O Judoka

Resolvi resgatar uma matéria antiga sobre o filme “O Judoka” (1973, 90 min.), de Marcelo Ramos Motta, que foi originalmente publicada na revista “O Judoka número 35” de fevereiro de 1972 (EBAL Editora). Como arranjar informações sobre filmes brasileiros sempre é uma tarefa meio ingrata, espero que o resgate desta matéria ajude alguns pesquisadores. Claro que como é uma “matéria” de jornalista “enche lingüiça” que nem assinou o que escreveu, poucas informações relevantes são fornecidas. Nossa imprensa é uma piada desde sempre.

O FILME DA ONDA

Durante a filmagem de várias cenas do filme “O Judoka”, de Marcelo Ramos Motta, muita gente andou apanhando de verdade. É que para fazer um filme deste gênero, com muita luta, é necessário uma boa dose de realismo; fingir que apanha não convence ninguém. Às vezes, as cenas são repetidas duas, três, dez, doze, quinze, ou mais vezes, até que tudo esteja perfeito, como manda o roteiro.

O professor Amauri Guarilha, faixa-preta de jiu-jitsu, pesando sessenta e poucos quilos, teve que enfrentar o lutador de catch Banzo, um gigante negro com cerca de cento e cinqüenta quilos de músculos. Essa tomada foi feita aqui mesmo, no terraço desta Editora (nota do Canibuk: O jornalista está se referindo a editora EBAL), numa noite de muito calor. Ambos suavam de ter que ser empoados a todo instante pela maquiladora, para que o brilho do suor não prejudicasse a cena, ou atrapalhasse as pegadas de mão dos lutadores. De repente, o lutador de catch segurou o lutador de jiu-jitsu, levantou-o sobre a cabeça e atirou-o no ar. Para quem assistiu os trabalhos, o realismo da luta deu até aquele friozinho na barriga. O artista descreveu uma pirueta e mergulhou de costas, de cabeça para baixo. Era de esperar que Guarilha sofresse sérias fraturas, arremessado deste jeito. Mas a “vítima” bateu no chão duro de lajotas de concreto como se fosse um colchão de plumas. Não foi truque, não, apenas uma técnica sensacional. Guarilha levantou-se de um salto, sacudiu a poeira com naturalidade, e já estava pronto para a cena seguinte.

MARCELO EXIGE AUTENTICIDADE

Marcelo Ramos Motta é isso, um produtor “boa praça”, tranqüilo, delicado e gentil. Quase nunca perde a paciência, e se o faz a zanga não dura mais que alguns segundos. Mas nem por isso deixa de ser exigente e rigoroso nas horas de trabalho. Paga jantar para a equipe, brinca com todos, mas quer realismo; nada de simulações infantis. Artista tem que sofrer. Ele acha que um filme deve dar ao espectador emoções autênticas, sem exageros, mas em doses exatas.

Houve uma cena que foi repetida vezes sem conta, porque os “bandidos” não estavam sabendo “apanhar corretamente”. Afinal, “bandido” que se preza tem de saber apanhar do “mocinho”, com classe. Assim, durante a última tomada, em que os “bandidos” atacavam Pedrinho “Judoka” Aguinaga, o “tempo fechou” com realismo. Marcelo sorriu, plenamente realizado. Mas a cena programada para o dia seguinte teve que ser adiada… por falta de condições físicas dos “malfeitores”.

O BARBUDO WALTER SCHILKE

O diretor de produção do filme, Walter Schilke, é também uma revelação artística do cinema brasileiro. Sua figura nos lembra um autêntico viking. Jovem, forte, louro, de olhos azuis penetrantes e espessa barba ruiva. Walter é um amálgama de alemães e russos, nascido em Santa Catarina, quase na fronteira com a Argentina. Ele tem o terceiro papel do filme em importância, incarnando um cientista e professor de Astronomia “mau-caráter”, que consegue roubar a Lua.

Conversando sobre sua atuação, Walter disse-nos que leva muita pancada, até que o Judoka possa recuperar a Lua. E isto, evidentemente, só se dá no fim do filme. Deste modo, o nosso viking catarinense tem que aguentar a pancadaria por muitos metros de celulóide, para demonstrar o seu talento artístico.

Walter Schilke é um veterano. Ele já apareceu ou atuou como assistente de produção, ou fez as duas coisas de uma só vez, nos seguintes filmes: “Pais Quadrados, Filhos Avançados”, de J.B. Tanko; “Jesus Cristo, Estou Aqui”, de Mosael Silveira; “Prá Quem Fica Tchau”, de Reginaldo Faria; “Como Ganhar na Loteria sem Perder a Esportiva”, de J.B. Tanko; “Em Família”, de Paulo Porto; “Rua Descalça”, de J.B. Tanko; “Cassi Jones”, de L. Carlos Pesson; e “Som Livre, Amor e Curtição”, de J.B. Tanko.

ELENCO V.I.P.

Como se vê, “O Judoka” possui um elenco de astros e primeira grandeza, que por si já constitui uma promessa de sucesso para a estréia do filme. Destacamos Maria Pompeu, por seu trabalho artístico bastante conhecido, no Brasil e no exterior, como um dos pontos altos deste elenco V.I.P. Atriz de grande versatilidade, Maria Pompeu já é um nome bastante consagrado pelas platéias de cinema e teatro, ora surgindo em desempenhos cômicos, dramáticos ou maliciosos. Quem não se lembra da aeromoça de “Como Vencer na Vida sem Fazer Força”, ou daquela dramaticidade de “A Casa de Bernarda Alba?” Maria, com seus grandes olhos azuis e toneladas de talento, garante qualquer espetáculo. Ela Aparecerá também em “O Judoka”.

FERNANDO JOSÉ

Como todo bom artista brasileiro, Fernando José “vive” os mais variados papéis que lhe são designados. Ele aparece também em “O Judoka” sendo uma das boas aquisições de Marcelo Ramos Motta. Sua participação no teatro, no cinema e na televisão já o transformou num artista popular e aplaudido em todo o País. Fernando diplomou-se em arte pela Fundação Brasileira do teatro. Estreou aqui na Guanabara, no Teatro de Tablado, e já participou de espetáculos como “O Rapto das Cebolinhas”; Todomundo” e “O Cavalinho Azul”. Na televisão participou de “Um Gosto Amargo de Festa”; “A Rainha Louca”; “Sangue e Areia”; “O Véu da Noiva”; “Irmãos Coragem”, entre outros. No cinema fez “Na Mira do Assassino”; “A Noite do Meu Bem”; “Os Raptores”; “Bonga, O Vagabundo”; “Pais Quadrados, Filhos Avançados”; “Dois Perdidos numa Noite Suja” e “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”.

Scanner de HQ de uma página que explica, de maneira direta e simplória, como surgiu o herói Judoka.

* Essa matéria é um resgate cultural.

5 Respostas to “O Judoka”

  1. Muito bom este resgate nossa cultura merece. Sabe de se alguém tem uma copia do filme?

  2. Alexandre de Oliveira Arruda Says:

    Tenho 53 anos, me lembro muito bem, por que não sei, do filme “O Judoka”, principalmente de uma cena em que um rapaz está a ser literalmente surrado e, de repente, e diferentemente do que as pessoas costumam fazer, pois no geral sempre se afastam e não se envolvem, mesmo em se tratando de uma injustiça… Como eu ia dizendo, de repente, do nada, aparece um sujeito miúdo, baixinho… era um japonês, mestre de judô – e se envolve na questão, pedindo para que parem, mas!, a turma enraivecida parte pra cima dele… A sena que se segue é de tirar o fôlego, o japa dá uma baita duma surra em todos eles. A vítima, ainda, semi-acordado das pancadas assiste a tudo de boca aberta…
    Gostaria muito de ver esse filme de novo, acho que o assisti nos idos de 1973.
    PARABÉNS PELO TRABALHO – UM ABRAÇO!

  3. Estava presente na gravacao deste filme que foi filmada na rua quando a gang pega ele e da uma surra nele.esta cena foi gravada na rua doutor luiz massom perto da faculdade gama filho.foi muito bom ,pois foi a primeira vez que vi uma gravacao cinematografica.mas o filme completo nao vi ate hoje ‘tinha vontade de rever as cenas que vi .etava presente elisangela pedro aguinaga marcelo morandi.e neste dia fui convidada a fazer um filme pelos diretores e nao aceitei.

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