O Gato por Dentro

Quando penso no início de minha adolescência, eu me recordo da sensação recorrente de aninhar e acariciar uma criatura contra meu peito. É bem pequena, mais ou menos do tamanho de um gato. Não é um bebê humano, nem um animal. Não exatamente. É parte humana e parte outra coisa. Lembro-me de uma ocasião em que isso aconteceu lá na casa da Prince Road. Eu devia ter doze ou treze anos. Eu me pergunto o que era… um esquilo?… não exatamente. Não consigo ver direito. Não sei de que ela precisa. Sei apenas que confia plenamente em mim.

Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e parte algo ainda inimaginável, que pode resultar de uma união que não aconteceu há milhões de anos.


Na noite passada sonhei com um gato de pescoço muito comprido e um corpo que parecia o de um feto humano, cinza e translúcido. Eu o acaricio. Não sei do que ele precisa ou como providenciá-lo. Outro sonho há muitos anos com uma criança humana de olhos imóveis. É muito pequena, mas pode andar e falar.

– Você não me quer?

Na verdade, não sei como cuidar da criança. Mas estou decidido a protegê-la e alimentá-la a qualquer custo! É a função do Guardião proteger híbridos e mutantes no vulnerável estágio da infância.


Indícios apontam que os gatos foram domesticados pela primeira vez no Egito. Os Egípcios armazenavam grãos, que atraíam roedores, que atraíam gatos. (Não há prova de que isso tenha acontecido com os maias, apesar de haver um grande número de gatos selvagens nativos na área.) Não acho que isso seja exato. Sem dúvida não é a história toda. Gatos não começaram como caçadores de ratos. Doninhas, cobras e cães são muito mais eficientes como agentes de controle de roedores. Eu postulo que os gatos começaram como companheiros psíquicos, como Familiares, e nunca se afastaram dessa função.


O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos.

Para entender uma questão antiga, traga-a para o presente. Meu encontro com Ruski e minha conversão a um homem de gatos foi a reencenação da relação entre os primeiros gatos domésticos e seus protetores humanos.


Não me lembro exatamente quando Ruski entrou na casa pela primeira vez. Lembro que eu estava sentado em uma poltrona perto da lareira com a porta da frente aberta. Ele me viu a quinze metros de distância e correu. Soltava uns ruídos agudos que nunca ouvi outro gato fazer, e pulou em meu colo. Aconchegou-se ronronando e botou as patinhas perto do meu rosto. Dizia que queria ser meu gato.

Mas eu não o escutei.


Vou aproveitar esta oportunidade para denunciar e execrar a vil prática inglesa de caçar a cavalo e com cães. Dessa forma, os caçadores estúpidos podem observar uma bela e delicada raposa ser dilacerada por seus cães fedorentos. Encorajados por esse espetáculo grosseiro, retornam à sede da propriedade para ficar ainda mais bêbados do que já estão. Não são melhores que suas bestas imundas e bajuladoras, que comem merda, rolam em carniça e assassinam bebês.


Todos vocês que amam os gatos lembrem que os milhões de gatos que miam pelos quartos do mundo depositam toda sua esperança e confiança em vocês. Somos os gatos por dentro. Os gatos que não podem andar sozinhos, e para nós há apenas um lugar.

Escrito por William Burroughs (pequenos trechos do livro “O Gato por Dentro”, editora L&PM).

2 Respostas to “O Gato por Dentro”

  1. Cara, Burroughs era uma figura que a medida que envelheceu foi ficando mais doce , como mostra esse lindo texto.

  2. […] explícito falando, principalmente, do prazer feminino com as delícias do sexo sem culpa. Fãs de William Burroughs, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Timothy Leary irão […]

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