades Helena Ramos e Matilde Mastrangi, foram sucesso e definiram seu estilo de fazer cinema lucrativo no Brasil. Outros filmes de Roberto Mauro foram delícias como “O Incrível Seguro de Castidade” (1975); “Pesadelo Sexual de um Virgem” (1976); “A Ilha das Cangaceiras Eróticas” (1976), continuação de seu sucesso de 1974, muito mais retardado e nonsense do que o primeiro e trazendo no elenco Aldine Muller, Carlos Imperial, Wilza Carla e Índio Paraguaio; “Desejo Violento” (1978), suspense policial escrito pelos diretores Ozualdo Candeias e Luiz Castellini; “A Praia do Pecado” (1978), outro policial (que tem argumento de Carlos Reichenbach); “Eu Compro Essa Virgem” (1979), comédia com roteiro de Ody Fraga; “Taradas no Cio” (1983); “Etéia, A Extraterrestre em sua Aventura no Rio” (1983), uma comédia arriada com Zezé Macedo e o pornô “Solar das Taras Proibidas” (1984), lançado na selvagem década de 1980 que foi quando nosso cinema mais produziu verdadeiros clássicos da escatologia e do mau gosto.

Bianca Blonde

Bianca Blonde

O blog “Estranho Encontro” conta que Bianca Blonde e Eduardo Black não se sentiam atraídos um pelo outro e suas cenas eram difíceis de serem filmadas devido a implicância que nutriam um pelo outro. Também conta que o travesti Angela Leclery foi escolhido numa sessão de testes que reuniu a mais “fina flor do submundo carioca” e foi selecionado tanto por suas capacidades ativas quanto passivas. Este mesmo blog entrevistou José Louzeiro, roteirista de “Viagem ao Céu da Boca”, que nutre um ódio todo especial pelo filme e seu diretor: “Não fiz o roteiro, nem sei quem fez. Era pra ter sido baseado no meu conto. Aí fui ver, já estava na fase de edição, e fiquei horrorizado. Disse pra tirar meu nome daquela imundície, ele (Roberto Mauro) jurou que ia tirar e não tirou. Era mal pagador, não me pagou um tostão, e o pior é que ele queria fazer outro filme. Roberto Mauro foi um cineasta de triste memória, uma vergonha para a classe!”.

Independente das discórdias entre os responsáveis pela produção de “Viagem ao Céu da Boca”, é um filme bem interessante que merece ser (re)descoberto por uma nova geração de cinéfilos antes que se perca na (falta de) memória cultural do povo brasileiro. Em tempo: Vale ressaltar a genialidade do título “Viagem ao Céu da Boca”. Seria o céu da boca todo povoado de bandidos, travestis, ninfomaníacas em uma suruba eterna?… Quero acreditar que sim e quero ir prá lá!!!

Por Petter Baiestorf para seu livro “Arrepios Divertidos”.

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Ponto de Ruptura: Lições de Cinema Comercial para Iniciantes

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Breaking Point (1975, 95 min.) de Bo Arne Vibenius. Com: Andreas Bellis, Irena Billing, Jane McIntosch e Susanne Audrian.

breaking-point1Bob Bellings (Andreas Bellis) é um executivo que acha que toda interação que tem com as mulheres, mesmo que estranhas, possui conotação sexual. Assim o nada pacato cidadão esquizofrênico começa a fantasiar relações sexuais tornando o público seu cúmplice nas bestialidades que pratica e, sem saber distinguir fantasia da realidade, acaba estuprando e matando mulheres, desembocando numa fuga alucinada cheia de sexo explícito, violência e horror.

Assista o trailer:

breaking-point2Não tão pretensioso quanto em “Thriller – Em Grym Film/Thriller: They Call Her One Eye” (1973), seu filme anterior, Bo Arne Vibenius avançou um pouco nas suas teorias do que seria cinema comercial, desta vez com a pornografia integrada na história indo muito além das cenas de sexo explícito enxertadas (para as cenas de sexo explícito de “Thriller” ele contratou um casal que fazia apresentações de sexo explícito ao vivo em boates de terceira categoria da Suécia). Bo Arne Vibenius nasceu em 1943 na Suécia e iniciou carreira no cinema como assistente de direção de Ingmar Bergman em “Persona” (1966) e “Vargtimmen/A Hora do Lobo” (1968). Trabalhar como assistente do renomado diretor lhe permitiu tentar a produção/direção de seu próprio filme e assim o fez com “Hur Marie Träffade Fredrik” (1969), uma fantasia familiar que foi um tremendo fracasso de público. Decidido a fazer “o filme mais comercial de todos os tempos” para recuperar o dinheiro investido na produção anterior, Vibenius (usando o pseudônimo de Alex Fridolinski) concebeu o sádico “Thriller: They Call Her One Eye”, onde misturou extrema violência (boatos dizem que ele utilizou um cadáver real para filmar a cena onde arranca o olho) e sexo explícito. “Thriller” acabou virando um clássico do cinema selvagem e foi proibido até mesmo na Suécia, um dos países mais tolerantes do mundo. Logo em seguida, mostrando que aprendeu a lição em partes, Vibenius (desta vez utilizando o pseudônimo de Ron Silberman Jr.) aumentou as doses de sexo e diminuiu a violência neste “Breaking Point”, numa clara tentativa de lucrar no mercado pornográfico da Suécia e Dinamarca, países que haviam liberado a produção de cinema adulto tirando-o da clandestinidade. Mesmo não tendo mais produzido/dirigido filmes, Bo Arne Vibenius continuou trabalhando na indústria cinematográfica em produções dos mais variados estilos como nos dramas “Hempas Bar” (1977) de Lars G. Thelestam; “Tabu” (1977) de Vilgot Sjöman; “Ga Pa Vattnet Om Du Kan” (1979) de Stig Björkman e a comédia “Raskenstam” (1983) de Gunnar Hellström, onde voltou a ser assistente de direção.

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Bo Arne Vibenius

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Andreas Bellis

Andreas Bellis, que interpreta o atormentado psicopata de “Breaking Point”, não era ator (sua única experiência atuando havia sido no drama “Jag Heter Stelios”, 1972, de Johan Bergenstrahle), mas sim câmera tendo, inclusive, feito a direção de fotografia de “Thriller”, o tal “filme mais comercial do mundo” idealizado por Vibenius. Outros filmes onde trabalhou como câmera (ou diretor de fotografia) incluem o pornô “Porr I Skandalskolan/The Second Coming of Eva” (1974) de Mac Ahlberg; a comédia “O Gyrologos” (1980) de Panos Glykofrydis e os filmes de horror “Blind Date/Visão fatal” (1984); “The Wind/O Sopro do Diabo” (1986) e “In The Cold of the Night/No Frio da Noite” (1990), todos filmes dirigidos pelo gênio incompreendido Nico Mastorakis. Já as atrizes de “Breaking Point” não seguiram carreira no cinema, tendo todas suas estrelas apagadas no acender das luzes dos pulgueiros onde o filme foi exibido.

 

Como curiosidade: Ralph Lundsten, o compositor da trilha sonora de “Breaking Point” (e também de “Thriller”), foi diretor de vários curtas-metragens. Também compôs a trilha de filmes como “Som Hon Bäddar Far Han Ligga” (1970) de Gunnar Höglund e “Exponerad” (1971), drama erótico de Gustav Wiklund estrelado pela atriz Christina Lindberg.

O cinema exploitation sueco, infelizmente, continua inédito e pouco conhecido no Brasil.

por Petter Baiestorf para seu livro “Arrepios Divertidos”.

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Pelados para Satanás

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Nuda Per Satana (“Nude For Satan”, 1974, 82 min.) de Luigi Batzella (sob pseudônimo de Paolo Solvay). Com: Rita Calderoni, Stelio Candelli e James Harris.

nuda-per-satanaUm médico (Candelli) em viagem pelo campo encontra uma mulher (Rita Calderoni) inconsciente em seu carro acidentado e, em sua busca por ajuda, chegam até um castelo isolado onde um espelho lhes mostra o lado negro de suas almas numa eletrizante aventura macabra-sexual que pede que você, espectador, desligue a lógica e se divirta. “Nuda Per Satana” é uma produção de baixo orçamento que conseguiu criar uma atmosfera bem pesada para seu horror experimental, quase surreal, funcionar dentro de suas limitações. Os créditos iniciais sobre o capô de um fusca são ridículos, o acidente de carro, logo em seguida, é sem noção (ouve-se o barulho do carro batendo e um pneu rola pela estradinha de terra, depois o carro é revelado sem nada estragado, nem o pneu que rolou está faltando), mas a ambientação no castelo com sua narrativa cheia de inserções de sexo explícito, seus incontáveis zoons sem razão de existirem, câmera desfocada, cortes secos e ritmo de pesadelo satânico fazem do filme uma diversão de primeira grandeza (em vários momentos lembra as produções do espanhol Jesus Franco).

nude_for_satan_titlesLuigi Batzella, um cineasta italiano medíocre geralmente comparado ao americano Edward D. Wood Jr., nasceu em 1924 (e faleceu em 2008) e fez a maioria de seus filmes usando o pseudônimo de Paolo Solvay. Como todo bom cineasta classe Z produziu filmes nos mais variados gêneros na vã tentativa de capitalizar uns trocados com gêneros que estavam na moda. Estreou como diretor com o drama “Tre Franchi di Pietà” (1966) usando o pseudônimo de Paul Hamus e estrelado pelo ator Gino Turini (dos clássicos “L’Amante Del Vampiro/The Vampire and the Ballerina” (1960) de Renato Polselli e “Il Boia Scarlatto/Bloody Pit of Horror” (1965) de Massimo Pupillo). Começou os anos de 1970 tentando ganhar dinheiro com westerns e realizou “Anche Per Django le Carogne Hanno um Prezzo” (1971); “Quelle Sporche Anime Dannate” (1971) e “La Colt Era il Suo Dio/O Colt era o Seu Deus” (1972), os três estrelados por Jeff Cameron e que passaram desapercebidos da audiência dos bangüê bangüês. Com Rosalba Neri (a Lisa do Cult “The Castle of Fu Manchu” (1969) do gênio Jesus Franco) e Mark Damon (de inúmeros spaghetti westerns) realizou a comédia ligeira “Confessioni Segrete di um Convento di Clausura” (1972) e entrou de cabeça no horror com “Il Plenilunio Delle Vergini/O Castelo de Drácula” (1973), um lixo cinematográfico que fez com que Rosalba usasse o pseudônimo de Sara Bay. Depois de “Nude Per Satana” Batzella despirocou de vez e passou a fazer filmes ainda mais selvagens como “Kaput Lager – Gli Ultimi Gioni Delle SS/Achtung! The Desert Tigers” (1977), um delicioso nazixploitation onde o nazista chefe de um campo de concentração sente prazer chicoteando as prisioneiras e “La Bestia in Calore/SS Hell Camp” (1977), outro nazixploitation repleto de garotas nuas e atrocidades (tanto sexuais, quanto cinematográficas), produções essas onde assinou a direção com o pseudônimo de Ivan Kathansky. Com seu filme de ação “Strategia Per uma Missione di Morte” (1979), estrelado por Richard Harrison e Gordon Mitchell, a distribuidora francesa usou o pseudônimo de A. M. Frank nas cópias, mesmo pseudônimo usado nas cópias francesas de alguns filmes de Jesus Franco, a exemplo do maravilhoso “La Tumba de los Muertos Vivos/Oasis of the Zombies” (1982, lançado em DVD no Brasil pela distribuidora Vinny Filmes com o título de “Oásis dos Zumbis”), provando que quando você produz uma série de lixo cinematográficos é melhor plantar o caos e a confusão na mente do espectador para fazê-lo continuar a consumir suas obras. Seu último filme como diretor foi o inacreditavelmente hilário bruceploitation “Challenge of the Tiger” (1980) estrelado por Bruce Le (um clone do lendário Bruce Lee, nascido como Kin Lung Huang, responsável por pérolas do quilate de “Zui She Xiao Zi/Bruce Lee – King of Kung Fu” (1982), co-dirigido por Darve Lau, e “Bruce the Super Hero” (1984), que também trás Bolo Yeung no elenco) e que conta a história de dois agentes da CIA lutando contra um grupo neonazista. Nos USA a Mondo Macabro lançou “Challenge of the Tiger” num DVD Double Feature com “For Your Eight Only” (1981), clássico estrelado pelo anão Weng Weng e dirigido por Eddie Nicart. Melhor dupla de filmes num DVD, impossível.

nudeforsatan_frame1

nuda-per-satana_export“Nuda Per Satana” é estrelado pela bela Rita Calderoni que se especializou em papéis em filmes de suspense e horror de produção duvidosa. Em 1969 esteve no elenco de “La Monaca di Monza/A Monja de Monza” de Eriprando Visconti. Depois de fazer pequenas participações em filmes de diretores conceituados como Ettore Scola, Rita trabalhou no horror “La Verità Secondo Satana” (1972) de Renato Polselli e tomou gosto pelo sangue de groselha. Ainda com Polselli fez o thriller “Delirio Caldo/Delirium” (1972) já em papel principal na trágica história de um médico que se torna o suspeito de uma série de assassinatos e o delirante clássico satânico “Riti, Magie Nere e Segrete Orge Nel Trecento…/The Reincarnation of Isabel” (1973) onde um grupo de vampiros busca o sangue de uma virgem para ressuscitar uma poderosa bruxa. Como europeu aceita de boa a participação de atores e atrizes em filmes adultos, depois de “Nuda Per Satana” Rita esteve no elenco do classudo “Anno Uno” (1974), drama sério e com boa produção sobre a reconstrução da Itália pós o regime fascista dirigido por Roberto Rossellini.

nude-for-satanJá Stelio Candelli, o canastrão herói mal dirigido de “Nuda Per Satana, é outra figura muito conhecida dos fãs de horror europeu. Em 1965 esteve no elenco do sci-fi gótico “Terrore Nello Spazio/O Planeta dos Vampiros” de Mario Bava, que também trazia em seu elenco a brasileira Norma Bengell. Em 1972 estrelou o suspense “La Morte Scende Leggera” do diretor Leopoldo Savona. Versátil como todo ator europeu, esteve no elenco de “From Hell to Victory” (1979), filme de guerra dirigido pelo especialista em filmes baratos Umberto Lenzi; “La Cage Aux Folles II/A Gaiola das Loucas 2” (1980), comédia homossexual de Édouard Molinaro que marcou época; e voltou ao gênero horror pelas mãos de Lamberto Bava em “Dèmoni/Demons – Filhos das Trevas” (1985).

Infelizmente “Nuda Per Satana” continua inédito em vídeo no Brasil (mas claro que ele é relativamente fácil de ser encontrado para download nestes tempos de mundo virtual).

escrito por Petter Baiestorf para o livro “Arrepios Divertidos”.

Assista “Nuda per Satana” aqui:

Caranguejos Ensandecidos

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 27, 2016 by canibuk

Island Claws (1980, 90 min.) de Hernan Cardenas. Com: Robert Lansing, Steve Hanks, Nita Talbot e Barry Nelson.

islandclawsUm grupo de cientistas realiza experimentos biológicos em algum lugar da Florida que se revelam nocivos aos caranguejos. Os pacatos crustáceos ficam irritados e começam atacar os humanos que encontram pelo caminho, até um deles crescer além da conta e virar um horrendo gigante sedento por sangue nesta produção que arranca muitas risadas involuntárias da plateia com suas cenas de suspense e pavor nulas – nada funciona direito no filme.

island-claws_poster1“Island Claws” segue a melhor tradição de “Night of the Lepus/A Noite dos Coelhos” (1972), de William F. Claxton, e transforma um bicho inofensivo em potencial assassino. A primeira morte é um exemplo perfeito do quanto “ameaçador” um bando de caranguejos pode ser: um tocador de banjo que mora num ônibus volta para casa após uma noitada e ao encontrar os bichos no seu amado lar – que não oferecem perigo nenhum, diga-se de passagem – se desespera e, chutando os bichos para todos os lados, acaba tocando fogo em tudo e morre carbonizado junto dos azarados crustáceos. Depois de outras mortes risíveis, típicas do cinema bagaceiro, temos o maravilhoso final com o caranguejo gigante finalmente aparecendo, em referências explícitas ao clássico “Attack of the Crab Monsters” (1957) de Roger Corman, outro filmaço envolvendo caranguejos mutantes assassinos. O caranguejo gigante, feito a um custo de 500 mil dólares e manejado com ajuda de um trator hidráulico, finalmente é uma criatura ameaçadora no filme, ao contrário de seus irmãos normais que são pequenos, lentos e fáceis de serem esmagados com uma simples pisada.

island-claws_frame1Nesta produção todos os atores estão péssimos, mas nada que comprometa a diversão planejada pelo diretor Hernan Cardenas, um destes aventureiros que surgem na indústria do cinema de tempos em tempos e nos legam clássicos de gosto duvidoso. Segundo o blog Regional Horror Films, a idéia para “Island Claws” surgiu quando Hernan Cardenas (um pintor expressionista abstrato colombiano) andava de bicicleta com sua esposa. Certo de que iria ganhar rios de dinheiro fazendo cinema, Hernan levantou três milhões de dólares com seus irmãos Dario e Gabriel (este cunhado de Jorge Ochoa, um dos chefões do quartel de Medellín) e não pouparam dinheiro para que o caranguejo gigante ficasse convincente – e ficou uma lindeza que dá muito orgulho, meu sonho é que todo o lucro da cocaína vá sempre para a produção de filmes vagabundos! Ao que parece os irmãos Cardenas não realizaram outros filmes, voltando ao lucrativo mercado das drogas.

island-claws_blu-rayCom dinheiro na mão os Cardenas tentaram se cercar dos melhores técnicos de Hollywood (que são mercenários das artes sempre à venda). O veterano produtor Ted Swanson (1936-2009), que havia trabalhado em “The Omega Man/A Última Esperança da Terra” (1971), de Boris Sagal, e “Rocky” (1976), de John G. Avildsen, foi chamado para colocar ordem no set. Jack Cowden e Ricou Browning (que fez ponta como ator nos três filmes do monstro da lagoa negra), roteiristas da série de TV “Flipper”, foram chamados para escrever o roteiro. Bill Justis, compositor saído de “Smokey and the Bandit/Agarra-me Se Puderes” (1977), de Hal Needham, fez a trilha sonora. James Pergola, que já havia trabalhado com Jerry Lewis em “Hardly Working” (1980), foi o escolhido para a direção de fotografia, e Ronald Sinclair, que editava os filmes de Roger Corman, foi contratado para montar o delírio colombiano.

island-claws_frame2Para o elenco foram chamados bons atores de filmes B, mas a falta de direção deixou-os todos com interpretações confusas e/ou automáticas. Robert Lansing (1928-1994) esteve em episódios de “The Twilight Zone/Além da Imaginação” (1959) e em filmes como “Namu, the Killer Whale/Namu, A Baleia Assassina” (1966), de Laslo Benedek, e “Empire of the Ants/O Império das Formigas” (1977) de Bert I. Gordon. Steve Hanks, que ainda está na ativa estrelando asneiras como “Mega Shark Vs. Mecha Shark” (2014), de Emile Edwin Smith, fez sua estréia no cinema. Nina Talbot já era uma veterana atriz de séries de TV. E Raymond Forchion, que em “Island Claws” interpretava um refugiado haitiano, apareceu rapidamente, no ano seguinte, em “The Funhouse/Pague Para Entrar, Reze Para Sair” de Tobe Hooper e depois virou ator de séries de TV continuando na ativa até hoje.

“Island Claws” é uma produção obrigatória na coleção de qualquer trashmaníaco, é um daqueles filmes que se descobre algo imbecil a cada assistida. Sem contar que é um filme sobre caranguejos mutantes assassinos, o que por si só já o tornaria um item obrigatório na vida de uma pessoa.

escrito por Petter Baiestorf para o livro “Arrepios Divertidos”.

Assista “Island Claws” aqui: