Bardot, Deneuve & Fonda – As Memórias de Roger Vadim

Eu estava de bobeira por Florianópolis no último dia do Festival de Cinema Catavídeo (novembro de 2011) e entrei num sebo de livros prá matar tempo. Mexe em livro aqui, mexe ali, acabei encontrando essas memórias do cineasta Roger Vadim que fiquei na dúvida se comprava devido a sua capa horrível (digno das piores “Sabrinas” e “Júlias”). Como sou um grande fã de seu filme “Barbarella” (1968), resolvi arriscar e comprá-lo para minha coleção de livros sobre os bastidores do cinema mundial, com aquela esperança de encontrar algumas boas histórias no livro.

Como pensei, este livro de memórias de Vadim é leitura fácil, rasteira e uma espécie de guia de “quem comeu quem” na França das décadas de 1950 e 1960.

Playboy do cinema, conquistador de beldades, fazedor de alguns poucos filmes bons, Roger Vadim traçou como filosofia de vida de que trabalharia apenas para conquistar o prazer máximo que a vida poderia lhe oferecer. Quando ainda era assistente de Marc Allégret, descobriu a bela ninfeta Brigitte Bardot (então com uns 15 anos) e a moldou como atriz, tornando-a uma lenda sexual dentro e fora da França. Acabou casando com Brigitte, com quem fez o clássico “Et Dieu… Créa la Femme/… E Deus Criou a Mulher” (1956), filme que rendeu inúmeras polêmicas quando de seu lançamento. Alguns anos depois, já separado de Bardot, conheceu Catherine Deneuve e a inspirou a virar atriz de cinema. Acabaram casando, mas a medida que Deneuve foi ficando famosa e adquirindo controle de sua vida e carreira, ela mesma tratou de se livrar de Vadim para alçar vôos mais altos (acabou realizando dois clássicos dos anos 60, “Repulsion/Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski e “Belle de Jour/A Bela da Tarde” (1967) do mestre Luiz Buñuel). Para esquecer Deneuve, Vadim conheceu a, então, desconhecida Jane Fonda e, depois de casados (Vadim fazia questão de casar sempre), realizaram o grande clássico “Barbarella”.

Sempre freqüentando a alta classe européia, Vadim nos conta inúmeras passagens envolvendo a burguesia local da época. Nesta passagem uma reflexão dele envolvendo capitalista, comunista, católico e putas:

“Juntaram-se a nós o prefeito Mario Panazo, o padre Ênio Farzi e o marquês Simone de San Clemente. O prefeito explicou às senhoritas que numa sociedade verdadeiramente socialista elas jamais teriam que vender seus favores. O sacerdote disse a elas que o prefeito tinha razão, mas que a religião poderia substituir o dinheiro. Simone de San Clemente observou que as pessoas com dinheiro eram sempre úteis para aqueles que nada possuíam. E todos concordaram.

O prefeito continuou comunista; o padre, católico; San Clemente, marquês; e as prostitutas, prostitutas.

Tivemos um excelente desjejum.”

Sobre as filmagens de “Barbarella” ele nos conta uma história hilária:

“O bilhete, num italiano ruim e cheio de erros de ortografia, dizia assim: ‘Se você não vier à esquina da Piazza Navona com a avenida, no domingo ao meio-dia, acho que mamãe vai matar o papai. Meu nome é Stefania. Estarei lá’.

Como a maioria das pessoas famosas, eu recebia inúmeras cartas de gente maluca. Mas esse bilhete obviamente fora escrito por uma criança. Assim, fui à Piazza Navona no domingo, no horário marcado.

Um garoto puxou-me pela manga da camiseta, chamando-me de dottore Vadim. Na Itália os diretores recebem o título honorário de dottore.

– Sim?

– Fui eu quem escrevi para o senhor.

– Você é Stefania? – indaguei, surpreso.

– Não – respondeu o garoto – Mas achei que não iria se incomodar por um menino.

Só mesmo um pequeno romano teria uma idéia assim.

– Bem, então qual é o seu nome, Stefania? – perguntei, achando um pouco de graça.

– Franco.

– Muito bem, Franco. O que está querendo? Dinheiro? Quanto?

– Nunca digo ‘não’ para dinheiro. Mas o que quero mesmo é que minha mãe não mate meu pai.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– O senhor… nada, dottore. É sua mulher… La Fonda.

(…)

O maquilador-chefe, que cobria o corpo de jane com uma base a cada manhã, adoeceu. Foi substituído por seu assistente que, certa noite num restaurante, ao exceder-se na bebida, começou a se gabar de que acariciara as nádegas, os peitos e a parte interna das coxas da divina Fonda.

Os ecos dessa história chegaram aos ouvidos da esposa do maquilador-assistente, uma calabresa cuimenta como uma tigresa. Comprou um revólver e disse à filha mais velha que pretendia transformar seu infiel marido numa peneira. Apavorada, a filha falou com o irmão, Franco, que resolveu me escrever.

Perguntei o que eu poderia fazer para ajudá-lo.

– Fale com minha mãe.

Levou-me até uma igreja em Trastevere, onde ficamos esperando pelo término da missa. Quando os fiéis saíram, ele me apresentou à sua mãe. Era uma mulher dominadora, com uma expressão intensa e severa nos olhos, e pude acreditar quando me disse que o único motivo pelo qual não matara seu marido foi que não conseguira munição para a arma. Acrescentou que, apesar do respeito devido à minha esposa, todas as atrizes eram umas vagabundas e todos os diretores emissários de Satã. Prometi a ela que, a partir de segunda-feira de manhã, seu marido seria encarregado de maquilar somente os figurantes. Com isso, ela concordou em adiar a vendetta familiar.

Não comentei o incidente com Jane porque a teria deixado preocupada. Além disso, o maquilador-chefe estava de volta ao trabalho na segunda-feira pela manhã.”

Sobre seu episódio no “Histoires Extraordinaires” (os outros episódios foram dirigidos por Federico Fellini e Louis Malle), ele conta:

“Para dirigir ‘Barbarella’ tive de adiar as filmagens de outro filme, ‘Histoires Extraordinaires’. Quando assinamos o contrato com Dino de Laurentiis sabíamos que seria preciso sair de Roma às pressas, imediatamente após a filmagem da última seqüência de ‘Barbarella’. Passamos apenas vinte e quatro horas em nossa casa em Houdan antes de partirmos para Roskoff, na Bretanha, onde a equipe de ‘Histoires Extraordinaires’ estava à nossa espera.

O filme era estruturado com um tríptico. Eram três histórias curtas de Edgar Allan Poe, transpostas para a tela por três diretores: Louis Malle, com Brigitte Bardot; Fellini, com Terence Stamp; e eu. Meus dois intérpretes principais tinham o mesmo sobrenome: Fonda. Um era Peter; o outro Jane. Era a primeira vez, e até o momento foi a única, que os dois irmãos faziam um filme juntos. Na minha opinião era um filme original e interessante. Com freqüência é exibido na televisão e nos cinemas de arte do mundo inteiro. Não pensei nisso na época, mas deve ter sido muito estranho para Jane passar, sem qualquer transição, das roupas futuristas para os vestidos medievais. Na verdade, meu episódio em ‘Histoires Extraordinaires’ era adaptado de um pequeno conto medieval chamado ‘Mezergenstein’. É também o único filme em que Jane aparece com roupas de época.

Peter era um exemplar quase perfeito da nova geração de americanos dos anos 60. Adorava rock, cantores políticos como Bob Dylan, maconha, cogumelos psicodélicos e conhecia todo o jargão hippie. Seu respeito pelo dólar e sua praticidade nos negócios harmonizavam-se com sua filosofia pacifista e uma atitude espiritual de colorido vagamente hinduísta. Peter foi o instigador e o catalisador do filme ‘Easy Rider/Sem Destino’ (1969), de grande sucesso. Trabalhou em seu set no roteiro desse filme, entre as filmagens, juntamente com Terry Southern, autor do best-seller erótico ‘Candy’ e co-autor de ‘Dr. Strangelove/Dr. Fantástico’ (1963). As noites em Roskoff, durante as filmagens de ‘Histoires Extraordinaires’, eram divertidas demais para serem desperdiçadas com trabalho.”

Outra passagem divertida é sobre Godard (um diretorzinho francês que fez uns três filmaços e depois se perdeu em sua própria grandeza) ameaçando Jane Fonda, onde ficamos sabendo o quanto Godard era egocêntrico e mesquinho:

“(…)

Jane tinha sérias dúvidas com relação ao roteiro. Não concordava com seu conteúdo político. Sabendo disso, Jean-Luc Godard não perdeu tempo e enviou seu sócio, Jean-Pierre Gorin, para se encontrar com ela. Passadas duas horas da chegada de Jane em Megève, Gorin estava na sala da casa que eu alugara para o verão despejando explicações político-artísticas acerca da significação histórica do script de ‘Tout Va Bien’. Jane, que tinha acabado de chegar de Genebra, não dormira por vinte e quatro horas, exausta da viagem. Estava surpresa e um pouco irritada com a insistência quase histérica do emissário de Godard.

– Se não se incomoda, vou pôr minha filha na cama agora – ela disse. – Não a vejo há dois meses.

Depois de dar um beijo em Vanessa e cantar uma canção de ninar para que adormecesse, Jane desceu as escadas ansiando por comer em paz um pouco de aipo e algumas fatias de queijo. Mas Gorin esperava por ela, firmemente plantado diante da geladeira. E a atormentou por três horas. Jane estava tão cansada que mal tinha forças para responder. Ele ameaçou destruir sua imagem caso ela se recusasse a fazer ‘Tout Va Bien’.

– Godard vai cortar suas asas. Você não terá mais respeitabilidade política em parte alguma. Nunca mais. Se recusar a fazer este filme, estará cometendo um erro do qual vai se arrepender por muito tempo.

Com medo das represálias de Godard, Jane acabou concordando em fazer ‘Tout Va Bien’. Como ela havia previsto, foi um desastre comercial e seu oportunismo político irritou as alas radicais.”

Com uma vida cheia de festas e badalações, Vadim cometia algumas gafes hilárias, como essa:

“(…)

Os embarques (das crianças) foram marcados de maneira que as crianças partissem praticamente ao mesmo tempo. Fiquei ‘orfão de meus filhos’ e me encaminhei à saída do aeroporto. Estava quase deixando o aeroporto quando escutei meu nome: ‘Roger Vadim, favor se apresentar no escritório da Air France’.

Pode-se imaginar o resto.

Nas passagens da Air France vinha escrito ‘crianças Vadim’ seguida de uma inicial. Duas delas foram endossadas pela Pam Am e pela TWA. Um pouco distraído, como de costume, mandei a criança errada para a mãe errada.

Nathalie, que deveria estar voltando para sua mãe em Roma, estava a caminho de Londres, onde Jane Fonda esperava por Vanessa.

Vanessa estava voando a Paris, onde Deneuve esperava por Christian.

Passei a noite inteira e a madrugada no telefone ligando para as três capitais para avisar as mães de que elas não estariam recebendo as crianças certas.”

Roger Vadim não foi um gênio da sétima arte, mas deixou sua marca na indústria cinematográfica francesa, ora descobrindo talentosas atrizes, ora realizando pequenos grandes filmes. Nos anos entre 1980 e 1997 passou dirigindo filmes para televisões. Faleceu em 2000. Após sua morte, sua filha Nathalie afirmou: “Jane [Fonda] era o amor da vida de meu pai!”. Vadim viveu mais para o amor do que para o cinema!

“Bardot, Deneuve & Fonda – As Memórias de Roger Vadim” (1986, 365 páginas, editora Best Seller) de Roger Vadim.

por Petter Baiestorf.

3 Respostas to “Bardot, Deneuve & Fonda – As Memórias de Roger Vadim”

  1. […] de Brigitte Bardot na comédia “Don Juan ou Si Don Juan Était une Femme” (1973) de Roger Vadim, que eu gostaria muito de saber como era o convívio no set de filmagens, com Roger Vadim […]

  2. […] que topavam tudo que é tipo de filme para pagar o aluguel. Sirpa Lane foi lançada no cinema por Roger Vadim com o filme “La Jeune Fille Assassinée” (1974), thriller erótico que destacou a […]

  3. […] no clássico “Et Dieu… Créa la Femme/… E Deus Criou a Mulher” (1956) de Roger Vadim, no papel do jornalista. Além disso, em 1984 o CRL Group PLC lançou um video game baseado no […]

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