Arquivo para agosto, 2011

Scream Bloody Murder

Posted in Cinema with tags , , , , , , , on agosto 31, 2011 by canibuk

“Scream Bloody Murder” (1973, 86 min.) de Marc B. Ray. Com: Fred Holbert, Leigh Mitchell e Robert Knox.

Um jovem perturbado perde a mão num trator (que ele usa como arma para assassinar seu pai), enlouquece, é colocado num hospício onde recebe um gancho para substituir sua mão decepada e quando ele é liberado, descobrimos que ele não estava curado. Clichê dos clichês, mas perca um tempinho com essa bagaceirada que foi lançada nos cinemas americanos em 1973 e depois continuou a ser re-lançado em VHS/DVD por inúmeras distribuidoras vagabundas.

O filme está completo no youtube, boa diversão:

Milicent Patrick and the Creature from the Black Lagoon

Posted in Cinema with tags , , , , , on agosto 30, 2011 by canibuk

O Monstro da Lagoa Negra já faz parte da cultura POP desde os anos 50, com 3 filmes (“Creature from the Black Lagoon”, 1954; “Revenge of the Creature”, 1955, este dois primeiros com direção do lendário Jack Arnold, e, “The Creature Walks Among Us”, 1956, com direção de John Sherwood) e uma infinidade de produtos que exploram o simpático monstrengo (sem contar as aparições do monstro da lagoa negra em outros filmes e séries de TV). O que poucos sabem é que o design da criatura é de autoria de Milicent Patrick que sempre foi ofuscada pelo maquiador Bud Westmore que, por mais de meio século, recebeu crédito exclusivo pela criação da criatura.

Milicent Patrick nasceu em 11 de novembro de 1915, foi uma artista comercial, estilista, ilustradora de livros infantis e também atriz de cinema e TV. Em 1952 apareceu no clássico “Limelight” (“Luzes da Ribalta”) de Charles Chaplin, como figurante não creditada. Um de seus primeiros papéis creditados veio no filme “The Women of Pitcairn Island” (1956) de Jan Yarbrough e, logo em seguida, interpretou a personagem Rosita na série televisiva “The Restless Gun” (1958). Ela também trabalhou com Walt Disney, sendo considerada a primeira animadora da história do cinema.

O traje usado para dar vida ao Monstro da Lagoa Negra, depois da concepção, modelagem e experimentação, foi concluído ao valor de 18 mil dólares (uma pequena fortuna em 1954). Milicent Patrick teve que mudar sua forma 76 vezes até que finalmente foi aprovada pelos chefões dos estúdios Universal. Depois disso, Bud Westmore fez 32 modelos diferentes da cabeça da Criatura até que uma fosse finalmente aceita.

Milicent Patrick faleceu em 24 de fevereiro de 1998, mas sua criação mais famosa, “O Monstro da Lagoa Negra”, continua ganhando fãs e, sempre, sendo sondado para uma possível refilmagem que, sinceramente, espero que nunca aconteça.

Extreme Sado

Posted in Fanzines, Quadrinhos with tags , , , , on agosto 28, 2011 by canibuk

“Extreme Sado” é uma HQ espanhola do quadrinista Kenneth Figuerola que publiquei no Brasil no fanzine “Arghhh” número 23. Segue resgate dela aqui no blog!

Formigamento Bucal

Posted in Conto, Literatura, Nossa Arte with tags , , , , on agosto 27, 2011 by canibuk

Minhas gengivas sangram toda vez que beijo a velha esposa do Bispo. A megera se diverte com meu espanto diante do inexplicável fato. Diz que o sangramento é uma punição de Deus, eterno amigo do Bispo traído. Velha gorda inútil de crenças malditas, mal sabe ela em que acredita. Eu mesmo acabarei por descobrir, num futuro não tão distante, que os sangramentos em minhas gengivas são uma doença. Doença sexualmente transmissível. Doença que já se desenvolve em seu DNA de gordinha sexy e que, se o Bispo ainda não foi infectado, é porque deve estar trepando fora de casa, em algum puteiro celestial. Não ouço nada do que ela fala gargalhando, cuspindo, babando, e pelado mesmo, vou me sentar na sala de gelo cristalino. O frio absurdo faz o sangue parar de circular em minhas veias e ao mesmo tempo estanca a sangueira que jorra de minha boca, que por essas horas bem pode já estar sendo confundida com uma adorável boceta menstruada. Após o auto-congelamento os pingüins-mirins levam-me embora, largando-me num bar com mesas em forma de cogumelos alucinógenos onde as garçonetes possuem cheiro de peyote e forma de longos cactos da Groelândia. O dono do bar, um índio-chinês, possui duas filhas lindas. Uma delas, Anita Lin, nasceu sem pernas, anda amarrada as costas de um jovem cego argentino cujo passado na Bósnia desconheço. Ergo a mão direita e peço um balde de cerveja quente. Preciso me recompor. Com tanta desgraça no mundo preciso me embebedar, não para esquecer os problemas mundiais, mas sim para mostrar à todos os mendigos amigos da rua que posso me sentar num bar e beber a vontade com as graças da velha esposa gorda do Bispo e sua grana.

Escrito por Petter Baiestorf (fragmento do “Amor, Sexo & Outras Bebidas Delirantes”). Ilustração de Rosemário HS.

A Mulher Mais Linda da Cidade

Posted in Conto, Literatura with tags , , , , , , , , on agosto 26, 2011 by canibuk

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade. Mestiça de índia, de corpo flexível, estranho, sinuoso que nem cobra e fogoso como os olhos: um fogaréu vivo ambulante. Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. Os cabelos pretos, longos e sedosos, ondulavam e balançavam ao andar. Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la. Para os homens, parecia apenas uma máquina de fazer sexo e pouco estavam ligando para a possibilidade de que fosse maluca. E passava a vida a dançar, a namorar e beijar. Mas, salvo raras exceções, na hora agá sempre encontrava forma de sumir e deixar todo mundo na mão.

As irmãs a acusavam de desperdiçar sua beleza, de falta de tino; só que Cass não era boba e sabia muito bem o que queria: pintava, dançava, cantava, dedicava-se a trabalhos de argila e, quando alguém se feria, na carne ou no espírito, a pena que sentia era uma coisa vinda do fundo da alma. A mentalidade é que simplesmente destoava das demais: nada tinha de prática. Quando seus namorados ficavam atraídos por ela, as irmãs se enciumavam e se enfureciam, achando que não sabia aproveitá-los como mereciam. Costumava mostrar-se boazinha com os feios e revoltava-se contra os considerados bonitos — “uns frouxos”, dizia, “sem graça nenhuma. Pensam que basta ter orelhinhas perfeitas e nariz bem modelado… Tudo por fora e nada por dentro…” Quando perdia a paciência, chegava às raias da loucura; tinha um gênio que alguns qualificavam de insanidade mental.

O pai havia morrido alcoólatra e a mãe fugira de casa, abandonando as filhas. As meninas procuraram um parente, que resolveu interná-las num convento. Experiência nada interessante, sobretudo para Cass. As colegas eram muito ciumentas e teve que brigar com a maioria. Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza, só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar, Fazia vários dias que tinha saído do convento. Por ser a caçula entre as irmãs, fora a última a sair. Simplesmente entrou e sentou do meu lado. Eu era provavelmente o homem mais feio da cidade — o que bem pode ter contribuído.

— Quer um drinque? — perguntei.

— Claro, por que não?

Não creio que houvesse nada de especial na conversa que tivemos essa noite. Foi mais a impressão que causava. Tinha me escolhido e ponto final. Sem a menor coação. Gostou da bebida e tomou varias doses. Não parecia ser de maior idade, mas, não sei como, ninguém se recusava a servi-la. Talvez tivesse carteira de identidade falsa, sei lá. O certo é que toda vez que voltava do toalete para sentar do meu lado, me dava uma pontada de orgulho. Não só era a mais linda mulher da cidade como também das mais belas que vi em toda minha vida. Passei-lhe o braço pela cintura e dei-lhe um beijo.

— Me acha bonita? — perguntou.

— Lógico que acho, mas não é só isso… é mais que uma simples questão de beleza…

— As pessoas sempre me acusam de ser bonita. Acha mesmo que eu sou?

— Bonita não é bem o termo, e nem te faz justiça.

Cass meteu a mão na bolsa. Julguei que estivesse procurando um lenço. Mas tirou um longo grampo de chapéu. Antes que pudesse impedir, já tinha espetado o tal grampo, de lado, na ponta do nariz. Senti asco e horror.

Ela me olhou e riu.

— E agora, ainda me acha bonita? O que é que você acha agora, cara?

Puxei o grampo, estancando o sangue com o lenço que trazia no bolso. Diversas pessoas, inclusive o sujeito que atendia no balcão, tinham assistido a cena. Ele veio até a mesa:

— Olha — disse para Cass, — se fizer isso de novo, vai ter que dar o fora. Aqui ninguém gosta de drama.

— Ah, vai te foder, cara!

— É melhor não dar mais bebida pra ela — aconselhou o sujeito.

— Não tem perigo — prometi.

— O nariz é meu — protestou Cass, — faço dele o que bem entendo.

— Não faz, não — retruquei, — porque isso me dói.

— Quer dizer que eu cravo o grampo no nariz e você é que sente dor?

— Sinto, sim. Palavra.

— Está bem, pode deixar que eu não cravo mais. Fica sossegado.

Me beijou, ainda sorrindo e com o lenço encostado no nariz. Na hora de fechar o bar, fomos para onde eu morava. Tinha um pouco de cerveja na geladeira e ficamos lá sentados, conversando. E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

Deitamos na cama e, depois que apaguei a luz, Cass perguntou:

— Quando é que você quer transar? Agora ou amanhã de manhã?

— Amanhã de manhã — respondi, — virando de costas pra ela.

No dia seguinte me levantei e fiz dois cafés. Levei o dela na cama.

Deu uma risada.

— Você é o primeiro homem que conheço que não quis transar de noite.

— Deixa pra lá — retruquei, — a gente nem precisa disso.

— Não, pára aí, agora me deu vontade. Espera um pouco que não demoro.

Foi até o banheiro e voltou em seguida, com uma aparência simplesmente sensacional — os longos cabelos pretos brilhando, os olhos e a boca brilhando, aquilo brilhando… Mostrava o corpo com calma, como a coisa boa que era. Meteu-se em baixo do lençol.

— Vem de uma vez, gostosão.

Deitei na cama.

Beijava com entrega, mas sem se afobar. Passei-lhe as mãos pelo corpo todo, por entre os cabelos. Fui por cima. Era quente e apertada. Comecei a meter devagar, compassadamente, não querendo acabar logo. Os olhos dela encaravam, fixos, os meus.

— Qual é o teu nome? — perguntei.

— Porra, que diferença faz? — replicou.

Ri e continuei metendo. Mais tarde se vestiu e levei-a de carro de novo para o bar. Mas não foi nada fácil esquecê-la. Eu não andava trabalhando e dormi até às 2 da tarde. Depois levantei e li o jornal. Estava na banheira quando ela entrou com uma folhagem grande na mão — uma folha de inhame.

— Sabia que ia te encontrar no banho — disse, — por isso trouxe isto aqui pra cobrir esse teu troço aí, seu nudista.

E atirou a folha de inhame dentro da banheira.

— Como adivinhou que eu estava aqui?

— Adivinhando, ora.

Chegava quase sempre quando eu estava tomando banho. O horário podia variar, mas Cass raramente se enganava. E tinha todos os dias a folha de inhame. Depois a gente trepava.

Houve uma ou duas noites em que telefonou e tive que ir pagar a fiança para livrá-la da detenção por embriaguez ou desordem.

— Esses filhos da puta — disse ela, — só porque pagam umas biritas pensam que são donos da gente.

— Quem topa o convite já está comprando barulho.

— Imaginei que estivessem interessados em mim e não apenas no meu corpo.

— Eu estou interessado em você e também no seu corpo. Mas duvido muito que a maioria não se contente com o corpo.

Me ausentei seis meses da cidade, vagabundeei um pouco e acabei voltando. Não esqueci Cass, mas a gente havia discutido por algum motivo qualquer e me deu vontade de zanzar por aí. Quando cheguei, supus que tivesse sumido, mas nem fazia meia hora que estava sentado no West End Bar quando entrou e veio sentar do meu lado.

— Como é, seu sacana, pelo que vejo já voltou.

Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.

— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?

— Que nada, seu bobo, agora é moda.

— Pirou de vez.

— Sabe que sinto saudade — comentou.

— Não tem mais ninguém no pedaço?

— Não, só você. Mas agora resolvi dar uma de puta. Cobro dez pratas. Pra você, porém, é de graça.

— Tira esses grampos daí.

— Negativo. É moda.

— Estão me deixando chateado.

— Tem certeza?

— Claro que tenho, pô.

Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.

— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a idéia de ser bonita?

— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.

— Então tá. Sorte minha, né?

— Não que você seja feio. Os outros é que acham. Até que a tua cara é bacana.

— Muito obrigado.

Tomamos outro drinque.

— O que anda fazendo? — perguntou.

— Nada. Não há jeito de me interessar por coisa alguma. Falta de ânimo.

— Eu também. Se fosse mulher, podia ser puta.

— Acho que não ia gostar de um contato tão íntimo com tantos caras desconhecidos. Acaba enchendo.

— Puro fato, acaba enchendo mesmo. Tudo acaba enchendo.

Saímos juntos do bar. Na rua as pessoas ainda se espantavam com Cass. Continuava linda, talvez mais do que antes.

Fomos para o meu endereço. Abri uma garrafa de vinho e ficamos batendo papo. Entre nós dois a conversa sempre fluía espontânea. Ela falava um pouco, eu prestava atenção, e depois chegava a minha vez. Nosso diálogo era sempre assim, simples, sem esforço nenhum. Parecia que tínhamos segredos em comum. Quando se descobria um que valesse a pena, Cass dava aquela risada — da maneira que só ela sabia dar. Era como a alegria provocada por uma fogueira. Enquanto conversávamos, fomos nos beijando e aproximando cada vez mais. Ficamos com tesão e resolvemos ir para a cama, Foi então que Cass tirou o vestido de gola fechada e vi a horrenda cicatriz irregular no pescoço — grande e saliente.

— Puta que pariu, criatura — exclamei, já deitado. — Puta que pariu. Como é que você foi me fazer uma coisa dessas?

— Experimentei uma noite, com um caco de garrafa. Não gosta mais de mim? Deixei de ser bonita?

Puxei-a para a cama e dei-lhe um beijo na boca. Me empurrou para trás e riu.

— Tem homens que me pagam as dez pratas, aí tiro a roupa e desistem de transar. E eu guardo o dinheiro pra mim. É engraçadíssimo.

— Se é — retruquei, — estou quase morrendo de tanto rir… Cass, sua cretina, eu amo você… mas pára com esse negócio de querer se destruir. Você é a mulher mais cheia de vida que já encontrei.

Beijamos de novo. Começou a chorar baixinho. Sentia-lhe as lágrimas no rosto. Aqueles longos cabelos pretos me cobriam as costas feito mortalha. Colamos os corpos e começamos a trepar, lenta, sombria e maravilhosamente bem.

Na manhã seguinte acordei com Cass já em pé, preparando o café. Dava a impressão de estar perfeitamente calma e feliz. Até cantarolava. Fiquei ali deitado, contente com a felicidade dela. Por fim veio até a cama e me sacudiu.

— Levanta, cafajeste! Joga um pouco de água fria nessa cara e nessa pica e vem participar da festa!

Naquele dia convidei-a para ir à praia de carro. Como estávamos na metade da semana e o verão ainda não tinha chegado, encontramos tudo maravilhosamente deserto. Ratos de praia, com a roupa em farrapos, dormiam espalhados pelo gramado longe da areia. Outros, sentados em bancos de pedra, dividiam uma garrafa de bebida tristonha. Gaivotas esvoaçavam no ar, descuidadas e no entanto aturdidas. Velhinhas de seus 70 ou 80 anos, lado a lado nos bancos, comentavam a venda de imóveis herdados de maridos mortos há muito tempo, vitimados pelo ritmo e estupidez da sobrevivência. Por causa de tudo isso, respirava-se uma atmosfera de paz e ficamos andando, para cima e para baixo, deitando e espreguiçando-nos na relva, sem falar quase nada. Com aquela sensação simplesmente gostosa de estar juntos. Comprei sanduíches, batata frita e uns copos de bebida e nos deixamos ficar sentados, comendo na areia. Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivessemos transado. Quando acordamos, voltamos de carro para onde eu morava e fiz o jantar. Jantamos e sugeri que fossemos para a cama. Cass hesitou um bocado de tempo, me olhando, e ao respondeu, pensativa:

— Não.

Levei-a outra vez até o bar, paguei-lhe um drinque e vim-me embora. No dia seguinte encontrei serviço como empacotador numa fábrica e passei o resto da semana trabalhando. Andava cansado demais para cogitar de sair à noite, mas naquela sexta-feira acabei indo ao West End Bar. Sentei e esperei por Cass. Passaram-se horas. Depois que já estava bastante bêbado, o sujeito que atendia no balcão me disse:

— Uma pena o que houve com sua amiga.

— Pena por quê? — estranhei.

— Desculpe. Pensei que soubesse.

— Não.

— Se suicidou. Foi enterrada ontem.

— Enterrada? — repeti.

Estava com a sensação de que ela ia entrar a qualquer momento pela porta da rua. Como poderia estar morta?

— Sim, pelas irmãs.

— Se suicidou? Pode-se saber de que modo?

— Cortou a garganta.

— Ah. Me dá outra dose.

Bebi até a hora de fechar. Cass, a mais bela das 5 irmãs, a mais linda mulher da cidade. Consegui ir dirigindo até onde morava. Não parava de pensar. Deveria ter insistido para que ficasse comigo em vez de aceitar aquele “não”. Todo o seu jeito era de quem gostava de mim. Eu é que simplesmente tinha bancado o durão, decerto por preguiça, por ser desligado demais. Merecia a minha morte e a dela. Era um cão. Não, para que pôr a culpa nos cães? Levantei, encontrei uma garrafa de vinho e bebi quase inteira. Cass, a garota mais linda da cidade, morta aos vinte anos.

Lá fora, na rua, alguém buzinou dentro de um carro. Uma buzina fortíssima, insistente. Bati a garrafa com força e gritei:

— MERDA! PÁRA COM ISSO, SEU FILHO DA PUTA!

A noite foi ficando cada vez mais escura e eu não podia fazer mais nada.

A mulher mais linda da cidade e o velho safado.

Rock Rocket: Shark Attack

Posted in Soundtracks with tags , , , , , , , on agosto 25, 2011 by canibuk

Alan Feres me deu toque que o vídeo-clip para a música “Shark Attack”, de sua banda Rock Rocket, feito para divulgação do filme “Pólvora Negra” (2011) de Kapel Furman, vai ser lançado dia 10 de setembro na casa noturna Inferno Club (rua Augusta 501, Consolação, São Paulo). Este clip foi montado com cenas do longa “Pólvora Negra”, com edição de Armando Fonseca e André Z. Pagnossim (que também dirige uns filmes ótimos), direção de fotografia de André Sigwalt e direção do Kapel. A banda Rock Rocket conta com Noel Rouco (guitarra), Jun Santos (baixo), Alan Ferres (bateria) e Manoel Trindade (bongô) e a música “Shark Attack” tem um puta climão. O vídeo-clip já está no youtube, confira você mesmo!

“Pólvora Negra” é um longa-metragem dirigido pelo maquiador gore Kapel Furman, foi lançado no FantasPoa 2011 onde Leyla e eu tivemos o prazer de conferi-lo no cinema. A história do longa gira em torno de um pistoleiro que, após uma fantástica cena de abertura que mostra uma desavença do anti-herói com um poderoso da região, volta à sua cidadezinha de interior paulista para acerto de contas sangrento. As maquiagens estão ótimas, o elenco, que conta com o hilário Ken Kaneko e Suzana Alves (aquela menina que nos anos 90 ficou conhecida como uma dominadora fake de um programa horrível da TV), está fantástico e o ritmo do filme é do jeitinho que eu gosto, com direito a cenas de ação quase impossíveis, explosões, perseguições, personagens caricatas e um senso de humor com timing perfeito. Voltarei a escrever sobre o longa “Pólvora Negra” assim que eu conseguir assisti-lo por uma segunda vez, mas fica aqui a dica de um filmaço, Kapel realizou um grande trabalho.

Christoph Schlingensief: O Messias do Caos!

Posted in Cinema with tags , , , , , , , , on agosto 24, 2011 by canibuk

Nascido em 24 de outubro de 1960 na cidade de Oberhausen, Christoph Maria Schlingensief começou sua carreira como cineasta underground no porão de sua casa ainda criança. Já em 1968 fez seu primeiro curta intitulado “Mein 1. Film” com amiguinhos de sua vizinhança e desde aquela época já se considerava um artista provocador. Com “Tunguska – Die Kisten Sind Da”, seu primeiro longa-metragem produzido em 1984 e filmado em 16mm, realizou uma peça surrealista debochada e experimental com a qual já foi bem recebido pela crítica.

Sendo influênciado por cineastas como Fassbinder (filmou vários longas usando Udo Kier no elenco), Russ Meyer (usou Kitten Natividad no elenco de seu clássico “United Trash”), Buñuel e Werner Schroeter, o experimentalista Schlingensief soube criar seu próprio estilo cinematográfico, infelizmente ainda não descoberto aqui no Brasil (mas que homenageei no longa-metragem “A Curtição do Avacalho” em 2006). Seus filmes são histéricos, políticos (de visão libertária) e cheios de soluções criativas que podem não agradar aos puristas.

Com sua “germany trilogy”, composta de três longas: “100 Jahre Adolf Hitler – Die Letzte Stunde in Führerbunker” (1989), sobre as últimas horas de Hitler ensandecido no seu bunker; “Das Deutsche Kettensägen Massaker” (1990), genial refilmagem do “The Texas Chainsaw Massacre” transposto para a realidade alemã, mostrando a reunificação da Alemanha na história de uma família da Alemanha Oriental que atravessa a fronteira com a Alemanha Ociedental e são abatidos com motoserras por uma família de psicopatas da parte Ocidental; e, “Terror 2000 – Intensivstation Deutschland” (1994), sobre a violência xenófoba pós o processo de reunificação. Essa trilogia tornou-o um dos artistas mais respeitados e versáteis de seu país.

Em 1996 Schlingensief lançou o longa “United Trash”, uma histérica co-produção da Alemanha com Zimbabwe, estrelada por Udo Kier e Kitten Natividad, que re-encena o nascimento de Jesus Cristo. Anarquista por excelência, “United Trash” se apropria do estilo Russ Meyer de edição e destroí o cristianismo, a política dos brancos na África, a ONU e sua “ajuda humanitária”, USA e sua política externa, ditadores africanos e não deixa escapar nada com sua crítica feroz contra a manipulação de humanos por outros humanos (a título se curiosidade, logo nos créditos iniciais, preste atenção numa rápida cena onde a equipe-técnica deste filme aparece realizando uma ceia perto de uma aldeia). Clássico!!!

Sempre dado à polêmicas, em 1998 Schlingensief criou seu próprio partido político que se chamava “vote em si mesmo”, onde qualquer pessoa poderia se tornar candidato.

Paralelo ao cinema, Schlingensief encenou várias peças de teatro e óperas, como uma versão de Hamlet com o subtítulo “This is Your Family, Nazi-Line” onde questionava a “neutralidade” da Suiça em face ao crescente racismo e movimentos de extrema direita na Europa, com ex-membros de grupos neo-nazistas desempenhando personagens que exploravam suas próprias fraquezas. Sua última produção, “Mea Culpa”, era uma ópera onde Schlingensief encenava suas próprias experiências com o câncer, doença que lhe tirou a vida no dia 21 de agosto de 2010, em Berlim.

Longas dirigidos por Christoph Schlingensief:

1984- Tunguska – Die Kisten Sind Da

1986- Menu Total

1986- Egomania – Insel Ohne Hoffnung

1988- Mutters Maske

1989- 100 Jahre Adolf Hitler – Die Letzte Stunde im Führerbunker

1990- Das Deutsche Kettensägen Massaker

1994- Terror 2000 – Intensivstation Deutschland

1996- United Trash

1997- Die 120 Tage Von Bottrop

2004- Freakstars 3000

2008- The African Twintowers

Trailers & Fragmentos: