Archive for the Literatura Category

Snuff – Vítimas do Prazer

Posted in Cinema, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 26, 2017 by canibuk

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I – A Ideia

A linda moça banha-se alegremente no lago perdido na natureza, extasiando-se.

Do “triller” estacionado à beira da água, sai um rapaz, provavelmente seu companheiro de passeio, descascando uma laranja, aparentemente tranquilo.

A moça, da água, convida-o, brejeira, para partilhar. Ele solta a fruta, coloca a faca entre os dentes, como um Tarzan, e mergulha a seu encontro.

Felizes, riem.

Ele, com a faca.

Como numa brincadeira, a Lâmina da arma corta a alça do sutiã do biquini, fazendo saltar dois lindos e insinuantes seios.

Estranheza.

Uma transfiguração corre a expressão do moço. Tara?

A moça parece não entender. Procura fugir da água e do companheiro.

Perseguição.

Alcança.

Inicia-se uma tentativa de estupro.

A faca.

Ela grita para ser acudida. Não ouve eco.

Lábios e língua do rapaz correm desesperados pelos seios e corpo da moça, em resfôlegos.

A expressão dela diz que nunca antes tinha visto seu companheiro agir daquela forma. Desespero grande.

A expressão dele diz que não tem intenções de se acalmar. Os olhos fulminam, e a boca baba, excitada.

A faca.

As forças da menina querem ceder, mas não podem. Não podem… não podem… não podem…

Ele já a tem sob completo domínio.

A faca da laranja, ergue-se na mão do homem, e desce, implacável, ferindo um dos lindos e insinuantes seios da infeliz.

Um grito louco de dor, e a expressão de pavor.

As dores do ferimento são muitas. Insuportáveis.

Novo pedido de ajuda, agora só com os olhos. Forças faltam para a fala.

Novo golpe fez alongar a mancha de sangue que cobre o corpo feminino. Os olhos estalados,a  boca agora inerte, os últimos suspiros.

Doz rapaz. o estranho rir de quem está possuído.

Num estertor, a moça desfalece definitivamente.

Morre.

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Michael caminha vagarosamente e desliga o projetor de filmes em 16mm, depois de ver correr na tela a palavra “the end”.

No outro canto da sala, visivelmente deprimido com o que acaba de ver, Bob, em silêncio. Respira e força um sorriso.

“Incrível! Nunca vi tanto realismo! Confesso que a cena me tocou as estruturas! Acho que nunca vi uma morte tão bem feita, em cinema!”

Michael, voltando o filme para o carretel que projetara.

“Então, gostou…pois vamos repetir essa cena no nosso trabalho…”

“Vamos precisar escolher a dedo, uma atriz!”

“Engano seu, meu caro Bob… Qualquer garota pode interpretar tão bem quanto esta que vimos. Aliás, nem esta era atriz…”

“Não?… Então, como? !…”

“Simples, amigo: a cena foi real. Ela morreu mesmo!”

Bob engoliu em seco. Conhecia muito bem o colega e sabia quando ele brincava e quando falava sério. Dificilmente se enganava. Seus olhos arregalaram, temerosos.

“Quer dizer que isto que vimos aconteceu de verdade?”

“Lógico!”

“E que no filme que vamos fazer, haverá uma cena como esta?… ou seja… alguém vai morrer de verdade?”

“Muito feliz, a sua dedução!”

Bob saltou da cadeira, automaticamente. Chegou-se à Michael, não querendo acreditar no que ouvia.

“Você está louco rapaz?”

“São ordens de Mr. Lorne…”

De verdade, Bob sentia vontade de esganar o cinismo do amigo. Mas era sensato, e sabia que uma ordem de Mr. Lorne não era para ser discutida, e sim cumprida. Mas queria se convencer de que aquilo era uma das raras brincadeiras de Michael. Uma interpretação muito bem feita.

A possibilidade era remota, mas tentou uma investigação:

“Onde é que você arranjou esta droga?”

“Isso eu não sei. Mas, se quer algumas informações, aqui vão: a intenção dos produtores disso aí que você viu, era filmar um estupro real, pra valer. Para isso, como sempre contrataram uma equipe mínima, e o ator arrumou uma virgem, uma menina com pretensões de fazer carreira em cinema. A cena foi ensaiada de uma forma, mas o ator havia recebido instruções para, na hora “H”, assaltá-la sexualmente. Foi dado algo para estimulá-lo. Mas a moça, assustada com a fúria do ator, reagiu violentamente, como você mesmo viu!”

“Incrível…”

“Ele havia sido pago para violentá-la de qualquer maneira. Pretendiam registrar tudo…”

Bob estava perplexo. A seriedade com que Michael discorria, começava a querer convencê-lo.

“Aí, aconteceu o imprevisto: os técnicos, contagiados pelo clima, estavam mais alucinados que o próprio ator. Tanto assim, que não perceberam que a faca de efeito havia sido trocada por uma real. Você viu o resultado…”

“Que absurdo!” caiu no sofá como se tivesse um enorme peso no corpo. Michael, inalterado:

“Foi um acidente que deu certo!”

“Ma como deu certo?”

“Quando o filme veio parar em nossas mãos, lá em Nova Iorque, não sabíamos que era real. Tentamos colocar no mercado clandestino. O sucesso foi absoluto. Nunca se pagou tão alto por uma cópia.”

“Mais que os filmes pornográficos?”

“Os filmes pornográficos se tornaram brincadeirinha de criança perto deste. Chegamos a fazer projeções especiais, cobrando mil dólares por cabeça. Lotamos o cinema.”

Bob está cada vez mais confuso.

“Mas este filme foi um acidente. Não pode ser refeito!”

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A ideia de Bob era dissuadi-lo de tal ideia. Parecia que Michael estava hipnotizado pela possibilidade de repetir o sensacionalismo, deixando os próprios sentimentos de lado. Mas parecia cada vez mais distante pode convencê-lo do contrário.

“Mr. Lorne quer repetir o sucesso!”

Explodindo:

“Michael, isso é um crime!”

O sorriso cínico e inalterado do amigo aumentou a perplexidade de Bob.

“E a pornografia? Também não é um crime?”

Tentando contornar:

“É diferente, Michael. Os filmes pornográficos são feitos para casais entediados, ou pessoas solitárias. Gente que precisa de estímulo para o ato mais importante da vida. No fundo, sua função é até benéfica. Os médicos mesmos aconselham…”

“Isso é conversa fiada, Bob. Uma coisa não desculpa a outra.”

É, não havia mesmo jeito. Bob pensou um pouco, tentando desemaranhar a confusão que se instalara em sua cabeça. Meio minuto depois, tomou a decisão:

“Está certo. Mas eu não me meto neste negócio!”

Michael acabou de servir-se de um uísque no barzinho, e já voltou ao amigo. Mantendo o mesmo sangue frio. Antes do primeiro fole:

“Você já está metido em nossos negócios até o pescoço! Eu estou aqui para realizar um filme deste tipo, e é o que vou, ou melhor, vamos fazer!”

 

fim do primeiro capítulo de “Snuff – Vítimas do Prazer” de Claudio Cunha (editora MEK, editor Minami Keizi, 120 páginas, meados dos anos 80).

Veja o filme aqui:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Pântano, O Fim das Coisas & Nimbus: Poesias de Augusto dos Anjos

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , on dezembro 19, 2016 by canibuk

O Pântano

Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!…

Mas, para mim que a Natureza escuto,

Este pântano é o túmulo absoluto,

De todas as grandezas começantes!

.

Larvas desconhecidas de gigantes

Sobre o seu leito de peçonha e luto

Dormem tranqüilamente o sono bruto

Dos superorganismos ainda infantes!

.

Em sua estagnação arde uma raça,

Tragicamente, à espera de quem passa

Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta…

.

E eu sinto a angústias dessa raça ardente

Condenada a esperar perpetuamente

No universo esmagado da água morta!

.

O Fim das Coisas

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,

Arrancar, num triunfo surpreendente,

Das profundezas do Subconsciente

O milagre estupendo da aeronave!

.

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,

Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente

de perscrutar o íntimo do orbe, invente

A Lâmpada aflogística de Davy!

.

Em vão! Contra o poder criador do Sonho

O Fim das Coisas mostra-se medonho

Como o desaguadouro atro de um rio,

.

E quando, ao cabo do último milênio,

A humanidade vai pesar seu gênio

Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

.

Nimbus

Nimbos de bronze que empanais escuros

O santuário azul da Natureza,

Quando vos vejo negros palinuros

Da tempestade negra e da tristeza,

.

Abismados na bruma enegrecida,

Julgo ver nos reflexos da minh’alma

As mesmas nuvens deslizando em calma,

Os nimbos das procelas desta vida;

.

Mas quando céu é límpido, sem bruma

Que a transparência tolda, sem nenhuma

Nuvem sequer, então, num mar de esperança,

.

Que o céu reflete, a vida é qual risonho

Batel, e a alma é a flâmula do sonho,

Que o guia e leva ao porto da bonança.

por Augusto dos Anjos.

“Eu & Outras Poesias Vol. 2”, editora Civilização Brasileira, 1982.

Entrevista com: Augusto dos Anjos.

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O Beco das Almas Famintas

Posted in Literatura, Livro with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2016 by canibuk

img022Acabei a leitura do romance “O Beco das Almas Famintas” de uma tacada só, curtinho e envolvente, escrito pelo Erivaldo Mattüs que por anos editou o fanzine “Spermental” e que já foi ator de Gurcius Gewdner no fantástico curta-metragem “Erivaldo – O Astronauta Místico”. Drogas, sexo e fanatismo religioso de um mundo pervertido contado em  linguagem direta e sem rodeios quase como se fosse um roteiro de um grindhouse transformado em romance.

Sinópse: “Quando alguns mendigos são misteriosamente assassinados no centro da Cidade Sereia, três cidadãos bem sucedidos têm suas vidas progressivamente destruídas: Antenor, um executivo playboy egoísta; Cláudio, um luxurioso técnico em eletrônica e Sauro, um pastor evangélico que tem a ganância por sobrenome. O enredo, mostra a escalada do trio rumo ao fracasso, de seu presente estável até suas quedas meteóricas; seguindo em narrativas paralelas até cruzar o destino dos personagens no abandonado e famigerado “Beco dos Invisíveis”, lugar no centro de Sereia onde as desgraças são mais cotidianas e inacreditáveis do que sonha nossa vã filosofia.”

O Beco das Almas Famintas é o primeiro romance de E. Mattüs. A narrativa traz elementos que vão desde a marginalidade de Bukowski ao horror de Edgar Allan Poe, tudo ambientado em um absurdo universo kafkiano. Em tiragem numerada de 150 exemplares, a edição usa e abusa de papéis de qualidade duvidosa e estética “trash”, ao longo de 48 páginas, encadernadas em costura de 3 pontos. O livro foi lançado pela editora independente recifense Livrinho de Papel Finíssimo e é o sexto volume da coleção romanesca LiteraTara.

O que?

O Beco das Almas Famintas. Autor: E. Mattüs. Editora: Livrinho de Papel Finíssimo. Ano: 2016. Preço: R$20,00 (Envio simples: 22,00; Carta Registrada: R$25,00). Contato: katarru_podre@hotmail.com/ (82) 99945-8090. Facebook: MattüsMattüs. Instagram: @mattus.ausente

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Abaixo o primeiro capítulo de “O Beco das Almas Famintas”:

Quando a esmola é uma chuva de balas.

Quem transita pelo centro da cidade Sereia pode encontrar tudo o que precisa para exercer o materialismo a rigor. De cama, mesa e banho a eletroeletrônicos e made in china, o comprador pode desfrutar de todas as visões necessárias para abrir a carteira e deixar parte de sua fortuna em qualquer recinto. Odor suave de esgoto pairando no calçadão das ofertas vazias. Queima de estoque. Ao comprar, o ser humano adquire existência. Todavia, aberta a embalagem, o sentimento de satisfação é transformado numa estranha sensação de engano ou frustração. Com a realização do desejo consumista, o objeto adquirido perde o encanto e cede sua vez a uma nova fantasia material.

Porém, nem todos os transeuntes têm o poder aquisitivo necessário para existir. E para esta estirpe maldita é reservado o chamado “Beco dos Invisíveis”. Um reduto dos ignorados, criaturas das quais não se pode vampirizar qualquer espécie de lucros. Habitat natural dos moradores de rua e criaturas inexistentes aos olhos bem sucedidos dos consumidores. Numa viela, ao final de um labirinto com ruas curtas, fica este ambiente inóspito. Um forte cheiro de esgoto misturado ao de eletrônicos embalados acaba resultando num cheiro de merda tão natural quanto a fumaça da combustão automotiva. Uma pocilga abandonada aos seus 6 residentes. Caixas de papelão formam casas. Carrinho de supermercado vira armário. Uniformes velhos e camisetas de políticos ditam a moda. Eis o bendito lar de Alex, José e Simão. Os três reis magros que, na melhor das hipóteses, podem ofertar ao mundo uma pequena faceta da miséria criada por uma sociedade cruel.

São dez da matina e uma chuva rasa antecede o Sol picante. O vapor se eleva do concreto criando uma sauna natural. Pessoas andam mais rápido, enquanto lojas de ar condicionado faturam mais. Alex devora meia quentinha, Zé tasca a primeira pedra do dia no cachimbo e Simão continua a soltar suas profecias esquizoides:

— Este beco é a chave da penitência humana. Toda dor e culpa desse mundo maldito veio parar aqui e nós pagamos o preço! Só estamos aqui por culpa de todos vocês, seus desgraçados! Vocês são os culpados! Berrava o velho vagabundo.

— Cala a boca, porra! Nem tá doido de cana e já está falando merda! Explodiu Zé, depois do primeiro beijo na lata.

E explodiu mesmo! A fumacinha com gosto de plástico invadia seu corpo de forma devastadora. Paranoia, alucinações e mania de perseguição por fora, mas dizem que o que conta é como somos por dentro. Quanto a isso, Zé se sentia o rei do mundo. Um príncipe em seu reinado a céu aberto. Sensação esta, semelhante à de Alex que não reclamava nem repreendia, apenas soltava pequenos arrotos em sinal de total satisfação.

Refeições, drogas e ideias expostas em mais um fatídico dia que chega à metade. O trio desventurado compartilha a primeira lata de cachaça, Simão era o mais alvoroçado. Cada gole descia com a urgência de um antídoto ao mais maldito de todos os venenos, a sociedade. Zé — Caralho! A fissura tá voltando, mas dá pra segurar com a cana. Simão — Maldito sejas tu que trocasses o néctar divino pela pedra do diabo! Alex — Essa porra tá me deixando enjoado, acho que vou deixar uma bacia aqui de lado porque, se eu vomitar, é só jogar uma farinha por cima que já tenho a janta…

Simão — A autossuficiência é o segredo do sucesso! Os três soltam uma gargalhada uníssona.

No horário de almoço, o trânsito humano aumenta. Os ébrios cabisbaixos nem percebem que alguém passa pela calçada em que descansam e atira em cima dos três uma verdadeira chuva de balas. Framboesa, morango e abacaxi. Acho que o indivíduo veio de mão cheia e simplesmente abriu a palma em cima de nossos heróis. Ao erguerem a vista, só perceberam o anônimo de costas prosseguindo seu destino. Usava uma camiseta estampada com flores, daquelas bem bregas que se compram em brechós. Apesar do mau gosto, abençoadas sejam as almas generosas que habitam a selva de pedra.

— Deus lhe dê em dobro! Alex foi cordial em nome do trio.

É óbvio que os doces viraram tira-gosto. Zé perambulou meia hora e já voltou com duas pedrinhas, sinal de que a sociedade era realmente caridosa… Em eliminá-lo!

— Ainda tem confeitinho?

— Claro! Segura aí!

Alex era um jovem de quase um metro e oitenta, beirando os trinta e portador de um ar amistoso. Graças às drogas e descuidos com a vaidade, ele aparentava quase quarenta. O Sol e o clima seco também corroíam sua aparência, igualzinho aos prédios do centro da cidade. Os cabelos loiros ficaram quase marrons. Algumas mechas se juntavam em dreads; o que para a grande maioria lhe dava uma aparência suja, fato negativo aos negócios de pedinte. Os amigos pouco sabiam de seu passado. Só existiam alguns boatos sobre ele ter vindo do interior do estado trabalhar como servente de pedreiro e ter arranjado uma mulher que destruiu sua vida. Um belo dia, ele chegou com uma trouxa de roupas e uma garrafa de vinho pela metade. Perguntou a Simão se poderia ficar no Beco e foi aceito de bom grado. Por ser o único habitante do recinto, o patriarca da ralé apenas ditou-lhe algumas regras de convívio e até ensinou a arte da mendicância ao recém-chegado.

Já José Silva era vítima dos químicos, a família bem que tentou, mas a paixão pela pedra falou mais alto. Zé estava largado no mundo e pedindo esmolas em prol de seu culto aos deuses da lata. Cara chupada. Metade dos dentes o abandonou. A gordura era pouca e as veias saltavam pelos braços até desparecerem nas falanges proximais. Talvez seus familiares estejam a sua espera, aguardam um desejo de abstinência ou a providência divina, mas quem fuma a unha do capeta assina um contrato com o tinhoso para se entregar de corpo e alma ao prazer.

Simão sempre existiu no Beco dos Invisíveis. Desde que a terra é terra, o mar é mar e a cachaça passou a ser vendida em latas. Ele vivia sozinho e largado pelo centro da cidade Sereia. Aparentava ser um homem de conhecimento, a longa barba amarelada pelo tabaco exibia a experiência de um ser que, caso não estivesse usando uma blusa do candidato perdedor a prefeito, bem que poderia se passar por sábio hindu. O cabelo branco simulava algodão, os dentes eram mais amarelos que o sol no fim de tarde e sua mente cansada somente questionava o sentido amargo da vida. Em alguma parte de sua existência, Deus o abandonou. Por manter as mesmas roupas por muito tempo, Simão tinha cheiro de urina envelhecida. Sempre profético em suas palavras, o álcool exorbitava suas filosofias. Bêbado, ele conseguia ser pior que muito pregador de praça, mas, com certeza, o pedinte dizia bem mais verdades que um pastor charlatão.

Drogas, esmolas para comida e mais entorpecentes. Estabelecimentos em horário comercial encerram seu expediente. Os outros habitantes do beco retornam ao lar. Em sua maioria, fazedores de bicos. Uns quatro ou cinco companheiros chegam com histórias, violão e caninha para adoçar o amargo da vida. O parceiro com violão toca Raul Seixas. Todos cantam os trechinhos que se recordam da música “Ouro de Tolo”. “Essa música explica o sentido da existência de todos que circulam por aqui com grana!” discursou Simão para a plateia desatenta. A mensagem musical era conceitual e poderia até mudar a vida de todos eles, mas a única mudança desejada era sair da caretice e adentrar a algum estado alterado de espírito. Companheirismo, boa música e aguardente descendo na garganta. Aos noiados, a lata de cachaça só servia vazia. E mesmo em pleno estado de paranoia, nunca se viu uma confusão, todo mundo seguia a lei da cordialidade. Caso contrário, o bagunceiro amanhecia com a boca cheia de formigas…

Eram quase 22 horas, quando uma estranha figura entrou no beco. Uma jovem mulher com aparência de tiazona derrubada. Pela cara chupada era óbvio que pertencia ao grupo dos “beija-lata”. Cambaleante e desnorteada, ela suplicava por sua paixão: — Dou a xoxota pra quem me der um pega na lata! Cadê os machos dessa merda? Eu quero só um peguinha… Deixa eu beijar a lata que eu beijo outra coisa bem gostosa depois!

Zé nem precisou de cavalheirismo. Apenas levantou a mão empunhando o recipiente metálico e sua deusa entendeu o recado. Depois de uma chupada na lata, a musa entregou-se ao amor paranoide. Fizeram tudo ali mesmo, numa caixa de papelão improvisada como palácio de Vênus. O pico do Zé. A mansão do amor abrigou aqueles dois corpos psicóticos por um breve delírio chamado felicidade. O amor de dois zumbis embalado por deliciosos tragos de cigarro Oscar no pós-coito. A fêmea sai estonteada com sua microssaia suja de areia e tentando pôr o que parecia um top. Ela caminha cambaleante sob o efeito do amor e da pedra. Os companheiros do beco sorriam para José em nome de sua sorte. Enquanto a jovem adicta dava seus passos, os outros mendigos enfiavam a mão direita dentro dos farrapos para homenagear a deusa do lixo com o sexo dos solitários.

Apesar do vazio das ruas, no centro da Sereia sempre existem olhos maldosos à espreita. O resultado disso foi que, menos de dez minutos após a saída da mulher do Zé, a polícia já chegou descendo o cacete em todo mundo que via no beco. Somente ouviam-se os gritos dos repressores seguidos de pancadas secas do cassetete. “Vaza cambada de vagabundo! Vão fazer gandaia na casa do caralho”. Exceto por Simão, que saiu assim que viu os praças ao longe, todos sentiram o bastão perseguidor tocar suas costelas de forma emocionante. Zé correu alucinado levando sua moradia na mão, enquanto Alex se escondeu dentro de uma pilha de lixo. As ruas não eram violentas, já seus protetores pareciam salivar por carne fresca para o espancamento.

Meia-noite, o relógio recomeça a contagem. Todos se dispersam, exceto os três companheiros. Eles resolvem voltar ao beco pela certeza do descanso ser tranquilo. A barra estava limpa. Nada de coxinhas. Um deserto de concreto e lixo, onde com alguns papelões, nossos reis mendicantes resguardavam suas existências na esperança de um dia com mais grana, drinks, pedras e Raul Seixas.

Por ainda ter a audição em bom estado, Simão deve ter sido o único que teve tempo de abrir os olhos no momento em que alguém passava pela calçada. Três balas na cabeça de cada um! Alex nem se mexeu e parecia prosseguir em seu sono, que duraria a eternidade. Zé abriu os olhos, mas já estava puxando ar num ato mecânico de seu corpo; vivenciando os últimos momentos de resistência biológica após a morte cerebral. Simão conseguiu ver seu algoz e teve tempo de gritar “Deus…” antes de cair em estado de óbito. Seus olhos pareciam perder a sabedoria e expressavam decepção. Sentimento que foi alimentado por reconhecer a mesma camisa florida que viu meio dia. O benfeitor virou malfeitor. E, pela permutação no estado de espírito, ele apenas trocou as balas.

Apoie os independentes comprando seus lançamentos!

Assista aqui ao curta “Erivaldo – O Astronauta Místico” (2013) de Gurcius Gewdner com Erivaldo Mattüs atuando:

Baratão 66 e outros Lançamentos da Pitomba

Posted in Fotografia, Fotonovela, Literatura, Livro, Quadrinhos, revistas independentes brasileiras with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 10, 2014 by canibuk

O final de 2013 trouxe para o público de quadrinhos brasileiros várias ótimas obras. E a editora Pitomba, em parceria com a revista Beleléu, se encarregaram de pelo menos um lançamento obrigatório, “Baratão 66”, fruto de uma bem-vinda parceria entre Bruno Azevêdo e Luciano Irthum. Pitomba surgiu em 2009 e se tornou a editora marginal mais ativa de São Luís/MA. E a Beleléu é um selo do Rio de Janeiro/RJ.

Baratão1“Baratão 66” (180 páginas), de Bruno Azevêdo e Luciano Irrthum. Este trabalho da dupla Bruno/Luciano (dois apaixonados por personagens marginalizadas) é um mergulho pela difícil vida fácil das putas de cidadezinhas brasileiras onde, invariavelmente, políticos, policiais, padres, pastores, empresários, fazendeiros e outros coronéis de todos os calibres orquestram arranjos em prol da saúde de seus próprios bolsos, mostrando o quanto as putas podem interferir na política local (o que nunca é uma má interferência, já que puta são muito mais humanas do que essa corja de bandidos engravatados-fardados-fantasiados). Aliás, puteiros fazem parte da cultura nacional tanto quanto samba e bunda (o que não é ruim, antes um povo com a cultura da bunda do que das armas, por exemplo), é muito comum os poderosos locais terem uma amante por pura questão de status, uma espécie de troféu para mostrar aos amiguinhos. E putas são compreensivas, são mulheres sofridas que entendem (e perdoam) qualquer falha de caráter que prefeitos, delegados, padres, seu vizinho (eu e você) possam ter. Como fã de cinema, ao ler o saboroso “Baratão 66” me deleitei com os paralelos do roteiro de Bruno com o filme “Amor Estranho Amor” (1982) de Walter Hugo Khouri (sim, “Amor Estranho Amor” é o famoso pornô da Xuxa , que de pornô não tem nada, já que sua história gira em torno de um bordel de luxo que atende os desejos mais molhados da elite política brasileira para falar de política brasileira). Claro que, para nossa sorte e tendo em mente que Bruno e Luciano são crias do underground, aqui é tudo mais debochado e divertido do que o intelectualizado Khouri. Me foi impossível saborear do “Baratão” sem imaginá-lo como um storyboard já pronto para ser filmado. “Baratão” ainda fala sobre os produtores picaretas de cultura que acham que suas “obras-primas” devem ser bancadas pelo governo (porque mamar todo mundo quer e um grande viva a quem consegue). E a exemplo da política nacional, “Baratão 66” tem uma linda história de amor cafajeste onde tudo acaba bem, com suas transviadas personagens encontrando a tão sonhada liberdade (nem que para isso seja necessário derramar algumas lágrimas, sangue e gasolina). “Baratão” é cu e buceta, ou seja, diversão total. Tive o privilégio de escrever o posfácio deste álbum, que custa R$ 30.00 e pode ser adquirido pelo site http://www.pitomba.iluria.com ou comigo pelo e-mail baiestorf@yahoo.com.br.

Baratão2

Intrusa“A Intrusa” (165 páginas) de Bruno Azevêdo. Segundo Xico Sá, “Um folhetim em chamas capaz de tostar raparigas em flor. Um erotismo de banca capaz de reverter a mais enjoada das menopausas de todos os caritós. A Intrusa é fogo en las entranhas da frígida e solene literatura contemporaneazinha. O Monstro Bruno Azevêdo , este papaléguas, alcança, com este volume que ora lateja nas mãos da mulher moderna, a condição do nosso melhor escritor pícaro-mexicano. Que outro seria capaz de erotizar o tilintar dos duralex? A pia de louça por testemunha de um tórrido amor engordurado. “Temperamento latino é fuego”, já dizia, na subida do morro, o velho Morengueira”. “A Intrusa” traz ainda ilustrações de Eduardo Arruda, um dos criadores da revista Beleléu, e a capa do livro é de autoria de Frédéric Boilét, autor de “Garotas de Tokyo”. Apesar de estar com o livro aqui em casa, em virtude das milhares de coisas que faço tudo ao mesmo tempo, ainda não consegui tirar um tempo para lê-lo com calma.

Isabel“Isabel Comics!” (Ano 2, 56 páginas) de Bruno Azevêdo e Karla Freire. Este trabalho do casal Bruno e Karla é de extrema importância para sua pequena filha Isabel, que quando crescer vai ter um registro incondicional do amor de seus pais ao poder se “ver” com dois anos de idade, se divertindo em família. Achei o registro uma ideia fantástica, daquele tipo que outros pais apaixonados por seus filhos irão adorar e se identificar. Em fotos e textos dos criativos papais ficamos sabendo da movimentada vida de criança da filhinha Isabel em uma agitada fotonovela. Confesso que não sou o público certo para este pequeno livrinho, mas quem é pai/mãe, ou quer ser pai/mãe, creio que vai amar esta linda declaração de amor. Este livrinho, assim como “A Intrusa”, podem ser adquiridos no site http://www.pitomba.iluria.com.

dicas de Petter Baiestorf.

Onde Enfiar

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on janeiro 8, 2014 by canibuk

não me culpe se seu carro quebra na rodovia.

não me culpe se sua mulher vai embora.

não me culpe se você foi para a guerra e descobriu que pessoas matam.

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não me culpe por você ter assassinado 4 anos votando no cara errado.

não me culpe por a transa às vezes falhar.

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não me culpe se eu não atendo o telefone e não consigo assistir tv.

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não me culpe pelo seu pai.

não me culpe pela igreja da esquina.

não me culpe pela bomba de hidrogênio.

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me culpe se você estiver lendo isto.

não me culpe se você não entender.

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não me culpe pelo mundo fervilhando de assassinos.

não me culpe se você é um deles.

culpe seu pai.

culpe a igreja da esquina.

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não me culpe pelo natal ou o feriado da independência.

culpe qualquer fudido que você quiser mas não me culpe.

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não me culpe pelos sem-teto.

não me culpe por 162 jogos de beisebol todo ano.

não me culpe pelo basquete.

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não me culpe por não querer entrar em elevadores cheios de gente.

não me culpe por não ter um herói.

não me culpe por não criar um.

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não me culpe por ficar aturdido com a risada das massas.

não me culpe por rir sozinho.

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não me culpe pelo enjaulamento do tigre.

me culpe por que minha morte não será temível.

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mas não culpe a si mesmo.

escrito por Charles Bukowski, “Á Toa em San Pedro”, Spectro Editora.

a toa em san pedro

Parafusos, Zumbis, Monstros do Espaço e outros lançamentos da Veneta

Posted in Literatura, Quadrinhos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 4, 2014 by canibuk

Dangerous GlitterA editora Veneta é uma jovem editora brasileira criada por Rogério de Campos que vem se destacando por seus ótimos lançamentos de quadrinhos e livros de literatura obrigatórios. A frase “o que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas”, de Raoul Vaneigem, se aplica perfeitamente aos lançamentos deles (mesmo que os lançamentos mais transgressores continuem sendo obras lançadas originalmente nos anos 60 e 70). Por conta do prefácio que escrevi para o álbum “Parafusos, Zumbis & Monstros do Espaço”, lançado por eles, ganhei um pacotão de lançamentos e já me tornei fã da jovem editora, tanto que agora preciso comprar urgentemente o livro “Dangerous Glitter” de Dave Thompson, recém lançado e que conta “como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop foram ao inferno e salvaram o Rock’n’Roll”. Como um grande fã do filme “Velvet Goldmine” (1998) de Todd Haynes, este livro se torna item obrigatório para o enriquecimento da cultura inútil tão necessária ao meu cérebro. A seguir apresentação dos livros lançados pela Veneta que devorei em poucos dias.

Parafusos Zumbis e Monstros do Espaço1“Parafusos, Zumbis & Monstros do Espaço” (115 páginas) é uma HQ de Juscelino Neco (que já foi publicado aqui no Canibuk com a HQ “A Maldição dos Sapos“) que é diversão gore pop do início ao fim. “Parafusos, Zumbis & Monstros do Espaço brinca com a estética do cinema B, cultura pop e obsessões cronenberguianas na divertida e azarada vida do herói Dolfilander que, após extraordinários acontecimentos envolvendo num parafuso, se revela um para-raios de objetos pontiagudos pontiagudos e estranhas criaturas em eventos de ultra-violência nonsense gore estreladas por gorilas com cérebros humanos, zumbis melequentos e aliens bagaceiros que nos fazem pensar sobre como a vida neste grão de areia chamado Terra, perdido nos cafundós do Universo, pode ser somente um joguinho bobo para nos livrar do tédio.”, do meu prefácio que dá uma ideia geral da delícia despretensiosa que é este incrível trabalho de Neco. Como curiosidade, quase que Neco fez parte da equipe de meu longa “Zombio 2: Chimarrão Zombies“, na qualidade de biógrafo quadrinista da produção. Junto de “Baratão 66” um dos melhores lançamentos de 2013.

Parafusos Zumbis e Monstros do Espaço2

Crumb1“A Mente Suja de Robert Crumb” (230 páginas) é um álbum de luxo com seleção (por Rogério de Campos) de HQs de Robert Crumb, talvez o melhor e mais completo álbum de Crumb já lançado no Brasil. A introdução desta peça magnifica fala sobre a censura americana aos quadrinistas, que sempre foi muito forte por conta das ligas religiosas e de pais desocupados. Robert Crumb nasceu na Pensilvânia em 30 de agosto de 1943 e se tornou o quadrinista underground mais famoso da contra-cultura mundial. Uma boa pedida para saber mais sobre ele é assistir ao documentário “Crumb” (1994) de Terry Zwigoff, seu parceiro na banda R. Crumb and his Cheap Suit Serenaders, que, em virtude da amizade com o documentado, teve acesso irrestrito à vida de Crumb e seus irmãos, figuras ainda mais interessantes do que o próprio gênio. A HQ “Bundão das Cavernas” faz parte deste imperdível lançamento. A seleção de material deste álbum enfoca mais suas HQs sexuais cheias de suas carnudas mulheres em situações pervertidas, como o próprio Crumb define: “Minha obsessão por mulheres grandes interfere na maneira como algumas pessoas avaliam meu trabalho. Algumas acham interessantes, mas ver isso de novo e de novo… Eu mesmo até me sinto mal a respeito, mas assim que as coisas começam a sair, não consigo parar”. Um lançamento fabuloso e obrigatório na coleção de qualquer fã de quadrinhos.

Crumb2Crumb3Crumb4

O Livro dos Santos1“O Livro dos Santos” (368 páginas), do poderoso chefão da Veneta, Rogério de Campos, se tornou minha leitura preferida do final de 2013. Enquanto cristãos do mundo inteiro se reuniam para festejar sua mitologia repleta de contos fantásticos, milagres duvidosos e lenga-lenga pseudo moralista, eu me divertia com essa incrível seleção histórica de barbaridades inacreditavelmente absurdas perpetuadas por cristãos em todos os períodos de sua, ainda, curta história. Neste livro ficamos por dentro do pensamento cristão sobre mulheres (que os santos católicos consideram seres perversos), milagres criados pela igreja, virtudes dos machos, guerras cristãs para conquistar e subjugar outros povos, justiça cristã (que é extremamente vingativa, principalmente se você for pobre), as delícias das dores e do sofrimento e o medo que os santos possuíam das mulheres, à quem eles claramente não entendiam. Sério, se você é cristão, você precisa ler este livro. Um exemplo da bondade cristã: “O Languedoc, no sudoeste da França, era, no século XII e XIII, uma região próspera, relativamente tranquila e com uma cultura muito viva. O nível de igualdade entre homens e mulheres era mais alto que no resto da cristandade. E os troubadours e as trobairitz, com suas canções, satirizavam as autoridades políticas e religiosas, mas principalmente enalteciam o “amor fino” e o “amor cortês”. Foi lá que se inventou a palavra “romance” para descrever histórias populares de amor. Mas não foi isso o que irritou São Domingos de Gusmão quando ele chegou para uma inspeção, em 1203. O que lhe pareceu intolerável foi que o Languedoc era talvez o lugar mais tolerante do mundo cristão da época. Não só os cristãos em geral, mas até mesmo alguns padres conviviam em paz com judeus e, pior, com os hereges Cátaros, que eram pacíficos, vegetarianos e prestativos, e seus líderes cumpriam rigorosamente o voto  de pobreza e castidade. Isso em uma época em que os representantes da igreja Católica faziam questão de exibir seu poder e riqueza. O piedoso Inocêncio III não teve outra saída a não ser convocar uma cruzada contra o Languedoc. Foram mortas 20 mil pessoas, sem distinção de posição social, sexo ou idade. E, quando finalmente o Languedoc foi derrotado pelo poderio militar, veio a Inquisição com seus julgamentos, que mandaram uma boa parte dos sobreviventes para a fogueira”. Impossível se identificar com uma religião tão imbecil (aliás, qualquer religião é fruto da imbecilidade humana), primeiro sintoma da burrice crônica é quando você acha que a sociedade em que você vive é dona da verdade universal (aliás, a verdade universal está no mesmo patamar de deus, ou seja, não existe).

O Livro dos Santos2

Memorias de uma beatnik“Memórias de uma Beatnik” (215 páginas) de Diane di Prima é uma rara oportunidade de ler um romance beatnik narrado por uma mulher que viveu a boemia de New York dos anos de 1950 e 1960, frequentadora de clubes de jazz, cafés literários de poetas marginalizados e adepta do sexo livre. Diane di Prima nasceu em 06 de agosto de 1934 (ela ainda é viva) em berço de ouro, explico, seu avô materno foi militante anarquista, amigo de Emma Goldman, e ser educada por um anarquista vale muito mais do que todo o dinheiro do mundo. Ainda criança começou a escrever poesias e adolescente trocou correspondência com Ezra Pound e Kenneth Patchen (que a exemplo de Pound, também era poeta, só que muito mais experimental). Nos anos 50 foi para Manhattan onde tomou contato com o movimento beat. Em 1961 criou, com LeRoi Jones, a revista “Floating Bear” que publicou muita poesia transgressora, chegando a ser presa pelo FBI com acusações de obscenidade. Em 1969 escreveu este “Memórias de uma Beatnik”, um poderoso relato erótico que tem como base suas experiências com o movimento beatnik, contendo inúmeras passagens de sexo explícito falando, principalmente, do prazer feminino com as delícias do sexo sem culpa. Fãs de William Burroughs, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Timothy Leary irão adorar.

Diane di Prima

Diane di Prima

Stieg Larsson antes de Millennium“Stieg Larsson Antes de Millennium” (60 páginas) é uma HQ de Guillaume Lebeau e Frédéric Rébéna e conta, de maneira fragmentada, alguns episódios da vida do autor Stieg Larsson (1954-2004) que se tornou conhecido com sua trilogia de livros “Millennium” (que viraram filmes suecos que, depois, foram devidamente ruminados por Hollywood em refilmagens toscas). A HQ mostra três situações envolvendo Larsson, mas devido as poucas páginas nunca chega a empolgar e desemboca em lugar nenhum. O grande feito de Larsson em vida foi combater os fascistas em sua terra natal, a branquela Suécia, mas não há nada de especial nisso já que combater fascistas e nazistas é um dever de todos.

Enfim, longa vida a Editora Veneta que, nos moldes da finada Conrad Editora, vem com a sempre bem-vinda vontade de incomodar os acomodados.

dicas de Petter Baiestorf.

Epílogo de Libelo Contra a Arte Moderna

Posted in Arte e Cultura, Literatura, Pinturas with tags , , , , , , , , , , , , , on dezembro 20, 2013 by canibuk

De toda a revolução moderna uma única idéia não envelheceu, e permanece tão viva que será o fundamento de um novo classicismo que se espera de forma iminente. Nenhum dos críticos ditirâmbicos da velha arte moderna ainda a assinalou. Trata-se nada menos que do famoso segundo a natureza de Paul Cézanne (Natureza é o nome que o pintos dá à física).

A Descontinuidade da Matéria

A descoberta mais transcendente de nossa época é a da física nuclear sobre a constituição da matéria. A matéria é descontínua e qualquer experiência válida na pintura moderna só pode e só deve partir de uma única idéia, tão concreta quanto significativa: a descontinuidade da matéria.

Essa descontinuidade é anunciada pela primeira vez na história da arte pelas pinceladas corpusculares de Vermeer e os toques de pincel no ar de Velazquez. Do mesmo modo, foi o impressionismo que inventou pela primeira vez a divisão da luz. Os confetes cromossomáticos de Seurat são o ato notarial da descontinuidade da matéria. A colisão sádica das complementares no perímetro – abaulado pelo movimento browniano – das maçãs de Cézanne não são senão as manifestações físicas do movimento da matéria descontínua.

No cubismo gris de Picasso, a fragmentação reintegradora da realidade é apenas um exemplo da vontade feroz dessa realidade para conservar um aspecto figurativo em plena descontinuidade da matéria. Os dilaceramentos viscerais do genial Boccioni são o anúncio antecipado do dinamismo supersônico e os apolos gloriosos da descontinuidade da matéria. “O Rei e a Rainha” de Duchamp podem ser atravessados por nós em velocidade por causa da descontinuidade da matéria. Os relógios de Dalí são moles porque são o produto masoquista da descontinuidade da matéria. Os sinais de Mathieu são os decretos régios da descontinuidade da matéria.

A efervescência dionisíaca está aí, mas toda essa heterogeneidade heróica nada valerá esteticamente enquanto não tiver sido encontrada a forma artística e clássica de uma cosmogonia apolínea.

Para que as forças vitalmente heterogêneas e antiacadêmicas da arte moderna não pereçam no ridículo anedótico do simples diletantismo experimental e narcísico, é preciso três coisas essenciais:

1) Talento e, de preferência, gênio (desde a Revolução Francesa, desenvolve-se uma viciosa tendência cretinizante que consiste em considerar que os gênios (excetuada sua obra) são em tudo criaturas mais ou menos semelhantes ao resto comum dos mortais. Essa crença é falsa. Afirmo por mim, que sou o gênio moderno por excelência).

2) Reaprender a pintar tão bem quanto Velazquez e, de preferência, como Vermeer.

3) Possuir uma cosmogonia monárquica e católica tão absoluta quanto possível e com tendências imperialistas.

É somente então que, nietzschianos às avessas, isto é, aspirando ao sublime, observaremos a olho nu, “segundo a natureza”, o arcanjo antiprotônico tão divinamente explodido que poderemos enfim mergulhar nossas mãos de pintor entre os cromossomos fissionados de sua substância rouxinolesca, para tocar com nossos dedos doloridos e inchados de sangue o tesouro descontínuo e desejado desde nossa própria juventude. E, acreditando como Soeringe que comandamos tudo por nossa vontade de potência em potência, sei que tocaremos então nossa própria divindade de pintores.

Lido, aprovado e assinado: Salvador Dalí.

do livro “Libelo Contra a Arte Moderna” de Salvador Dalí, editora L&PM.

Paul Cézanne

Paul Cézanne

Johannes Vermeer

Johannes Vermeer

Diego Velázquez

Diego Velázquez

George Seurat

George Seurat

Pablo Picasso

Pablo Picasso

Umberto Boccioni

Umberto Boccioni

Marcel Duchamp

Marcel Duchamp

Georges Mathieu

Georges Mathieu

Salvador Dalí

Salvador Dalí