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___Futuro

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , on março 19, 2019 by canibuk

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A pia inundada de sangue, o amarelado do mármore e vermelho dégradé formando várias linhas irregulares. Procurando o olho, uma prótese retiliana com capacidade de 800.000 mega pixels, pululante como esperma querendo fecundar ralo abaixo, agarrou pelo nervo óptico que estava gorduroso e visguento, o buraco no lado esquerdo da face piscava duas cores florescentes. Parecia uma festa escrota onde estavam comemorando sua dor e a cada segundo as paredes e o azulejo refletiam o quase silencioso desespero, “o código genético não é compatível, desgraça… esses implantes ópticos estão cada vez piores, descartáveis como tudo que existe neste buraco preciso me concentrar e procurar uma, tsi… tsi… que porra, que por… tsi…” Convulsões. “Estourei o chip caro, vou usar esse vagabundo, como nos tempos da R.E.P.U.L.S.A duas pílulas de catalisador neural e um desfibrilador craniano que serve para suportar os 14 segundos de agonia causada por centenas de micro choques em todas as regiões do cérebro. A saliva espumando e melando a camisa, ranger de dentes rachando alguns.

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Acordou com o lado esquerdo dormente, mas foi passageiro e não há tempo para sentimentos, sem poder usar o sistema neural de comunicação apela para o modo arcaico, aperta o dedo mindinho e instantaneamente o símbolo da Corporação se faz presente como a entidade máxima deste mundo. Nome:  080409-001_ Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo, coração e fígado artificiais, “vocês já sabem de tudo e mesmo assim torna as coisas mais estúpidas do que já são, tsi… que porra!”, “olá”. Projetor holográfico formando imagem feminina, um espectro em mundo de sonho lisérgico… fótons, neutrinos e luz, forma incorpórea que se pode apalpar e ter qualquer fantasia, “me apresente os modelos de olhos.” “menos de 12hs e já destruiu o protótipo, “sua opinião não significa nada”, “ querido, compro qualquer coisa pra você, mas não suma, choraria se ainda tivesse as glândulas. “ você é uma criatura medonha e mesquinha, nem precisa de humanos e mesmo assim se diverte com nós os bonequinhos.”  “há muito tempo não tenho paladar ou  qualquer vestígio de animalidade… você sabe? A mente se vicia em padrões, dá significados a cada gesto, nossas ações aleatórias parecem sincronizadas com alguma coisa, mas é invenção da mente, já pensou num ser estranho observando outro ser estranho? Não saberíamos onde começa e termina, a boca e o cu seriam o mesmo orifício ou nada disto existe nem mesmo a simples anatomia… te entendo, por isso quer o olho e ter a ultra realidade de volta…ma… “ cala a boca sua puta inanimada! a ultra realidade é passado, sei como vocês mantem a suposta eternidade, se sou o preferido…tsi…tsi se sou o t..si porque não compartilhou comigo? “simples… você ainda é animal, posso me divertir… você sempre quis assim, vá para casa.” “ só queria essa resposta, mas toda vez tenho que ouvir filosofia barata de uma Tr+ decadente.

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Dormiu e não teve sonho, quando abriu o olho a dor no outro lado voltou com as mesmas luzes piscantes, sentiu que estava sendo vigiado. Um homem quase gordo de cara seca, era 080409-003 sorrindo, “ sabe… ruuuu…”, arrotou alto e todo  seu sistema digestivo sintético estremeceu, “poderia ter matado você antes…ruuu… mas prefiro te ver em pedaços, “ ela me quer, entende isso? “ você não pode entrar na ultra realidade, está começando a desmontar, viciados em upgrade são a escória, se acham os melhores….ruuuuuuu…” dessa vez vomitou uma pasta branca junto com fluídos sintéticos plasmáticos, uma espécie de combustível que gera energia para o estômago corrosivo, 080409-001 olhou aquela boca sem dentes, em menos de 2 segundos esmurrou o estômago macio da criatura que parecia um esgoto ambulante, bateu com toda energia e ódio acumulado, poderia até sentir pena se fosse num outro mundo ou em outra época, se divertiu com o som do atrito que a mão fazia misturado com ruuuu… os olhos de 080409-003 se enchiam de ódio, pensou em levar os olhos mas desistiu porque com certeza era de um modelo bem pobre e ninguém compraria algo vindo de um –X. “ vou arrancar seu HD Neural, não veio aqui por ciúmes, isso não existe tsi…tsi…tsi…tsi…tsi…arrrrgggghhhhh”  todo o cérebro necrosado imerso na papa branca, o fedor insuportável tomou conta do banheiro, “ não preciso de ninguém, é só manter a calma e procurar a porra de um vendedor.”

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Tinha que suportar o mundo físico, a limitação de precisar se locomover através de veículos, de ver as paisagens horrorosas, a padronização vagabunda dos prédios, lixo e todo resto de componentes eletrônicos recondicionados ou simplesmente esquecidos jogados por toda parte, próteses das mais variadas regiões do corpo, incontáveis números de modelos e tamanhos. Pedaços de crânios artificiais dividiam espaço com robôs limpos e brilhantes, mais belos que a humanidade, movimentam-se imitando o criador, possuem todo comportamento de civilidade perdida, quase silenciosos zombam através da idealização do que nunca vamos ser, por isso são escravos. O céu virtual mal disfarça a escuridão provocada pelas nuvens tóxicas, não há energia suficiente para manter a cidade aparentemente saudável, isso irrita mais que o cheiro de máquina obsoleta. O carro deslizava no ar, as paisagens quase iguais e com os mesmos padrões, sem nenhuma personalidade, impessoal e desbotada com os humanoides lá embaixo vivendo e multiplicando-se, só tinha que voltar para o seu amado mundo onde pode mudar a arquitetura e estar num lugar onde os sentidos não sejam agredidos, precisava chegar em casa. Estava entrando na escuridão da galeria, fazem 15 anos e não consegue se acostumar, passa numa velocidade que pode ver seus vizinhos nos cubículos: velhos perdedores amputados que sobrevivem com próteses doadas, robôs domésticos nos seus últimos dias de vida útil, pessoas saindo das cabines de autosexo, catadores de lixo… em suma, o subúrbio. Encostou na porta e a esfera zunindo brilhante veio fazer a biometria. Nome:  080409-001 Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo… A porta se abriu revelando um cubículo cor de azul neon que instantaneamente mudou para o branco florescente, as paredes iluminam-se e transmitem o calor necessário para um ser vivo sobreviver, qualquer lugar pode ser o banheiro, cozinha, sala ou quarto, o sistema mantem a casa higienizada como se fosse uma habitação nova.

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Como não está conectado a ultra realidade ligou a Tv tridimensional, as imagens coloridas e transparentes atingem o olho direito, mundo opaco e com os mesmos discursos de milênios, se interessa nas formas limpas mesmo que desbotadas, a violência impessoal e programada na dose certa do noticiário conforta bastante, como sempre nessa hora “Retrospectiva – História Das Guerras, Um Panorama Desde Que A Bomba Atômica Se tornou Obsoleta”. A voz suave platinada não informa questões sócio culturais e filosóficas para os acontecimentos das batalhas que de sangrentas ficaram apenas o nome, corpos pulverizados ou aparentemente ilesos nos bunkers, emissões das mais variadas rajadas de energia, A Voz entrava na minucia de descrever a geografia que normalmente era numa cidade gigantesca com vegetação sintética mínima e as maravilhas dos mecanismos de morte, tudo muito rápido, higiênico, dentro de qualquer regra considerada “humanista”. 080409-001 estava cansado e com vergonha de si mesmo, nunca tinha cometido dois erros num dia, deixou a obsessão por upgrade acima do senso de preservação, matou o asqueroso e sabia que não poderia descansar, não se importou. “Preciso urgente de você…tsi… um implante retiliano tipo 5. “Venha buscar só e não traga a escória, arranquei a cabeça do seu amigo, não suporto ladrão principalmente quando são viciados sem um mínimo de brilhantismo, era pra eu te arrancar uns pedaços, mas como você paga… Saiu do modo de comunicação da Tv holográfica e deixou A voz se expandir pelas paredes cintilantes até adentrar sua consciência metade cefálica e metade positrônica, do chão levantou uma gaveta, abriu-a e retirou ferramentas com a mão esquerda e ao mesmo tempo que com a outra destampa a proteção craneana, é crime fazer upgrade mas não se importa a muito tempo arrancou os alarmes e não possui nenhuma cicatriz, apenas lembranças. Jorrou sangue quando com a chave errou o ponto que pretendia tocar de leve, estava cansado de sentir dor e conseguiu desabilita-la, o chão empapado de sangue pouco importa, tomou banho e trocou de roupa ali mesmo, ficou em pé e rapidamente o lar estava como tinha deixado, foi procurar o novo olho.

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Entrou na galeria 57, terceira a ser construída, deserto e cheiro de éter milenar impregnavam cada partícula do local, a 500 anos atrás, esses quadrados eram depósitos de máquinas construtoras, tanques e drones que retorciam metal, fabricavam concreto, instalavam sistemas eletrônicos e alimentavam os mesmos anseios de sempre, 080409-001 só vê a decadência de ideais perdidos no tempo, a oxidação de sonhos numa época que ainda não tinham conseguido planificar seu mundo, poderia até ter esperança se nesse devaneio de compreensão não fosse acertado por uma força que o arremessou a alguns metros de distância caindo no entulho de peças oxidadas e pontiagudas cortando rosto, peito e barriga. “vá tomar no cu, desgraça!” A pele sintética rasgou exibindo fragmentos de ossos, músculos, fios e pequenos sistemas eletrônicos, sentiu dor moral de ser pego de surpresa e desmaiou.

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“Dx xltxmx Vxz qxx nxs xncxntrxmxs, vxcx rxxbxx mxx dxcxdxfxcxdxr dx vxz, txnhx xsxdx xssx mxdxlx defxxtxxsx!!!” O ser socou a própria cabeça freneticamente, salpicando pra todo lado saliva amarelada e mal cheirosa. “ Cara vxu te xbrir ax mexo, tudo que fxzemox juntxx x xxxxxxxxxxxxxxx…” Outra pancada frenética na cabeça. “Isso tá me deixando maluco xxxxxx, bem que me disseram pra não me envolver com viciados em upgrade, não há consideração com quem está afim de melhorar… vxx xrrxncxr sxx brxçx!!! Qxxntx cxstxx? 080409-001 enfiou o dedo indicador no corte do rosto, lentamente brincava com a ferida e o sangue sintético que começava a escorrer até o queixo. “ Tsi…Tsi… estou quase morrendo e mesmo assim…tsi…ts…i vim até você para fazer compras e faz isso comigo. ” “ qxerx mex dxcxdxfxcxdxr dx vxltx. “ Falou mais tranquilo pensando no que poderia ganhar se o deixasse vivo. “ Cxrtx, vxmxs pxrx mxnhx lxjx.

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A loja limpa e cheirando a plásticos das mais variadas cores, muitos componentes espalhados de forma aleatória, 080409-001 está no lugar mais agradável que poderia imaginar, as cascas pós humanas quando preenchidas adquirem a força do dono, nesse quadrado são apenas formas de sonhos incompletos, viu uma cabeça familiar na mesa, era o sócio desaparecido a dois dias. “Sxbx…txx lxndx…xnfxxtxndx x lxr.” “Ele morreu, ou você retirou o HD neural?” Passou a mão na cabeça sentindo o cabelo ralo entre os dedos, todo corpo sorria através da boca. “xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx… pxgxr dx vxltx!!! Enfiou a mão por baixo segurando a parte da        espinha e puxou com força, saiu os olhos e o resto dos componentes, a cabeça murchou se tornando apenas um pano de carne sintética, com rapidez retirou a peça e apertou a garganta retirando o dispositivo falho trocando-o. Voz suave. “Seus olhos estão aqui, mas você não vai pagar, tenho um negócio para nós… xxxxxx… sabe…sabe… unghsuh!!! Quero que pegue daqui a 12hs um suprimento para a loja, terá que usar um dos meus corpos…sabe…vou devolver seu amigo, mas quero esse carregamento, esse seu corpo de viciado é uma bosta, tá usando muito a cabine de autosexo, né? Fiquei sabendo que seu clone se deu bem melhor na vida do que você, não aguentou ficar sem um melhoramento e vendeu a máquina criogênica e ainda por cima liberou seu clone, ele é melhor que você, isso é muito estúpido, não pode culpar ninguém pelo que é…meu melhor cliente é você porque o seu D.N.A replicado quer assim, sabe porque fica vivo? A escória diverte. ”

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As paredes do estreito corredor guardam os corpos vazios, as cascas sem consciência são quase incolores e do mesmo tamanho. “Vai usar um modelo militar. ” Sentou na cadeira e automaticamente o processo de scaneamento em 5 segundos, da testa surgiu um compartimento com o símbolo da Corporação florescente. Começou a brotar ramificações, artérias neurais movendo-se irregular acoplando na outra testa murcha, 080409-001 relaxou os músculos para a transferência de consciência nível 3, veio a luz branca intensa, tudo escureceu, retornou a realidade com as cores saturadas e logo tudo como antes. “é simples, você vai roubar o carregamento de memória que se encontra em alguma lua de Júpiter, vá de teletransporte use uma cabine do setor 17 que ainda funcionam sem defeito, você não quer ser lançado ao sol ou ficar vagando por trinta anos em um limbo qualquer ou ser esmigalhado pelos meteoritos…vi um no neurojornal semana passada, foi achado apenas uma perna…”  “ você fala demais.”

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O corpo militar causou bem estar, movimentos leves e sinapses cerebrais velozes sem nenhuma interferência, a visão restaurada e toda tecnologia orgânica de ultima para fazer o que mais gosta, não pensava em devolver essa casca e pouco se importava com o parceiro que poderia deixar de existir, mas qual o problema? Todos compravam memórias, personalidades moldadas em sonhos artificiais, as pessoas não se importam com a verdade, apenas dormem e acordam mudando de casca, reptilianos tecnorganicos, comprar lembranças e mistura-las com a realidade concreta possui o charme de não se importar, de aceitar o cotidiano com o céu fora do ar, as imagens holográficas borradas e toda violência impessoal dos que vivem sem uma dose de imortalidade ou sem upgrade adequado.

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Estava deslizando nos corredores estreitos que mal cabe uma pessoa por vez, o azul florescente fazendo a ambientação apenas interrompida em 10 e 10 minutos com o vermelho indicando o alerta do teletransporte. 080409-001 saturado em passar por cada setor e a biometria se fazendo presente, Sexo: _Masculino _Implantes: Prótese retiliana no olho esquerdo, coração e fígado artificial… A monotonia de parecer imóvel solitário num cubículo faziam suas mãos suarem, pensou em Júpiter e no trabalho que a Corporação fez para torna-la habitável, depois que foi criado os supra corpos a humanidade foi saturada com a falsa sensação de quebra de limites, corpo e mente integrados harmoniosamente, a nova estrutura carbônica unida a sinapses positrônicas, cada cidadão uma ferramenta distorcendo o espaço e tempo cada vez mais rápido, as neuropropagandas hiperbolizando feitos milenares e evidenciando a carcaça sintética, a metamorfose idealizada alcançada, o verme imperfeito migrando e super potencializando a individualidade montando a terceira natureza e construindo a quarta que é cerebral binária e sem nenhum tipo de emoções frugal. Mas o lodo registrado nos genes não segue meta ou explicações através de linguagens simplórias, a sociedade apenas requintou tudo aquilo que é, na povoação de planetas o que aconteceu no passado de certa forma se repetiu estruturalmente e pouca coisa mudou de fato, 080409-001 pensa nas colônias em Ganímedes, IO, nas Guerras De Titãs onde foram pulverizadas algumas luas de Júpiter porque alguns colonizadores não habitaram os satélites nos parâmetros corporativos, na construção das megacidades batizadas de Pequenos Júpiteres que são na verdade fábricas de proto-humanos e armas para manter o controle das colônias. Cheiro de vapores industriais, ácidos diversos, bruma de metais em fundição, sons constantes de testes de armas, tudo organizado sem nenhum nano segundo de atraso ou adiantamento.

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Quando chegou na estação de IO duas pessoas o aguardavam, no peito o símbolo da       Corporação se destacando, eram mulheres como ele, duas bonecas humanoides que rapidamente o cercaram, “080409-001, temos pouco tempo para pegarmos essas memórias, nosso cliente está ansioso em ter lembranças harmoniosas. ” Comunicou em sua mente a que parecia uma espécie de líder, era uma mulher sem vestígio de sentimentos só não confundiu com um autômato porque lá no fundo dos olhos tinha a chama da vida, a outra quase idêntica a ela permanecia calada e com um sorriso que parecia que explodiria a qualquer momento. Não sabia o que responder, acenou afirmativamente mesmo sabendo que seu empregador não citou que teria ajuda. “não se preocupe, vamos dividir tudo em 3 partes iguais, vocês acharam que ninguém da Corporação não perceberia o seu interesse em nosso melhor carregamento de memória? Os laboratórios estão cheios de cientistas e máquinas só para construir lembranças… não adianta tentar desconectar de nossa frequência, sou eu que mando nesse quadrante, venha logo! Nos chame de 080000-034 e 080000-079.”

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O automóvel da Corporação decolou em alta velocidade e desceu os tuneis onde se encontra a cidade 33 sem que 080409-001 pudesse ver a vastidão de satélites, o vermelho, amarelo e as brumas incandescentes de Ra Patera. “ Vamos entrar na zona limbo, ativamos a Sala Vibratória.”

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Aterrissou o carro na plataforma subterrânea e a sua frente uma gigantesca estátua antropomórfica de touro segurando um bebe em posição de sacrifício, na testa o símbolo da Corporação. 080409-001 viu a enorme escultura levantar a criança acima da cabeça e olhar para as visitas disparando um raio que teletransportou-os para dentro de si. A sala branca e esterilizada, ouviu a voz metálica, “Deus é uma palavra-símbolo, que designa todas as personalizações da Deidade. O termo requer uma definição diferente para cada nível pessoal de função da Deidade e deve, ainda, futuramente, ser redefinido dentro de cada um desses níveis, pois esse termo pode ser usado para designar as personalizações diversas, coordenadas e subordinadas, da Deidade, como por exemplo: os Filhos Criadores do Paraíso: os pais dos universos locais”. Logo as paredes começaram a tremer e o espaço a aumentar formando fauna e flora natural, cheiro de ambiente primitivo, 080409-001 ouviu sons de seres que só reconheceu por causa do banco de dados em seu hd neural, havia um sol sadio se pondo, céu azulado e nuvens roxas de fim de tarde, do chão um monólito de 30 metros brotando e rasgando o solo refletindo no centro o símbolo da Corporação. A voz continuava, “A realidade eterna do Absoluto da Deidade tem muitas características que não podem ser inteiramente explicadas à mente tempo-espacialmente finita, mas a factualização de Deus, o Absoluto, existiria em consequência da unificação da segunda Trindade experiencial, a Trindade Absoluta. Isso constituiria a realização experiencial da divindade absoluta, na unificação de significados absolutos, em níveis absolutos; mas não estamos seguros no que diz respeito à abrangência de todos os valores absolutos, pois não fomos, em tempo algum, informados de que o Absoluto qualificado seja equivalente ao Infinito. Destinos supra-últimos estão envolvidos nos significados absolutos e em uma espiritualidade infinita e, sem que essas duas realidades sejam alcançadas, não podemos estabelecer valores absolutos.”  Um raio foi disparado 080000-034 perdeu a cabeça, explodiu igual a uma bola de soprar, massa vermelha e ligações neurais pra todo lado, o corpo sintético ficou estático, não foi derramado nenhum fluido porque as travas de biossegurança estancaram as artérias. “Não se preocupe 080000-034 tem o hd neural numa unidade remota daqui a 4 horas ela estará em atividade.” Respondeu sorridente 080000-079 mas não por muito tempo, outro raio arrancou seu braço direito, só não perdeu a cabeça porque percebeu o disparo a tempo e pulou, o monólito agora parecia maior e mais tétrico, outro raio na direção de 080409-001 que facilmente esquivou. Logo o vazio do silêncio e o medo da morte invadindo órgãos e circuitos, 080000-079 correu na direção oposta do monólito, agora estava só com um corpo estático ao seu lado. “A realidade está sujeita à expansão universal, a personalidade à diversificação infinita; e ambas são capazes de uma coordenação quase ilimitada com a Deidade e de uma estabilização eterna. Se bem que o campo metamórfico da realidade não pessoal seja definitivamente limitado, não conhecemos limitações para a evolução progressiva das realidades da personalidade. ” Depois de ouvir a voz começou a perder controle do corpo, sentiu um enorme peso na cabeça e começou a levitar como se alguém o suspendesse por ela e quanto mais subia sentia que estava se tornando parte do monólito, da testa o símbolo da Corporação se fez presente e emitiu uma onda que foi em direção da estrutura quadriculada ativando outro símbolo que se chocaram, nesse momento o ambiente bucólico se transformou novamente e o sol foi parcialmente coberto pela lua, era um eclipse rápido como numa máquina de simulação da realidade. 080409-001 foi assimilado pelo monólito e começou a gritar de dor, seu corpo foi amassado e esticado para todas as direções até que se recompôs caindo de joelho num corredor estreito e aparentemente infinito, por mais que corresse parecia não sair do lugar até que se acalmou e descobriu que nas paredes havia gavetas e nelas numerações de pós-humanos, tocou em uma e viu corpos transparentes exibindo o esplendor de uma anatomia primitiva, porém superior.

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 “Esses seres que geram 70% de nossa realidade.” 080409-001 compreendeu que a voz dizia e puxou sua X Buster que é um vulcão portátil de plasma e apertou o gatilho com a arma em direção as lápides poligonais, disparou três vezes para conseguir o resultado esperado. Os Hds neurais eram bem maiores e mais pesados e não estavam acoplados aos corpos, percebeu uma rede que levava ao hd central. 080409-001 ativou o dispositivo para se conectar com a rede, mais uma vez o símbolo da Corporação presente e a ventosa neural buscando o cadeado para a exploração sinestésica na realidade binária. O encaixe e luz branca. Estava flutuando e quase se tornando o nada, mas apareceu centenas de milhares de espirais multicoloridos cada um representando universos de memórias ligadas por um vórtice um pouco maior de cor não perceptiva aos padrões normais de consciência. Tocou os minúsculos buracos negros um de cada vez roubando pedaços de lembranças, as melhores vitórias pessoais, os pequenos triunfos cotidianos, os amores, os prazeres e pequenas dores existenciais… Toda uma humanidade que ele até então desconhecia, tantos sentimentos, respostas e dúvidas algo que no fundo sabe ter dentro de si mas ignora. Nadou para fora do aquário cibernético, a luz se apagou e retornou a realidade da Zona Limbo vendo as cores saturadas e o hd neural quase sem espaço, pensou se havia como derrubar o monólito, observou a feminina escultura sem cabeça que estava estranhamente oxidada. Ativou o hd neural reserva para isolar as memórias colhidas e pensar melhor sem tanta sinapse caótica, precisava localizar o carro e cair fora antes de ser pulverizado.

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Encontrou o veículo também estranhamente oxidado, mas todos os comandos operacionais em ordem. Pilotou o carro fazendo-o deslizar sobre a paisagem vendo o monólito se tornando cada vez menor e ativou a Sala Vibratória para voltar a dimensão que vive deixando pra traz a estranha escultura. Saiu de IO e foi direto para a loja. “vejo que conseguiu as memórias, agora você percebe que a ultra realidade é uma invenção obsoleta?” “ já sabia, mas ainda era bem melhor que esse mundo em que vivemos.” “não diga isso 08040-001, nossa realidade é pobre mas pelo menos podemos pegá-la e na dimensão que pretende morar as coisas são apenas restos de sonhos delirantes, me passa essas memórias e… Antes de completar a frase recebeu uma descarga de X Buster no estômago fazendo um enorme buraco, dava para ver do outro lado,  a mesa onde estavam braços e restos de diversos pós humanos recondicionados, “ você me deve filho da puta, acha mesmo que seria tão rápido assim?” O corpo tombou no chão e aos poucos o sangue artificial foi mudando a cor da sala. 08040-001 sabia que não tinha tempo e com certeza o vendedor tinha outro hd neural e corpo reserva e não seria perdoado, começou a atirar desintegrando muitas peças que poderiam ser úteis num futuro próximo, roubou a máquina criogênica, um pequeno útero com dispositivo keyboard holográfico, poderia voltar a vida antiga de regalias escravocratas.

5

Chegando em casa fez três clones que demoram nove horas para estarem maturados e a diferença entre eles é bem visível, defeituosos e com patrão cerebral individual, não se preocupou e achou interessante a possibilidade de interagir com clones que poderiam ser bem divergentes da matriz original.

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Os três clones em menos de doze horas provocaram um motim, não queriam fazer ou faziam tudo que o chefe ordenava ao contrário e prevendo serem desintegrados esperaram 08040-001 estar distraído e o dominaram com uma carga do desfibrilador craneano que sem o catalisador neural a dor é paralisante como uma bomba de nêutrons explodindo no cérebro. “Quero usar esse corpo, ele é… “imbercil somos de carne primitiva e não temos conectores para migrar!” “mas… ma… Levou um chute na barriga, “para que você está vivo mesmo?” “ unhgisu, huoius, só quero…” “…tomar o lugar do miserável, mas não percebe que não temos pra onde ir nem o que fazer, somos uma existência descartável, sem nossa função primária não…” “…há sentido? Você quer derreter nesse lugar, só topou porque sentiu tédio, não tem acesso a toda tecnologia da casa.” Falou o terceiro clone que tinha acabado de entrar. “não se aguentou e foi para cabine de autosexo, não é a mesma coisa para nós… como é que pode nos castrarem e mesmo assim o desejo continua, continua!!! “ você fala demais, sua paranoia vai nos atrapalhar, vamos simplesmente mata-lo e curtir seis meses de existência num planeta qualquer, compramos identidades e supra corpos.” “ como não pens…” antes de completar a frase foi empurrado para o chão e pisado na cabeça. “vão fazer o que quero.” Os outros foram pra cima do clone dominador. “ você não é o chefe.” 08040-001 disparou uma rajada de XBuster que desintegrou os três clones, bruma e cheiro de carne clonada frita impregnou a casa, não conseguia ver nada a sua volta e em imediato ouviu a voz de um drone policial que rasgou seu cérebro, mas ficou tranquilo, a polícia estava atrás do vizinho que tentando escapar e foi incinerado com o raio da morte de versão obsoleta que apenas carboniza o alvo, provavelmente usou uma peça roubada ou não pagou a comida.

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08040-001 estava se deliciando com uma das memórias roubadas quando decidiu ir para as Ilhas Flutuantes onde não existem leis e todo tipo de comercio é permitido existindo uma população de seres enjeitados e comerciantes que por atender gostos peculiares vão aos céus e vendem seus produtos sem problemas éticos, pensou em vender a máquina criogênica e algumas memórias, foi até o carro e saiu deslizando pelo céu observando que  de cima não existe decadência, apenas halo de formas organizadas e que o colapso parece inevitável. As Ilhas Flutuantes eram centenas de cidades antigas que foram recondicionadas e desprendidas do solo por um grupo de famílias ricas que não queriam obedecer as regras da Corporação mas que pagam tributos altíssimos para que se tenha a liberdade vigiada, é o único lugar que não existem Drones policiais cumpridores da lei e as câmeras de vigilância não ficam ligadas 24hs e tem um feriado que uma vez por ano não se liga nenhum dispositivo externo aos supra corpos. A primeira ilha começava a crescer perante seus olhos, centenas de prédios com janelinhas imitando o estilo do século XXI e embaixo humanoides vendendo todo tipo de pequenos equipamentos, quando saiu do carro observou um grupo de monges que resolveram assimilarem-se formando um tipo de escultura, espécie de arvore dhármica recitando mantras, “o que é apego? Há quatro tipos de apego, o apego aos prazeres sensuais, apego a uma mesma opinião, a regras e ritos, apego a ideia do “eu”… quando eles terminavam quase em uníssono repetiam, viu que estavam vendendo capsulas metamórficas que há 300 anos foram proibidas pela corporação que censurava qualquer integração humana a qualquer tipo de vida extraterrena ou com a biodiversidade da terra, e hoje o que se encontra na terra é apenas simulacro de formas que foram perdidas no tempo. “vendo essa capsula mutagênica de híbridos das galáxias do setor 70 que mescla vidas simbiose com vidas etéreas e biológicas que já foram encontradas em nosso sistema.” “ o que precisamos é voltarmos aos cultos experimentais… onde poderíamos retalhar a carne e não simplesmente construir algo além nossas necessidades…eles nos vendem sonhos, nos vendem nosso próprio corpo…padronizam nossas experiências controlando nosso cérebro, nos tornamos objetos que compram mais objetos, negamos a liberdade? Não negamos o que não existe…” O pregador era um cubo emanando ondas cerebrais que interrompem a neuropropaganda. 08040-001 sentiu-se seguro e foi direto a uma loja segurando a máquina criogênica subindo um túnel de serviço que é incolor percebendo que a altura que estava o holograma que simula o dia e a noite no planeta perde quase todo seu efeito borrando o céu como espectro de uma filmagem vulgar. As dimensões da loja são desproporcionais ao que é vendido, luxo arcaico contrastando com proto humanos modificados a moda antiga, repteis de planetas extintos e que se reproduzem no cativeiro semi iluminado, autônomos de políticos de 100 anos atrás e que servem apenas para fingir opulência, máquinas criogênicas obsoletas que chamam atenção apenas de colecionadores, algumas armas de projeteis materiais, pequenos módulos a energia nuclear… espalhados para não parecer que há essa diversidade de escolhas. O vendedor estava atrás da cabine e acionou o autônomo, “senhor o que deseja?” “ quero vender essa máquina criogênica e memórias especiais extraídas da dimensão vibratória.” “ veio ao local certo senhor, mas essas transações só podem ocorrer pessoalmente com o vendedor… aguarde 5 minutos senhor.

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O vendedor saiu da cabine de segurança, era um homem de carne, “vocês lá de baixo perderam todo prazer da vida, acham que os supra corpos te dão alguma vantagem… estão anestesiados por causas e objetos que nem entendem, as memórias clonadas e padronizadas empesteiam o universo e o que vocês conseguem com isso? Apenas diversão. ”  “O que você sugere?” “ Nada, absolutamente nada além de objetos para compra ou troca, e sei que você tem as memórias que necessitamos por aqui, algo que a neuropropaganda classifica como Crime do Pensamento e eu chamo de Crime de Pensar Por Si Mesmo” “ você acredita nessa porcaria toda de mudar a ordem ou é apenas um vendedor com sentimento de culpa?” “apenas vendo, isso vai além da ordem, as memórias controlam nossos desejos, elas nos mergulham em sonhos e prazeres que por mais virtuais e impossíveis que pareçam nos dão algo de humano” “não precisamos de humanidade, olhe o que é isso aqui, negar isso é um paradoxo”  “ quem está negando? quem usa supra corpos e ultra realidade se nega o tempo todo, a Corporação sabe disso e fabrica um monte de 08040-001… a cada dia você deixa uma particularidade sumir, todos os componentes que usa para upgrade pode ser comprado por qualquer um, não existe individualidade apenas um preço a pagar, não percebe?” “ não quer vender?” “ obvio, mas se não é você agora será outros e outros trazendo algo que acham especial.” “essa memória é da Zona Vibratória, percebo sua tentativa de barganha, vendedores e sua mania de tentar barganhar.” “ não há barganha, suas memórias já foram compradas a mais de 500 anos, elas são um doce fino na boca da escória, sabe quem é você?” “estou pensando se desintegro você, pessoas que falam demais são preguiçosas e sem coragem que acham que podem manipular os outros para fazer o que querem.” “você tem mais 5 minutos de vida, seu hd neural é descartável, tanto poder na mão de um clone “ que bosta está falando?” “ você está preste a derreter, seu dono trocou de lugar com você para que esse roubo acontecesse, a Zona Vibratória só possui um defeito, não detecta clones como ameaça porque normalmente são apenas servos com vontade controlada pela Corporação, mas não fique triste, você é o primeiro da sua espécie a ter êxito e conhecer um funcionário de alta patente, observe.” Apertou o botão que fez aparecer a imagem de um  08040-001 um pouco diferente e dizendo, “ posso te chamar de irmão ou algo mais importante, não é muito legal acabar consigo mesmo, considero assim, sou irmão de mim mesmo e nessa era que vivemos pude materializar isso, você é melhor que eu, não pensa muito… o agir é algo que pude aperfeiçoar em você, obrigado por trazer as memórias, elas serão vendidas a muitas pessoas que não compreendem o que é viver, e você sabe disso, ama a vida e para isso não pode perder tempo, anime-se você não terá fim, é um sonho também e futuramente será compartilhado até um infinito incompreensível, aproveite os últimos momentos para uma última felicidade, comtemple.” A imagem desapareceu e o vendedor segurou seu ombro, “ me acompanhe, tem um lugar para descansar. ” Chegou num terraço que dava para ver o céu esfacelado pela poluição, cinzento como tudo que está dentro de si, sentiu conforto, “ deite-se aqui, não é lindo?” Começou a derreter tomado pela tranquilidade.

Texto de Jean Souza.

Arte de Walmir Knop Júnior.

Iara – A Sereia do Pantanal

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 24, 2019 by canibuk

Reza a lenda que foi mais ou menos pra lá dos cafundós do Pantanal que você encontrou Iara, a sereia das lendas indígenas que te assombravam quando criança.

No dia em que seu marido lhe falou sobre o plano de assaltar aquele casal de fazendeiros ricaços, seu sexto sentido de mulher grávida, lhe fez coçar as orelhas. Você sabia que devia seguir sua intuição e não ir junto, afinal estava grávida de sete meses de seu primeiro filhinho. Somente isso seria motivo mais do que suficiente para que ficasse naquele grande e caro apartamento, que possuíam graças aos roubos e seqüestros.

Você sabe que seu marido a teria deixado ficar no apartamento, mas sua ganância foi maior do que a coceirinha que você sentia atrás da orelha. Na verdade, você era viciada na adrenalina dos assaltos, na sensação de poder que o empunhar de uma arma lhe proporcionava, e queria estar lá, junto, tocando o terror naquelas pobres vítimas.

E você pensava ainda que aquele casal de ricaços idosos não tinha nada que guardar tanto dinheiro em casa. Que colocassem num banco, porra! Ou que pagassem pela segurança do dinheiro, não é mesmo? Fosse o que fosse, você queria aquele dinheiro todo pra si porque queria continuar bancando sua vida de luxo e de mordomias mil.

Você se sentia especialmente poderosa na noite em que foram assaltar os velhos. Você, seu filho de sete meses se remexendo animado em seu útero, seu marido com um sexy olhar de assassino carrasco e João, o informante paspalhão que cantou tudo sobre o casal de sovinas ricaços. O informante que vocês já haviam decidido matar após estarem com o dinheiro, afinal, agora você trazia mais uma boca para alimentar e dinheiro nunca é demais.

Vocês quatro estacionaram o carro perto da fazenda, se armaram até os dentes e calmamente seguiram sob o luar até a casa grande onde os velhos viviam sós. Sozinhos e abarrotados de dinheiro e joias, muito dinheiro e muitas joias, coisa de velhos que não confiam nos outros para guardar suas riquezas.

Era muito fácil, não?

Era só entrar na casa, atirar nos velhos e procurar com toda a calma do mundo o local onde guardavam o dinheiro e as joias. Tinha tudo para ser moleza demais, não?

Como adivinhariam que, no momento de render o casal, já dentro da casa, aqueles velhos filhos da puta estariam limpando suas armas? Como adivinhariam que o velho estaria com uma doze nas mãos e a velha, com uma espingarda de caça, como se estivessem esperando os assaltantes?

Você mal assimilou qual era o objeto que o velho carregava nas mãos quando ouviu o estampido do tiro que arrancou a cabeça de seu marido, fazendo com que toda a parede atrás dele se salpicasse de carne moída triturada e esmigalhada.

Você ficou ali, parada, surpresa, vendo seu marido sem cabeça em espasmos, tombando ao chão. E, antes que pensasse em reagir, ouviu o tiro da espingarda de caça que lhe atorou o braço esquerdo fora a fora, deixando-o meio pendurado em seu corpo.

A dor que você sentia era intensa, mas quando você viu João se mandar correndo escuridão adentro, você sacou que, mesmo com seu braço dependurado junto ao corpo, mesmo com seu filho agitado dentro de sua barriga lhe chutando nervoso como quem pede para que faça a coisa certa, você também precisava se mandar dali.

E você se mandou.

Com forças sabe-se lá d’onde conseguidas, você ignorou a dor e correu em direção ao carro, mas já era tarde, agora você o via se afastar já longe, pois João era só “rodas pra que te quero” para salvar apenas seu próprio rabo.

Confusa, sem saber muito bem o que fazer, você correu o máximo que pôde para dentro dos banhados do Pantanal que circundavam a fazenda dos velhos.

E você correu por um bom tempo pântano adentro. Correu e correu muito, até não aguentar mais e desmaiar sobre seu braço dependurado por um mix retorcido de carne e ossos.

Você já não sentia mais seu filho chutando sua barriga, alucinadamente, como se pedisse sua atenção. Você simplesmente não tinha mais forças para aguentar aquela dor toda e só queria desmaiar em paz e que, de agora em diante, fosse o que o diabo tivesse lhe reservado.

Assim, você não percebeu quando aquela velha senhora centenária, completamente enrugada e de lento andar, encontrou seu corpo todo fodido e o arrastou até o casebre construído sobre palafitas num rio qualquer do pantanal.

Você não despertou de seu desmaio enquanto a velha limpou seus ferimentos com um paninho úmido. Também não acordou quando a idosa retirou toda sua roupa e ficou, por um longo tempo, contemplando sua barriga de grávida. Barriga essa que fazia a senhora do pântano abrir um tenro sorriso em seu rosto carcomido pelo tempo.

Você não acordou quando a velha imobilizou com cipós suas pernas e seu braço ainda inteiro. O outro braço, inútil, não foi necessário imobilizar.

Você só acordou quando sentiu o facão empunhado pela velha senhora lhe rasgar a barriga. Aí sim, de um único suspiro, você recobrou a consciência sentindo as mãos da velha entrando em seu útero e arrancando de seu interior quentinho seu inocente filho.

Você tentou se livrar dos cipós, mas a dor lhe impossibilitava de ter as forças necessárias para se desvencilhar das amarras bem apertadas, no estilo indígena do Pantanal.

Urrando de dor, você viu quando a velha se afastou vagarosamente carregando seu filho banhado de seus líquidos gotejantes. Você sentiu o cordão umbilical se esticar até se romper por completo.

Sem forças nem para morrer, você viu quando a velha largou seu filho prematuramente nascido sobre a mesa da simplória cozinha do casebre. Seu filho que se remexia desesperado tentando chorar ou, simplesmente, gritar, sabendo que você o meteu naquela furada.

Você ainda viu a velha começar a preparar o que parecia ser uma refeição. Viu quando ela picou uma cebola inteira, acompanhada de três dentes de alho, salsinha a gosto mais cebolinha verde, para dar o gostinho da felicidade. Você a viu pegar quatro batatas e cortar em rodelas, logo antes de triturar cinco tomates num moedor de carne manual. Pelo jeito, a velha senhora adorava um molho bem grossinho. Manjericão, folhas de louro e um punhado de coentro também foram reservados para o delicioso prato que você via tomar forma diante de seus últimos minutos de vida.

Você ainda pensou, naquele instante, que, se tivesse ficado no conforto de seu grande e caro apartamento, poderia ter proporcionado segurança ao seu pequenino rebento ainda não assado. Mas, “e se” é algo que não existe. O que foi feito é o que foi feito. E ali estavam vocês, tu e teu filho, a mercê de uma cozinheira de tão rebuscado paladar. Você nos últimos suspiros e ele pronto para entrar na panela.

Seus pensamentos voltaram-se ao momento presente, quando você viu a velha senhora colocar banha de porco numa bandeja. Não muito, lógico, somente o suficiente para não deixar as carnes de seu filho grudarem no utensílio doméstico.

Você ficou completamente aterrorizada quando viu seu filho ser colocado na bandeja junto das batatas picadas. Você gritava de pavor enquanto a velha acrescentava os temperos e seu filho chorava indefeso, tomando o cheiro e o gosto de tão deliciosas especiarias.

Você ainda viu quando a senhora abriu a pequena portinha de seu forno de barro já pré-aquecido e enfiou seu filho lá dentro, fazendo com que a choradeira da criança logo se acabasse após alguns gritinhos mais agudos de dor. Ser assado vivo em tão tenra idade não é mole não, mamãe!

Você viu! Você viu! Você viu tudo, querida mamãe!

O silêncio desolador que você sentiu naquele momento lhe amorteceu os sentidos. Embora você soubesse que deveria sentir toda a dor do mundo – e ainda ser merecedora dessa dor – você nada sentiu quando a velha serrou seu crânio com um velho serrote sem fio.

Você apenas morreu em silêncio, aterrorizada, olhando cegamente para o forno de barro onde seu filho agora assava para compor o mais fantástico dos pratos macabros.

Morta, você nada mais sentiu quando a velha retirou de sua casca sem vida seus miolos ainda fresquinhos. Você nada sentiu quando ela passou sua massa cinzenta no moedor de carne e nada viu quando ela misturou aos tomates moídos que seriam cozidos com muito alho, cebola e uma pitadinha de manjericão com coentro.

Seu corpo morto não viu quando a velha senhora retirou seu filho assado do forno de barro e acrescentou o molho de miolos à gordura de porco que borbulhava na bandeja, deixando as carnes de seu filho crocantes, mas, ainda assim, macias.

Você não viu quando o tétrico prato ficou pronto e a velha o salpicou com muita salsinha e cebolinha verde.

Não viu quando ela cheirou o prato alegrando-se com o aroma indescritível de tão rara iguaria.

Você ali, morta, não viu o prazer magnânimo que a velha sentiu em suas papilas gustativas a cada grande naco da carne bem temperada de seu filho assado, que ela devorava com apetite voraz. A velha parecia estar a vida toda sem comer. E talvez até estivesse.

Você não viu a velha comer todo o seu filho, limpando até o último pequeno ossinho nem bem formado e lambendo os dedos engordurados para então, somente então, dar-se por saciada.

Ali, morta, você nem sequer imaginou que seu filho, e seus miolos, fossem ingredientes de um satânico ritual de uma milenar lenda do Pantanal, parte de um banquete de rejuvenescimento da sereia Iara, a bruxa canibal dos rios brasileiros.

Se você tivesse agüentado viva mais alguns minutinhos, teria visto que após o banquete a velha senhora sofreria uma sanguinolenta metamorfose, em que suas flácidas carnes de idosa centenária amoleceriam fazendo que, de seu interior gosmento, uma nova Iara belíssima, com rabo de sereia e tudo, saísse lá de dentro tal como uma borboleta deixa seu casulo, voltando a ser uma encantadora mulher-peixe, que voltaria a nadar nos rios, hipnotizando ribeirinhos e devorando solitários pescadores que se aventuram pelas alucinantes noites do Pantanal.

Escrito por Petter Baiestorf.

ilustração de Marcel Bartholo.

Fevereiro de 2018.

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O Cu: Moleza com Sacanagem Total

Posted in Bizarro, Fanzines, Literatura, Quadrinhos with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on novembro 8, 2018 by canibuk

Moleza com Sacanagem Total

I.

O deserto tentou me engolir. Pulei fora e rolei em direção de uma grande e úmida circunferência. Tal circunferência possuía um odor característico fácil de ser identificado. Sim, possuía odor de cu. Era um cu gigante logo abaixo de um imenso deserto de pele e não areia como os bobos imaginaram. Tudo estava claro agora, claro como uma trepada gostosa sobre a relva e eu sempre tive razão: O cu era uma circunferência, portanto, redondo. Beijo o cu gigante feliz porque sempre estive certo e os professores é que estavam errados. O belo cu é redondo !!! Re-don-do !!! Olhando diretamente para o buraco que havia no centro de tão enorme e poderoso cu, vejo uma luz no fim do reto. Fiquei deverás curioso, pensando cá com meus ovos, louco para saber o que poderia haver no fundo do cu, se é que cu tem fundo. Será que no fundo do cu haveriam criaturas monstruosas ? Vermezinhos falantes ? Lombriguinhas dançantes ? Bactérias fecais intelectualizadas pela Globo ? Realmente estou muito curioso…

II.

O amor caiu junto da sujeira e ficou sujo. Com um pequeno esforço consegui entrar no cu ciente que se não conseguir ver as criaturinhas do cu – Culenses ? – finalmente ei de saber o que é aquela luz que brilha no interior do cu.

III.

Caminhei sempre seguindo em direção a luz que brilhava no horizonte pomposo. Meus pés afundavam na merda amolecida a cada passo. Cansado sentei num caroço sangrento que havia na tripa grossa. Parecia ser o início de uma úlcera maligna. O sangue meio coagulado, meio líquido, molhou minha bunda. Ironia ou não do destino, mas o fato é que agora havia um cu dentro de um cu, ou seja, meu cu dentro daquele enorme cu solitário no deserto de pele. Melhor um cu dentro de um cu do que um cu com cu. Porém, para minha surpresa, o tal cu gigante possuía vários cuzinhos em seu interior. Suas paredes cheias de remelas e cascas fecais secas possuíam uma imensa galeria de cus de todos os tipos e variados cheiros. E para espanto geral, aqueles cuzinhos pequeninos falavam. Porra do caralho caralhudo, um cu gigante que tem vários cuzinhos e um cuzão dentro dele. Aliás, tem dentro dele um cuzão com seu próprio cu, perplexo, olhando descaradamente para a parede de cuzinhos falantes. Bem, aproveitarei a oportunidade e farei perguntas, como todo bom curioso deve se portar.

IV.

Sentado na úlcera pergunto aos cuzinhos do cu sobre a misteriosa luz que havia a nossa frente. Eles, sempre em coro – depois descobri que todos os cuzinhos faziam parte de um único cérebro pensante e todo poderoso – me respondem que aquela luz é o centro do Universo e que dali surgiu tudo já expurgado para dentro da humanidade. E completam ainda que todos são iguais perante a luz e aqueles que são diferentes são expurgados de volta a humanidade. Pensei: “Porra, eu sou diferente !!! Sou um cuzão humano com um cu e não um cu soberano com vários cuzinhos !”. Os cuzinhos gargalham debochando de mim. A luz, o centro de todo o Universo, faz um estrondo ensurdecedor e gases me carregam para fora do enorme cu que havia no deserto de pele. Enquanto vôo para fora do todo poderoso cu que rejeita os diferentes, fico pensando: “Bem que isso tudo poderia se chamar ‘O Centro Da Humanidade É Uma Luz Sem Forma Com Pequeninos Guardiões Que Falam Toda E Qualquer Língua’ !!!” e no chão caio, batendo minha cabeça no deserto, esfolando meu queixo. Finalmente sei de toda a verdade, mas acho que não irá adiantar nada pois certamente passarei por um profeta do caos enlouquecido e a esmo deverei vagar pela eternidade.

Texto de Petter Baiestorf.

Em 2000 o desenhista Reginaldo criou a HQ “O Cu“, inspirado no texto “Moleza com Sacanagem Total“, que editei no fanzine ARGHHH #29, e versava sobre o cidadão classe média brasileiro. Segue o resgate da HQ aqui:

Maldohorror – O Coletivo do Pavor

Posted in Entrevista, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on setembro 17, 2018 by canibuk

Maldohorror é um coletivo de escritores do gênero fantástico que foi criado em 2016 pela dupla E.B. Toniolli e Carli Bortolanza, habituais colaboradores na Canibal Filmes.

O coletivo conta com quase 50 colaboradores fixos, postando uma obra inédita em seu site a cada dois dias. Em tempos tão individualistas como se tornou o mundo pós-redes sociais, dá gosto ver um trabalho coletivo de apoio mútuo como este. Para falar mais sobre o coletivo, entrevistamos a dupla de idealizadores do projeto.

Para conhecer o coletivo Maldohorror, clique na figura abaixo:

Canibuk: Conte como surgiu o Maldohorror.

E.B. Toniolli: O Maldohorror surgiu da necessidade de termos um lugar onde divulgar nossos contos e poesias e fazer experimentações. Por nós, entenda-se por mim, Peter Baiestorf e Carli Bortolanza, amigos de longa data e parceiros em produções cinematográficas. Pensamos num formato diferente, onde publicaríamos 1 obra por dia, sempre a meia-noite. A idéia é atrair outros escritores e assim criando uma comunidade, um coletivo, onde os escritores se apóiam e dessa união esperasse o surgimento de livros, e-books e produtos diversos.

Carli Bortolanza: Estava estudando numa cidade vizinha e ia uma vez por semana de ônibus pra lá, e como o Toniolli mora perto da rodoviária, passava lá e ficávamos umas 4 horas jogando conversa fora, jantávamos e ai depois pegava o ônibus, e nessas conversas, o Toniolli veio um dia com uma a idéia de criar um site para publicar nossos escritos, não lembro bem qual era o nome, mas fomos conversando daqui e dali e nisso surgiu o título Maldohorror, em homenagem ao Isidore Ducasse. Fomos conversar com o Baiestorf que também “comprou” a idéia e ai surgiu o coletivo, mas no começo éramos só em três, e todo dia um texto estava no ar, ai convida daqui e dali, e começa a surgiu o quarto, o quinto, dando um alívio, pois foi uma tarefa árdua, manter todos os dias um texto no ar em poucos escritores.

Canibuk: O que é o Maldohorror? Qual o objetivo com este coletivo literário?

Toniolli: Maldohorror é inspirado no célebre personagem Maldoror, do excelente escritor, Isidore Ducasse, vulgo Conde de Lautréamont (escritor maldito uruguaio/francês no final do século XIX). A idéia foi fazer um trocadilho e aproveitar e inserir o termo Horror, que muito define e identifica os 3 primeiros membros do coletivo e, também, norteia a maioria dos escritores que fazem parte. Maldohorror nasceu com o objetivo principal de apoiar escritores, desde iniciantes até profissionais, desde poetas líricos até desvairados sexuais e dessa mistura emergir um cenário rico para nossos leitores.

Bortolanza: De início, acho que era a pra termos onde mostrar nossos trabalhos, mas não só nós, nós enquanto pessoas que escrevem e não tem onde publicar, e com o site, buscar encontrar essas pessoas como nós que temos muitos textos nas gavetas de casa e unirmos para demonstrar que mesmo no mundo dos sonhos, ninguém está sozinho.

Canibuk: Como fazer parte do coletivo?

Bortolanza: É muito fácil, basta escrever sobre fantasia ou textos malditos, que criticam as religiões, as políticas e esse sistema pobre em que vivemos. Com pelo menos 5 textos nesse estilo, encaminhar para o e-mail contato@maldohorror.com.br e alguém do grupo vai receber e encaminhar para um dos membros que é responsável pelas novas aprovações.

Toniolli: Temos uma comissão, que troca de tempos em tempos, que analisa as obras e aprova a entrada ou responde com críticas positivas para a melhoria das obras. Temos uma posição forte contra qualquer tipo de racismo, sexismo, etc, por que consideramos que a cultura serve pra unir e construir uma sociedade melhor

Canibuk: Como funciona o site? As obras inéditas são lançadas de quanto em quanto tempo?

Toniolli: Hoje, as publicações no Maldohorror são feitas de 2 em 2 dias, através de ciclos. Por ciclo entenda-se repassar todas as obras de nossos autores em ordem alfabética inversa. Os autores enviam suas obras para o editor, atualmente o Carli Bortolanza, que analisa e repassa para uma equipe de revisores. Em seguidas as obras são enviadas para a equipe de publicação, que faz a postagem no site e a divulgação nas redes sociais. Dessa forma vamos executando as atividades de forma coletiva, que é a essência do Maldohorror.

Bortolanza: No começo do site era lançados um texto por dia, todos os dias, embora tenhamos muitos escritores hoje, os textos estão sendo lançados a cada dois dias, para que cada um dos autores possa escrever com mais calma e cada vez melhor e também ter um tempo maior para estar divulgando.

para ler o conto coletivo, basta clicar na imagem abaixo:

Canibuk: Maldohorror funciona como um laboratório aos escritores?

Toniolli: Na minha maneira de ver, sim! Todos os envolvidos estão ligados a arte e arte é experimentação e nada melhor do que uma ferramenta online para testar e já receber feedbacks.

Bortolanza: Alguns escritores já são profissionais, digo, escrevem muito bem e muito, com livros publicados. Mas também tem autores que suas primeiras publicações foram no Maldohorror, e que nesse convívio de escritores, nos grupos sociais, estão se aperfeiçoando, pois no coletivo, um ajuda o outro e não só na escrita, mas também em parcerias. Tive participação em duas coletânea , uma de poesias “Sociedade dos poetas vivos” e outra de contos “O Mundo fantástico de R.F. Lucchetti” lançado esse ano na Bienal em SP, pela editora Coerência, organizado pela Camila, que está no grupo  e me convidou. Outras pessoas do grupo também foram convidadas, assim como surge convite para outras participações aqui e ali, pra esse ou pra aquele participante do grupo. Uma forma de “quem é visto é lembrado”. Também alguns que acabaram se conhecendo pessoalmente.

Canibuk: Quais os e-books lançados pelo Maldohorror e como comprar?

Bortolanza: Lançamos três até agora, um de contos e um de poesias que foram publicados no site, e um terceiro com obras inéditas, sobre final de ano e que esses dias inclusive, em comemoração aos 2 anos do lançamento do site, disponibilizamos os 3 de forma gratuita. Mas podem acessar: Entrando no site da amazona: https://www.amazon.com.br/ só digitar Maldohorror que aparecerá os 03 livros, a 1,99 cada.

Canibuk: E o livro físico? Planos?

Toniolli: Pra 2019 estará saindo o livro físico. Está sob organização de Petter Baiestorf e vai ser lançado em março de 2019. Estamos na fase de seleção do pessoal, orçamentos, etc…

Bortolanza: Desde o início, a idéia era publicar um livro físico por ano, e em cada espelho do livro uma letra do Maldohorror, para que quando o projeto termina-se (projeto inicial é de 11 anos) teríamos 11 livros na estante e que pudéssemos ler a palavra inteira. Mas as mudanças são necessárias e até pelo fato de sempre estarmos em movimento, e não sermos uma coisa fechada. A idéia é publicar o primeiro livro físico no primeiro semestre do ano que vem, e depois pensaremos, como será feito os demais, mas certamente não será só um. Inclusive pessoalmente estou pensando daqui a 9 anos, fazer um meu, com todos os meus textos publicados no site, em ordem de publicação (já tenho esse controle e que até agora, foram 62 textos publicados) como uma forma de registrar fisicamente o projeto.

Canibuk: Como tem sido a recepção do público para com o coletivo?

Toniolli: Temos uma recepção boa com o público. Não temos a intenção de provocar uma nova onda transformadora da cultura brasileira, mas sim servir de canal para a divulgação das obras dos autores. Como a totalidade de nossos escritores escrevem temáticas malditas ou fantásticas, temos um público bastante fiel, apesar de restrito.

Bortolanza: A primeira maravilha é que estamos espalhados por quase todo o Brasil, e talvez o que falta é compartilharmos essas receptividades entre o grupo, comigo, está sendo muito bom, uns me mandam e-mail, mensagens pelo watts, me encontram e me pedem, como “inventam isso”, ou “me deu nojo” “não dormi a noite”. Assim como já fui também convidado pra falar do Maldohorror em sala de aula na universidade, em evento do Sesc (grande parceiro da artes independentes em Chapecó – SC). No trabalho volta e meia um colega diz, “Hó, o cara do bebê que sobe em árvore!”, referindo-se ao texto “Assim Nasce o Cantos dos Tubarões de Ducasse“.

Canibuk: Que observações gostariam de fazer sobre o cenário da literatura fantástica no Brasil?

Toniolli: Nossa barreira inicial é a concorrência com grandes nomes da literatura brasileira e mundial. É o mesmo que acontece com a música: bandas novas concorrem com nomes já consagrados. Mas esse é o cenário é a persistência sempre dá resultados.

Bortolanza: Ao mesmo tempo em que vejo uma expansão, vejo também uma “limitação”. Muitos, embora tenham um ótimo domínio da escrita, parece que falta criatividade para escrever, li algumas coletâneas e é um e outro texto que se destaca, na grande maioria, se descobre todo o enredo já no começo. Teve um em especial, que achei que era o mesmo texto escrito por vários autores, sem nada de novo, parodiando, sexta feira 13 parte 01, 02, 03… Acho que o que falta é o transbordar, viajar, pegar uma bacia com letras e espalhar no ventilador. E pela qualidade dos escritores, sei que todos podem colocar uma nave espacial no meio do nada ou um mostro que se tele transporta e entra em cena surpreendendo o leitor.

Se você está gostando dessa entrevista, entre na página do Maldohorror no facebook e acompanhe as novidades:

Canibuk: É possível um autor seguir carreira literária no Brasil de hoje?

Toniolli: Sim. Com persistência, investimento e, principalmente, obras com identidade e criatividade. Ajuda muito se a pessoa for comunicativa e, novamente, persistente.

Bortolanza: Seguir sim, afinal há muitos espaços para expor os trabalhos, porém se manter financeiramente eu acredito que ainda não há possibilidades, mas está no caminho certo.

para comprar clique na figura abaixo:

Canibuk: Quem são os autores do coletivo? Gostaria de destacar alguns trabalhos solos de membros do grupo para que os leitores do Canibuk pudessem correr atrás?

Bortolanza: Pra fãs de filmes, tem 06 escritores, além do próprio Baiestorf, que já trabalharam em algum momento nas produções da Canibal Filmes, Eu, E.B. Toniolli, Loures Jahnke, Leomar Waslawick, Alan Cassol e César Souza (espero não ter esquecido alguém). E acredito que muitos outros não estão só ligados a literatura, mas em outras áreas culturais, música, dança… Gostaria de deixar evidenciado, apenas que o conjunto da obra é maravilhoso, se acompanhar o site, dois meses apenas, se enxaguará com textos bons, uns maravilhosos, outros surpreendentes, outros que te deixaram perdidos, outros tão corriqueiros que fará você, ao passar pelas ruas, se deparar com cenas parecidas e lembra-se do desfeche que o autor criou, outras ainda tão cruéis/ perturbadoras que gostaria de não ter lido ou lhe deixá-los-á com brilhos nos olhos de felicidades.

Toniolli: Não gostaria de citar nenhum autor especificamente por que temos quase 50 escritores e todos tem uma maneira de escrever, temáticas próprias. Temos escritores em níveis diferentes: alguns mais viscerais, com uma escrita coloquial e outros estudiosos da língua e que a tratam uma argila a ser moldada. Acho que cada escritor merece uma lida com atenção.

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Canibuk: Qual a importância do Maldohorror dentro do cenário literário nacional?

Bortolanza: Acredito que seja uma porta de entrada e uma maneira de estar no meio de escritores e poder respirar literatura. Também uma maneira de poder crescer na arte de escrever e trocar experiências e amadurecer cada vez mais, evitando os erros que outrem já realizaram.

Toniolli: Eu vejo o Maldohorror como um coletivo de fomento de obras e de experimentações. Nosso editor está sempre cobrando novas obras dos autores e isso acaba incentivando a produção. Fizemos alguns testes com obras compostas coletivamente e esses experimentos são uma oportunidade ímpar de aprendizado e interação. Vale salientar que temos uma comunidade ativa, conversamos, trocamos idéias, fomentamos outros projetos solos dos autores, divulgação de música, cinema e dessa forma vamos criando um cenário e propenso a ebulição de novos projetos.

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Canibuk: Considerações finais:

Toniolli: Obrigado pelo espaço. Fico muito feliz pelo apoio que você dá pras ações e projetos undergound e é disso que precisamos: união. Separados somos fracos e podemos fazer poucos, mas unidos em prol de uma ideal em comum podemos alcançar resultados extraordinário. E é muito legal acessar o site e ver que em 2 anos temos mais de 800 obras pros nossos leitores curtirem. E tem muita coisa que vai surpreender aos leitores do Canibuk. Estamos de página abertas esperando vocês.

Bortolanza: Tem muitos textos que é só adaptar e o roteiro de um filme está pronto, ou um novo enredo nos holofotes do palco teatral ou na sinfonia das guitarras e dos contra baixos.

Clique na imagem abaixo e vá para o Maldohorror:

Snuff – Vítimas do Prazer

Posted in Cinema, Literatura with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on janeiro 26, 2017 by canibuk

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I – A Ideia

A linda moça banha-se alegremente no lago perdido na natureza, extasiando-se.

Do “triller” estacionado à beira da água, sai um rapaz, provavelmente seu companheiro de passeio, descascando uma laranja, aparentemente tranquilo.

A moça, da água, convida-o, brejeira, para partilhar. Ele solta a fruta, coloca a faca entre os dentes, como um Tarzan, e mergulha a seu encontro.

Felizes, riem.

Ele, com a faca.

Como numa brincadeira, a Lâmina da arma corta a alça do sutiã do biquini, fazendo saltar dois lindos e insinuantes seios.

Estranheza.

Uma transfiguração corre a expressão do moço. Tara?

A moça parece não entender. Procura fugir da água e do companheiro.

Perseguição.

Alcança.

Inicia-se uma tentativa de estupro.

A faca.

Ela grita para ser acudida. Não ouve eco.

Lábios e língua do rapaz correm desesperados pelos seios e corpo da moça, em resfôlegos.

A expressão dela diz que nunca antes tinha visto seu companheiro agir daquela forma. Desespero grande.

A expressão dele diz que não tem intenções de se acalmar. Os olhos fulminam, e a boca baba, excitada.

A faca.

As forças da menina querem ceder, mas não podem. Não podem… não podem… não podem…

Ele já a tem sob completo domínio.

A faca da laranja, ergue-se na mão do homem, e desce, implacável, ferindo um dos lindos e insinuantes seios da infeliz.

Um grito louco de dor, e a expressão de pavor.

As dores do ferimento são muitas. Insuportáveis.

Novo pedido de ajuda, agora só com os olhos. Forças faltam para a fala.

Novo golpe fez alongar a mancha de sangue que cobre o corpo feminino. Os olhos estalados,a  boca agora inerte, os últimos suspiros.

Doz rapaz. o estranho rir de quem está possuído.

Num estertor, a moça desfalece definitivamente.

Morre.

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Michael caminha vagarosamente e desliga o projetor de filmes em 16mm, depois de ver correr na tela a palavra “the end”.

No outro canto da sala, visivelmente deprimido com o que acaba de ver, Bob, em silêncio. Respira e força um sorriso.

“Incrível! Nunca vi tanto realismo! Confesso que a cena me tocou as estruturas! Acho que nunca vi uma morte tão bem feita, em cinema!”

Michael, voltando o filme para o carretel que projetara.

“Então, gostou…pois vamos repetir essa cena no nosso trabalho…”

“Vamos precisar escolher a dedo, uma atriz!”

“Engano seu, meu caro Bob… Qualquer garota pode interpretar tão bem quanto esta que vimos. Aliás, nem esta era atriz…”

“Não?… Então, como? !…”

“Simples, amigo: a cena foi real. Ela morreu mesmo!”

Bob engoliu em seco. Conhecia muito bem o colega e sabia quando ele brincava e quando falava sério. Dificilmente se enganava. Seus olhos arregalaram, temerosos.

“Quer dizer que isto que vimos aconteceu de verdade?”

“Lógico!”

“E que no filme que vamos fazer, haverá uma cena como esta?… ou seja… alguém vai morrer de verdade?”

“Muito feliz, a sua dedução!”

Bob saltou da cadeira, automaticamente. Chegou-se à Michael, não querendo acreditar no que ouvia.

“Você está louco rapaz?”

“São ordens de Mr. Lorne…”

De verdade, Bob sentia vontade de esganar o cinismo do amigo. Mas era sensato, e sabia que uma ordem de Mr. Lorne não era para ser discutida, e sim cumprida. Mas queria se convencer de que aquilo era uma das raras brincadeiras de Michael. Uma interpretação muito bem feita.

A possibilidade era remota, mas tentou uma investigação:

“Onde é que você arranjou esta droga?”

“Isso eu não sei. Mas, se quer algumas informações, aqui vão: a intenção dos produtores disso aí que você viu, era filmar um estupro real, pra valer. Para isso, como sempre contrataram uma equipe mínima, e o ator arrumou uma virgem, uma menina com pretensões de fazer carreira em cinema. A cena foi ensaiada de uma forma, mas o ator havia recebido instruções para, na hora “H”, assaltá-la sexualmente. Foi dado algo para estimulá-lo. Mas a moça, assustada com a fúria do ator, reagiu violentamente, como você mesmo viu!”

“Incrível…”

“Ele havia sido pago para violentá-la de qualquer maneira. Pretendiam registrar tudo…”

Bob estava perplexo. A seriedade com que Michael discorria, começava a querer convencê-lo.

“Aí, aconteceu o imprevisto: os técnicos, contagiados pelo clima, estavam mais alucinados que o próprio ator. Tanto assim, que não perceberam que a faca de efeito havia sido trocada por uma real. Você viu o resultado…”

“Que absurdo!” caiu no sofá como se tivesse um enorme peso no corpo. Michael, inalterado:

“Foi um acidente que deu certo!”

“Ma como deu certo?”

“Quando o filme veio parar em nossas mãos, lá em Nova Iorque, não sabíamos que era real. Tentamos colocar no mercado clandestino. O sucesso foi absoluto. Nunca se pagou tão alto por uma cópia.”

“Mais que os filmes pornográficos?”

“Os filmes pornográficos se tornaram brincadeirinha de criança perto deste. Chegamos a fazer projeções especiais, cobrando mil dólares por cabeça. Lotamos o cinema.”

Bob está cada vez mais confuso.

“Mas este filme foi um acidente. Não pode ser refeito!”

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A ideia de Bob era dissuadi-lo de tal ideia. Parecia que Michael estava hipnotizado pela possibilidade de repetir o sensacionalismo, deixando os próprios sentimentos de lado. Mas parecia cada vez mais distante pode convencê-lo do contrário.

“Mr. Lorne quer repetir o sucesso!”

Explodindo:

“Michael, isso é um crime!”

O sorriso cínico e inalterado do amigo aumentou a perplexidade de Bob.

“E a pornografia? Também não é um crime?”

Tentando contornar:

“É diferente, Michael. Os filmes pornográficos são feitos para casais entediados, ou pessoas solitárias. Gente que precisa de estímulo para o ato mais importante da vida. No fundo, sua função é até benéfica. Os médicos mesmos aconselham…”

“Isso é conversa fiada, Bob. Uma coisa não desculpa a outra.”

É, não havia mesmo jeito. Bob pensou um pouco, tentando desemaranhar a confusão que se instalara em sua cabeça. Meio minuto depois, tomou a decisão:

“Está certo. Mas eu não me meto neste negócio!”

Michael acabou de servir-se de um uísque no barzinho, e já voltou ao amigo. Mantendo o mesmo sangue frio. Antes do primeiro fole:

“Você já está metido em nossos negócios até o pescoço! Eu estou aqui para realizar um filme deste tipo, e é o que vou, ou melhor, vamos fazer!”

 

fim do primeiro capítulo de “Snuff – Vítimas do Prazer” de Claudio Cunha (editora MEK, editor Minami Keizi, 120 páginas, meados dos anos 80).

Veja o filme aqui:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Pântano, O Fim das Coisas & Nimbus: Poesias de Augusto dos Anjos

Posted in Literatura with tags , , , , , , , , on dezembro 19, 2016 by canibuk

O Pântano

Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!…

Mas, para mim que a Natureza escuto,

Este pântano é o túmulo absoluto,

De todas as grandezas começantes!

.

Larvas desconhecidas de gigantes

Sobre o seu leito de peçonha e luto

Dormem tranqüilamente o sono bruto

Dos superorganismos ainda infantes!

.

Em sua estagnação arde uma raça,

Tragicamente, à espera de quem passa

Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta…

.

E eu sinto a angústias dessa raça ardente

Condenada a esperar perpetuamente

No universo esmagado da água morta!

.

O Fim das Coisas

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,

Arrancar, num triunfo surpreendente,

Das profundezas do Subconsciente

O milagre estupendo da aeronave!

.

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,

Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente

de perscrutar o íntimo do orbe, invente

A Lâmpada aflogística de Davy!

.

Em vão! Contra o poder criador do Sonho

O Fim das Coisas mostra-se medonho

Como o desaguadouro atro de um rio,

.

E quando, ao cabo do último milênio,

A humanidade vai pesar seu gênio

Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

.

Nimbus

Nimbos de bronze que empanais escuros

O santuário azul da Natureza,

Quando vos vejo negros palinuros

Da tempestade negra e da tristeza,

.

Abismados na bruma enegrecida,

Julgo ver nos reflexos da minh’alma

As mesmas nuvens deslizando em calma,

Os nimbos das procelas desta vida;

.

Mas quando céu é límpido, sem bruma

Que a transparência tolda, sem nenhuma

Nuvem sequer, então, num mar de esperança,

.

Que o céu reflete, a vida é qual risonho

Batel, e a alma é a flâmula do sonho,

Que o guia e leva ao porto da bonança.

por Augusto dos Anjos.

“Eu & Outras Poesias Vol. 2”, editora Civilização Brasileira, 1982.

Entrevista com: Augusto dos Anjos.

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O Beco das Almas Famintas

Posted in Literatura, Livro with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on outubro 1, 2016 by canibuk

img022Acabei a leitura do romance “O Beco das Almas Famintas” de uma tacada só, curtinho e envolvente, escrito pelo Erivaldo Mattüs que por anos editou o fanzine “Spermental” e que já foi ator de Gurcius Gewdner no fantástico curta-metragem “Erivaldo – O Astronauta Místico”. Drogas, sexo e fanatismo religioso de um mundo pervertido contado em  linguagem direta e sem rodeios quase como se fosse um roteiro de um grindhouse transformado em romance.

Sinópse: “Quando alguns mendigos são misteriosamente assassinados no centro da Cidade Sereia, três cidadãos bem sucedidos têm suas vidas progressivamente destruídas: Antenor, um executivo playboy egoísta; Cláudio, um luxurioso técnico em eletrônica e Sauro, um pastor evangélico que tem a ganância por sobrenome. O enredo, mostra a escalada do trio rumo ao fracasso, de seu presente estável até suas quedas meteóricas; seguindo em narrativas paralelas até cruzar o destino dos personagens no abandonado e famigerado “Beco dos Invisíveis”, lugar no centro de Sereia onde as desgraças são mais cotidianas e inacreditáveis do que sonha nossa vã filosofia.”

O Beco das Almas Famintas é o primeiro romance de E. Mattüs. A narrativa traz elementos que vão desde a marginalidade de Bukowski ao horror de Edgar Allan Poe, tudo ambientado em um absurdo universo kafkiano. Em tiragem numerada de 150 exemplares, a edição usa e abusa de papéis de qualidade duvidosa e estética “trash”, ao longo de 48 páginas, encadernadas em costura de 3 pontos. O livro foi lançado pela editora independente recifense Livrinho de Papel Finíssimo e é o sexto volume da coleção romanesca LiteraTara.

O que?

O Beco das Almas Famintas. Autor: E. Mattüs. Editora: Livrinho de Papel Finíssimo. Ano: 2016. Preço: R$20,00 (Envio simples: 22,00; Carta Registrada: R$25,00). Contato: katarru_podre@hotmail.com/ (82) 99945-8090. Facebook: MattüsMattüs. Instagram: @mattus.ausente

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Abaixo o primeiro capítulo de “O Beco das Almas Famintas”:

Quando a esmola é uma chuva de balas.

Quem transita pelo centro da cidade Sereia pode encontrar tudo o que precisa para exercer o materialismo a rigor. De cama, mesa e banho a eletroeletrônicos e made in china, o comprador pode desfrutar de todas as visões necessárias para abrir a carteira e deixar parte de sua fortuna em qualquer recinto. Odor suave de esgoto pairando no calçadão das ofertas vazias. Queima de estoque. Ao comprar, o ser humano adquire existência. Todavia, aberta a embalagem, o sentimento de satisfação é transformado numa estranha sensação de engano ou frustração. Com a realização do desejo consumista, o objeto adquirido perde o encanto e cede sua vez a uma nova fantasia material.

Porém, nem todos os transeuntes têm o poder aquisitivo necessário para existir. E para esta estirpe maldita é reservado o chamado “Beco dos Invisíveis”. Um reduto dos ignorados, criaturas das quais não se pode vampirizar qualquer espécie de lucros. Habitat natural dos moradores de rua e criaturas inexistentes aos olhos bem sucedidos dos consumidores. Numa viela, ao final de um labirinto com ruas curtas, fica este ambiente inóspito. Um forte cheiro de esgoto misturado ao de eletrônicos embalados acaba resultando num cheiro de merda tão natural quanto a fumaça da combustão automotiva. Uma pocilga abandonada aos seus 6 residentes. Caixas de papelão formam casas. Carrinho de supermercado vira armário. Uniformes velhos e camisetas de políticos ditam a moda. Eis o bendito lar de Alex, José e Simão. Os três reis magros que, na melhor das hipóteses, podem ofertar ao mundo uma pequena faceta da miséria criada por uma sociedade cruel.

São dez da matina e uma chuva rasa antecede o Sol picante. O vapor se eleva do concreto criando uma sauna natural. Pessoas andam mais rápido, enquanto lojas de ar condicionado faturam mais. Alex devora meia quentinha, Zé tasca a primeira pedra do dia no cachimbo e Simão continua a soltar suas profecias esquizoides:

— Este beco é a chave da penitência humana. Toda dor e culpa desse mundo maldito veio parar aqui e nós pagamos o preço! Só estamos aqui por culpa de todos vocês, seus desgraçados! Vocês são os culpados! Berrava o velho vagabundo.

— Cala a boca, porra! Nem tá doido de cana e já está falando merda! Explodiu Zé, depois do primeiro beijo na lata.

E explodiu mesmo! A fumacinha com gosto de plástico invadia seu corpo de forma devastadora. Paranoia, alucinações e mania de perseguição por fora, mas dizem que o que conta é como somos por dentro. Quanto a isso, Zé se sentia o rei do mundo. Um príncipe em seu reinado a céu aberto. Sensação esta, semelhante à de Alex que não reclamava nem repreendia, apenas soltava pequenos arrotos em sinal de total satisfação.

Refeições, drogas e ideias expostas em mais um fatídico dia que chega à metade. O trio desventurado compartilha a primeira lata de cachaça, Simão era o mais alvoroçado. Cada gole descia com a urgência de um antídoto ao mais maldito de todos os venenos, a sociedade. Zé — Caralho! A fissura tá voltando, mas dá pra segurar com a cana. Simão — Maldito sejas tu que trocasses o néctar divino pela pedra do diabo! Alex — Essa porra tá me deixando enjoado, acho que vou deixar uma bacia aqui de lado porque, se eu vomitar, é só jogar uma farinha por cima que já tenho a janta…

Simão — A autossuficiência é o segredo do sucesso! Os três soltam uma gargalhada uníssona.

No horário de almoço, o trânsito humano aumenta. Os ébrios cabisbaixos nem percebem que alguém passa pela calçada em que descansam e atira em cima dos três uma verdadeira chuva de balas. Framboesa, morango e abacaxi. Acho que o indivíduo veio de mão cheia e simplesmente abriu a palma em cima de nossos heróis. Ao erguerem a vista, só perceberam o anônimo de costas prosseguindo seu destino. Usava uma camiseta estampada com flores, daquelas bem bregas que se compram em brechós. Apesar do mau gosto, abençoadas sejam as almas generosas que habitam a selva de pedra.

— Deus lhe dê em dobro! Alex foi cordial em nome do trio.

É óbvio que os doces viraram tira-gosto. Zé perambulou meia hora e já voltou com duas pedrinhas, sinal de que a sociedade era realmente caridosa… Em eliminá-lo!

— Ainda tem confeitinho?

— Claro! Segura aí!

Alex era um jovem de quase um metro e oitenta, beirando os trinta e portador de um ar amistoso. Graças às drogas e descuidos com a vaidade, ele aparentava quase quarenta. O Sol e o clima seco também corroíam sua aparência, igualzinho aos prédios do centro da cidade. Os cabelos loiros ficaram quase marrons. Algumas mechas se juntavam em dreads; o que para a grande maioria lhe dava uma aparência suja, fato negativo aos negócios de pedinte. Os amigos pouco sabiam de seu passado. Só existiam alguns boatos sobre ele ter vindo do interior do estado trabalhar como servente de pedreiro e ter arranjado uma mulher que destruiu sua vida. Um belo dia, ele chegou com uma trouxa de roupas e uma garrafa de vinho pela metade. Perguntou a Simão se poderia ficar no Beco e foi aceito de bom grado. Por ser o único habitante do recinto, o patriarca da ralé apenas ditou-lhe algumas regras de convívio e até ensinou a arte da mendicância ao recém-chegado.

Já José Silva era vítima dos químicos, a família bem que tentou, mas a paixão pela pedra falou mais alto. Zé estava largado no mundo e pedindo esmolas em prol de seu culto aos deuses da lata. Cara chupada. Metade dos dentes o abandonou. A gordura era pouca e as veias saltavam pelos braços até desparecerem nas falanges proximais. Talvez seus familiares estejam a sua espera, aguardam um desejo de abstinência ou a providência divina, mas quem fuma a unha do capeta assina um contrato com o tinhoso para se entregar de corpo e alma ao prazer.

Simão sempre existiu no Beco dos Invisíveis. Desde que a terra é terra, o mar é mar e a cachaça passou a ser vendida em latas. Ele vivia sozinho e largado pelo centro da cidade Sereia. Aparentava ser um homem de conhecimento, a longa barba amarelada pelo tabaco exibia a experiência de um ser que, caso não estivesse usando uma blusa do candidato perdedor a prefeito, bem que poderia se passar por sábio hindu. O cabelo branco simulava algodão, os dentes eram mais amarelos que o sol no fim de tarde e sua mente cansada somente questionava o sentido amargo da vida. Em alguma parte de sua existência, Deus o abandonou. Por manter as mesmas roupas por muito tempo, Simão tinha cheiro de urina envelhecida. Sempre profético em suas palavras, o álcool exorbitava suas filosofias. Bêbado, ele conseguia ser pior que muito pregador de praça, mas, com certeza, o pedinte dizia bem mais verdades que um pastor charlatão.

Drogas, esmolas para comida e mais entorpecentes. Estabelecimentos em horário comercial encerram seu expediente. Os outros habitantes do beco retornam ao lar. Em sua maioria, fazedores de bicos. Uns quatro ou cinco companheiros chegam com histórias, violão e caninha para adoçar o amargo da vida. O parceiro com violão toca Raul Seixas. Todos cantam os trechinhos que se recordam da música “Ouro de Tolo”. “Essa música explica o sentido da existência de todos que circulam por aqui com grana!” discursou Simão para a plateia desatenta. A mensagem musical era conceitual e poderia até mudar a vida de todos eles, mas a única mudança desejada era sair da caretice e adentrar a algum estado alterado de espírito. Companheirismo, boa música e aguardente descendo na garganta. Aos noiados, a lata de cachaça só servia vazia. E mesmo em pleno estado de paranoia, nunca se viu uma confusão, todo mundo seguia a lei da cordialidade. Caso contrário, o bagunceiro amanhecia com a boca cheia de formigas…

Eram quase 22 horas, quando uma estranha figura entrou no beco. Uma jovem mulher com aparência de tiazona derrubada. Pela cara chupada era óbvio que pertencia ao grupo dos “beija-lata”. Cambaleante e desnorteada, ela suplicava por sua paixão: — Dou a xoxota pra quem me der um pega na lata! Cadê os machos dessa merda? Eu quero só um peguinha… Deixa eu beijar a lata que eu beijo outra coisa bem gostosa depois!

Zé nem precisou de cavalheirismo. Apenas levantou a mão empunhando o recipiente metálico e sua deusa entendeu o recado. Depois de uma chupada na lata, a musa entregou-se ao amor paranoide. Fizeram tudo ali mesmo, numa caixa de papelão improvisada como palácio de Vênus. O pico do Zé. A mansão do amor abrigou aqueles dois corpos psicóticos por um breve delírio chamado felicidade. O amor de dois zumbis embalado por deliciosos tragos de cigarro Oscar no pós-coito. A fêmea sai estonteada com sua microssaia suja de areia e tentando pôr o que parecia um top. Ela caminha cambaleante sob o efeito do amor e da pedra. Os companheiros do beco sorriam para José em nome de sua sorte. Enquanto a jovem adicta dava seus passos, os outros mendigos enfiavam a mão direita dentro dos farrapos para homenagear a deusa do lixo com o sexo dos solitários.

Apesar do vazio das ruas, no centro da Sereia sempre existem olhos maldosos à espreita. O resultado disso foi que, menos de dez minutos após a saída da mulher do Zé, a polícia já chegou descendo o cacete em todo mundo que via no beco. Somente ouviam-se os gritos dos repressores seguidos de pancadas secas do cassetete. “Vaza cambada de vagabundo! Vão fazer gandaia na casa do caralho”. Exceto por Simão, que saiu assim que viu os praças ao longe, todos sentiram o bastão perseguidor tocar suas costelas de forma emocionante. Zé correu alucinado levando sua moradia na mão, enquanto Alex se escondeu dentro de uma pilha de lixo. As ruas não eram violentas, já seus protetores pareciam salivar por carne fresca para o espancamento.

Meia-noite, o relógio recomeça a contagem. Todos se dispersam, exceto os três companheiros. Eles resolvem voltar ao beco pela certeza do descanso ser tranquilo. A barra estava limpa. Nada de coxinhas. Um deserto de concreto e lixo, onde com alguns papelões, nossos reis mendicantes resguardavam suas existências na esperança de um dia com mais grana, drinks, pedras e Raul Seixas.

Por ainda ter a audição em bom estado, Simão deve ter sido o único que teve tempo de abrir os olhos no momento em que alguém passava pela calçada. Três balas na cabeça de cada um! Alex nem se mexeu e parecia prosseguir em seu sono, que duraria a eternidade. Zé abriu os olhos, mas já estava puxando ar num ato mecânico de seu corpo; vivenciando os últimos momentos de resistência biológica após a morte cerebral. Simão conseguiu ver seu algoz e teve tempo de gritar “Deus…” antes de cair em estado de óbito. Seus olhos pareciam perder a sabedoria e expressavam decepção. Sentimento que foi alimentado por reconhecer a mesma camisa florida que viu meio dia. O benfeitor virou malfeitor. E, pela permutação no estado de espírito, ele apenas trocou as balas.

Apoie os independentes comprando seus lançamentos!

Assista aqui ao curta “Erivaldo – O Astronauta Místico” (2013) de Gurcius Gewdner com Erivaldo Mattüs atuando: